SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO DO SENHOR DA PÁSCOA

A PALAVRA

A tarde de Sexta-feira Santa apresenta o drama imenso da morte de Cristo no Calvário. A CRUZ erguida sobre o mundo segue de pé como sinal de salvação e de esperança. Com a Paixão de Jesus, segundo o Evangelho de João, contemplamos o mistério do Crucificado, com o coração do discípulo Amado, da Mãe, do soldado que lhe traspassou o lado.

São João, teólogo e cronista da paixão nos leva a contemplar o mistério da cruz de Cristo como uma solene liturgia. Tudo é tão digno, solene, simbólico em sua narração: cada palavra, cada gesto.

A Mãe estava ali, junto à Cruz, como mãe e discípula que seguiu em tudo a sorte de seu Filho, sinal de contradição como Ele, totalmente ao seu lado. Mas solene e majestosa como uma Mãe, a mãe de todos, a nova Eva, a mãe dos filhos dispersos que ela reúne junto à cruz de seu Filho.

A palavra de seu Filho que prolonga sua maternidade até os confins infinitos de todos os homens. Mãe dos discípulos, dos irmãos de seu Filho. A maternidade de Maria tem o mesmo alcance da redenção de Jesus. Maria contempla e vive o mistério com a majestade de uma Esposa, ainda que com a imensa dor de uma Mãe. São João a glorifica com a lembrança dessa maternidade. Último testamento de Jesus. Última dádiva. Segurança de uma presença materna em nossa vida, na de todos. Porque Maria é fiel à palavra: Eis aí o teu filho.

Leituras

13Ei-lo, o meu Servo será bem sucedido;
sua ascensão será ao mais alto grau.
14Assim como muitos ficaram pasmados ao vê-lo
– tão desfigurado ele estava que não parecia
ser um homem ou ter aspecto humano -,
15do mesmo modo ele espalhará sua fama entre os povos.
Diante dele os reis se manterão em silêncio,
vendo algo que nunca lhes foi narrado
e conhecendo coisas que jamais ouviram.
53,1‘Quem de nós deu crédito ao que ouvimos?
E a quem foi dado reconhecer a força do Senhor?
2Diante do Senhor ele cresceu como renovo de planta
ou como raiz em terra seca.
Não tinha beleza nem atrativo para o olharmos,
não tinha aparência que nos agradasse.
3Era desprezado como o último dos mortais,
homem coberto de dores, cheio de sofrimentos;
passando por ele, tapávamos o rosto;
tão desprezível era, não fazíamos caso dele.
4A verdade é que ele tomava sobre si nossas
enfermidades e sofria, ele mesmo, nossas dores;
e nós pensávamos fosse um chagado,
golpeado por Deus e humilhado!
5Mas ele foi ferido por causa de nossos pecados,
esmagado por causa de nossos crimes;
a punição a ele imposta era o preço da nossa paz,
e suas feridas, o preço da nossa cura.
6Todos nós vagávamos como ovelhas desgarradas,
cada qual seguindo seu caminho;
e o Senhor fez recair sobre ele
o pecado de todos nós’.
7Foi maltratado, e submeteu-se, não abriu a boca;
como cordeiro levado ao matadouro
ou como ovelha diante dos que a tosquiam,
ele não abriu a boca.
8Foi atormentado pela angústia e foi condenado.
Quem se preocuparia com sua história de origem?
Ele foi eliminado do mundo dos vivos;
e por causa do pecado do meu povo
foi golpeado até morrer.
9Deram-lhe sepultura entre ímpios, um túmulo entre
os ricos, porque ele não praticou o mal
nem se encontrou falsidade em suas palavras.
10O Senhor quis macerá-lo com sofrimentos.
Oferecendo sua vida em expiação,
ele terá descendência duradoura,
e fará cumprir com êxito a vontade do Senhor.
11Por esta vida de sofrimento,
alcançará luz e uma ciência perfeita.
Meu Servo, o justo, fará justos inúmeros homens,
carregando sobre si suas culpas.
12Por isso, compartilharei com ele multidões
e ele repartirá suas riquezas com os valentes
seguidores, pois entregou o corpo à morte,
sendo contado como um malfeitor;
ele, na verdade, resgatava o pecado de todos
e intercedia em favor dos pecadores.
Palavra do Senhor.

R. Ó Pai, em tuas mãos eu entrego o meu espírito.

2Senhor, eu ponho em vós minha esperança;*
que eu não fique envergonhado eternamente!
6Em vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito,*
porque vós me salvareis, ó Deus fiel!R.

