O Sábado Santo é o dia do grande silêncio. O Verbo, que falou e o mundo foi criado, emudeceu na tumba. O Sol da justiça se pôs sobre a terra, e toda a criação repousa em expectativa. Os apóstolos estão dispersos, vencidos pelo medo e pela desilusão. Para eles, tudo terminou. O Mestre jaz sem vida, e com Ele morreram os sonhos de um reino, as esperanças de libertação, os três anos de caminhada que agora parecem apenas uma doce ilusão desfeita pelo madeiro.
Mas há alguém que não perdeu a memória. Maria, a Mãe, conserva no coração aquilo que os discípulos esqueceram. Ela não esqueceu as palavras do anjo, nem a profecia do ancião Simeão — que uma espada lhe transpassaria a alma, mas também que aquele menino seria sinal de contradição e de ressurreição. Ela guardou, sob o silêncio daquele sábado interminável, a promessa do Filho: Ao terceiro dia ressuscitarei.
Enquanto os apóstolos vagam sem rumo, chegam um a um junto de Maria. Ela não lhes oferece explicações teológicas, não lhes apresenta argumentos. Apenas está ali, velando, esperando. E a sua simples presença, sustentada pela memória da promessa, torna-se consolo. Maria é a única que ainda crê que o sepulcro não terá a última palavra. Ela ensina aos discípulos desalentados que o silêncio de Deus não é ausência, mas o prelúdio da ressurreição.
O Sábado Santo é, assim, o dia da espera vigilante. A Igreja, com Maria, permanece junto ao sepulcro, não para chorar um morto, mas para aguardar o Vivente. Enquanto o mundo pensa que a história acabou, a fé sabe que Deus está gestando o oitavo dia. Maria nos ensina que há momentos em que tudo o que nos resta é a memória da promessa e a coragem de esperar contra toda esperança.
Amanhecerá. E o terceiro dia virá.
LEITURAS
Leituras do Antigo Testamento
No princípio, quando Deus criou os céus e a terra e, ao concluir Sua obra, repousou, revelou-nos que nossa existência nasce do amor ordenado, convidando-nos hoje a restaurar, com responsabilidade e esperança, a harmonia da criação.
e o Espírito de Deus pairava sobre as águas.
das que estavam em cima do firmamento. E assim se fez.
E assim se fez.
E Deus viu que era bom.
e árvores que dão fruto tendo nele a semente da sua espécie.
para separar o dia da noite.
Que sirvam de sinais para marcar as épocas
os dias e os anos,
para presidir à noite, e as estrelas.
e voem pássaros sobre a terra,
debaixo do firmamento do céu”.
segundo as suas espécies, e todas as aves,
segundo as suas espécies. E Deus viu que era bom.
E assim se fez.
os animais domésticos segundo as suas espécies
e todos os répteis do solo segundo as suas espécies.
E Deus viu que era bom.
para que domine sobre os peixes do mar,
sobre as aves do céu,
e sobre todos os répteis que rastejam sobre a terra”.
enchei a terra e submetei-a!
Dominai sobre os peixes do mar,
sobre os pássaros do céu
e sobre todos os animais que se movem sobre a terra”.
sobre a terra, e todas as árvores que produzem fruto
com sua semente, para vos servirem de alimento.
Houve uma tarde e uma manhã: sexto dia.
Palavra do Senhor.
Bendize, ó minha alma, ao Senhor que renova a vida, faz justiça aos oprimidos e, com ternura de Pai, afasta nossas culpas, sustentando-nos hoje com misericórdia fiel e amor que recria o mundo.
R. Enviai o vosso Espírito Senhor,
e da terra toda a face renovai.
1 Bendize, ó minha alma, ao Senhor! *
Ó meu Deus e meu Senhor, como sois grande!
2a De majestade e esplendor vos revestis *
e de luz vos envolveis como num manto. R.
5 A terra vós firmastes em suas bases, *
ficará firme pelos séculos sem fim;
6 os mares a cobriam como um manto, *
e as águas envolviam as montanhas. R.
