SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO DO SENHOR (ANO A)

A PALAVRA

A tarde da Sexta-feira Santa apresenta o drama imenso da morte de Cristo no Calvário. A Cruz, erguida sobre o mundo, permanece de pé como sinal de salvação e de esperança. Ao contemplarmos a Paixão de Jesus segundo o Evangelho de João, somos convidados a entrar no mistério do Crucificado com o coração do discípulo amado, da Mãe, do soldado que lhe traspassou o lado.

São João, teólogo e cronista da Paixão, leva-nos a contemplar o mistério da cruz de Cristo como uma solene liturgia. Tudo é tão digno, solene e simbólico em sua narração: cada palavra, cada gesto.

A Mãe estava ali, junto à Cruz, como mãe e discípula que seguiu em tudo a sorte de seu Filho – sinal de contradição como ele, totalmente ao seu lado. Mas também solene e majestosa como uma mãe: a mãe de todos, a nova Eva, a mãe dos filhos dispersos, que ela reúne junto à cruz de seu Filho. E ressoa a palavra de seu Filho, que prolonga sua maternidade até os confins infinitos de todos os homens. Maria é constituída mãe dos discípulos, dos irmãos de seu Filho.

A maternidade de Maria tem o mesmo alcance da redenção de Jesus. Maria contempla e vive o mistério com a majestade de uma esposa, ainda que com a imensa dor de uma mãe. São João a glorifica ao relembrar essa maternidade. É o último testamento de Jesus. É a última dádiva. É a segurança de uma presença materna em nossa vida, na vida de todos. Porque Maria é fiel à palavra: “Eis aí o teu filho”.

LEITURAS

À luz do Servo Sofredor, “traspassado por nossas transgressões e esmagado por nossas iniquidades”, contemplemos o Amor que assume nossas dores e, ainda hoje, transforma feridas humanas em fonte viva de esperança e redenção.

13 Ei-lo, o meu Servo será bem sucedido;
sua ascensão será ao mais alto grau.
14 Assim como muitos ficaram pasmados ao vê-lo
– tão desfigurado ele estava que não parecia ser um homem 
ou ter aspecto humano -,
15 do mesmo modo ele espalhará sua fama entre os povos.
Diante dele os reis se manterão em silêncio,
vendo algo que nunca lhes foi narrado
e conhecendo coisas que jamais ouviram.
53,1 Quem de nós deu crédito ao que ouvimos?
E a quem foi dado reconhecer a força do Senhor?
2 Diante do Senhor ele cresceu como renovo de planta
ou como raiz em terra seca.
Não tinha beleza nem atrativo para o olharmos,
não tinha aparência que nos agradasse.
3 Era desprezado como o último dos mortais,
homem coberto de dores, cheio de sofrimentos;
passando por ele, tapávamos o rosto;
tão desprezível era, não fazíamos caso dele.
4 A verdade é que ele tomava sobre si nossas enfermidades 
e sofria, ele mesmo, nossas dores;
e nós pensávamos fosse um chagado,
golpeado por Deus e humilhado!
5 Mas ele foi ferido por causa de nossos pecados,
esmagado por causa de nossos crimes;
a punição a ele imposta era o preço da nossa paz,
e suas feridas, o preço da nossa cura.
6 Todos nós vagávamos como ovelhas desgarradas,
cada qual seguindo seu caminho;
e o Senhor fez recair sobre ele
o pecado de todos nós.
7 Foi maltratado, e submeteu-se, não abriu a boca;
como cordeiro levado ao matadouro
ou como ovelha diante dos que a tosquiam,
ele não abriu a boca.
8 Foi atormentado pela angústia e foi condenado.
Quem se preocuparia com sua história de origem?
Ele foi eliminado do mundo dos vivos;
e por causa do pecado do meu povo
foi golpeado até morrer.
9 Deram-lhe sepultura entre ímpios, 
um túmulo entre os ricos, porque ele não praticou o mal
nem se encontrou falsidade em suas palavras.
10 O Senhor quis macerá-lo com sofrimentos.
Oferecendo sua vida em expiação,
ele terá descendência duradoura,
e fará cumprir com êxito a vontade do Senhor.
11 Por esta vida de sofrimento,
alcançará luz e uma ciência perfeita.
Meu Servo, o justo, fará justos inúmeros homens,
carregando sobre si suas culpas.
12 Por isso, compartilharei com ele multidões
e ele repartirá suas riquezas com os valentes
seguidores, pois entregou o corpo à morte,
sendo contado como um malfeitor;
ele, na verdade, resgatava o pecado de todos
e intercedia em favor dos pecadores.
Palavra do Senhor.