12Tornei-me o opróbrio do inimigo,*
o desprezo e zombaria dos vizinhos,
e objeto de pavor para os amigos;*
fogem de mim os que me vêem pela rua.
13Os corações me esqueceram como um morto,*
e tornei-me como um vaso espedaçado.R.

15A vós, porém, ó meu Senhor, eu me confio,*
e afirmo que só vós sois o meu Deus!
16Eu entrego em vossas mãos o meu destino;*
libertai-me do inimigo e do opressor!R.

17Mostrai serena a vossa face ao vosso servo,*
e salvai-me pela vossa compaixão!
25Fortalecei os corações, tende coragem,*
todos vós que ao Senhor vos confiais! R

Irmãos:
14Temos um sumo sacerdote eminente, que entrou no céu,
Jesus, o Filho de Deus.
Por isso, permaneçamos firmes na fé que professamos.
15Com efeito, temos um sumo sacerdote
capaz de se compadecer de nossas fraquezas,
pois ele mesmo foi provado em tudo como nós,
com exceção do pecado.
16Aproximemo-nos então, com toda a confiança,
do trono da graça,
para conseguirmos misericórdia e alcançarmos
a graça de um auxílio no momento oportuno.
5,7Cristo, nos dias de sua vida terrestre,
dirigiu preces e súplicas,
com forte clamor e lágrimas,
àquele que era capaz de salvá-lo da morte.
E foi atendido, por causa de sua entrega a Deus.
8Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a
obediência a Deus por aquilo que ele sofreu.
9Mas, na consumação de sua vida,
tornou-se causa de salvação eterna
para todos os que lhe obedecem.
Palavra do Senhor.

Naquele tempo:
1Jesus saiu com os discípulos
para o outro lado da torrente do Cedron.
Havia aí um jardim, onde ele entrou com os discípulos.
2Também Judas, o traidor, conhecia o lugar,
porque Jesus costumava reunir-se aí
com os seus discípulos.
3Judas levou consigo um destacamento de soldados
e alguns guardas dos sumos sacerdotes e fariseus,
e chegou ali com lanternas, tochas e armas.
4Então Jesus, consciente de tudo o que ia acontecer,
saiu ao encontro deles e disse: ‘A quem procurais?’
5Responderam: ‘A Jesus, o nazareno’.
Ele disse: ‘Sou eu’.
Judas, o traidor, estava junto com eles.
6Quando Jesus disse: ‘Sou eu’,
eles recuaram e caíram por terra.
7De novo lhes perguntou:
‘A quem procurais?’
Eles responderam: ‘A Jesus, o nazareno’.
8Jesus respondeu: ‘Já vos disse que sou eu.
Se é a mim que procurais,
então deixai que estes se retirem’.
9Assim se realizava a palavra que Jesus tinha dito:
‘Não perdi nenhum daqueles que me confiaste’.
10Simão Pedro, que trazia uma espada consigo,
puxou dela e feriu o servo do sumo sacerdote,
cortando-lhe a orelha direita.
O nome do servo era Malco.
11Então Jesus disse a Pedro:
‘Guarda a tua espada na bainha.
Não vou beber o cálice que o Pai me deu?’

Conduziram Jesus primeiro a Anás.

12Então, os soldados, o comandante e os guardas dos
judeus prenderam Jesus e o amarraram.
13Conduziram-no primeiro a Anás, que era o sogro de
Caifás, o sumo sacerdote naquele ano.
14Foi Caifás que deu aos judeus o conselho:
‘É preferível que um só morra pelo povo’.
15Simão Pedro e um outro discípulo seguiam Jesus.
Esse discípulo era conhecido do sumo sacerdote
e entrou com Jesus no pátio do sumo sacerdote.
16Pedro ficou fora, perto da porta.
Então o outro discípulo,
que era conhecido do sumo sacerdote, saiu,
conversou com a encarregada da porta
e levou Pedro para dentro.
17A criada que guardava a porta disse a Pedro:
‘Não pertences também tu aos discípulos desse homem?’
Ele respondeu: ‘Não’.
18Os empregados e os guardas fizeram uma fogueira
e estavam-se aquecendo, pois fazia frio.
Pedro ficou com eles, aquecendo-se.
19Entretanto, o sumo sacerdote interrogou Jesus
a respeito de seus discípulos e de seu ensinamento.
20Jesus lhe respondeu:
‘Eu falei às claras ao mundo. Ensinei sempre na
sinagoga e no Templo, onde todos os judeus se reúnem.
Nada falei às escondidas.
21Por que me interrogas? Pergunta aos que ouviram o que
falei; eles sabem o que eu disse.’
22Quando Jesus falou isso, um dos guardas que ali estava
deu-lhe uma bofetada, dizendo:
‘É assim que respondes ao sumo sacerdote?’
23Respondeu-lhe Jesus: ‘Se respondi mal, mostra em quê;
mas, se falei bem, por que me bates?’
24Então, Anás enviou Jesus amarrado para Caifás,
o sumo sacerdote.