13 De vossa casa as montanhas irrigais, *
com vossos frutos saciais a terra inteira;
14 fazeis crescer os verdes pastos para o gado *
e as plantas que são úteis para o homem. R.
24 Quão numerosas, ó Senhor, são vossas obras, *
e que sabedoria em todas elas!
Encheu-se a terra com as vossas criaturas! *
35c Bendize, ó minha alma, ao Senhor! R.
Quando Deus provou Abraão e poupou Isaac, revelou que a fé atravessa o abismo da entrega, confia além do medo e descobre, na obediência, o Deus que provê esperança onde parecia haver apenas silêncio.
e oferece-o ali em holocausto
sobre um monte que eu te indicar”.
e seu filho Isaac.
Depois de ter rachado lenha para o holocausto,
enquanto eu e o menino vamos até lá.
Depois de adorarmos a Deus, voltaremos a vós”.
enquanto ele levava o fogo e a faca.
E os dois continuaram caminhando juntos.
E o menino disse:
mas onde está a vítima para o holocausto?”
amarrou o filho e o pôs sobre a lenha em cima do altar.
Ele respondeu: “Aqui estou!”
Agora sei que temes a Deus,
pois não me recusaste teu filho único”.
e ofereceu-o em holocausto no lugar do seu filho.
“O monte onde o Senhor providenciará”.
uma vez que agiste deste modo
e não me recusaste teu filho único,
como as estrelas do céu
e como as areias da praia do mar.
Teus descendentes conquistarão as
cidades dos inimigos.
Palavra do Senhor.
Eu bendigo o Senhor que me guia, sustenta meus passos e não permite que eu vacile, pois sua presença fiel alegra meu coração, afasta o medo da morte e conduz-me à vida plena.
R. Guardai-me, ó Deus, porque em vós me refugio!
5 Ó Senhor, sois minha herança e minha taça, *
meu destino está seguro em vossas mãos!
8 Tenho sempre o Senhor ante meus olhos, *
pois se o tenho a meu lado não vacilo. R.
e até meu corpo no repouso está tranquilo;
11 Vós me ensinais vosso caminho para a vida; †
delícia eterna e alegria ao vosso lado! R.
Quando o Senhor abriu o mar e conduziu seu povo da escravidão à liberdade, ensinou-nos que, mesmo cercados pelo medo, a confiança obediente transforma impossíveis em caminhos novos de libertação e canto.
Dize aos filhos de Israel que se ponham em marcha.
para que os filhos de Israel caminhem
em seco pelo meio do mar.
e eu seja glorificado às custas do Faraó,
e de todo o seu exército,
dos seus carros e cavaleiros.
dos seus carros e cavaleiros”.
mudou de posição e foi para trás deles;
e com ele, ao mesmo tempo, a coluna de nuvem,
que estava na frente, colocou-se atrás,
Para aqueles a nuvem era tenebrosa,
para estes, iluminava a noite.
Assim, durante a noite inteira,
uns não puderam aproximar-se dos outros.
um vento leste muito forte; e as águas se dividiram.
enquanto as águas formavam como que uma muralha
à direita e à esquerda.
carros e cavaleiros os seguiram mar adentro.
Disseram, então, os egípcios:
Pois o Senhor combate a favor deles, contra nós”.
para que as águas se voltem contra os egípcios,
seus carros e cavaleiros”.
corriam ao encontro das águas,
e o Senhor os mergulhou no meio das ondas.
que tinha entrado no mar em perseguição de Israel.
Não escapou um só.
cujas águas lhes formavam uma muralha
à direita e à esquerda.
e Israel viu os egípcios mortos nas praias do mar,
e em Moisés, seu servo.
Cantemos ao Senhor, forte guerreiro e salvação do seu povo, que lançou ao mar opressores soberbos e, com mão poderosa, nos conduz hoje à terra prometida, despertando coragem, gratidão e confiança renovada.