Quando rezamos “Em vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito”, aprendemos, nas noites de medo e abandono, a confiar nossas fragilidades ao Deus fiel, que sustenta hoje nossa esperança e firma os que atravessam a provação.

R. Ó Pai, em tuas mãos eu entrego o meu espírito.

2 Senhor, eu ponho em vós minha esperança; *
que eu não fique envergonhado eternamente!
6 Em vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito, *
porque vós me salvareis, ó Deus fiel! R.

12 Tornei-me o opróbrio do inimigo, *
o desprezo e zombaria dos vizinhos,
e objeto de pavor para os amigos; *
fogem de mim os que me veem pela rua.
13 Os corações me esqueceram como um morto, *
e tornei-me como um vaso espedaçado. R.
 
15 A vós, porém, ó meu Senhor, eu me confio, *
e afirmo que só vós sois o meu Deus!
16 Eu entrego em vossas mãos o meu destino; *
libertai-me do inimigo e do opressor! R.
 
17 Mostrai serena a vossa face ao vosso servo, *
e salvai-me pela vossa compaixão!
25 Fortalecei os corações, tende coragem, *
todos vós que ao Senhor vos confiais! R.

Contemplando Cristo, que “nos dias de sua vida terrestre ofereceu preces e súplicas com forte clamor e lágrimas”, aprendemos, em nossas angústias atuais, que a obediência confiante transforma sofrimento em caminho luminoso de salvação.

Irmãos:
14 Temos um sumo sacerdote eminente, que entrou no céu,
Jesus, o Filho de Deus.
Por isso, permaneçamos firmes na fé que professamos.
15 Com efeito, temos um sumo sacerdote
capaz de se compadecer de nossas fraquezas,
pois ele mesmo foi provado em tudo como nós,
com exceção do pecado.
16 Aproximemo-nos então, com toda a confiança,
do trono da graça,
para conseguirmos misericórdia e alcançarmos
a graça de um auxílio no momento oportuno.
5,7  Cristo, nos dias de sua vida terrestre,
dirigiu preces e súplicas,
com forte clamor e lágrimas,
àquele que era capaz de salvá-lo da morte.
E foi atendido, por causa de sua entrega a Deus.
8 Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa
a obediência a Deus por aquilo que ele sofreu.
9 Mas, na consumação de sua vida,
tornou-se causa de salvação eterna
para todos os que lhe obedecem.
Palavra do Senhor.

Diante daquele que declarou “Tudo está consumado”, contemplemos o Amor que, atravessando traições e dores humanas, transforma nossas noites de sofrimento em auroras de esperança, convidando-nos hoje a confiar na vitória da cruz.

Prenderam Jesus e o amarraram.

Naquele tempo,
1 Jesus saiu com os discípulos
para o outro lado da torrente do Cedron.
Havia aí um jardim, onde ele entrou com os discípulos.
2 Também Judas, o traidor, conhecia o lugar,
porque Jesus costumava reunir-se aí
com os seus discípulos.
3 Judas levou consigo um destacamento de soldados
e alguns guardas dos sumos sacerdotes e fariseus,
e chegou ali com lanternas, tochas e armas.
4 Então Jesus, consciente de tudo o que ia acontecer,
saiu ao encontro deles e disse: 
“A quem procurais?”
5 Responderam:
“A Jesus, o Nazareno”.
Ele disse: 
“Sou eu”.
Judas, o traidor, estava junto com eles.
6 Quando Jesus disse: “Sou eu”,
eles recuaram e caíram por terra.
7 De novo lhes perguntou:
“A quem procurais?”
Eles responderam: 
“A Jesus, o Nazareno”.
8 Jesus respondeu: 
“Já vos disse que sou eu.
Se é a mim que procurais,
então deixai que estes se retirem”.
9 Assim se realizava a palavra que Jesus tinha dito:
‘Não perdi nenhum daqueles que me confiaste’.
10 Simão Pedro, que trazia uma espada consigo,
puxou dela e feriu o servo do sumo sacerdote,
cortando-lhe a orelha direita.
O nome do servo era Malco.
11 Então Jesus disse a Pedro:
“Guarda a tua espada na bainha.
Não vou beber o cálice que o Pai me deu?”

Conduziram Jesus primeiro a Anás.

