VI DOMINGO DA PÁSCOA (Ano C)

A PALAVRA

Na quietude do sexto domingo da Páscoa, a liturgia não é apenas uma celebração, mas um eco do coração de Cristo. É como se Jesus, na intimidade da Última Ceia, estendesse Sua mão através dos séculos e sussurrasse aos nossos ouvidos: Eu não vos deixo órfãos (Jo 14,18). Essa promessa não é uma simples consolação, mas um compromisso eterno: Ele continua a caminhar conosco, mesmo quando nossos passos vacilam na escuridão.

O Evangelho (Jo 14,23-29) nos coloca diante de um momento de despedida, mas também de eterna presença. Jesus anuncia sua partida, mas não um abandono. Pelo contrário, é como se Ele dissesse: “Agora, vou habitar em vocês de outro modo”. O Espírito Santo – o Paráclito – não é um substituto, mas a própria presença viva de Cristo que se faz guia, memória e fogo. Ele nos recorda não apenas palavras, mas o sentido profundo do amor que Jesus viveu: o serviço, a misericórdia, a entrega. E assim, mesmo em meio às nossas quedas, o Espírito nos mantém em pé, conduzindo-nos a continuar a obra de Jesus no mundo.

A Primeira Leitura (At 15,1-2.22-29) nos mostra a Igreja primitiva enfrentando um dilema crucial: como acolher os novos convertidos sem impor fardos desnecessários? Aqui, o Espírito age como mestre do discernimento. Não se trata apenas de regras, mas de encontrar o essencial: a graça que liberta, não a lei que oprime. É um convite a perguntarmos hoje: Onde, em nossa vida, estamos complicando o que é simples? Onde insistimos em barreiras que Cristo já derrubou?

E então, a Segunda Leitura (Ap 21,10-14.22-23) nos presenteia com a visão mais bela: a Jerusalém celeste, onde Deus será “tudo em todos” (1Cor 15,28). Não é um castelo distante, mas a realização plena do que já experimentamos em fragmentos – na Eucaristia, no perdão, no amor que nos une. A cidade sem templo nos lembra que o verdadeiro santuário é o próprio Deus, e nós, pedras vivas desse edifício eterno.

Esta liturgia não é apenas uma narrativa, mas um espelho. Se Jesus prometeu estar conosco, por que tantas vezes agimos como se estivéssemos sós? Se o Espírito nos guia, por que resistimos a ouvi-Lo, preferindo nossos próprios caminhos? A Igreja não é um museu de santos, mas uma estrada poeirenta onde pecadores – como eu e você – são transformados pela luz que os precede. 

E no fim, não seremos julgados por quantas regras cumprimos, mas por quanto amamos. Porque a Jerusalém que nos espera não é feita de ouro, mas de abraços – o abraço do Pai, que já começou aqui, na fração do pão, no sorriso partilhado, no perdão que nos faz renascer.

Fonte: Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus

Leituras

Decidimos, o Espírito Santo e nós, não vos impor mais nenhuma obrigação além destas indispensáveis. Neste tempo tão sobrecarregado, acolhamos com confiança esta palavra viva, que nos liberta do excesso, conduzindo-nos à essência do amor que cura, pacifica e renova, como o Espírito Santo sempre inspira.

Naqueles dias:
1 Chegaram alguns da Judeia
e ensinavam aos irmãos de Antioquia, dizendo:
“Vós não podereis salvar-vos,
se não fordes circuncidados,
como ordena a Lei de Moisés”.
2 Isto provocou muita confusão, e houve
uma grande discussão de Paulo e Barnabé com eles.
Finalmente, decidiram que Paulo, Barnabé
e alguns outros fossem a Jerusalém,
para tratar dessa questão
com os apóstolos e os anciãos.
22 Então os apóstolos e os anciãos,
de acordo com toda a comunidade de Jerusalém,
resolveram escolher alguns da comunidade
para mandá-los a Antioquia, com Paulo e Barnabé.
Escolheram Judas, chamado Bársabas, e Silas,
que eram muito respeitados pelos irmãos.
23 Através deles enviaram a seguinte carta:
“Nós, os apóstolos e os anciãos, vossos irmãos,
saudamos os irmãos vindos do paganismo
e que estão em Antioquia
e nas regiões da Síria e da Cilícia.
24 Ficamos sabendo que alguns dos nossos
causaram perturbações com palavras
que transtornaram vosso espírito.
Eles não foram enviados por nós.
25 Então decidimos, de comum acordo,
escolher alguns representantes
e mandá-los até vós,
junto com nossos queridos irmãos Barnabé e Paulo,
26 homens que arriscaram suas vidas
pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo.
27 Por isso, estamos enviando Judas e Silas,
que pessoalmente vos transmitirão a mesma mensagem.
28 Porque decidimos, o Espírito Santo e nós,
não vos impor nenhum fardo,
além destas coisas indispensáveis:
29 abster-se de carnes sacrificadas aos ídolos,
do sangue, das carnes de animais sufocados
e das uniões ilegítimas.
Vós fareis bem se evitardes essas coisas.
Saudações!”
Palavra do Senhor.