Ele é meu Deus e o louvarei, Deus de meu pai e o honrarei. * R.
no Santuário construído pelas vossas próprias mãos. *
Teu Criador é teu Esposo fiel: ainda que tenhas conhecido o abandono, Ele te reúne com misericórdia eterna, firma-te na justiça e transforma tuas ruínas em morada segura, onde a paz floresce.
teu redentor, o Santo de Israel,
chama-se Deus de toda a terra.
como a esposa repudiada na mocidade,
falou o teu Deus.
mas com misericórdia eterna compadeci-me de ti,
diz teu salvador, o Senhor.
assim juro que não me irritarei contra ti
nem te farei ameaças.
nada fará mudar a aliança de minha paz,
diz o teu misericordioso Senhor.
e tuas bases sobre safiras;
e todos os teus muros, de pedra escolhida.
serás livre do terror,
porque ele não se aproximará de ti.
Palavra do Senhor.
Daí ao Senhor glória e poder, porque sua voz ecoa sobre as águas, despedaça cedros orgulhosos e, no meio das tempestades que nos cercam, fortalece seu povo com paz duradoura e esperança.
R. Eu vos exalto, ó Senhor, porque vós me livrastes!
2 Eu vos exalto, ó Senhor, pois me livrastes, *
e não deixastes rir de mim meus inimigos!
4 Vós tirastes minha alma dos abismos *
e me salvastes, quando estava já morrendo! R.
5 Cantai salmos ao Senhor, povo fiel, *
dai-lhe graças e invocai seu santo nome!
6 Pois sua ira dura apenas um momento, *
as sua bondade permanece a vida inteira;
se à tarde vem o pranto visitar-nos, *
de manhã vem saudar-nos a alegria. R.
Sede, Senhor, o meu abrigo protetor!
Vinde às águas, mesmo sem recursos, porque a Palavra que sai da boca do Senhor sacia a sede mais profunda.
vinde e comei, vinde comprar sem dinheiro,
tomar vinho e leite, sem nenhuma paga.
Ouvi-me com atenção, e alimentai-vos bem,
para deleite e revigoramento do vosso corpo.
manterei fielmente as graças concedidas a Davi.
por causa do Senhor, teu Deus,
e do Santo de Israel, que te glorificou.
volte para o Senhor, que terá piedade dele,
volte para nosso Deus, que é generoso no perdão.
quanto está o céu acima da terra.
mas vêm irrigar e fecundar a terra,
e fazê-la germinar e dar semente,
antes, realizará tudo que for de minha vontade
e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la”.
Palavra do Senhor.
Eis o Deus que me salva: confio e nada temo, pois, sua força e seu canto me sustentam, e das fontes da salvação retiro hoje alegria viva para atravessar desertos e anunciar maravilhas.
R. Com alegria bebereis do manancial da salvação.
2 Eis o Deus, meu Salvador, eu confio e nada temo; *
o Senhor é minha força, meu louvor e salvação.
3 Com alegria bebereis do manancial da salvação. R.
Escuta, Israel, os preceitos da vida: aprende onde está a sabedoria que desce do Altíssimo, ilumina nossos caminhos confusos e nos chama, hoje, a caminhar na luz que conduz à verdadeira liberdade.
foste contado entre os que descem à mansão dos mortos.
e aprenderás também onde está a longevidade e a vida,
aquele que criou a terra para sempre
e a encheu de animais e quadrúpedes;
Todos os que a seguem, têm a vida,
e os que a abandonam, têm a morte.
Palavra do Senhor.
A lei do Senhor é perfeita e reconforta a alma, seus preceitos iluminam os olhos e, em meio às incertezas de hoje, revelam palavras de vida eterna que sustentam nossa esperança.
R. Senhor, tens palavras de vida eterna.
8 A lei do Senhor Deus é perfeita, *
conforto para a alma!
O testemunho do Senhor é fiel, *
sabedoria dos humildes. R.
9 Os preceitos do Senhor são precisos, *
alegria ao coração.
O mandamento do Senhor é brilhante, *
para os olhos é uma luz. R.
Os julgamentos do Senhor são corretos *
e justos igualmente. R.