12 Então, os soldados, o comandante e os guardas dos judeus
prenderam Jesus e o amarraram.
13 Conduziram-no primeiro a Anás, 
que era o sogro de Caifás, 
o Sumo Sacerdote naquele ano.
14 Foi Caifás que deu aos judeus o conselho:
“É preferível que um só morra pelo povo”.
15 Simão Pedro e um outro discípulo seguiam Jesus.
Esse discípulo era conhecido do Sumo Sacerdote
e entrou com Jesus no pátio do Sumo Sacerdote.
16 Pedro ficou fora, perto da porta.
Então o outro discípulo,
que era conhecido do Sumo Sacerdote, saiu,
conversou com a encarregada da porta
e levou Pedro para dentro.
17 A criada que guardava a porta disse a Pedro:
“Não pertences também tu aos discípulos desse homem?”
Ele respondeu: “Não!”
18 Os empregados e os guardas fizeram uma fogueira
e estavam-se aquecendo, pois fazia frio.
Pedro ficou com eles, aquecendo-se.
19 Entretanto, o Sumo Sacerdote interrogou Jesus
a respeito de seus discípulos e de seu ensinamento.
20 Jesus lhe respondeu:
“Eu falei às claras ao mundo. 
Ensinei sempre na sinagoga e no Templo, 
onde todos os judeus se reúnem.
Nada falei às escondidas.
21 Por que me interrogas? Pergunta aos que ouviram o que falei; 
eles sabem o que eu disse”.
22 Quando Jesus falou isso, um dos guardas que ali estava
deu-lhe uma bofetada, dizendo:
“É assim que respondes ao Sumo Sacerdote?”
23 Respondeu-lhe Jesus: 
“Se respondi mal, mostra em quê;
mas, se falei bem, por que me bates?”
24 Então, Anás enviou Jesus amarrado para Caifás,
o Sumo Sacerdote.

Não és tu também um dos discípulos dele? Pedro negou: “Não!”

25 Simão Pedro continuava lá, em pé, aquecendo-se.
Disseram-lhe:
“Não és tu, também, um dos discípulos dele?”
Pedro negou: “Não!”
26 Então um dos empregados do Sumo Sacerdote,
parente daquele a quem Pedro tinha cortado a orelha, disse: 
“Será que não te vi no jardim com ele?”
27 Novamente Pedro negou. 
E na mesma hora, o galo cantou.


O meu reino não é deste mundo.

 

28 De Caifás, levaram Jesus ao palácio do governador.
Era de manhã cedo.
Eles mesmos não entraram no palácio,
para não ficarem impuros e poderem comer a páscoa.
29 Então Pilatos saiu ao encontro deles e disse:
“Que acusação apresentais contra este homem?”
30 Eles responderam: 
“Se não fosse malfeitor, não o teríamos entregue a ti!”
31 Pilatos disse: 
“Tomai-o vós mesmos e julgai-o de acordo com a vossa lei”.
Os judeus lhe responderam:
“Nós não podemos condenar ninguém à morte”.
32 Assim se realizava o que Jesus tinha dito,
significando de que morte havia de morrer.
33 Então Pilatos entrou de novo no palácio,
chamou Jesus e perguntou-lhe:
“Tu és o rei dos judeus?”
34 Jesus respondeu:
“Estás dizendo isto por ti mesmo,
ou outros te disseram isto de mim?”
35 Pilatos falou: 
“Por acaso, sou judeu?
O teu povo e os sumos sacerdotes te entregaram a mim.
Que fizeste?
36 Jesus respondeu: 
“O meu reino não é deste mundo.
Se o meu reino fosse deste mundo,
os meus guardas lutariam 
para que eu não fosse entregue aos judeus.
Mas o meu reino não é daqui”.
37 Pilatos disse a Jesus: 
“Então tu és rei?”
Jesus respondeu: 
‘Tu o dizes: eu sou rei.
Eu nasci e vim ao mundo para isto:
para dar testemunho da verdade.
Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”.
38 Pilatos disse a Jesus: 
“O que é a verdade?”
Ao dizer isso, Pilatos saiu ao encontro dos judeus,
e disse-lhes: “Eu não encontro nenhuma culpa nele.
39 Mas existe entre vós um costume,
que pela Páscoa eu vos solte um preso.
Quereis que vos solte o rei dos Judeus?”
40 Então, começaram a gritar de novo:
“Este não, mas Barrabás!”
Barrabás era um bandido.


Viva o rei dos judeus!

