SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS (ANO B)

A PALAVRA

A Solenidade de Todos os Santos abre-nos o espírito e o coração às consequências da Ressurreição. O que se passou em Jesus realizou-se também nos seus bem-amados, os nossos antepassados na fé, e diz-nos igualmente respeito: sob as folhas mortas, sob a pedra do túmulo, a vida continua e misteriosa, para se revelar no Grande Dia, quando chegar o fim dos tempos. Para Jesus, foi o terceiro dia; para os seus amigos, isso será mais tarde. A seguir temos breves introduções às leituras:

Primeira leitura (Ap 7,2-4.9-14): Como descrever a felicidade dos mártires e dos santos na sua condição celeste, invisível? Para isso, o profeta recorre a uma visão.

O salmo de hoje proclama as condições de entrada no Templo de Deus. Ele anuncia também a bem-aventurança dos corações puros. Nós somos este povo imenso que marcha ao encontro do Deus santo.

Segunda leitura (1Jo 3,1-3): Desde o nosso batismo, somos chamados filhos de Deus e o nosso futuro tem a marcada da eternidade.

Evangelho (Mt 5,1-12a): Que futuro reserva Deus aos seus amigos, no seu Reino celeste? Ele próprio é fonte de alegria e de felicidade para eles.

Fonte: Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus  

Leituras

Eu, João,
2vi um outro anjo,
que subia do lado onde nasce o sol.
Ele trazia a marca do Deus vivo
e gritava, em alta voz,
aos quatro anjos que tinham recebido o poder
de danificar a terra e o mar,
dizendo-lhes:
3“Não façais mal à terra,
nem ao mar nem às arvores,
até que tenhamos marcado na fronte
os servos do nosso Deus”.
4Ouvi então o número dos que tinham sido marcados:
eram cento e quarenta e quatro mil,
de todas as tribos dos filhos de Israel.
9Depois disso, vi uma multidão imensa
de gente de todas as nações,
tribos, povos e línguas,
e que ninguém podia contar.
Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro;
trajavam vestes brancas
e traziam palmas na mão.
10Todos proclamavam com voz forte:
“A salvação pertence ao nosso Deus,
que está sentado no trono, e ao Cordeiro”.
11Todos os anjos estavam de pé,
em volta do trono e dos Anciãos
e dos quatro Seres vivos e prostravam-se,
com o rosto por terra, diante do trono.
E adoravam a Deus, dizendo:
12“Amém. O louvor, a glória e a sabedoria,
a ação de graças, a honra, o poder e a força
pertencem ao nosso Deus para sempre. Amém”
13E um dos Anciãos falou comigo e perguntou:
“Quem são esses vestidos com roupas brancas?
De onde vieram?”
14Eu respondi:
“Tu é que sabes, meu senhor”.
E então ele me disse:
“Esses são os que vieram da grande tribulação.
Lavaram e alvejaram as suas roupas
no sangue do Cordeiro”.
Palavra do Senhor.

R. É assim a geração dos que procuram o Senhor!

1Ao Senhor pertence a terra e o que ela encerra, 
o mundo inteiro com os seres que o povoam;
2porque ele a tornou firme sobre os mares, 
e sobre as águas a mantém inabalável. R.

3“Quem subirá até o monte do Senhor, 
quem ficará em sua santa habitação?”
4a“Quem tem mãos puras e inocente coração,
4bquem não dirige sua mente para o crime. R.

5Sobre este desce a bênção do Senhor *
e a recompensa de seu Deus e Salvador”.
6“É assim a geração dos que o procuram, *
e do Deus de Israel buscam a face”. R.

Caríssimos,
1vede que grande presente de amor o Pai nos deu:
de sermos chamados filhos de Deus!
E nós o somos!
Se o mundo não nos conhece,
é porque não conheceu o Pai.
2Caríssimos, desde já somos filhos de Deus,
mas nem sequer se manifestou o que seremos!
Sabemos que,
quando Jesus se manifestar,
seremos semelhantes a ele,
porque o veremos tal como ele é.
3Todo o que espera nele,
purifica-se a si mesmo,
como também ele é puro.
Palavra do Senhor.

Naquele tempo:
1Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se.
Os discípulos aproximaram-se,
2e Jesus começou a ensiná-los:
3‘Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o Reino dos Céus.
4Bem-aventurados os aflitos,
porque serão consolados.
5Bem-aventurados os mansos,
porque possuirão a terra.
6Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
7Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
8Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
9Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
10Bem-aventurados os que são perseguidos
por causa da justiça,
porque deles é o Reino dos Céus.
11Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem
e perseguirem, e mentindo,
disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim.
12aAlegrai-vos e exultai,
porque será grande a vossa recompensa nos céus.
Palavra da Salvação.