Não és tu também um dos discípulos dele? Pedro negou: ‘Não!

25Simão Pedro continuava lá, em pé, aquecendo-se.
Disseram-lhe:
‘Não és tu, também, um dos discípulos dele?’
Pedro negou: ‘Não!’
26Então um dos empregados do sumo sacerdote,
parente daquele a quem Pedro tinha cortado a orelha,
disse: ‘Será que não te vi no jardim com ele?’
27Novamente Pedro negou. E na mesma hora, o galo cantou.

O meu reino não é deste mundo.

28De Caifás, levaram Jesus ao palácio do governador.
Era de manhã cedo.
Eles mesmos não entraram no palácio,
para não ficarem impuros e poderem comer a páscoa.
29Então Pilatos saiu ao encontro deles e disse:
‘Que acusação apresentais contra este homem?’
30Eles responderam: ‘Se não fosse malfeitor,
não o teríamos entregue a ti!’
31Pilatos disse: ‘Tomai-o vós mesmos
e julgai-o de acordo com a vossa lei.’
Os judeus lhe responderam:
‘Nós não podemos condenar ninguém à morte’.
32Assim se realizava o que Jesus tinha dito,
significando de que morte havia de morrer.
33Então Pilatos entrou de novo no palácio,
chamou Jesus e perguntou-lhe:
‘Tu és o rei dos judeus?’
34Jesus respondeu:’Estás dizendo isto por ti mesmo,
ou outros te disseram isto de mim?’
35Pilatos falou: ‘Por acaso, sou judeu?
O teu povo e os sumos sacerdotes te entregaram a mim.
Que fizeste?’.
36Jesus respondeu: ‘O meu reino não é deste mundo.
Se o meu reino fosse deste mundo,
os meus guardas lutariam para que eu não
fosse entregue aos judeus.
Mas o meu reino não é daqui.’
37Pilatos disse a Jesus: ‘Então tu és rei?’
Jesus respondeu: ‘Tu o dizes: eu sou rei.
Eu nasci e vim ao mundo para isto:
para dar testemunho da verdade.
Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz.’
38Pilatos disse a Jesus: ‘O que é a verdade?’
Ao dizer isso, Pilatos saiu ao encontro dos judeus,
e disse-lhes: ‘Eu não encontro nenhuma culpa nele.
39Mas existe entre vós um costume,
que pela Páscoa eu vos solte um preso.
Quereis que vos solte o rei dos Judeus?’
40Então, começaram a gritar de novo:
‘Este não, mas Barrabás!’ Barrabás era um bandido.

Viva o rei dos judeus!

19,1Então Pilatos mandou flagelar Jesus.
2Os soldados teceram uma coroa de espinhos
e colocaram-na na cabeça de Jesus.
Vestiram-no com um manto vermelho,
3aproximavam-se dele e diziam:’Viva o rei dos judeus!’
E davam-lhe bofetadas.
4Pilatos saíu de novo e disse aos judeus:
‘Olhai, eu o trago aqui fora, diante de vós,
para que saibais que não encontro nele crime algum.’
5Então Jesus veio para fora,
trazendo a coroa de espinhos e o manto vermelho.
Pilatos disse-lhes: ‘Eis o homem!’
6Quando viram Jesus,
os sumos sacerdotes e os guardas começaram a gritar:
‘Crucifica-o! Crucifica-o!’
Pilatos respondeu: ‘Levai-o vós mesmos para o
crucificar, pois eu não encontro nele crime algum.’
7Os judeus responderam: ‘Nós temos uma Lei,
e, segundo esta Lei, ele deve morrer,
porque se fez Filho de Deus’.
8Ao ouvir estas palavras, Pilatos ficou com mais medo ainda.
9Entrou outra vez no palácio
e perguntou a Jesus: ‘De onde és tu?’
Jesus ficou calado.
10Então Pilatos disse: ‘Não me respondes?
Não sabes que tenho autoridade para te soltar
e autoridade para te crucificar?’
11Jesus respondeu:
‘Tu não terias autoridade alguma sobre mim,
se ela não te fosse dada do alto.
Quem me entregou a ti, portanto, tem culpa maior.’