19,1 Então Pilatos mandou flagelar Jesus.
2 Os soldados teceram uma coroa de espinhos
e colocaram-na na cabeça de Jesus.
Vestiram-no com um manto vermelho,
3 aproximavam-se dele e diziam:
“Viva o rei dos judeus!”
E davam-lhe bofetadas.
4 Pilatos saiu de novo e disse aos judeus:
“Olhai, eu o trago aqui fora, diante de vós,
para que saibais que não encontro nele crime algum”.
5 Então Jesus veio para fora,
trazendo a coroa de espinhos e o manto vermelho.
Pilatos disse-lhes: 
“Eis o homem!”
6 Quando viram Jesus,
os Sumos Sacerdotes e os guardas começaram a gritar:
“Crucifica-o! Crucifica-o!”
Pilatos respondeu: 
“Levai-o vós mesmos para o crucificar, 
pois eu não encontro nele crime algum”.
7 Os judeus responderam: “Nós temos uma Lei,
e, segundo esta Lei, ele deve morrer,
porque se fez Filho de Deus”.
8 Ao ouvir estas palavras, Pilatos ficou com mais medo ainda.
9 Entrou outra vez no palácio
e perguntou a Jesus: 
“De onde és tu?”
Jesus ficou calado.
10 Então Pilatos disse: 
“Não me respondes?
Não sabes que tenho autoridade para te soltar
e autoridade para te crucificar?”
11 Jesus respondeu:
“Tu não terias autoridade alguma sobre mim,
se ela não te fosse dada do alto.
Quem me entregou a ti, portanto, tem culpa maior”.
 

Fora! Fora! Crucifica-o!

12 Por causa disso, Pilatos procurava soltar Jesus.
Mas os judeus gritavam:
“Se soltas este homem, não és amigo de César.
Todo aquele que se faz rei, declara-se contra César”.
13 Ouvindo estas palavras, 
Pilatos trouxe Jesus para fora e sentou-se no tribunal,
no lugar chamado “Pavimento”, em hebraico “Gábata”.
14 Era o dia da preparação da Páscoa,
por volta do meio-dia.
Pilatos disse aos judeus: 
“Eis o vosso rei!”
15 Eles, porém, gritavam: 
“Fora! Fora! Crucifica-o!”
Pilatos disse: 
“Hei de crucificar o vosso rei?”
Os sumos sacerdotes responderam:
“Não temos outro rei senão César”.
16 Então Pilatos entregou Jesus para ser crucificado,
e eles o levaram.


Ali o crucificaram, com outros dois.

17 Jesus tomou a cruz sobre si
e saiu para o lugar chamado “Calvário”,
em hebraico “Gólgota”.
18 Ali o crucificaram, com outros dois:
um de cada lado, e Jesus no meio.
19 Pilatos mandou ainda escrever um letreiro
e colocá-lo na cruz; nele estava escrito:
Jesus o Nazareno, o Rei dos Judeus“.
20 Muitos judeus puderam ver o letreiro, 
porque o lugar em que Jesus foi crucificado
ficava perto da cidade.
O letreiro estava escrito em hebraico, latim e grego.
21 Então os sumos sacerdotes dos judeus disseram a Pilatos: 
“Não escrevas ‘O Rei dos Judeus’,
mas sim o que ele disse: ‘Eu sou o Rei dos judeus'”.
22 Pilatos respondeu: 
“O que escrevi, está escrito”.


Repartiram entre si as minhas vestes.

23 Depois que crucificaram Jesus,
os soldados repartiram a sua roupa em quatro partes,
uma parte para cada soldado.
Quanto à túnica, esta era tecida sem costura,
em peça única de alto a baixo.
24 Disseram então entre si: 
“Não vamos dividir a túnica.
Tiremos a sorte para ver de quem será”.
Assim se cumpria a Escritura que diz:
“Repartiram entre si as minhas vestes
e lançaram sorte sobre a minha túnica”.
Assim procederam os soldados.


Este é o teu filho. Esta é a tua mãe.

25 Perto da cruz de Jesus, estavam de pé
a sua mãe, a irmã da sua mãe, Maria de Cléofas,
e Maria Madalena.
26 Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, 
o discípulo que ele amava, disse à mãe: 
“Mulher, este é o teu filho”.
27 Depois disse ao discípulo: 
“Esta é a tua mãe”.
Daquela hora em diante, o discípulo a acolheu consigo.

Tudo está consumado.

