O caminho da Quaresma é, muitas vezes, semelhante a uma travessia pelo deserto. No terceiro domingo deste tempo litúrgico, a Igreja convida-nos a olhar para essa caminhada com sinceridade. Não é um percurso fácil. Há cansaço, dúvidas, momentos de aridez espiritual. Às vezes sentimos que rezamos pouco, que falhamos, que nossa fé oscila. Quem nunca experimentou essa sede interior que parece não encontrar alívio?
A Palavra de Deus deste domingo surge justamente nesse cenário humano e real. Ela não ignora a fragilidade do coração humano; ao contrário, revela um Deus que caminha ao lado do seu povo.
Na primeira leitura ( (Ex 17,3-7), vemos os hebreus no deserto. Eles haviam sido libertos do Egito, mas a liberdade ainda precisava amadurecer dentro deles. A sede aperta, o desânimo cresce, e então surge a pergunta inquietante: “Será que Deus está mesmo no meio de nós?” Quantas vezes essa pergunta também ecoa dentro de nós quando enfrentamos dificuldades, perdas ou incertezas.
Mas Deus responde de uma maneira surpreendente: faz brotar água de um rochedo. Um lugar árido torna-se fonte de vida. Este gesto revela algo profundo sobre o coração de Deus: Ele não abandona o seu povo, mesmo quando o povo não acredita.
No Evangelho de João (Jo 4,5-42), Jesus repete esse mesmo gesto de misericórdia, mas agora de uma forma ainda mais íntima. Sentado junto ao poço de Jacó, Ele encontra uma mulher samaritana. Não era alguém considerado importante na sociedade de então. No entanto, Jesus inicia um diálogo sincero com ela e oferece algo extraordinário: “água viva”.
Essa água não é apenas para saciar a sede do corpo, mas a sede da alma – a sede de sentido, de amor, de perdão, de recomeço. A mulher samaritana percebe que está diante de alguém que conhece sua história e, mesmo assim, não a rejeita. Pelo contrário, oferece-lhe vida nova.
Neste contexto, é impossível não recordar o DIA INTERNACIONAL DA MULHER, celebrado em 8 de março. A samaritana torna-se um símbolo poderoso da dignidade feminina que Jesus reconhece e eleva. Em uma sociedade marcada por preconceitos, Ele dialoga, escuta e confia a ela uma missão: tornar-se testemunha da Boa Nova.
Por fim, São Paulo recorda na segunda leitura (Rm 5,1-2.5-8) algo que consola profundamente o coração humano: Deus nunca se cansa de nos amar. Mesmo quando falhamos, sua misericórdia é maior que o nosso pecado.
Assim, neste caminho quaresmal, a pergunta permanece viva: de que fonte estamos bebendo? Cristo continua ao nosso lado, oferecendo-nos a água viva que renova o coração e transforma o deserto da nossa vida em um lugar de esperança.
Leituras
Diante da sede, onde bradamos: ‘Dê-nos água para beber’, aprendemos que o rochedo ferido floresce em misericórdia, transformando nosso deserto árido em manancial vivo que sustenta a alma cansada nestes tempos modernos.
Foi para nos fazer morrer de sede,
a nós, nossos filhos e nosso gado?”
Toma a tua vara com que feriste o rio Nilo e vai.
Ferirás a pedra e dela sairá água para o povo beber”.
Moisés assim fez na presença dos anciãos de Israel.
e porque tentaram o Senhor, dizendo:
“O Senhor está no meio de nós, ou não?”
Palavra do Senhor.
Hoje, ao ouvirmos: ‘Não fecheis vossos corações’, ajoelhemos diante do Criador, pois nossa fragilidade encontra repouso no Bom Pastor, que pacifica as tempestades da alma e renova a esperança na aridez do presente.
R. Hoje não fecheis o vosso coração, mas ouvi a voz do Senhor!
1 Vinde, exultemos de alegria no Senhor,*
aclamemos o Rochedo que nos salva!
2 Ao seu encontro caminhemos com louvores,*
e com cantos de alegria o celebremos! R.
6 Vinde adoremos e prostremo-nos por terra,*
e ajoelhemos ante o Deus que nos criou!
7 Porque ele é o nosso Deus, nosso Pastor, †
e nós somos o seu povo e seu rebanho,*
as ovelhas que conduz com sua mão. R.
8 Oxalá ouvísseis hoje a sua voz: †
“Não fecheis os corações como em Meriba,
9 como em Massa, no deserto, aquele dia,
em que outrora vossos pais me provocaram,*
apesar de terem visto as minhas obras”. R.
Pois ‘o amor de Deus foi derramado’ em nós, curando feridas do tempo e provando que, mesmo sendo pecadores, fomos redimidos pela entrega de Cristo, que transborda esperança viva em nosso cansado caminhar.
na esperança da glória de Deus.
pelo Espírito Santo que nos foi dado.
talvez alguém se anime a morrer.
quando éramos ainda pecadores.
Palavra do Senhor.
Buscamos águas passageiras, mas Jesus, a ‘Fonte de água viva’, sacia nossa sede profunda, revelando que a adoração em espírito e verdade liberta o coração cansado das ilusórias promessas deste mundo em deserto.