Reflexão

HOMÍLIA NA SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS

Caros Irmãos e Irmãs!

Estou alegre em me encontrar hoje no meio de vós para celebrarmos juntos a Solenidade de Todos os Santos, uma das maiores do Ano Litúrgico, sem dúvida entre as mais características e mais queridas ao povo cristão.

A Solenidade de Todos os Santos recorda e propõem a meditação de algumas componentes fundamentais da nossa fé cristã. No centro da Liturgia estão, sobretudo, os grandes temas da comunhão dos santos, do destino universal da salvação, da fonte de toda a santidade que é Deus mesmo, da esperança certa na futura e indestrutível união com o Senhor, da relação existente entre salvação e sofrimento, e de uma bem-aventurança que já desde agora qualifica aqueles que se encontram nas condições descritas por Jesus no Evangelho segundo Mateus. Como chave de toda esta rica temática, porém, está à alegria, como recitamos na Antífona da entrada: “ALEGREMO-NOS TODOS NO SENHOR NESTA SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS; e é uma alegria singela, límpida, corroborante, como a de quem se encontra numa grande família onde sabe que aprofunda as próprias raízes e da qual exaure a linfa da própria vitalidade e da sua própria identidade espiritual.

A primeira Leitura bíblica, tirada do livro do Apocalipse de João, transporta-nos, em termos fortemente simbólicos, para o meio da corte celeste, “em pé diante do trono e diante do Cordeiro“, num contexto de transbordante exultação e de vastos horizontes. Aqui encontramos “uma grande multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas” (Apocalipse 7, 9). E já é um dado consolador que dá respiração à nossa alma, porque nos é assegurado que somos muitos a festejar. Quando um dia alguém perguntou a Jesus: “SENHOR, SÃO POUCOS OS QUE SALVAM?“, ele não respondeu diretamente; todavia, embora recordando a necessidade de “entrar pela porta estreita”, prosseguiu: “Hão-de vir do Oriente, do Ocidente, do Norte e do Sul e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus” (Lc. 13, 23.24.29). Pois bem, nós hoje estamos imersos com o nosso espírito entre esta grande multidão de santos, de salvos, os quais, a partir do “justo Abel” (Mt. 23, 35), até a quem neste momento talvez esteja morrendo em qualquer parte do mundo, nos fazem coro, nos dão coragem, e cantam todos juntos um poderoso coro de glória Aquele a quem os Salmistas chamam justamente “o Deus meu Salvador” (Sl. 24, 5) e “o Deus que é a minha alegria e o meu júbilo” (Sl. 42, 4).

De fato, neste dia, em que vivemos com particular acentuação a vivificante realidade da comunhão dos santos, devemos ter firmemente presente que no início, na base, no centro desta comunhão está o próprio Deus, que não só nos chama para a santidade, mas também e, sobretudo no-la oferece magnanimamente no sangue de Cristo, vencendo assim os nossos pecados. Eis por que os santos do Apocalipse “clamam em alta voz, dizendo: A salvação pertence ao nosso Deus… e ao Cordeiro” (7, 10), e depois “prostram-se sobre os seus rostos, diante do trono, e adoraram a Deus dizendo: Amém. Louvor, glória, sabedoria, ação de graças honra, poder e força ao nosso Deus, para todo o sempre” (7, 12). Também nós devemos cantar ao Senhor um hino de gratidão e de adoração, como fez Maria com o seu Magnificat, para reconhecer e proclamar alegremente a magnificência e a bondade do “Pai que nos faz dignos de participar da sorte dos santos na luz… e nos transferiu para o Reino de Seu Filho muito amado” (Col. 1, 12-13). A festa de todos os santos, por conseguinte, convida-nos a não nos inclinarmos nunca sobre nós mesmos, mas a levantar os olhos para o Senhor a fim de estarmos alegres (cf. Sl. 34, 6); a não considerarmos as nossas pobres virtudes, mas a graça de Deus que sempre nos confunde (cf. Lc. 19, 5-6); a não fazermos conta das nossas forças, mas a confiar finalmente n’Aquele que nos amou quando ainda éramos pecadores (cf. Rom. 5, 8); e também a não nos cansarmos nunca de praticar o bem, porque de qualquer modo a nossa santificação é “vontade de Deus” (1 Tess. 4, 3).