Fora! Fora! Crucifica-o!

12Por causa disso, Pilatos procurava soltar Jesus.
Mas os judeus gritavam:
‘Se soltas este homem, não és amigo de César.
Todo aquele que se faz rei, declara-se contra César’.
13Ouvindo estas palavras, Pilatos trouxe
Jesus para fora e sentou-se no tribunal,
no lugar chamado ‘Pavimento’, em hebraico ‘Gábata’.
14Era o dia da preparação da Páscoa,
por volta do meio-dia.
Pilatos disse aos judeus: ‘Eis o vosso rei!’
15Eles, porém, gritavam: ‘Fora! Fora! Crucifica-o!’
Pilatos disse: ‘Hei de crucificar o vosso rei?’
Os sumos sacerdotes responderam:
‘Não temos outro rei senão César’.
16Então Pilatos entregou Jesus para ser crucificado,
e eles o levaram.

Ali o crucificaram, com outros dois.

17Jesus tomou a cruz sobre si
e saiu para o lugar chamado ‘Calvário’,
em hebraico ‘Gólgota’.
18Ali o crucificaram, com outros dois:
um de cada lado, e Jesus no meio.
19Pilatos mandou ainda escrever um letreiro
e colocá-lo na cruz; nele estava escrito:
‘Jesus o Nazareno, o Rei dos Judeus’.
20Muitos judeus puderam ver o letreiro, porque o lugar em
que Jesus foi crucificado ficava perto da cidade.
O letreiro estava escrito em hebraico, latim e grego.
21Então os sumos sacerdotes dos judeus disseram a
Pilatos: ‘Não escrevas ‘O Rei dos Judeus’,
mas sim o que ele disse: ‘Eu sou o Rei dos judeus’.’
22Pilatos respondeu: ‘O que escrevi, está escrito’.

Repartiram entre si as minhas vestes.

23Depois que crucificaram Jesus,
os soldados repartiram a sua roupa em quatro partes,
uma parte para cada soldado.
Quanto à túnica, esta era tecida sem costura,
em peça única de alto a baixo.
24Disseram então entre si: ‘Não vamos dividir a túnica.
Tiremos a sorte para ver de quem será’.
Assim se cumpria a Escritura que diz:
‘Repartiram entre si as minhas vestes
e lançaram sorte sobre a minha túnica’.
Assim procederam os soldados.

Este é o teu filho. Esta é a tua mãe.

25Perto da cruz de Jesus, estavam de pé
a sua mãe, a irmó da sua mãe, Maria de Cléofas,
e Maria Madalena.
26Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que
ele amava, disse à mãe: ‘Mulher, este é o teu filho’.
27Depois disse ao discípulo: ‘Esta é a tua mãe’.
Daquela hora em diante, o discípulo a acolheu consigo.

Tudo está consumado.

28Depois disso, Jesus, sabendo que tudo estava consumado,
e para que a Escritura se cumprisse até o fim,
disse: ‘Tenho sede’.
29Havia ali uma jarra cheia de vinagre.
Amarraram numa vara uma esponja embebida de vinagre
e levaram-na à boca de Jesus.
30Ele tomou o vinagre e disse: ‘Tudo está consumado’.
E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.

E logo saiu sangue e água.

31Era o dia da preparação para a Páscoa.
Os judeus queriam evitar
que os corpos ficassem na cruz durante o sábado,
porque aquele sábado era dia de festa solene.
Então pediram a Pilatos
que mandasse quebrar as pernas aos crucificados
e os tirasse da cruz.
32Os soldados foram
e quebraram as pernas de um e depois do outro
que foram crucificados com Jesus.
33Ao se aproximarem de Jesus, e vendo que já estava
morto, não lhe quebraram as pernas;
34mas um soldado abriu-lhe o lado com uma lança,
e logo saiu sangue e água.
35Aquele que viu, dá testemunho e seu testemunho é
verdadeiro; e ele sabe que fala a verdade,
para que vós também acrediteis.
36Isso aconteceu para que se cumprisse a Escritura,
que diz: ‘Não quebrarão nenhum dos seus ossos’.
37E outra Escritura ainda diz:
‘Olharão para aquele que transpassaram’.

Envolveram o corpo de Jesus com os aromas, em faixas de linho.

