DOIS CORAÇÕES: O AMOR QUE AINDA SANGRA PELO MUNDO

ARTIGOS

Quando o calendário vira para junho, a Igreja não muda apenas a página de um mês: ela nos convida a adentrar um território sagrado que não se mede em dias, mas em pulsação divina. As flores de maio já entregaram seu perfume à Mãe de Deus, e agora o céu se inclina para nos mostrar o que há de mais íntimo no próprio amor do Criador: o Sagrado Coração de Jesus. Mas, neste ano, a liturgia nos presenteia com uma proximidade ainda mais dramática e bela: no dia 12 de junho, celebramos o Coração de Cristo que arde por nós; e, no dia seguinte, 13 de junho, nos detemos diante do Imaculado Coração da Bem-aventurada Virgem Maria, em sua memória obrigatória para toda a Igreja.

Não é mero acaso litúrgico. É um abraço de dois corações que, unidos na terra e no céu, nos mostram o caminho para não perecermos em meio às trevas do nosso tempo. Preparemos, pois, a alma. Não se trata de uma devoção sazonal, mas de um mergulho ousado no mistério de um Deus que, como afirma a Escritura, *“Deus é amor” (1 João 4,16), e que quis ter um coração de carne para nos amar até o fim, dando-nos ainda uma Mãe de coração puro para nos proteger.

PRIMEIRA PARTE:
O GRITO SILENCIOSO DE UM CORAÇÃO ABERTO

Imagine a cena descrita pelo evangelista João: “Mas um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água” (João 19,34). O que parecia o fim tornou-se a fonte. O lado de Cristo, adormecido na morte, transforma-se no parto da Igreja e na fonte da misericórdia. Aquele sangue é o preço do resgate; aquela água, o batismo que nos purifica e o Espírito que nos vivifica. É desse coração transpassado que jorram os sacramentos, e é desse centro pulsante que nasce a verdadeira liberdade.

O texto que nos inspira recorda com precisão: “O soldado romano, no dia que Jesus morreu na Cruz, abriu o seu lado com uma lança […] são sangue e água que jorram para a vida eterna e esse sangue e água brotam do Coração de Jesus e irrigam toda a Igreja.” Não há imagem mais poderosa para os nossos dias áridos. Vivemos em um mundo sedento — sedento de afeto verdadeiro, de justiça que não oprime e de paz que não seja apenas trégua armada. O Coração de Jesus não oferece teorias; oferece sangue que aquece e água que sacia. Ele não aponta um caminho: Ele próprio é o Caminho (João 14,6).

SEGUNDA PARTE:
JUNHO — QUANDO O TEMPO COMUM SE TORNA EXTRAORDINÁRIO

Neste ano, celebramos a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus no dia 12 de junho, essa data móvel que vem na segunda sexta-feira após Corpus Christi. É um dia profundamente teológico, porque nos recorda que a adoração à Eucaristia (o Corpo de Cristo dado) nos conduz, inevitavelmente, ao amor pessoal (o Coração de Cristo que ama). Como nos ensina a tradição, foi o próprio Jesus quem pediu esta devoção a Santa Margarida Maria Alacoque, no século XVII: um pedido para que os homens não se esquecessem do amor que “QUEIMA” dentro do peito do Mestre.

E aqui tocamos em um ponto delicado e urgente para os cristãos de hoje. A devoção ao Coração de Jesus não é um sentimentalismo vazio ou um emblema piegas. Pelo contrário, é o antídoto radical contra o ódio que divide nações, as guerras que destroem famílias e o individualismo que sufoca a alma. O texto lembra com razão: “A humanidade está precisando de mais amor e menos ódios, divisões, guerra! Somente conseguiremos a paz se nos prostrarmos em oração diante do Sagrado Coração de Jesus.” A paz verdadeira não é um tratado assinado em mesas de vidro; é um coração humano que se curva diante do Coração divino e aprende a amar como Ele amou.

TERCEIRA PARTE:
O IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA 

Mas não paramos aqui. No dia seguinte, 13 de junho, a Igreja nos convida a voltar nosso olhar para o Imaculado Coração da Bem-aventurada Virgem Maria. E por quê? Porque a devoção aos dois Corações é inseparável. Foi o próprio Deus quem uniu, num mesmo desígnio de salvação, o Coração do Filho e o coração da Mãe.

Lembremo-nos das palavras do profeta Simeão, que atravessaram a alma de Maria como uma espada: “E uma espada traspassará a tua própria alma” (Lucas 2,35) . Naquele momento, o coração imaculado de Maria já começava a ser ferido — não pelo pecado, mas pela compaixão. E aos pés da cruz, esse mesmo coração viveu o ápice de seu martírio silencioso. Ali, Jesus, do alto do madeiro, não apenas entregou o espírito, mas nos deu Sua Mãe: Mulher, eis aí teu filho (João 19,26).

Se do lado de Cristo jorrou sangue e água, do coração de Maria jorrou um rio de dores e de amor que nos adotou como filhos. O Imaculado Coração não é um símbolo frio de pureza inatingível; é o coração de uma mãe real, que sentiu na carne o frio da rejeição, a fome do exílio e a agonia de ver o Filho inocente sendo massacrado. Quantas mães hoje, nas periferias e nas zonas de guerra, não reconhecem o próprio sofrimento no olhar de Maria? E quantos filhos desgarrados não encontram, nesse mesmo coração, a única porta de volta para casa?

