SÃO JERÔNIMO, DOUTOR DA IGREJA

ARTIGOS

Neste mês de setembro, tradicionalmente dedicado à Bíblia Sagrada, nós somos chamados a conhecer melhor a pessoa de São Jerônimo que, entre outras coisas, foi um homem que marcou profundamente os seus contemporâneos e a história dos primeiros séculos da nossa Igreja, por ter manifestado em sua vida um grande amor pelo Cristo e pela Sagrada Escritura. Ainda hoje, ele nos admoesta: “Lê com muita frequência as divinas Escrituras; aliás, que o Livro sagrado nunca seja deposto das tuas mãos. Aprende aqui o que tu deves ensinar”. (Ep. 52,7). Nestes nossos dias, este presbítero e doutor da Igreja continua nos convidando a tomar e retomar o estudo da Bíblia com diligente preparação e com ânimo bem disposto.

Jerônimo nasceu em Estridão, na Dalmácia (hoje território da Croácia), por volta de 340, de uma família cristã, e faleceu em Belém, em 420. Ainda jovem, deslocou-se para Roma, onde iniciou os estudos de grego e latim. Tendo recebido o batismo por volta de 356, orientou-se para a vida ascética e viveu como eremita no deserto de Cacilde, ao sul de Alepo, onde se dedicou cuidadosamente aos estudos da Bíblia Sagrada.

Em 382, Jerônimo transferiu-se para Roma. Naquela época, havia tantas traduções latinas da Bíblia que os leitores se viam confusos a respeito. Foi por isso que o Papa Dâmaso (366-384) o escolheu como secretário particular e pediu a ele que fizesse uma revisão dessas traduções, pois Jerônimo possuía um grande conhecimento do latim, do grego e do hebraico. O Papa desejava uma tradução da Bíblia mais fiel, em tudo, aos textos originais, traduzida e apresentada em latim mais correto, que pudesse servir de texto único e uniforme na liturgia. Este trabalho de tradução durou praticamente toda sua vida.

Jerônimo revisou o texto grego do Novo Testamento e traduziu o hebraico do Antigo Testamento, oferecendo à Igreja um texto latino que logo se propagou e foi chamado de Vulgata latina. Este texto tornou-se oficial com o Concílio de Trento e permaneceu com grande autoridade até a realização do Concílio Vaticano II.

Por tudo que realizou no combate às heresias, na defesa da fé e na propagação da verdade cristã, São Jerônimo figura entre os maiores Doutores da Igreja, na história dos primeiros séculos da cristandade, pois ele foi um excepcional filósofo, teólogo, exegeta, historiador e doutor como poucos, nas Sagradas Escrituras.

São Jerônimo foi, certamente, o maior editor de textos de sua época. A ele são atribuídas 154 cartas que foram enviadas aos amigos e às autoridades eclesiásticas, 64 homilias, inúmeras crônicas e, principalmente, comentários à Sagrada Escritura. Com tremenda sabedoria e energia, ele escreveu contra os hereges que se atreviam a negar as verdades da nossa fé.  Combatendo as heresias e defendendo a fé, ele afirmava: “Permanece firmemente apegado à doutrina tradicional que te foi ensinada, para que tu possas exortar segundo a tua sã doutrina e contrastar quantos a contradizem”. (Ep. 52,7). Dizia ainda: “É melhor não ter pão para comer, do que perder a fé”. (Ep. 139 ad Apronium).

Pela sua veemente defesa da fé, nós aprendemos com São Jerônimo que é necessário que todos os batizados conheçam a Palavra de Deus que está expressa na Bíblia Sagrada, para que possam chegar ao conhecimento perfeito de Jesus Cristo, pois, como ele nos ensina: “A BÍBLIA É O INSTRUMENTO COM O QUAL TODOS OS DIAS DEUS FALA AOS FIÉIS”. (Ep. 133, 13).

Nos últimos anos de sua vida, São Jerônimo permaneceu em Belém, onde continuou desempenhando um intenso apostolado, exortando os monges à perfeição, acolhendo os peregrinos que visitavam a Terra Santa e transmitindo a beleza da doutrina cristã, sobretudo aos jovens. São Jerônimo gostava de convidar os jovens e as pessoas das mais diversas idades ao estudo da Bíblia e à leitura cotidiana das Sagradas Escrituras. Ele dizia: “Libertemos o nosso corpo do pecado e nossa alma se abrirá à sabedoria, cultivemos a nossa inteligência com a leitura dos livros sagrados, e a nossa alma encontrará seu alimento diário”. (In Tito, 3,9). Dizia também: “Seja muito assíduo à leitura e ao estudo, quanto mais te é possível. Que o sono te surpreenda com os livros na mão e que a página sagrada acolha a tua cabeça debruçada pelo cansaço”. (Ep 22 ad Eustochim).

Como batizados, membros da Igreja, temos que ensinar que a Igreja reconhece em São Jerônimo um homem escolhido por Deus para explicar e fazer entender melhor a Bíblia Sagrada e, por isso, ele foi declarado o padroeiro dos estudos bíblicos. O Papa Bento XV, em sua ENCÍCLICA SPIRITUS PARACLITUS, o reconheceu como “doutor eminente na interpretação das Sagradas Escrituras”. Pela leitura e pelo estudo da obra que São Jerônimo nos legou, nós percebemos que a Bíblia é, para todos nós, um alimento para a vida espiritual, uma imprescindível matéria para o estudo assíduo e uma grande fonte de argumentos para a defesa da fé e da verdade.

No cotidiano da fé, na leitura orante das Sagradas Escrituras, todos e cada um de nós podemos nos questionar: “Que podemos nós aprender de São Jerônimo? Penso, sobretudo, o seguinte: amar a Palavra de Deus na Sagrada Escritura. Diz São Jerônimo: ‘Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo’. Por isso é importante que cada cristão viva em contato e em diálogo pessoal com a Palavra de Deus que nos é dada na Sagrada Escritura… Devemos ler a Sagrada Escritura não como palavra do passado, mas como Palavra de Deus que se dirige também a nós e procurar compreender o que o Senhor nos quer dizer”. (Papa Bento XVI, Audiência, em 07 de novembro de 2007).  São Jerônimo, rogai por nós e fazei com que, sob vossa poderosa intercessão, a Sagrada Escritura seja sempre para cada um de nós um precioso manancial de vida e de santidade. Assim seja! Amém!

Texto: ALOÍSIO PARREIRAS 
Imagem: ARQUIDIOCESE JUIZ DE FORA