11 Mais desejáveis do que o ouro são eles, *
Suas palavras são mais doces que o mel, *
que o mel que sai dos favos. R.
Derramarei sobre vós água pura, dar-vos-ei coração novo e espírito renovado, para que, libertos das impurezas passadas, caminheis hoje na minha lei, experimentando a alegria de pertencer novamente ao Senhor.
Mancharam-na com sua conduta e suas más ações.
e dos ídolos com os quais o mancharam.
Julguei-os de acordo com sua conduta e suas más ações.
‘Esse é o povo do Senhor;
mas tiveram de sair do seu país!’
entre as nações para onde foi.
que eu vou agir, casa de Israel,
mas por causa do meu santo nome,
que profanastes entre as nações para onde fostes.
As nações saberão que eu sou o Senhor,
– oráculo do Senhor Deus –
quando eu manifestar minha santidade
à vista delas por meio de vós.
e vos conduzirei para a vossa terra.
Eu vos purificarei de todas as impurezas
e de todos os ídolos.
Arrancarei do vosso corpo o coração de pedra
e vos darei um coração de carne;
e cuideis de observar os meus mandamentos.
Palavra do Senhor.
Minha alma tem sede do Deus vivo, e mesmo nas lágrimas da noite confio que Ele me sustenta, restaura minhas forças e transforma a dor em esperança que canta novamente diante do Senhor.
R. A minh’alma tem sede de Deus.
Quando terei a alegria de ver *
a face de Deus? R.
entre gritos, louvor e alegria *
da multidão jubilosa. R.
que me levem ao vosso Monte santo, *
até a vossa morada! R.
4 Então irei aos altares do Senhor, *
Deus da minha alegria.
Vosso louvor cantarei, ao som da harpa, *
meu Senhor e meu Deus! R.
Leituras do Novo Testamento
Sepultados com Cristo no batismo, morremos para o pecado e, unidos à sua ressurreição, aprendemos hoje a viver como homens novos, oferecendo nossa existência a Deus em esperança e fidelidade.
é na sua morte que fomos batizados?
pela glória do Pai,
assim também nós levemos uma vida nova.
seremos semelhantes a ele também pela ressurreição.
para que seja destruído o corpo de pecado,
de maneira a não mais servirmos ao pecado.
a morte já não tem poder sobre ele.
mas aquele que vive, é para Deus que vive.
Palavra do Senhor.
Daí graças ao Senhor, porque eterno é seu amor: a pedra rejeitada tornou-se fundamento, sua destra opera maravilhas e, hoje, sustenta nossa esperança, transformando quedas humanas em vitória que renova a vida.
R. Aleluia, Aleluia, Aleluia
1 Dai graças ao Senhor, porque ele é bom! *
Eterna é a sua misericórdia!
2 A casa de Israel agora o diga: *
“Eterna é a sua misericórdia!” R.
16ab A mão direita do Senhor fez maravilhas, †
a mão direita do Senhor me levantou, *
a mão direita do Senhor fez maravilhas!
17 Não morrerei, mas ao contrário, viverei *
para cantar as grandes obras do Senhor! R.
22 A pedra que os pedreiros rejeitaram, *
tornou-se agora a pedra angular.
23 Pelo Senhor é que foi feito tudo isso: *
Que maravilhas ele fez a nossos olhos! R.
Ao amanhecer, diante do túmulo vazio, o anjo anuncia que Jesus ressuscitou; as mulheres, entre temor e alegria, recebem a missão de proclamar que a morte foi vencida e a esperança recomeça hoje.
Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro.
e, aproximando-se, retirou a pedra e sentou-se nela.
Sei que procurais Jesus, que foi crucificado.
Vinde ver o lugar em que ele estava.
e que vai à vossa frente para a Galileia.
Lá vós o vereis. É o que tenho a dizer-vos”.
para dar a notícia aos discípulos.
e prostraram-se diante de Jesus, abraçando seus pés.
que se dirijam para a Galiléia.
Lá eles me verão”.
Palavra da Salvação.
