Há momentos na vida da Igreja em que é preciso parar e perguntar: afinal, para que existimos? Não para manter estruturas, nem apenas para organizar atividades, mas para algo muito mais profundo e decisivo: anunciar Jesus Cristo.
As novas Diretrizes recordam isso logo no início: a missão recebida de Jesus é clara — “PROCLAMAI O EVANGELHO” (Mc 16,15). Não é uma opção entre tantas. É a identidade da Igreja. Tudo o que somos e fazemos precisa nascer dessa fonte. Quando isso se perde, a pastoral se torna pesada, repetitiva e sem força transformadora.
Mas há um detalhe importante que o texto nos ajuda a perceber: evangelizar não é apenas falar de Deus. É testemunhar a misericórdia que recebemos. Antes de anunciar, a Igreja experimenta. Antes de ensinar, ela acolhe. Isso muda tudo. O anúncio deixa de ser teoria e passa a ser vida compartilhada.
Outro ponto decisivo é este: Jesus Cristo não é apenas o conteúdo da evangelização — Ele é o próprio Evangelho. Isso significa que evangelizar não é transmitir uma mensagem distante, mas tornar presente uma pessoa viva. Jesus continua a caminhar, a falar, a curar, a acolher — agora através da Igreja.
E como Ele evangeliza? As Diretrizes são muito concretas: com palavras e gestos. Ele anuncia o Reino, mas também se aproxima, serve, toca as feridas, busca quem está perdido. Não exclui ninguém. Vai ao encontro de todos. Esse estilo não é secundário — é o próprio caminho da Igreja hoje.
Por isso, as Diretrizes insistem:
não basta repetir métodos antigos. Estamos diante de uma mudança de época. O mundo mudou, as perguntas mudaram, e a forma de anunciar também precisa ser renovada. Mas sem perder o essencial: o centro continua sendo Jesus.
Há ainda um chamado forte à conversão. Não apenas pessoal, mas também das relações, dos processos e dos vínculos. Em outras palavras: não basta querer evangelizar, é preciso mudar o modo de ser Igreja. Torná-la mais aberta, mais acolhedora, mais próxima, mais sinodal.
A imagem da “tenda” ajuda a entender isso. Uma Igreja que não é fechada, mas que se alarga. Que escuta mais. Que acolhe melhor. Que permanece firme na fé, mas com as portas abertas para todos.
No fundo, a Introdução das Diretrizes nos coloca diante de uma pergunta simples e exigente: estamos realmente anunciando Jesus ou apenas mantendo a Igreja funcionando?
Se voltarmos ao essencial, tudo se reorganiza. A fé ganha vida. As comunidades se tornam mais missionárias. E a Igreja volta a ser aquilo que sempre foi chamada a ser: sinal vivo do amor de Deus no mundo.
Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo Metropolitano de Santa Maria (RS)
Presidente da Comissão Episcopal para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB
Conheça a estrutura do documento das DIRETRIZES GERAIS DA AÇÃO EVANGELIZADORA DA IGREJA NO BRASIL (DGAE) que terão validade de 2026 a 2032:
- 1º Capítulo: A Igreja: tenda do encontro
A Igreja é compreendida como tenda do encontro. A tenda acolhe todos, ela pode ser, sempre de novo alargada, de acordo com as necessidades. - 2º Capítulo: A escuta dos sinais
É feita a escuta tanto dos sinais dos tempos, que dizem respeito à realidade atual do mundo, quanto os sinais de esperança e da ação do Espírito Santo que podem ser vistos nas comunidades de todo o país. - 3º Capítulo: Discernimento para uma Igreja Sinodal
Aqui entram os aspectos fundamentais que já foram apresentados durante o Sínodo dos Bispos em 2023 e 2024, os princípios da comunhão, da participação e da missão. - 4º Capítulo: Povo de Deus em missão
Todos nós somos chamados a testemunhar e anunciar o Evangelho (laicato, ministros leigos e leigas, famílias, crianças e adolescentes, jovens, mulheres, pessoas com deficiência e neurodivergência, idosos, vida consagrada, ministros ordenados e povos indígenas). - 5º Capítulo: Caminhos da Missão
Indicações sobre “os modos concretos” de efetivar as propostas das Diretrizes da Ação Evangelizadora, não apenas com ações, mas que todos encontrem na tenda “lugar, sentido e envio na missão”. Nesse sentido, os caminhos dizem respeito à animação bíblica da Pastoral; à iniciação à vida cristã, à liturgia e à piedade popular; ao serviço à vida plena para todos; à evangélica opção preferencial pelos pobres; à formação, defesa e cuidado da vida e à ecologia integral. - 6º Capítulo: Compromissos sinodais
Com o compromisso de alinhar as diretrizes às decisões do Sínodo, o texto foi assumido como principal instrumento de implementação do Sínodo sobre a Sinodalidade no Brasil. Seu último capítulo, apontado por dom Jaime como o “coração do documento final do Sínodo 2023”, destaca a conversão como eixo central. Os compromissos sinodais partem da conversão em três âmbitos: relações, processos e vínculos. Incluem proteção de menores, comunicação, assembleias e conselhos, o Dízimo, organismos missionários, o Pacto Educativo Global e o diálogo ecumênico e inter-religioso.
Fonte: CNBB