28 Depois disso, Jesus, sabendo que tudo estava consumado,
e para que a Escritura se cumprisse até o fim, disse: 
“Tenho sede”.
29 Havia ali uma jarra cheia de vinagre.
Amarraram numa vara uma esponja embebida de vinagre
e levaram-na à boca de Jesus.
30 Ele tomou o vinagre e disse: 
“Tudo está consumado”.
E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.

Todos se ajoelham e faz-se uma pausa.


E logo saiu sangue e água.

31 Era o dia da preparação para a Páscoa.
Os judeus queriam evitar
que os corpos ficassem na cruz durante o sábado,
porque aquele sábado era dia de festa solene.
Então pediram a Pilatos
que mandasse quebrar as pernas aos crucificados
e os tirasse da cruz.
32 Os soldados foram
e quebraram as pernas de um e, depois, do outro
que foram crucificados com Jesus.
33 Ao se aproximarem de Jesus, e vendo que já estava
morto, não lhe quebraram as pernas;
34 mas um soldado abriu-lhe o lado com uma lança,
e logo saiu sangue e água.
35 Aquele que viu, dá testemunho
e seu testemunho é verdadeiro; 
e ele sabe que fala a verdade,
para que vós também acrediteis.
36 Isso aconteceu para que se cumprisse a Escritura,
que diz: “Não quebrarão nenhum dos seus ossos”.
37 E outra Escritura ainda diz:
“Olharão para aquele que transpassaram”.


Envolveram o corpo de Jesus com os aromas, em faixas de linho.

38 Depois disso, José de Arimateia,
que era discípulo de Jesus
– mas às escondidas, por medo dos judeus –
pediu a Pilatos para tirar o corpo de Jesus.
Pilatos consentiu.
Então José veio tirar o corpo de Jesus.
39 Chegou também Nicodemos,
o mesmo que antes tinha ido de noite encontrar-se com Jesus.
Levou uns trinta quilos de perfume
feito de mirra e aloés.
40 Então tomaram o corpo de Jesus
e envolveram-no, com os aromas, em faixas de linho,
como os judeus costumam sepultar.
41 No lugar onde Jesus foi crucificado, havia um jardim
e, no jardim, um túmulo novo,
onde ainda ninguém tinha sido sepultado.
42 Por causa da preparação da Páscoa, 
e como o túmulo estava perto, 
foi ali que colocaram Jesus.
Palavra da Salvação.

HOMILIA

 O DIA DO GRANDE SILÊNCIO

Entramos no mistério da Sexta-Feira Santa: um dia que não é apenas passado, mas também um dramático presente na vida individual e coletiva da humanidade. Hoje, a Igreja não celebra a Eucaristia. O altar está despojado. O sacrário, aberto e vazio. O silêncio fala. Este dia nos introduz no ponto mais abissal da Revelação: o amor de Deus quando parece ausência, a presença de Deus quando tudo grita abandono.

A Sexta-Feira Santa foi para alguns dos nossos grandes pensadores a expressão do maior ocultamento de Deus na história. E hoje o estamos padecendo. Friedrich Nietzsche, em A Gaia Ciência, escreveu: Deus morreu. Deus continua morto. E nós o matamos. Antecipava assim o que hoje ocorre de forma massiva: a expansão da incredulidade e do ateísmo. Mas a liturgia de hoje nos ensina algo decisivo: Deus não morreu. Deus se entregou.

O “EU SOU” NO CORAÇÃO DA VIOLÊNCIA

No Getsêmani, diante da patrulha armada, Jesus toma a iniciativa: “A quem buscais?” (Jo 18,4). “Eu sou” (Jo 18,5). Não é apenas identificação. É teofania. O “Eu Sou” evoca o Nome revelado a Moisés: “Eu sou Aquele que Sou” (Ex 3,14). A resposta de Jesus abala aqueles soldados. No momento da prisão, o Eterno se manifesta. O poder das armas recua diante do Nome. Isso revela uma dimensão teológica profunda: a Paixão não é descontrole da história, mas obediência amorosa. Cristo não é vítima passiva; é sujeito livre da entrega.

O JULGAMENTO DO JUSTO E A CRISE DA VERDADE

Diante de Pilatos, Jesus afirma: “Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade” (Jo 18,37). A pergunta de Pilatos — “O que é a verdade?” — ecoa dramaticamente na cultura contemporânea. Vivemos a era das narrativas concorrentes, da manipulação informacional, da relativização ética. Cristo, porém, não define a verdade como conceito abstrato, mas como fidelidade ao Pai. Ele é a Verdade encarnada. Por isso é rejeitado. O Sinédrio O acusa por blasfêmia; o poder romano O condena por conveniência política.