HOMILIA
RECORDA A TUA GALILEIA
A noite está terminando e já começam a despontar os primeiros fulgores da aurora, quando as mulheres saem para o túmulo de Jesus. Caminham com passo incerto, olhar perdido e o coração dilacerado de dor por aquela morte que lhes arrebatou o Amado. Mas, tendo chegado lá, ao verem o túmulo vazio, invertem o rumo, mudam de estrada; abandonam o sepulcro e correm a anunciar aos discípulos um percurso novo: Jesus ressuscitou e espera por eles na Galileia. Na vida dessas mulheres, aconteceu a Páscoa, que significa passagem: de fato, passam do caminho triste rumo ao sepulcro para uma corrida jubilosa até junto dos discípulos, a fim de lhes dizer não só que o Senhor ressuscitou, mas que há uma meta a alcançar imediatamente, a Galileia. O encontro com o Ressuscitado é lá. O renascimento dos discípulos, a ressurreição do seu coração passa pela Galileia. Entremos também nós nesse caminho dos discípulos, que vai do túmulo à Galileia.
As mulheres – diz o Evangelho – «foram visitar o sepulcro» (Mt 28, 1). Pensam que Jesus se encontra no lugar da morte, e que tudo tenha acabado para sempre. Às vezes acontece conosco, também a nós, pensar que a alegria do encontro com Jesus pertence ao passado, enquanto aquilo que o presente nos dá a conhecer são sobretudo túmulos selados: os túmulos das nossas desilusões, amarguras e desconfiança, os túmulos do «não há mais nada a fazer», «as coisas não mudarão jamais», «melhor aproveitar o dia a dia» porque «do amanhã não estamos seguros». Também nós, se fomos abatidos pela dor, oprimidos pela tristeza, humilhados pelo pecado, amargurados por algum fracasso ou pressionados por alguma preocupação, experimentamos o gosto amargo do cansaço e vemos a alegria apagar-se no coração.
Às vezes notamos simplesmente o peso de levar por diante a vida cotidiana, cansados de arriscar pessoalmente contra uma espécie de muro de borracha de um mundo onde parecem prevalecer sempre as leis do mais astuto e do mais forte. Outras vezes nos sentimos impotentes e desanimados diante do poder do mal, dos conflitos que dilaceram as relações, das lógicas feitas de cálculo e indiferença que parecem governar a sociedade, do câncer da corrupção – e há tanta –, da propagação da injustiça, dos ventos gélidos da guerra. Mais ainda, talvez nos tenhamos defrontado com a morte, ao roubar-nos a doce presença dos nossos queridos ou roçar-nos por um triz na doença ou nas calamidades, e facilmente caímos vítimas da desilusão e secou a fonte da esperança. Assim, por estas ou outras situações – cada um de nós conhece as suas –, os nossos caminhos param diante de túmulos e nós ficamos imóveis a chorar e nos lamentar, repetindo, sozinhos e impotentes, os nossos «porquês». Aquela cadeia de «porquês»…
Ao contrário, as mulheres na Páscoa não ficam paralisadas diante de um túmulo, mas – diz o Evangelho – «afastando-se rapidamente do sepulcro, cheias de temor e grande alegria, as mulheres correram a dar a notícia aos discípulos» (28, 8). Levam a notícia que mudará para sempre a vida e a história: CRISTO RESSUSCITOU! (28, 6). E, ao mesmo tempo, guardam e transmitem a recomendação do Senhor, o seu convite aos discípulos, ou seja, que partam para a Galileia, porque lá o verão (cf. 28, 7). Mas, irmãos e irmãs, perguntamo-nos hoje: que significa ir para a Galileia? Duas coisas:
A primeira, sair da clausura do Cenáculo partindo para a região habitada pelos gentios (cf. Mt 4, 15), sair do escondimento para se abrir à missão, escapar do medo para caminhar rumo ao futuro.
A segunda – e isto é maravilhoso –, voltar às origens, porque precisamente na Galileia é que tudo começara. Lá o Senhor encontrara e chamara pela primeira vez os discípulos.