38Depois disso, José de Arimatéia,
que era discípulo de Jesus
– mas às escondidas, por medo dos judeus –
pediu a Pilatos para tirar o corpo de Jesus.
Pilatos consentiu.
Então José veio tirar o corpo de Jesus.
39Chegou também Nicodemos,
o mesmo que antes tinha ido a Jesus de noite.
Trouxe uns trinta quilos de perfume
feito de mirra e aloés.
40Então tomaram o corpo de Jesus
e envolveram-no, com os aromas, em faixas de linho,
como os judeus costumam sepultar.
41No lugar onde Jesus foi crucificado, havia um jardim
e, no jardim, um túmulo novo,
onde ainda ninguém tinha sido sepultado.
42Por causa da preparação da Páscoa, e como o túmulo
estava perto, foi ali que colocaram Jesus.
Palavra da Salvação.

Reflexão

Meditação ante Cristo morto

Desde o domingo de Ramos até o Sábado Santo a liturgia da Igreja põe-nos diante da Paixão de Cristo. Durante toda a semana, desde o domingo de Ramos, mas, sobretudo hoje, nos convida a olhar e contemplar ao Cristo morto, a tomar consciência da seriedade de sua morte.

Que se pode dizer ante Cristo morto?

Todos sabem por experiência como é difícil dizer algo na presença de um morto. Ante o mistério da morte as palavras são difíceis, tanto mais, quando o morto é Jesus Cristo, o filho do homem, o filho de Deus.

Como pôde passar uma coisa assim? E qual é o significado desta morte?

Em Jesus, o filho do homem, morre o homem, cada ser humano, cada um de nós. Em sua morte está presente a morte de todos os inocentes, de todas as vítimas da violência e da injustiça, a morte prematura e imerecida de tantos. E, no fundo, quem merece a morte? Na morte de Jesus podemos descobrir a morte de nossos mortos, de nossos entes queridos, inclusive podemos antecipar a própria morte que em algum lugar e em algum momento nos está esperando.

Também podemos descobrir nesta morte essas “pequenas mortes” da vida quotidiana, que nos falam de nossa limitação e debilidade, que o mesmo Jesus tomou sobre si.

Porém no Cristo morto descobrimos também a morte do filho de Deus, a morte de Deus. A vontade humana, doente pelo pecado, quis de múltiplas formas ocupar o lugar de Deus, deslocá-lo e excluí-lo de nossa vida, fazer-lhe calar, impedir-lhe que nos fale, que venha passear por nosso jardim: “E eis que ouviram o barulho (dos passos) do Senhor Deus que passeava no jardim, à hora da brisa da tarde. O homem e sua mulher esconderam-se da face do Senhor Deus, no meio das árvores do jardim” (Gênesis 3,8).

O desejo de matar Deus e excluir-lhe da vida humana é uma tentação permanente da soberba humana que se encarnou das mais variadas formas na história dos homens. Deus morreu, e nós somos seus assassinos. Como fizemos isto? Como pudemos esvaziar o mar? Quem nos deu uma esponja capaz de apagar o horizonte? Que fizemos para desprender a terra do sol? É a proclamação jubilosa e, ao mesmo tempo, a acusação terrível que lança o Zaratustra de Nietzsche, o profeta da morte de Deus.

Porém quando o ser humano, querendo ser igual a Deus, trata de matá-lo, na realidade mata só ao ídolo que se fabricou e se destrói a si mesmo, pois Deus é seu Criador, o fundamento de sua liberdade e dignidade, a fonte de seu amor e o horizonte de sua esperança.

Por isso, na morte de Cristo se unem a morte de Deus e a morte do homem. E precisamente por isso ante o Cristo morto não podemos permanecer indiferentes. Sua presença inerte convida-nos, quase força-nos a tomar partido.

De que lado nós estamos?

Muito provavelmente, enquanto escutamos e contemplamos o relato da Paixão de Cristo, nossos sentimentos põem-se ao lado de Cristo. Colocamo-nos mentalmente a seu lado quando seus discípulos parecem não ter interesse em sua agonia e dormem no horto das oliveiras ou quando fugindo o deixam sozinho; ou quando Judas o entrega com um beijo cheio de cinismo. Nossos sentimentos estão também ao seu lado quando os judeus lhe acusam falsamente e pedem sua morte, ou quando lhe golpeiam e insultam e quando Pilatos lava as mãos e o entrega a uma morte que ele mesmo sabe injusta.  E assim, o fomos acompanhando enquanto ia a caminho do calvário, quando finalmente o crucificaram e é morto.

