III DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO B)

A PALAVRA

No III Domingo do Tempo Comum, celebra-se o Domingo da Palavra, instituído pelo Papa Francisco por meio da CARTA APOSTÓLICA “APERUIT ILLIS”. Essa celebração nos lembra que Deus confia em nós para sermos mensageiros de sua Vida e salvação no mundo, desafiando-nos a acolher de braços abertos o chamado que Ele nos faz.

Na primeira leitura (Jn 3,1-5.10), somos conduzidos através da história do profeta Jonas, enviado por Deus para pregar a conversão aos habitantes de Nínive. A narrativa destaca que Deus ama todos os seres humanos, convocando-os à salvação. Mesmo relutante, Jonas torna-se o instrumento de Deus, levando os ninivitas a reavaliarem suas vidas.

No Evangelho (Mc 1,14-20), Marcos descreve os primeiros passos de Jesus no anúncio do Reino de Deus. Em seguida, apresenta o convite de Jesus a alguns discípulos para colaborarem na construção desse Reino.

A segunda leitura (1Cor 7,29-31) exorta os cristãos a terem consciência de que “O TEMPO É BREVE“, destacando a transitória natureza das realidades e valores mundanos. Deus convida cada cristão a viver de olhos voltados para o futuro, priorizando os valores eternos e CONVERTENDO-SE aos princípios do “REINO. Nesse contexto, o Domingo da Palavra enfatiza a importância da Palavra de Deus como guia e fonte de inspiração para a missão cristã. 

Fonte: Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus

Leituras

Jonas, o homem chamado por Deus, mas que tentou evitar se comprometer com a missão, nos convida a refletir sobre como temos respondido ao chamado divino. Será que o comodismo, o bem-estar, os medos, o egoísmo e a miopia já nos impediram de abraçar a missão que Deus nos confiou? Estamos cientes de que ignorar os desafios de Deus é, em grande parte, perder o sentido de nossa vida?

1 A palavra do Senhor foi dirigida a Jonas,
pela segunda vez:
2 “Levanta-te
e põe-te a caminho da grande cidade de Nínive
e anuncia-lhe a mensagem que eu te vou confiar”.
3 Jonas pôs-se a caminho de Nínive,
conforme a ordem do Senhor.
Ora, Nínive era uma cidade muito grande;
eram necessários três dias para ser atravessada.
4 Jonas entrou na cidade,
percorrendo o caminho de um dia;
pregava ao povo, dizendo:
“Ainda quarenta dias, e Nínive será destruída”.
5 Os ninivitas acreditaram em Deus;
aceitaram fazer jejum, e vestiram sacos,
desde o superior ao inferior.
10 Vendo Deus as suas obras de conversão
e que os ninivitas se afastavam do mau caminho,
compadeceu-se e suspendeu o mal
que tinha ameaçado fazer-lhes, e não o fez.
Palavra do Senhor.

Senhor, guia-me em Teus caminhos, ensina-me Tua verdade, pois Tu és meu Deus, meu Salvador. Lembra-Te de mim com Tua eterna misericórdia. Com Tua bondade, conduze-me, pois és bom e justo, orientando os pecadores e revelando Teus caminhos aos humildes.

R. Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos,
vossa verdade me oriente e me conduza!

4a Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos, *
 b e fazei-me conhecer a vossa estrada!
5a Vossa verdade me oriente e me conduza, *
b porque sois o Deus da minha salvação. R.

6 Recordai, Senhor meu Deus, vossa ternura *
e a vossa compaixão que são eternas!
7b De mim lembrai-vos, porque sois misericórdia *
c e sois bondade sem limites, ó Senhor! R.

8 O Senhor é piedade e retidão, *
e reconduz ao bom caminho os pecadores.
9 Ele dirige os humildes na justiça, *
e aos pobres ele ensina o seu caminho. R.

O texto de Paulo aos Coríntios destaca a influência de valores mundanos, como a mentalidade dominante, a moda e o politicamente correto, nas escolhas que fazemos. Adverte contra a absolutização desses valores efêmeros, ressaltando a importância de não depositar neles nossa esperança e objetivo de vida incondicionalmente. O cristão é chamado a viver consciente de que “o tempo é breve“, buscando a verdadeira vida na comunhão com Deus, seguindo o caminho do amor e serviço aos irmãos. A ênfase está em valorizar o que favorece a adesão a Cristo e ao Seu caminho.