Pilatos descobre que Jesus é o Filho de Deus, e Jesus lhe declara que seu poder — como procurador romano — vem de Deus. Sentado no tribunal, Pilatos dita sentença de morte. E isso sucede na “hora sexta”, o meio-dia, o momento mesmo em que se iniciava o sacrifício dos cordeiros pascais no Templo. Nada escapa ao desígnio salvífico.

A CRUZ COMO ENTRONIZAÇÃO

A crucificação foi pensada para humilhar o réu, privá-lo do seu lugar social e fazê-lo cair no mais baixo que um ser humano pode cair. No entanto, o quarto evangelista nos apresenta Jesus mantendo sua honra em todo momento. Na Cruz, pende um letreiro que declara de forma solene — em três línguas — o porquê da sua morte: Jesus, o rei dos judeus. A túnica de uma só peça — como a do Sumo Sacerdote — é sorteada. Jesus morre como Rei e como Sacerdote: mediador definitivo entre Deus e a humanidade.

A máxima humilhação se converte na exaltação do Senhor. O máximo desprezo se converte na máxima atração desde a Cruz. E então ressoa a palavra culminante: Tudo está consumado (Jo 19,30). Não é um suspiro de derrota, mas o anúncio de uma missão que alcança sua perfeição na oferta total. O amor foi até o fim.

A MÃE, O DISCÍPULO AMADO E O NASCIMENTO DA IGREJA

Várias mulheres estão junto à cruz de Jesus e o discípulo amado. Jesus revela a sua mãe uma “nova maternidade”: “Mulher, eis aí o teu filho” (Jo 19,26). E ao discípulo: “Eis a tua mãe” (Jo 19,27). Nasce uma nova relação. Maria torna-se Mãe dos discípulos; o discípulo representa todos nós. A comunhão eclesial surge no contexto do sofrimento partilhado.

Após a morte, o soldado transpassa o lado de Cristo. “Imediatamente saiu sangue e água” (Jo 19,34). Os Padres da Igreja contemplaram nesse gesto o nascimento sacramental da Igreja. Do novo Adão adormecido na Cruz n1asce a nova Eva, a comunidade dos redimidos. A Igreja não nasce do êxito, mas da ferida. Em tempos de escândalos e crises de confiança, a Sexta-Feira Santa nos recorda que a Igreja só é autêntica quando permanece junto à Cruz.

NOSSAS SEXTAS-FEIRAS SANTAS

A Sexta-Feira Santa não terminou. Ela se prolonga nas periferias existenciais:

  • No desempregado que perde a esperança.
  • Na mãe que chora o filho vítima da violência.
  • No doente que enfrenta a solidão hospitalar.
  • No jovem que luta contra o vazio interior.
  • Naqueles que se declaram agnósticos ou ateus, muitas vezes oriundos de famílias de tradição cristã.

Ali, Cristo continua crucificado. Há muitas zonas de Sexta-Feira Santa permanentes em nosso mundo. Mas a fé nos impede de absolutizar a noite. Muitas pessoas solidárias e compassivas emergem neste dia para levar consolo, esperança, cuidado e compaixão.

CONFIANÇA RADICAL NO ABBÁ

Este relato nos ensina que, ante a humilhação, não havemos de reagir com violência, mas com dignidade e firmeza. Como seres humanos limitados, havemos de atravessar zonas de sombra, de aniquilamento e tempos de dúvida, de aparente falta de sentido. Nossa fé nos pede confiar sempre, em todo lugar e momento, em nosso Abbá (Pai). Ele não pode esquecer-se dos filhos e filhas das suas entranhas, como não se esqueceu de Jesus. Ele faz com que as nossas noites escuras, as nossas experiências de morte, estejam sob o seu controle.

A espiritualidade da Sexta-Feira Santa não é masoquismo religioso; é confiança radical. É poder dizer, mesmo no escuro: Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito (Lc 23,46).

CONCLUSÃO – PERMANECER AOS PÉS DA CRUZ

Hoje não explicamos o sofrimento; nós o contemplamos. Não resolvemos o mistério; nós o adoramos. A Cruz revela quem é Deus: não um déspota distante, mas Amor vulnerável. Revela também quem somos chamados a ser: homens e mulheres capazes de transformar dor em oferta, humilhação em dignidade, morte em semente de vida.

Texto: José Cristo Rey García Paredes
Fonte: ECOLOGÍA DEL ESPÍRITU