NATUREZA DA FÉ

DESTAQUE

Desde os primórdios, criados à imagem e semelhança do Criador, nutrimos a estranha mania de devolver o favor moldando Deus conforme os nossos próprios traços.

Como bem reflete o texto, criamos ídolos mentais que justificam nossas barreiras, intolerâncias e egoísmos. Não é por acaso que a história – e o nosso próprio tempo – testemunha tanta violência e fanatismo travestidos de fervor religioso. Quando domesticamos o Divino, projetamos nele nossas próprias trevas. 

Contudo, a alma humana possui um sistema imunológico espiritual. O amor de Deus é dom puro e irrecusável, incapaz de caber nas amarras de nossos esquemas mentais. É por isso que, como nos recorda a Sagrada Escritura, a verdadeira revelação irrompe sempre como surpresa, desestruturando o que é cômodo: “Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos – oráculo do Senhor” (Is 55,8). Deus nos convida a sair de nós mesmos para acolher o estrangeiro, o diferente, o desconhecido que desafia nossas certezas.

Essa travessia exige a passagem pela chamada “noite escura da alma”. Quando nossas imagens preconceituosas de Deus desmoronam, experimentamos uma espécie de “agnosticismo” purificador. Os místicos nos ensinam que este vazio não é a ausência de Deus, mas a derrocada do nosso ego disfarçado de religiosidade. Como respondeu J.R.R. Tolkien a C.S. Lewis diante de suas dúvidas sobre a redenção: “Isso é simplesmente que te falta imaginação!”. De fato, tentar aprisionar o Infinito em nossa mente limitada é um erro teológico e existencial.

Como pontuava o teólogo Paul Tillich, a religião autêntica acontece apenas quando sintonizamos com a Realidade que nos transcende absolutamente, deixando de nos encontrar a nós mesmos. Por isso, a fé verdadeira muitas vezes se manifesta na penumbra: como saudade, busca e silêncio doloroso. Despojar-nos de nossos falsos deuses é a única maneira de finalmente sermos tocados pelo verdadeiro Rosto da Misericórdia.

Texto: Ron Rolheiser archivos – Ciudad Redonda