A liturgia deste domingo não nos convida apenas a recordar um acontecimento do passado, mas a entrar na lógica da ressurreição como chave de leitura da própria vida. Ela nos assegura que a vida em plenitude nasce de uma existência vivida como dom e serviço. A ressurreição de Cristo não é um mito consolador; é a confirmação concreta de que o amor levado até o fim não é derrota, mas vitória.
A primeira leitura (At 10,34a.37-43) apresenta Jesus como aquele que “passou pelo mundo fazendo o bem”. Essa expressão resume uma vida inteira de compaixão ativa: curar, acolher, libertar, restaurar dignidades feridas. Seu amor não foi teórico, mas encarnado em gestos concretos. E esse caminho culminou na entrega total na cruz. Aos olhos humanos, parecia fracasso. Contudo, Deus o ressuscitou. A ressurreição é a resposta do Pai à fidelidade do Filho; é o selo divino sobre uma vida totalmente doada.
Os discípulos tornam-se testemunhas dessa dinâmica. Eles não anunciam apenas que o túmulo está vazio, mas que existe um caminho novo para viver. Trata-se de uma inversão profunda: a verdadeira fecundidade não nasce da autopreservação, mas da entrega. Basta olhar para a própria experiência: os momentos mais luminosos da vida costumam estar ligados a gestos de generosidade, perdão e serviço. Há uma força silenciosa no amor gratuito que gera vida ao redor.
O Evangelho (Jo 20,1-9) nos apresenta duas atitudes diante da ressurreição. Há o discípulo que resiste a crer, preso à lógica de que doar-se é perder. Essa postura revela um medo compreensível: o receio de que amar demais nos deixe vulneráveis. Por outro lado, há o discípulo que ama profundamente e, por isso, compreende. Para ele, não é absurdo que da cruz tenha brotado vida; é coerente com o estilo de Jesus. Quem conhece o amor reconhece sua força transformadora.
A segunda leitura (Cl 3,1-4) recorda que, pelo batismo, fomos revestidos de Cristo. A ressurreição, portanto, não é apenas promessa futura, mas realidade já iniciada. Somos chamados a viver como ressuscitados, caminhando progressivamente rumo à plenitude que se consumará quando ultrapassarmos a última fronteira da finitude. Celebrar a Páscoa é escolher diariamente a lógica do amor que se doa, confiando que, mesmo atravessando a cruz, ele conduz à vida verdadeira.
Leituras
Ele passou fazendo o bem e Deus O ressuscitou dentre os mortos, e assim aprendemos que cada gesto de amor fiel, mesmo ferido pela cruz, permanece fecundo e reacende esperança concreta em nossos dias cansados.
depois do batismo pregado por João:
Ele andou por toda a parte, fazendo o bem
e curando a todos os que estavam dominados pelo demônio;
Eles o mataram, pregando-o numa cruz.
a nós, que comemos e bebemos com Jesus,
depois que ressuscitou dos mortos.
Juiz dos vivos e dos mortos.
recebe, em seu nome, o perdão dos pecados'”.
Palavra do Senhor.
Este é o dia que o Senhor fez para nós: na luz do amor que vence a rejeição e transforma a pedra desprezada em fundamento de esperança, aprendemos a recomeçar, confiando que Deus ainda realiza maravilhas em nossos dias.
R. Este é o dia que o Senhor fez para nós:
alegremo-nos e nele exultemos!
1 Dai graças ao Senhor, porque ele é bom! *
“Eterna é a sua misericórdia!”
2 A casa de Israel agora o diga: *
“Eterna é a sua misericórdia!” R.
Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto e deixai que essa esperança reoriente vossos passos, pois a vida escondida n’Ele sustenta nossas lutas diárias e promete plenitude além das aparências e fragilidades.
revestidos de glória.
Palavra do Senhor.
Cantai, cristãos, afinal:
“Salve, ó vítima pascal!”
Cordeiro inocente, o Cristo
abriu-nos do Pai o aprisco.
Por toda ovelha imolado,
do mundo lava o pecado.
Duelam forte e mais forte:
é a vida que enfrenta a morte.