Naquele tempo,
5 Jesus chegou a uma cidade da Samaria, chamada Sicar,
perto do terreno que Jacó tinha dado ao seu filho José.
6 Era aí que ficava o poço de Jacó.
Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço.
Era por volta do meio-dia.
7 Chegou uma mulher da Samaria para tirar água.
Jesus lhe disse: “Dá-me de beber”.
8 Os discípulos tinham ido à cidade para comprar alimentos.
9 A mulher samaritana disse então a Jesus:
“Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber
a mim, que sou uma mulher samaritana?”
De fato, os judeus não se dão com os samaritanos.
10 Respondeu-lhe Jesus:
“Se tu conhecesses o dom de Deus
e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber`,
tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva.”
11 A mulher disse a Jesus:
“Senhor, nem sequer tens balde e o poço é fundo.
De onde vais tirar a água viva?
12 Por acaso, és maior que nosso pai Jacó,
que nos deu o poço e que dele bebeu,
como também seus filhos e seus animais?”
13 Respondeu Jesus:
“Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo.
14 Mas quem beber da água que eu lhe darei,
esse nunca mais terá sede.
E a água que eu lhe der se tornará nele
uma fonte de água que jorra para a vida eterna”.
15 A mulher disse a Jesus:
“Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais
sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la”.
16 Disse-lhe Jesus:
“Vai chamar teu marido e volta aqui”.
17 A mulher respondeu: “Eu não tenho marido”.
Jesus disse:
“Disseste bem, que não tens marido,
18 pois tiveste cinco maridos,
e o que tens agora não é o teu marido. Nisso falaste a verdade”.
19 A mulher disse a Jesus:
“Senhor, vejo que és um profeta!
20 Os nossos pais adoraram neste monte
mas vós dizeis que em Jerusalém é que se deve adorar”.
21 Disse-lhe Jesus: “Acredita-me, mulher:
está chegando a hora em que nem neste monte,
nem em Jerusalém adorareis o Pai.
22 Vós adorais o que não conheceis.
Nós adoramos o que conhecemos,
pois a salvação vem dos judeus.
23 Mas está chegando a hora, e é agora,
em que os verdadeiros adoradores
adorarão o Pai em espírito e verdade.
De fato, estes são os adoradores que o Pai procura.
24 Deus é espírito e aqueles que o adoram
devem adorá-lo em espírito e verdade”.
25 A mulher disse a Jesus:
“Sei que o Messias (que se chama Cristo) vai chegar.
Quando ele vier,
vai nos fazer conhecer todas as coisas”.
26 Disse-lhe Jesus:
“Sou eu, que estou falando contigo”.
27 Nesse momento, chegaram os discípulos e ficaram
admirados de ver Jesus falando com a mulher.
Mas ninguém perguntou: “Que desejas?”
ou: “Por que falas com ela?”
28 Então a mulher deixou o seu cântaro
e foi à cidade, dizendo ao povo:
29 “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz.
Será que ele não é o Cristo?”
30 O povo saiu da cidade e foi ao encontro de Jesus.
31 Enquanto isso, os discípulos insistiam
com Jesus, dizendo: “Mestre, come”.
32 Jesus, porém disse-lhes:
“Eu tenho um alimento para comer
que vós não conheceis”.
33 Os discípulos comentavam entre si:
“Será que alguém trouxe alguma coisa para ele comer?”
34 Disse-lhes Jesus:
“O meu alimento é fazer a vontade daquele
que me enviou e realizar a sua obra.
35 Não dizeis vós:
‘Ainda quatro meses, e aí vem a colheita!’
Pois eu vos digo: Levantai os olhos e vede os campos:
eles estão dourados para a colheita!
36 O ceifeiro já está recebendo o salário,
e recolhe fruto para a vida eterna.
Assim, o que semeia se alegra junto com o que colhe’.
37 Pois é verdade o provérbio que diz:
‘Um é o que semeia e outro o que colhe’.
38 Eu vos enviei para colher aquilo que não trabalhastes.
Outros trabalharam e vós entrastes no trabalho deles”.
39 Muitos samaritanos daquela cidade
abraçaram a fé em Jesus,
por causa da palavra da mulher que testemunhava:
“Ele me disse tudo o que eu fiz”.
40 Por isso, os samaritanos vieram ao encontro de Jesus
e pediram que permanecesse com eles.
Jesus permaneceu aí dois dias.
41 E muitos outros creram por causa da sua palavra.
42 E disseram à mulher:
“Já não cremos por causa das tuas palavras,
pois nós mesmos ouvimos e sabemos,
que este é verdadeiramente o salvador do mundo”.
Palavra da Salvação.
Homilia
ÁGUA E SEDE
A sede é desejo. A água é plenitude. Somos criaturas marcadas pela sede de sentido, de amor, de verdade, de paz. Percorremos tantos caminhos em busca de fontes onde possamos repousar o coração inquieto. A liturgia deste domingo, em meio à nossa caminhada perseverante com Cristo, aponta-nos onde se encontra a verdadeira Água da Vida. E convida-nos a aproximar-nos dela com três disposições interiores: confiança, surpresa reverente e alegria serena.