Que as nações vos glorifiquem, ó Senhor, que todas as nações vos glorifiquem! Neste clamor universal, reconhecemos a beleza da comunhão entre os povos, convocados a louvar, celebrar e testemunhar a presença amorosa de Deus, que fecunda a terra, consola os corações e transforma toda a humanidade.

R. Que as nações vos glorifiquem, ó Senhor,
    que todas as nações vos glorifiquem!

2 Que Deus nos dê a sua graça e sua bênção, *
e sua face resplandeça sobre nós!
3 Que na terra se conheça o seu caminho *
e a sua salvação por entre os povos. R.

5 Exulte de alegria a terra inteira, *
pois julgais o universo com justiça;
os povos governais com retidão, *
e guiais, em toda a terra, as nações. R.

6 Que as nações vos glorifiquem, ó Senhor, *
que todas as nações vos glorifiquem!
8 Que o Senhor e nosso Deus nos abençoe, *
e o respeitem os confins de toda a terra! R.

Mostrou-me a cidade santa descendo do céu. Diante desta visão sublime, somos convidados a contemplar, com esperança e alegria, a plenitude prometida, onde Deus habita com Seu povo, iluminando a vida e transformando nossos dias com Sua presença eterna.

10 Um anjo me levou em espírito
a uma montanha grande e alta.
Mostrou-me a cidade santa, Jerusalém,
descendo do céu, de junto de Deus,
11 brilhando com a glória de Deus.
Seu brilho era como o de uma pedra preciosíssima,
como o brilho de jaspe cristalino.
12 Estava cercada por uma muralha maciça e alta,
com doze portas.
Sobre as portas estavam doze anjos,
e nas portas estavam escritos os nomes
das doze tribos de Israel.
13 Havia três portas do lado do oriente,
três portas do lado norte,
três portas do lado sul
e três portas do lado do ocidente.
14 A muralha da cidade tinha doze alicerces,
e sobre eles estavam escritos
os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro.
22 Não vi templo na cidade,
pois o seu Templo é o próprio Senhor,
o Deus Todo-poderoso, e o Cordeiro.
23 A cidade não precisa de sol,
nem de lua que a iluminem,
pois a glória de Deus é a sua luz
e a sua lâmpada é o Cordeiro.
Palavra do Senhor.

O Espírito Santo vos recordará tudo o que eu vos tenho dito. Em meio às incertezas do presente, acolhamos esta promessa viva: o Espírito nos conduz, consola e faz arder no coração a memória do amor de Cristo, fonte eterna de paz e esperança renovada.

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos:
23 “Se alguém me ama,
guardará a minha palavra,
e o meu Pai o amará,
e nós viremos e faremos nele a nossa morada.
24 Quem não me ama,
não guarda a minha palavra.
E a palavra que escutais não é minha,
mas do Pai que me enviou.
25 Isso é o que vos disse enquanto estava convosco.
26 Mas o Defensor, o Espírito Santo,
que o Pai enviará em meu nome,
ele vos ensinará tudo
e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito.
27 Deixo-vos a paz,
a minha paz vos dou;
mas não a dou como o mundo.
Não se perturbe nem se intimide o vosso coração.
28 Ouvistes que eu vos disse:
‘Vou, mas voltarei a vós’.
Se me amásseis,
ficaríeis alegres porque vou para o Pai,
pois o Pai é maior do que eu.
29 Disse-vos isto, agora, antes que aconteça,
para que, quando acontecer,
vós acrediteis”.
Palavra da Salvação.

Homilia

DIGNO DE AMOR E MAIS ATUAL QUE A IGREJA

Se alguém me ama, meu Pai o amará, e viremos a ele e faremos nele nossa morada. Por isso, a pergunta que a Sagrada Escritura nos lança hoje é: Amamos verdadeiramente a Jesus? Não respondamos com pressa! Meditemos antes!

Dividirei esta homilia em três partes:

  • Amar a Jesus?
  • O acesso emocional a Ele
  • Razão de amor

AMAR A JESUS?

A quem me ama, meu Pai o amará.” Jesus nos revelou que o amor de Deus Pai está garantido àqueles que O amam. Mas… não é verdade que, aparentemente, dois mil anos nos separam de Jesus? Será, então, possível amá-Lo de verdade?