O rei da vida, cativo,
é morto, mas reina vivo!
Responde pois, ó Maria:
no teu caminho o que havia?
“Vi Cristo ressuscitado,
o túmulo abandonado.
Os anjos da cor do sol,
dobrado ao chão o lençol…
O Cristo, que leva aos céus,
caminha à frente dos seus!”
Ressuscitou de verdade.
Ó Rei, ó Cristo, piedade!
Ele viu e acreditou, e nesse olhar que atravessa o túmulo vazio aprendemos que, mesmo quando tudo parece perdido, o amor de Cristo inaugura sentidos novos e reacende esperança firme em nossos dias.
bem de madrugada, quando ainda estava escuro,
e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo.
aquele que Jesus amava,
e lhes disse:
e não sabemos onde o colocaram”.
e chegou primeiro ao túmulo.
Viu as faixas de linho deitadas no chão
mas enrolado num lugar à parte.
Ele viu, e acreditou.
Palavra da Salvação.
Homilia
UM BRILHO ROMPE A ESCURIDÃO… UM NOVO COMEÇO
A experiência dos discípulos e de Maria Madalena após a morte de Jesus continua sendo uma das páginas mais humanas da Escritura. Não encontramos ali heróis imunes ao sofrimento, mas homens e mulheres atravessados pela frustração, pelo medo e pela perplexidade. O projeto que parecia promissor terminou numa cruz. Aquele em quem depositaram confiança foi sepultado. Restou o silêncio. Restou a sensação de que tudo havia acabado.
Quem de nós não conhece algo semelhante? Há momentos em que a vida sofre uma ruptura inesperada: uma perda irreparável, uma enfermidade que nos fragiliza, uma crise familiar, uma decepção profunda. Projetos cuidadosamente construídos parecem desmoronar em questão de dias. É como se estivéssemos diante de um túmulo fechado por uma pedra pesada demais para ser removida. Dentro dele, ficam nossos sonhos; fora dele, permanecemos nós, com perguntas sem resposta.
O tempo, em sua pedagogia discreta, ensina-nos que a fé não se constrói apenas nos grandes entusiasmos, mas na fidelidade cotidiana. É no ordinário dos dias que enfrentamos nossas “sextas-feiras santas” pessoais. E, não raramente, experimentamos aquilo que os místicos chamaram de “noite”: rezamos e não sentimos; buscamos e não encontramos; desejamos consolo, mas apenas silêncio parece responder.
A Escritura não ignora essa experiência. Ao contrário, ela a assume. Quando Maria Madalena vai ao sepulcro “ainda escuro”, ela representa cada coração que procura sentido em meio à penumbra. O Evangelho não romantiza a dor; ele a atravessa. E é justamente nesse cenário que acontece o inesperado: a pedra foi removida.
A Ressurreição não é um retorno ao que era antes. Não se trata de restaurar simplesmente o passado, mas de inaugurar algo radicalmente novo. O Ressuscitado traz consigo as marcas da paixão — as chagas permanecem —, mas já não são sinais de derrota; tornaram-se sinais de amor glorificado. Isso nos ensina que Deus não elimina nossas feridas como quem apaga um erro, mas pode transformá-las em lugares de graça.
O Papa Francisco expressou essa verdade com palavras luminosas: “É precisamente nessa escuridão que Cristo acende o fogo do amor de Deus: um brilho rompe a escuridão e anuncia um novo começo.”
Essa afirmação não é poesia devocional; é teologia encarnada. Deus não age apesar da escuridão, mas no interior dela. Quando pensamos que não há mais saída, quando repetimos interiormente “já não há mais nada a fazer”, o Espírito trabalha silenciosamente. A noite pode parecer longa, mas não é eterna. Há um amanhecer preparado por Deus.
Muitas vezes, o que mais nos paralisa é o peso da culpa. O texto recorda com força que não há mais lugar para o pecado como sentença definitiva. Cristo assumiu nossas quedas, nossas incoerências, nossas traições. Na cruz, carregou aquilo que nos afastava do Pai. E ao ressuscitar, abriu-nos um horizonte novo. As palavras de Jesus — “Pai, perdoa-lhes” — continuam ecoando sobre cada história humana. O perdão não é uma ideia abstrata; é uma possibilidade real de recomeço.