29 Eu digo, irmãos: o tempo está abreviado.
Então que, doravante, os que têm mulher
vivam como se não tivessem mulher;
30 e os que choram,
como se não chorassem,
e os que estão alegres,
como se não estivessem alegres;
e os que fazem compras,
como se não possuíssem coisa alguma;
31 e os que usam do mundo,
como se dele não estivessem gozando.
Pois a figura deste mundo passa.
Palavra do Senhor.

Apesar das sombras que obscurecem o mundo e ameaçam nossa tranquilidade diária, Jesus nos revela um projeto divino para um mundo de harmonia, justiça, reconciliação, amor e paz – o ‘Reino de Deus’. Mesmo diante da cruz, onde tentaram silenciar Jesus, esse Reino persiste. No século XXI, testemunhamos a presença desse Reino em gestos diários de amor, partilha, perdão e cuidado, tornando o mundo mais humano e feliz. Somos chamados a ser testemunhas e mensageiros da esperança.

14 Depois que João Batista foi preso,
Jesus foi para a Galileia,
pregando o Evangelho de Deus e dizendo:
15 “O tempo já se completou
e o Reino de Deus está próximo.
Convertei-vos e crede no Evangelho!”
16 E, passando à beira do mar da Galileia,
Jesus viu Simão e André, seu irmão,
que lançavam a rede ao mar, 
pois eram pescadores.
17 Jesus lhes disse:
“Segui-me e eu farei de vós pescadores de homens”.
18 E eles, deixando imediatamente as redes,
seguiram a Jesus.
19 Caminhando mais um pouco,
viu também Tiago e João, filhos de Zebedeu.
Estavam na barca, consertando as redes;
20 e logo os chamou.
Eles deixaram seu pai Zebedeu na barca com os
empregados, e partiram, seguindo Jesus.
Palavra da Salvação.

Reflexão

A CONVERSÃO É POSSÍVEL: JONAS E JESUS

Diante da situação global, há uma percepção crescente de que o cristianismo está gradualmente perdendo sua relevância: o que já se observa nas dinâmicas familiares poderá se estender às nações de tradição cristã. Alguns acreditam que estamos adentrando em uma era pós-cristã. No entanto, é interessante notar que as figuras de Jonas e Jesus, destacadas neste domingo, não são apresentadas como argumentos contrários a essa tendência.

A narrativa sugere uma perspectiva de esperança. A referência à CONVERSÃO de Nínive e à emergência de “PESCADORES DE HOMENS” aponta para a continuidade da missão divina. Nesse contexto, a mensagem central é que a missão de Deus não está destinada ao fracasso. Ao contrário das previsões de declínio, há a promessa de transformação e renovação, onde os indivíduos podem assumir papéis ativos na disseminação dos ensinamentos e valores divinos.

Dividirei esta homilia em três partes:

  • O profeta rebelde realiza um milagre.
  • A missão em lugares ‘não sagrados’.
  • O Reino de Deus transforma a imagem deste mundo
O PROFETA REBELDE REALIZA UM MILAGRE.

Quando parece que Deus enfrenta desafios em seus métodos para transformar um povo, Ele revela soluções surpreendentes. A primeira leitura narra que Jonas recebeu a missão de ir à cidade de Nínive para pregar a penitência e a CONVERSÃO a Deus. Essa tarefa parecia insuperável para Jonas, levando-o a desobedecer e a seguir por um caminho que o afastava de Nínive; ele buscou refúgio em um barco que se dirigia em sentido contrário. Sua presença causava apreensão a todos a bordo, e ele teve que admitir que estava ‘fugindo de Deus’. Posteriormente, foi lançado ao mar, sendo engolido por um grande peixe que o devolveu ao caminho correto em direção a Nínive.