Nossos sentimentos têm estado a se lado e ao lado desses poucos que, nesta “hora do poder das trevas”, se mantiveram ao seu lado, iluminando esta noite de covardia, traição, ódio, mentira e morte: Simão de Cirene, as mulheres de Jerusalém, o bom ladrão, o centurião romano, José de Arimatéia e Nicodemo…

Mas a questão é que ao lado de Jesus não devemos estar só com nossos sentimentos enquanto escutamos ou contemplamos sua Paixão. A paixão de Cristo não terminou, continua se desenvolvendo a cada dia, em nosso mundo, ao nosso arredor, em nós mesmos. E também aí temos de tratar de estar ao lado de Cristo. E só assim poderemos participar em sua paixão realmente e “completar em nosso corpo o que falta às aflições de Cristo”. Por isso, se queremos participar realmente na paixão de Cristo, e não só sentimentalmente, é preciso que depois, em casa, na rua, em todo momento da vida, ali onde continua essa mesma paixão nos ponhamos ao seu lado.

Porque se após escutar e participar da liturgia evitamos o encontro com os demais, especialmente com aqueles que sofrem, então não estaremos ao lado de Cristo, senão ao lado daqueles que, fugindo, o abandonaram. E se ante aqueles que nos necessitam reagimos com indiferença, então não estaremos ao lado de Cristo, senão ao lado daquele que lavando as mãos se tirou do meio de um problema político; e a cada vez que desprezamos alguém ou nos alegramos do mal alheio, ou consentimos que o ódio, a ira, o rancor ou o ressentimento dominem nossos sentimentos, nossas atitudes e as relações com os demais, próximos ou longínquos, nos coloca, não ao lado de Cristo, mais ao lado de seus acusadores, dos que pediram aos gritos sua morte, dos que o açoitaram, condenaram e contribuíram de qualquer forma a este trágico final. Porque nos demais, próximos e longínquos, bons e maus, sofre e morre Jesus Cristo, já que “o que fizestes com um destes meus pequenos irmãos comigo o fizestes” (Mateus 25,40).

Agora compreendemos que, se na paixão e morte de Cristo estão presentes os sofrimentos e a morte da cada ser humano, nos sofrimentos e morte da cada um estão presentes a morte de Cristo. Por isso, aqui não há meio-termo: ou estamos ao lado de Cristo que morre, ou estamos ao lado daqueles que lhe arrebatam a vida.

Quando se toma partido a favor de Cristo nos é revelado um novo significado de sua morte, da morte do homem e da morte de Deus que ilumina este mistério: Jesus não morre simplesmente esmagado pelas forças do mal, mais realizando um ato de soberana liberdade e de amor extremo.

Ao morrer entregando livremente sua vida, nesse mesmo ato, Jesus começou a vencer a morte e nos mostra assim que no mundo existe algo mais forte que o mal. O amor de Deus à humanidade é tão forte, tão grande, tão louco que é capaz de assumir sobre si esta realidade terrível na qual se resume todo o mistério do mal. Por isso, ao participar na PAIXÃO DE CRISTO descobrimos uma luz que nos convida a não temer, a recuperar a esperança, a nos sentir mais fortes que a mesma morte.

Naturalmente isto não esconde o rosto terrível e desumano da morte: “muitos se horrorizaram ao vê-lo, pois estava tão desfigurado que não parecia homem nem tinha aspecto humano” (Isaías 52,14). Mas a morte não tem a última palavra, a última palavra a tem Deus que justifica em Cristo as vítimas e as resgata do abismo.

Se sentirmos que às vezes em nossa vida, com nossas ações e atitudes não estamos ao lado de Cristo, agora, ao contemplar sua paixão, podemos voltar a Ele, com a confiança plena de que em seu amor ilimitado nos acolhe sem condições e sem censuras, como acolheu a Pedro e aos demais discípulos.

Em nossa vida coexistem simultaneamente a luz e as trevas, a alegria e a tristeza, a esperança e a dúvida, a graça e o pecado. Mas nossa fé neste Cristo morto diz-nos que a luz vence as trevas, a alegria a tristeza, a graça e o perdão ao pecado e a morte.

Agora, e até a RESSURREIÇÃO PASCAL, somos convidados a fazer silêncio e contemplar este corpo inerte, considerar como está nossa vida ao lado deste Messias, deste Mestre e Bom Pastor que deu sua vida por amor para a salvação de todos.

Fonte: CIUDAD REDONDA (Missionários Claretianos)