Também não há mais lugar para o medo. A repetição bíblica de “Não tenhais medo” não ignora as ameaças concretas da existência. Vivemos tempos marcados por incertezas econômicas, tensões sociais, crises de sentido. Muitos carregam a ansiedade como companheira constante. Outros enfrentam o medo da doença, da solidão, da morte. No entanto, a fé pascal afirma que nenhuma dessas realidades tem a palavra final. Se Cristo venceu a morte, então nenhuma força contrária pode nos separar do amor de Deus.
Isso não significa ausência de sofrimento. O próprio texto reconhece: talvez você sofra, talvez seja ferido, talvez atravesse perdas reais. A fé cristã não promete imunidade, mas presença. O Ressuscitado caminha conosco. Ele não nos retira do mundo; envia-nos novamente à “Galileia” — símbolo da vida concreta, do trabalho, da família, das responsabilidades diárias. É ali que O encontramos.
No coração dessa mensagem está uma verdade essencial: o amor é a única realidade que permanece. Tudo o mais passa — êxitos, fracassos, reconhecimento, críticas —, mas o amor vivido em Deus permanece. A Ressurreição é o triunfo definitivo do amor. Quando amamos, participamos já da vida eterna. Mesmo que o amor seja rejeitado, ele nunca é estéril. Pode demorar a germinar, pode parecer invisível, mas carrega em si a semente da eternidade.
Essa convicção ilumina profundamente os dias atuais. Em um mundo marcado por polarizações, agressividades e indiferenças, testemunhar o amor torna-se um ato profético. Amar na família quando o diálogo é difícil. Amar no ambiente de trabalho quando prevalece a competição. Amar na sociedade quando o desânimo ameaça dominar. Cada gesto concreto de caridade torna visível o brilho que rompe a escuridão.
O texto convida ainda a uma atitude ativa: “Permanece alegre”, “Dedique-se a semear”, “Comprometa sua vida”. A alegria cristã não é euforia superficial, mas serenidade fundada na vitória de Cristo. Ela nasce da certeza de que nossa história está nas mãos do Pai. Semear o Evangelho significa viver coerentemente, ainda que os frutos não sejam imediatos. Comprometer-se com o projeto do Filho é assumir a lógica do serviço, da justiça, da misericórdia.
O Tempo recorda-nos que a santidade é caminho, não evento isolado. É crescimento progressivo, conversão diária, recomeço constante. O Espírito do Ressuscitado continua operando discretamente, fazendo novas todas as coisas. Ele renova mentalidades, cura memórias, reacende vocações adormecidas. Muitas vezes, essa ação não é espetacular; é silenciosa como a luz que cresce ao amanhecer.
Diante de tudo isso, a fé nos conduz a uma escolha que acontece no mais íntimo do coração:
- Permanecer enclausurados na tristeza ou deixar-nos envolver pela luz serena da Ressurreição?
- Nutrir o medo que nos paralisa ou confiar na fidelidade silenciosa de Deus?
- Continuar fixando os olhos na pedra que julgamos inamovível ou reconhecer, com humilde surpresa, que ela já foi retirada e que um novo horizonte se abre diante de nós?
A fé cristã não nos poupa das noites, mas garante que nenhuma delas é definitiva. Cristo vive. E porque vive, nossa vida não termina diante de sepulcros — sejam eles fracassos, pecados ou perdas. Há sempre um além preparado por Deus.
Que, no cotidiano simples de nossos dias, possamos reconhecer os sinais discretos do Ressuscitado. Que a esperança substitua o lamento. Que o perdão desarme a culpa. Que o amor supere o medo. E que o Espírito, paciente e fiel, continue a fazer novas todas as coisas — começando pelo nosso coração.
Texto: Quique Martínez de la Lama-Noriega, cmf
Fonte: MISSIONÁRIOS CLARETIANOS (CIUDAD REDONDA)