Em Seu tempo, muitos O amaram profundamente, caminharam ao Seu lado, seguiram-No com fidelidade. Não foram poucos os que entregaram, com coragem e esperança, a própria vida por causa de Jesus.

Hoje, neste tempo pascal, em que celebramos a vitória da Vida sobre a morte, Ele também nos interpela, com a mesma ternura com que falou a Pedro: “Tu me amas?” (cf. Jo 21,15).

Essa pergunta ecoa em nosso coração e nos convida a uma resposta pessoal, sincera e apaixonada, iluminando os desafios de amar a Cristo em meio às incertezas, esperanças e buscas do nosso tempo.

Que, fortalecidos pela alegria da Ressurreição, saibamos contemplar este chamado com emoção e profundidade, renovando, a cada dia, nosso amor por Aquele que nos amou primeiro.

O ACESSO EMOCIONAL A ELE

Nossa fé não é apenas intelectual; ela é, sobretudo, emocional. Cremos em Jesus não apenas por conhecimentos teológicos, mas porque Ele nos toca, nos comove, nos emociona. Amá-Lo é deixar-se emocionar profundamente.

Jesus é digno de amor porque é mais moderno e atual do que a própria Igreja” — disse Johan Baptist Metz. Amá-Lo é sonhar com um mundo novo, é contemplar a história com uma esperança quase louca naquilo que ainda virá.

Quem segue Jesus percebe, com admiração, que o universo inteiro se sustenta num ato contínuo e infinitamente paciente de amor; que é o amor que permite a existência prosseguir, que é o amor que “move o sol e todas as outras estrelas”, como dizia Dante.

O Deus Amor é o fundamento da nossa existência, é a razão última do nosso ser. Deus “está tão perto de ti como as veias do teu pescoço”, como proclama o livro sagrado, o Corão.

Neste tempo pascal, quando a Igreja celebra a vitória da Vida, somos convidados a redescobrir esta verdade eterna: somos sustentados pelo Amor e chamados, hoje mais do que nunca, a sermos testemunhas desse Amor que não passa.

RAZÃO DE AMOR

O grande teólogo Karl Barth descrevia Jesus como “nosso contemporâneo“. É o Espírito Santo que O traz para o nosso tempo e espaço. Sobre Jesus não deveríamos dizer: “tão fascinante que é impossível conhecê-Lo por completo!”. Ele é o Criador presente no meio de Sua criação e, paradoxalmente, submisso a todas as suas limitações.

Com frequência, Ele dizia: “não tenhais medo” e ensinava a arte da não-violência: “se alguém te pedir a capa, dá-lhe também a túnica“; “se alguém te ferir na face direita, oferece-lhe também a esquerda” (cf. Mt 5,39).

Transmitia Suas lições pelos caminhos, nos prados – onde as ovelhas pastam -, sobre um monte ou numa planície, mas também no Templo. Com as bem-aventuranças, ensinava o sublime e desafiador “arte da felicidade”.

Desejava formar uma comunidade onde a violência fosse superada e deixasse de existir. Quando alguém Lhe perguntou: “então, quem poderá salvar-se?“, Ele respondeu com esperança inabalável: “Para os homens é impossível; mas para Deus tudo é possível!” (cf. Mt 19,25-26).

Jesus demonstrava uma desconcertante despreocupação quanto às questões da sexualidade, conduzindo Sua própria vida afetiva com a simplicidade de quem a deixa, discretamente, fora da narrativa. No entanto, rejeitou explicitamente o divórcio.

Sobre a corrupção, preocupavam-Lhe aqueles que eram como “sepulcros caiados”, belos por fora, mas corrompidos por dentro. Para Jesus, o amor é mais forte do que a morte – esta é a certeza pascal que, hoje, nos ilumina e impulsiona a viver como comunidade de ressuscitados.

CONCLUÇÃO

Deus Pai, que é Amor, nos ama quando Jesus nos entusiasma, quando O seguimos, quando O amamos e estabelecemos com Ele uma profunda amizade.

As palavras e ensinamentos de Jesus são vida em abundância; são alento que renova e fortalece a esperança em meio aos desafios do tempo presente.

Quem ama Jesus torna-se Morada de Deus, lugar sagrado onde o Espírito habita e age.

E quando Deus está conosco, verdadeiramente, não há o que temer: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (cf. Rm 8,31).

Que, neste VI Domingo da Páscoa, celebremos com alegria essa presença amorosa que nos conduz, transformando nossa existência em testemunho vivo da Ressurreição.

Texto: JOSÉ CRISTO REY GARCÍA PAREDES
Fonte: ECOLOGÍA DEL ESPÍRITU
Este artigo foi produzido com a assistência de ferramentas de inteligência artificial.