QUARTA PARTE:
A SINFONIA DE DOIS CORAÇÕES PARA O NOSSO TEMPO

O que o mundo mais precisa ouvir hoje não é um discurso moralista, mas o batido silencioso de dois corações que dizem: “Ainda amamos. Ainda esperamos por você.” O Sagrado Coração de Jesus é a fonte inesgotável da misericórdia; o Imaculado Coração de Maria é o canal que nos conduz a essa fonte sem medo. Por isso, o Papa São João Paulo II nos ensinou que “a consagração ao Imaculado Coração de Maria é a resposta mais segura aos desafios do nosso tempo”, especialmente aos ataques à família, à vida e à paz.

Não por acaso, o próprio Jesus, em Fátima (1917), pediu a devoção reparadora ao Imaculado Coração de sua Mãe, prometendo que “no final, o meu Imaculado Coração triunfará”. Que triunfo é esse? É o mesmo triunfo da cruz: o amor que vence o ódio, o perdão que desarma a vingança e a pureza que envergonha a corrupção.

QUINTA PARTE:
O CHAMADO A UM AMOR PALPÁVEL

O mês de junho, por graça da Providência, também nos convida a rezar por uma intenção muitas vezes esquecida: a santificação do clero. No dia do Sagrado Coração, a Igreja coloca em nossas mãos a oração pelos padres, bispos e pelo Papa. Quantas vezes esperamos deles perfeição humana, esquecendo que são vasos de barro que carregam um tesouro? O texto nos exorta: “Rezemos para que todos os padres tenham o coração semelhante ao coração de Jesus para acolher e amar os seus fiéis.” Um padre de coração manso e humilde é um sinal vivo do Bom Pastor. Mas ele só resistirá se a comunidade o sustentar — e se ela rezar também por intercessão do Coração Imaculado de Maria, a Mãe dos sacerdotes.

SEXTA PARTE:
APOSTOLADO DA ORAÇÃO — A FORÇA ESCONDIDA NA PARÓQUIA

O texto proposto nos lança um desafio inspirador: e se transformarmos nossas paróquias em escolas de contemplação? O Apostolado da Oração é essa “usina de intercessão” que reza diariamente pelas necessidades da Igreja. Não é um clube de senhoras piedosas, embora elas sejam seu alicerce precioso; é um chamado para todos — jovens, adultos, famílias — a viverem o “oferecimento diário”. Como diz o texto: “Quem sabe podemos fazer uma campanha em nossas paróquias durante esse mês de junho para conseguir novos membros para o Apostolado da Oração e para o MEJ.”

Imaginemos o que aconteceria se cada leitor, ao terminar este artigo, decidisse dedicar quinze minutos por dia à adoração silenciosa diante do Santíssimo, oferecendo seu trabalho, suas dores e suas alegrias pela salvação do mundo. E se, nessa adoração, trouxesse o terço da misericórdia, meditando a união dos dois Corações? O Coração de Jesus prometeu: “Farei arder em amor os corações daqueles que me honrarem” (revelação a Santa Margarida Maria). E Maria, por sua vez, nos assegura: “O meu Imaculado Coração será o vosso refúgio e o caminho que vos conduzirá até Deus.” Em uma era de ansiedade e ruído, aprender a parar diante do sacrário e diante do ícone da Mãe é o ato mais revolucionário que podemos fazer.

UM CONVITE FINAL:
DEIXE SEU CORAÇÃO SER MOLDADO POR ESSES DOIS AMORES

Não deixemos que junho passe como mais um mês no calendário. No dia 12, proste-se diante do Sagrado Coração de Jesus e peça: “Senhor, dai-me um coração novo.” E no dia 13, vá ao encontro do Imaculado Coração de Maria, recitando a Ladainha de Nossa Senhora, e diga: “Mãe, ensinai-me a guardar tudo isso no coração, como vós guardastes” (cf. Lucas 2,51 ).

O texto termina com uma súplica que deve ecoar em nosso peito: “Que possamos ‘amar como Jesus amou’.” Mas agora podemos completar: “… e guardar como Maria guardo”. Isso é mais do que um slogan; é um programa de vida. Amar como Ele amou significa perdoar setenta vezes sete, servir sem esperar recompensa e derramar sangue e água — não de uma lança, mas de pequenos sacrifícios diários — pela felicidade do irmão. E guardar como Maria guardou significa não perder nenhum gesto de amor no esquecimento, mas transformar cada sofrimento em oração e cada alegria em louvor.

Que neste junho, o Deus que tem um coração de carne e a Mãe que tem um coração de luz nos encontrem mais humanos, mais orantes e mais apaixonados pela salvação. Afinal, como escreveu o poeta Charles Péguy, “o coração de Jesus é o único lugar onde o coração humano pode repousar”. E o Imaculado Coração de Maria é o jardim onde esse repouso se torna seguro. Não tenhamos medo de entrar. O Filho está com o peito aberto; a Mãe está de braços abertos. Os dois nos esperam.

Sagrado Coração de Jesus, em vós confio.
Imaculado Coração de Maria, rogai por nós que recorremos a vós.
Fazei que os nossos corações se assemelhem aos de Jesus e Maria. Amém.

Texto de referência:
JUNHO: MÊS DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS
Autor: CARDEAL ORANI JOÃO TEMPESTA 
Fonte:
CNBB