Existe uma verdade espiritual que, à primeira vista, parece paradoxal. Tendemos a imaginar que os santos vivem alimentados por uma energia diferente daquela que move os pecadores. Supomos que a bondade brota de uma fonte e a maldade de outra. Entretanto, a experiência humana, iluminada pela fé, revela algo muito mais profundo e misterioso: existe apenas um único fogo que sustenta toda a vida.
A mesma força interior que impulsiona um missionário a dedicar sua existência aos pobres pode, quando mal orientada, alimentar a ambição desmedida, o egoísmo e a violência. A mesma paixão que inspira um mártir a entregar a própria vida por amor pode ser desviada para a busca desenfreada do prazer, do poder ou da dominação.
Essa constatação pode nos inquietar. Contudo, ela nos conduz a uma compreensão mais profunda da condição humana e da própria ação de Deus no mundo.
Desde as primeiras páginas da Escritura, encontramos a afirmação fundamental de que o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus.
“Façamos o homem à nossa imagem e semelhança.” (Gênesis 1,26)
Essa imagem divina não é apenas uma marca estática gravada na alma. Ela é uma participação viva na própria dinâmica de Deus. O Criador não é uma realidade imóvel. Deus é amor em movimento, comunhão eterna, criatividade sem limites, vida transbordante.
Por isso, dentro de cada pessoa existe uma força espiritual extraordinária: o desejo de amar, de criar, de conhecer, de realizar, de transcender e de buscar o infinito.
O problema não está na energia em si. O problema está na direção que damos a ela.
O mesmo fogo que aquece uma casa pode incendiá-la. A mesma água que gera vida pode provocar destruição. Assim também acontece com os dons que recebemos de Deus.
Ao longo da história, a religião produziu santos admiráveis, homens e mulheres que transformaram o mundo por meio da caridade, da justiça e da misericórdia. Contudo, também testemunhamos episódios dolorosos nos quais o nome de Deus foi utilizado para justificar violência, intolerância e opressão.
Essa realidade não é exclusiva de uma tradição religiosa. Ela manifesta uma fragilidade humana universal: a tentação de instrumentalizar o sagrado para legitimar interesses pessoais, ideológicos ou políticos.
Entretanto, a existência da religião doente não prova a ausência de Deus. Pelo contrário. Muitas vezes, a força impressionante que encontramos nos fanatismos revela justamente o poder real da dimensão espiritual presente no ser humano. Uma fé corrompida continua sendo uma distorção de algo que possui uma origem autêntica e sagrada.
Por isso, a resposta cristã aos abusos da religião não consiste em abandonar Deus, mas em retornar continuamente ao rosto verdadeiro de Cristo.
“Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração.” (Mateus 11,29)
Jesus não elimina o fogo divino. Ele o purifica e lhe dá direção.
Talvez a parte mais desafiadora dessa reflexão seja reconhecer que essa dinâmica não acontece apenas nas instituições religiosas ou nos acontecimentos históricos. Ela acontece diariamente dentro de nós.
Quantas vezes nossos desejos legítimos por amor, reconhecimento, sucesso ou realização acabam sendo contaminados pelo orgulho, pela vaidade ou pela busca desordenada de satisfação?
Nossos impulsos mais intensos não são necessariamente maus. Pelo contrário, muitas vezes eles nascem de capacidades profundamente sagradas que Deus colocou em nossa natureza.
- O desejo de amar pode tornar-se possessão.
- O desejo de construir pode transformar-se em ambição desenfreada.
- O desejo de comunhão pode degenerar em manipulação.
- O desejo de prazer pode converter-se em escravidão.
O combate espiritual consiste precisamente em discernir para onde estamos conduzindo o fogo que recebemos.
A Escritura frequentemente apresenta Deus por meio da imagem do fogo.
“Porque o Senhor teu Deus é um fogo devorador.” (Deuteronômio 4,24)
Não se trata de um fogo que destrói a vida, mas de uma chama que purifica, ilumina e transforma.
Quando pensamos na imagem de Deus dentro de nós, não devemos imaginá-la como uma simples figura imóvel gravada na alma. A presença divina é dinâmica. É uma energia de amor que continuamente nos chama para crescer, criar, servir e amar.
Deus é fonte inesgotável de vida. Tudo o que existe participa, de alguma forma, desse dom originário.
É por isso que até mesmo as energias mais intensas e aparentemente contraditórias da condição humana possuem uma raiz profunda naquilo que Deus colocou em nós.
A questão decisiva não é se possuímos esse fogo. Todos o possuímos. A verdadeira questão é: o que faremos com ele?
A grande dignidade da pessoa humana está na liberdade. Deus não nos programou para a santidade nem para o pecado. Ele nos concedeu a capacidade de escolher.
O mesmo fogo sagrado alimenta o coração do pacificador e do guerreiro, do mártir e do tirano, do santo e do pecador.
A diferença não está na origem da energia, mas na orientação que cada pessoa lhe confere.
Essa verdade lança uma luz poderosa sobre os desafios do nosso tempo. Vivemos em uma sociedade marcada por polarizações, extremismos, narcisismo e busca incessante de satisfação imediata. Contudo, por trás de muitas dessas manifestações existe uma sede profunda de sentido, de transcendência e de plenitude.
A missão do cristão não consiste em apagar o fogo humano, mas em permitir que ele seja iluminado pela graça de Deus.
- Quando o fogo sagrado encontra a sabedoria do Evangelho, ele se transforma em compaixão.
- Quando encontra a humildade, torna-se serviço.
- Quando encontra o amor de Cristo, torna-se santidade.
No final, a grande aventura da vida espiritual consiste precisamente nisso: aprender a conduzir o fogo divino que habita em nós para que ele não destrua, mas ilumine; não divida, mas una; não escravize, mas liberte. Pois o mesmo fogo que pode consumir uma vida também pode transformá-la numa luz capaz de iluminar o mundo.
“Vós sois a luz do mundo.” (Mateus 5,14)
Perguntas para Reflexão
- Quais energias, desejos ou paixões presentes em minha vida têm sido utilizadas para construir o bem e quais precisam ser purificadas pela graça de Deus?
- De que maneira posso distinguir entre o verdadeiro zelo evangélico e atitudes motivadas pelo orgulho, pela vaidade ou pela necessidade de controle?
- Como a imagem de Deus como “fogo vivo” transforma minha compreensão da vida espiritual e da minha própria vocação?
- Em um mundo marcado por divisões e radicalismos, como posso permitir que o fogo sagrado do Evangelho me torne instrumento de paz, reconciliação e esperança?
Texto: Ron Rolheiser
Fonte: Ciudad Redonda