Portanto, ir para a Galileia é voltar à graça primordial, é readquirir a memória que regenera a esperança, a «memória do futuro» com que fomos marcados pelo Ressuscitado.
Vemos assim o que faz a Páscoa do Senhor: impele-nos a seguir em frente, sair da sensação de derrota, rolar a pedra dos sepulcros onde muitas vezes enclausuramos a esperança, olhar o futuro com confiança, porque Cristo ressuscitou e mudou a direção da história; mas, para o conseguir, a Páscoa do Senhor leva-nos ao nosso passado de graça, faz-nos regressar à Galileia, onde teve início a nossa história de amor com Jesus, onde ocorreu o primeiro chamamento. Por outras palavras, pede-nos para reviver o momento, a situação, a experiência em que encontramos o Senhor, experimentamos o seu amor e recebemos um olhar novo e luminoso sobre nós mesmos, sobre a realidade, sobre o mistério da vida. Irmãos e irmãs, para ressuscitar, recomeçar, retomar o caminho, precisamos sempre de voltar à Galileia, isto é, voltar, não a um Jesus abstrato, ideal, mas à memória viva, à memória concreta e palpitante do primeiro encontro com Ele. Sim, para caminhar devemos recordar; para ter esperança devemos nutrir a memória. E este é o convite: recorda e caminha! Se recuperares o primeiro amor, o deslumbramento e a alegria do encontro com Deus, seguirás para a frente. Recorda e caminha.
Recorda a tua Galileia, e caminha para a tua Galileia. É o «lugar» onde conheceste pessoalmente Jesus, onde Ele deixou de ser, para ti, uma personagem histórica como outras, tornando-se a pessoa da tua vida: não um Deus distante, mas o Deus próximo, que te conhece melhor do que ninguém e te ama mais do que qualquer outra pessoa. Irmão, irmã, traz à memória a Galileia, a tua Galileia: a Galileia da tua chamada, daquela Palavra de Deus que, num momento concreto, foi dirigida precisamente a ti; daquela forte experiência no Espírito, da maior alegria do perdão sentida depois daquela Confissão, daquele momento intenso e inesquecível de oração, daquela luz que se acendeu no teu íntimo e transformou a tua vida, daquele encontro, daquela peregrinação… Cada um de nós sabe onde se encontra a sua Galileia, cada um de nós conhece o próprio lugar da ressurreição interior, lugar inicial, fundante, que mudou as coisas. Não podemos deixá-lo no passado, o Ressuscitado nos convida a ir até lá, para celebrar a Páscoa. Recorda a tua Galileia, traze-a à memória, reaviva-a hoje mesmo. Volta àquele primeiro encontro. Interroga-te como e quando foi, reconstrói o seu contexto, tempo e lugar, repassa a emoção e as sensações, revive as suas cores e sabores. Com efeito, tu sabes, foi quando esqueceste aquele primeiro amor, quando olvidaste aquele primeiro encontro que começou a depositar-se o pó no teu coração. E experimentaste a tristeza e, como para os discípulos, tudo parecia carecer de perspectiva, com um rochedo selando a esperança. Mas hoje, irmão, irmã, a força da Páscoa convida a rolar para fora as pedras da desilusão e da desconfiança; o Senhor, perito em derrubar as pedras tumulares do pecado e do medo, quer iluminar a tua memória santa, a tua recordação mais bela, tornar atual aquele primeiro encontro com Ele. Recorda e caminha: volta para Ele, redescobre a graça da ressurreição de Deus em ti! Volta à Galileia, volta à tua Galileia.
Irmãos, irmãs, sigamos Jesus até à Galileia, encontremo-lo e adoremos onde Ele espera cada um de nós. Revivamos a beleza daquele momento em que, depois de o termos descoberto vivo, o proclamamos Senhor da nossa vida. Voltemos à Galileia, à Galileia do primeiro amor, cada um volte à sua própria Galileia, a do primeiro encontro, e ressurgimos para uma vida nova!
Texto: PAPA FRANCISCO