Por sua vez, o Evangelho que há pouco foi lido faz-nos recordar um aspecto essencial da nossa identidade cristã e do que constitui a santidade. As Bem-aventuranças pronunciadas tão solenemente por Jesus colocam-se, por um lado, em antítese com alguns valores que pelo contrário são honrados pelo mundo e, por outro lado, na perspectiva de um destino futuro e definitivo, em que as situações são invertidas. Elas ou mantêm-se ou caem todas juntas; não se lhes pode extrair só uma e cultivá-la em prejuízo das outras. Todos os santos sempre foram e são contemporaneamente, embora em medida diversa, pobres de espírito, mansos, aflitos, famintos e sequiosos de justiça, misericordiosos, puros de coração, artífices de paz e perseguidos pela causa do Evangelho. E assim devemos ser também nós. Além disso, na base desta página evangélica é evidente que a bem-aventurança cristã, como sinônimo de santidade, não está separada de uma componente de sofrimento ou pelo menos de dificuldade: não é fácil ser ou querer ser pobres, mansos, puros; não se quereria ser perseguido, nem sequer por causa da justiça. Mas o reino dos céus é para os anticonformistas (cf. Rom. 12, 2), e são válidas também para nós as palavras de São Pedro: “Se sois ultrajados pelo nome de Cristo, bem-aventurados sois vós, porque o Espírito de glória, o Espírito de Deus, repousa sobre vós. Que nenhum de vós sofra por ser homicida, ladrão, difamador, ou por cobiçar os bens alheios. Mas, se sofre por ser cristão, não se envergonhe, antes glorifique a Deus por ter este nome” (1 Ped. 4, 14-16). De fato, a nossa perspectiva não é a breve termo, mas sem fim. São escritas para nós as palavras iluminadoras do apóstolo Paulo: “a nossa leve e momentânea tribulação prepara-nos, para além de toda e qualquer medida, um peso eterno de glória. Por isso, não olhamos para as coisas visíveis, mas para as invisíveis, porque as visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas” (2 Cor. 17-18).

Caros Irmãos e Irmãs, o lugar cemiterial em que estamos reunidos convida-nos a meditar também sobre o nosso destino futuro, ao mesmo tempo em que cada um pensa nos entes queridos, que já nos precederam no sinal da fé e dormem o sono da paz. A segunda Leitura bíblica da Missa, tirada da primeira Carta de São João apóstolo, exprimia-se assim: “agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser” (3, 2). Há, pois uma distância entre o que já somos e o que havemos de ser, isto é, em certo sentido, entre o que nós somos e o que já são os nossos defuntos. Entre estes dois pólos coloca-se a nossa expectativa e a nossa esperança, que vai muito além da morte, porque a considera apenas como uma passagem para encontrarmos definitivamente o Senhor e para sermos “semelhantes a Ele, porque O veremos como Ele é“. Hoje somos também convidados a viver uma particular comunhão litúrgica a eles dedicada no dia de amanhã. Na fé e na oração restabelecemos assim os laços familiares com eles, que nos vêem, nos seguem e nos assistem. Eles, na expectativa da ressurreição, já vêem o Senhor “como Ele é”, e por conseguinte encorajam-nos a prosseguir o caminho, ou melhor a peregrinação que ainda nos resta na terra. De fato, “não temos aqui a cidade permanente, mas vamos em busca da futura” (Hebreus. 13, 14). O importante é que não nos cansemos e, sobretudo não percamos de vista a meta final. O pensamento voltado para os nossos defuntos ajuda-nos nisto porque eles já estão onde havemos de estar também nós. Melhor, há um campo comum entre nós e eles, que no-los torna próximos, e é a própria inserção no mistério trinitário do Pai, do Filho e do Espírito Santo, baseada no mesmo batismo: aqui damo-nos as mãos, porque neste âmbito não existe a morte, mas apenas a única corrente de vida que nunca tem ocaso.

Desta fé deriva a nossa alegria e a nossa força. O Senhor no-la mantenha sempre intacta e fecunda. E com a sua graça nos proteja e ampare sempre. Assim seja!

Texto: Homília proferida pelo Papa João Paulo II em 01/11/1980
Fonte: VATICANO  – JOÃO PAULO II
Imagem: de Gerd Altmann por Pixabay