CONFIANÇA: NÃO NOS DEIXARÁ MORRER DE SEDE
O povo hebreu fugia do Egito. No deserto, experimentou o peso da aridez e da incerteza. A primeira etapa foi Mara — “águas amargas” (cf. Ex 15,23). Depois veio Elim, com suas árvores e oásis (cf. Ex 15,27). No caminho, provaram o maná do céu e alimentaram-se de codornizes (cf. Ex 16).
Mas, ao chegar a Refidim, “não havia água para o povo beber” (cf. Ex 17,1). Ali murmuraram, protestaram — Meriba — e puseram Deus à prova — Massa —, deixando que a desconfiança obscurecesse a memória da Aliança.
O Senhor, porém, respondeu a Moisés: “Fere a rocha… dela sairá água e o povo beberá” (cf. Ex 17,6). E assim aconteceu. Deus não podia permitir que seu povo morresse de sede.
Também nós atravessamos desertos: crises familiares, angústias econômicas, incertezas profissionais, cansaços interiores que nos roubam a esperança. Quantas vezes, como Israel, somos tentados a duvidar? Contudo, a rocha continua a ser ferida por amor – e dela brota a água. No ritmo silencioso do aprendemos que a fidelidade de Deus não se esgota nas nossas fragilidades. Ele permanece.
SURPRESA: “DÁ-ME DE BEBER!”
No Evangelho, é o próprio Jesus quem se apresenta como o sedento. Cansado da viagem, senta-se junto ao poço de Jacó, na Samaria – terra considerada impura pelos judeus. Entre judeus e samaritanos havia antigas feridas: o templo do monte Garizim fora destruído; o Templo de Jerusalém, por sua vez, fora profanado. Chamá-los de “samaritanos” era quase uma ofensa.
É nesse cenário de divisões que acontece o encontro. Junto ao poço profundo e abundante, Jesus dirige-se a uma mulher samaritana e lhe diz: “Dá-me de beber” (cf. Jo 4,7).
Dar água era gesto de hospitalidade. Mas, ao pedir, Jesus revela algo maior: “Se conhecesses o dom de Deus… tu me pedirias, e eu te daria água viva” (cf. Jo 4,10). Uma água que sacia para sempre, que não apenas refresca os lábios, mas transforma o coração.
A mulher crê. De estrangeira torna-se discípula; de sedenta, mensageira. Nela se cumpre o nascimento “da água e do Espírito” (cf. Jo 3,5).
No Batismo, homens e mulheres de toda raça e condição encontram-se com Cristo e descobrem que sua sede mais profunda não é ignorada. Deus não deseja que povo algum, nem pessoa alguma, morra de sede espiritual. Em tempos marcados por polarizações, solidão digital e busca frenética por reconhecimento, o Senhor continua a pedir: “Dá-me de beber” – pedindo nosso coração para, em troca, nos oferecer o seu.
ALEGRIA: SEREMOS SACIADOS
Na segunda leitura, tomada da Carta aos Romanos, São Paulo revela o fruto do Batismo: “Justificados pela fé, estamos em paz com Deus” (cf. Rm 5,1). Essa fé abre-nos à esperança da glória; e o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (cf. Rm 5,5).
Fé, esperança e caridade: eis a água viva que apazigua a nossa sede. Não são conquistas meramente humanas, mas dons infundidos no mais íntimo do nosso ser. O Batismo não é apenas um rito do passado; é uma fonte permanente, silenciosa, operante.
Quando tudo parece árido, quando as motivações enfraquecem e a vida perde o sabor, é dessa fonte que brota novamente a alegria.
CONCLUSÃO
Temos fome, temos sede – mas não apenas de pão, nem somente de água. O que nos falta, muitas vezes, são razões profundas para viver. Assim se sentiu Israel no deserto. Assim se sentiu a mulher samaritana junto ao poço. Assim nos sentimos nós, quando nos aproximamos de Jesus com a nossa verdade desarmada.
Perguntemo-nos, com sinceridade: que motivos tenho para continuar? Onde procuro a água que pode sustentar minha esperança?
Israel encontrou a resposta no deserto. A samaritana, no poço. Nós a encontramos na água do nosso Batismo, que continua a jorrar discretamente no interior da Igreja e da nossa alma.
Não há motivo para desespero. Tudo é possível porque o amor de Deus foi derramado sobre nós. O Pai nos conhece – sabe que somos frágeis e pecadores. Por isso nos enviou o Filho; por isso derrama continuamente o Espírito Santo sobre nós.
Carregamos em nós uma semente divina: fé, esperança e caridade.
No ordinário dos nossos dias, no passo constante do tempo, a Fonte permanece aberta. E quem dela bebe, mesmo atravessando desertos, aprende que jamais caminha sozinho – porque a Água viva corre silenciosamente em seu coração.
Texto: JOSÉ CRISTO REY GARCÍA PAREDES
Fonte: ECOLOGÍA DEL ESPÍRITU
Este artigo foi produzido com a assistência de ferramentas de inteligência artificial.
