NOSSOS CORAÇÕES, ÀS VEZES MESQUINHOS

ARTIGOS

Existem perguntas que atravessam os séculos porque tocam o coração humano. Uma delas poderia ser formulada assim: por que, tantas vezes, nosso coração é menor do que o coração de Deus?

Ao percorrermos as páginas dos Evangelhos, encontramos um Jesus que jamais construiu muros para impedir o encontro com aqueles que buscavam sua presença. Ao contrário, sua vida foi marcada por uma acolhida surpreendente. Pecadores, publicanos, estrangeiros, mulheres marginalizadas, doentes e crianças encontravam nele um olhar que restaurava a dignidade e despertava a esperança.

Não por acaso, quando os discípulos tentavam impedir a aproximação das crianças, Jesus respondeu com firmeza: “Deixai vir a mim as crianças e não as impeçais, porque delas é o Reino de Deus.” (Mc 10,14). Da mesma forma, ao dialogar com a mulher samaritana, rompeu barreiras culturais, religiosas e sociais, revelando que a misericórdia de Deus sempre precede nossos julgamentos.

Essa atitude de Cristo continua desafiando a Igreja em todos os tempos. Vivemos em uma sociedade profundamente fragmentada, marcada por polarizações, preconceitos e divisões. Muitas vezes, somos rápidos em identificar quem está “FORA“, mas lentos em reconhecer quem Deus já está atraindo para perto de si. O Evangelho, porém, nos recorda que a missão da Igreja não é erguer barreiras desnecessárias, mas conduzir todos ao encontro salvador com Cristo.

É nesse contexto que surge a reflexão sobre a Eucaristia e o diálogo ecumênico. A Igreja Católica ensina que a Eucaristia não é apenas sinal de unidade; ela é também sua plena realização. Por isso, a participação comum na Mesa do Senhor pressupõe a comunhão na mesma fé, nos mesmos sacramentos e na mesma vida eclesial. Trata-se, antes de tudo, de uma realidade teológica, e não apenas de uma decisão pastoral.

Ao mesmo tempo, a Igreja nunca deixou de afirmar seu sincero compromisso com a unidade dos cristãos. O Concílio Vaticano II recorda que todos os batizados participam, embora de maneira diversa, do mistério de Cristo, sendo chamados a caminhar rumo à plena comunhão. Esse caminho exige diálogo, oração, respeito mútuo e, sobretudo, conversão do coração.

Talvez seja justamente essa conversão que mais nos desafie. Não basta defender corretamente a doutrina; é preciso fazê-lo com a mesma caridade de Cristo. A verdade nunca pode ser anunciada sem amor, assim como o amor jamais pode ser separado da verdade. Quando uma dessas dimensões falta, o testemunho cristão perde sua força.

Jesus nunca precisou ser protegido daqueles que sinceramente o procuravam. Seu convite permanece aberto: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos darei descanso.” (Mt 11,28). Seu abraço continua sendo universal, embora o caminho sacramental possua a ordem e a disciplina que a própria Igreja recebeu a missão de guardar.

Nos dias atuais, em que tantas pessoas experimentam solidão espiritual, a comunidade cristã é chamada a refletir se seus gestos revelam verdadeiramente o rosto misericordioso do Pai. A fidelidade à tradição jamais deve ser confundida com rigidez do coração. Da mesma forma, o desejo de acolher nunca pode significar abandonar a riqueza da fé recebida dos Apóstolos.

No fim das contas, o maior desafio talvez não seja discutir apenas quem pode aproximar-se da mesa eucarística, mas perguntar se nós mesmos permitimos que Cristo transforme nosso coração. A comunhão começa muito antes de recebermos o Corpo do Senhor; ela nasce quando permitimos que seu amor cure nossas divisões, purifique nossos preconceitos e alargue nossa capacidade de amar.

Como ensina São Paulo, “Acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo vos acolheu, para a glória de Deus.” (Rm 15,7). Que esse acolhimento, vivido na verdade e na caridade, seja um sinal profético da unidade pela qual o próprio Jesus rezou: Que todos sejam um.” (Jo 17,21). Somente corações configurados ao Coração de Cristo poderão preparar o caminho para o dia em que toda a humanidade reconhecerá, na Igreja, o sacramento da unidade e da esperança.

Texto: Ron Rolheiser archivos – Ciudad Redonda