Jonas, então, adentrou a grande cidade e finalmente obedeceu à ordem divina. O resultado foi uma impressionante CONVERSÃO e milagre que ocorreram. Essa história nos ensina que Deus possui recursos inesperados para realizar Seus propósitos, superando qualquer obstáculo. A reflexão proposta é: por que não poderia esse mesmo princípio se manifestar nos dias de hoje, superando desafios contemporâneos com as inesgotáveis formas de agir de Deus?

A MISSÃO EM LUGARES ‘NÃO SAGRADOS’

O evangelho de hoje destaca Jesus como o profeta definitivo, enviado por Deus Pai. Ele inicia sua missão em um contexto secular, na Galileia dos Gentios, na periferia de Israel. E proclama, a partir desse lugar, a notícia extraordinária: O REINO DE DEUS ESTÁ PRÓXIMO. CONVERTAM-SE. CREIAM NO EVANGELHO.

O detalhe notável é que, imediatamente após proclamar essa mensagem, Jesus busca “colaboradores“. Ao invés de escolher sacerdotes ou escribas, ele seleciona pescadores. Esses pescadores decidem deixar para trás suas redes e suas famílias para segui-lo. Nesse gesto, inicia-se a restauração do novo Israel. Os “DOZE” tornam-se o símbolo de um sonho grandioso: tornar realidade o Reino universal de Deus, e eles, por sua vez, serão chamados a ser “PESCADORES DE HOMENS“.

Assim, a escolha de pescadores comuns para desempenhar um papel crucial na missão de Jesus destaca a universalidade e a acessibilidade do Reino de Deus. Este não é um convite exclusivo para uma elite, mas uma chamada aberta a todos, independentemente de sua origem ou status. O Evangelho nos convida a refletir sobre a prontidão em abandonar nossas “REDES” – símbolos de segurança e familiaridade – para seguir Jesus e participar ativamente na construção do Reino de Deus aqui na Terra.

O REINO DE DEUS TRANSFORMA A IMAGEM DESTE MUNDO

Na segunda leitura da Primeira Carta aos Coríntios, São Paulo compartilha uma perspectiva alinhada com a urgência presente também no evangelho de Jesus: “o momento é urgente… a representação deste mundo está chegando ao fim“. Diante desse contexto, novos caminhos se revelam para todos, inclusive para os pecados, como expresso no salmo 24. A convocação é clara: é imperativo seguir esses caminhos, e na vanguarda está Jesus, que nos convida com as palavras incisivas: ‘SIGA-ME!’.

A verdadeira essência da Igreja revela seu pleno significado quando entendemos que ela é a Comunidade daqueles que não apenas creem, mas ativamente seguem o caminho proposto por Jesus. Cada um de nós, nesse contexto, herda e continua a jornada daqueles que, em seus períodos, escolheram seguir Jesus. O seguimento de Jesus nos dias atuais apresenta características inovadoras, desafiando-nos a proclamar que há um caminho sem perspectivas de futuro, uma direção que invariavelmente nos conduzirá à destruição.

Contudo, a mensagem não é desprovida de esperança. Ela traz consigo a ousada promessa de nos tornarmos instrumentos vivos na realização do sonho de Deus para a humanidade. Diante desse chamado, somos desafiados a ser agentes de transformação, mensageiros da ideia de que, apesar das adversidades, existe uma alternativa, uma possibilidade real de construir um futuro em sintonia com os desígnios divinos.

CONCLUSÃO

Embora Jonas nos surpreenda com sua rebeldia, podemos confiar que um vento forte nos conduzirá ao nosso destino. Neste trajeto, somos chamados a ser a profecia que inspira a transformação dos povos em nosso mundo, seguindo os passos de Jesus na Galileia em direção a Jerusalém. É o momento de redescobrirmos a autenticidade da Galileia e nos aventurarmos em Nínive! Diante dessa jornada, não hesitemos. Anunciemos com ousadia que o Reino de Deus está à nossa porta. Quanto ao restante, confiemos nas mãos de Deus, pois Ele guiará o curso de nossa missão e propósito com sabedoria.

Texto: JOSÉ CRISTO REY GARCÍA PAREDES
Fonte: ECOLOGÍA DEL ESPÍRITU