XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A)

A PALAVRA

Quem conduz a história da humanidade? São os poderosos, que procuram impor suas vontades, ou é Deus, Senhor da vida e da criação? Diante das guerras, das injustiças e da indiferença diante do sofrimento humano, a Palavra deste domingo nos recorda que nenhum poder é absoluto, pois somente Deus é o Senhor da história.

Na primeira leitura, o profeta Isaías anuncia a libertação do povo exilado na Babilônia. Deus escolhe Ciro, rei da Pérsia, como instrumento para abrir caminhos de liberdade. Mesmo sendo estrangeiro, Ciro participa dos desígnios divinos. Aprendemos, assim, que Deus pode agir por caminhos inesperados e utilizar pessoas diferentes de nós para realizar seus projetos de justiça e libertação.

No Evangelho, Jesus é questionado sobre o pagamento de impostos ao imperador romano. Sua resposta ultrapassa a questão política e revela uma verdade fundamental:

“Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21).

Jesus nos ensina que temos responsabilidades na sociedade, mas precisamos reconhecer a primazia de Deus em nossa vida. Dar a César o que lhe pertence significa cumprir nossos deveres como cidadãos; dar a Deus o que lhe pertence significa entregar-lhe o coração, orientar nossas escolhas pelo Evangelho e respeitar a dignidade de cada pessoa.

Em nossos dias, o dinheiro, o poder e o reconhecimento social podem ocupar o lugar que pertence ao Senhor. Por isso, precisamos perguntar: a quem temos entregado nosso coração? Nossa fé transforma nossas atitudes ou permanece apenas nas palavras?

Na segunda leitura, São Paulo destaca a fé ativa, a caridade operosa e a esperança perseverante da comunidade de Tessalônica (1Ts 1,2-5). Esses sinais continuam indispensáveis à vida cristã. A fé verdadeira transforma atitudes, a caridade aproxima pessoas e a esperança nos fortalece diante das dificuldades.

Neste domingo, somos convidados a reconhecer Deus em nossas relações, no trabalho, na família e no compromisso com os mais necessitados. A fé não nos afasta do mundo; compromete-nos com sua transformação.

Deus não nos pede que abandonemos o mundo, mas que o transformemos com a força do seu amor. Que nossas escolhas testemunhem que nenhum poder vale mais do que a dignidade humana e que servir a Deus significa construir, diariamente, caminhos de justiça, fraternidade e paz.

Fonte: Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus

Leituras

Nas trevas das incertezas presentes, a palavra divina abraça nossas dores humanas e guia nossos passos, revelando que mesmo no desconhecimento, o Criador nos chama pelo nome para iluminar toda a criação.

1 Isto diz o Senhor sobre Ciro, seu Ungido:
“Tomei-o pela mão
para submeter os povos ao seu domínio,
dobrar o orgulho dos reis,
abrir todas as portas à sua marcha,
e para não deixar trancar os portões.
4 Por causa de meu servo Jacó,
e de meu eleito Israel, chamei-te pelo nome;
reservei-te, e não me reconheceste.
5 Eu sou o Senhor, não existe outro:
fora de mim não há deus.
Armei-te guerreiro, sem me reconheceres,
6 para que todos saibam, do oriente ao ocidente,
que fora de mim outro não existe.
Eu sou o Senhor, não há outro”.
Palavra do Senhor.

Nas sombras do cotidiano, a alma desperta ao cantar glórias ao Senhor, discernindo sua soberania amorosa que transforma nossas fragilidades humanas em viva esperança para guiar com luz cada passo do nosso caminho.

R. Ó família das nações, dai ao Senhor poder e glória!

1 Cantai ao Senhor Deus um canto novo, *
2a cantai ao Senhor Deus, ó terra inteira!
3 manifestai a sua glória entre as nações, *
e entre os povos do universo seus prodígios! R.

4 Pois Deus é grande e muito digno de louvor,*
é mais terrível e maior que os outros deuses,
5 porque um nada são os deuses dos pagãos. *
Foi o Senhor e nosso Deus quem fez os céus. R.
 
7 Ó família das nações, dai ao Senhor, *
ó nações, dai ao Senhor poder e glória,
8 dai-lhe a glória que é devida ao seu nome! *
Oferecei um sacrifício nos seus átrios. R.
 
9 Adorai-o no esplendor da santidade, *
terra inteira, estremecei diante dele!
10a Publicai entre as nações: “Reina o Senhor!” *
  c pois os povos ele julga com justiça. R.

Na aridez dos tempos atuais, o amor divino acolhe nossas aflições, concedendo-nos discernimento espiritual e fé viva para transformar a fragilidade humana na esperança luminosa que guia nossos passos rumo à eternidade.

1 Paulo, Silvano e Timóteo,
à Igreja dos tessalonicenses,
reunida em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo:
a vós, graça e paz!
2 Damos graças a Deus por todos vós,
lembrando-vos sempre em nossas orações.
3 Diante de Deus, nosso Pai,
recordamos sem cessar a atuação da vossa fé,
o esforço da vossa caridade e a firmeza 
da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo.
4 Sabemos, irmãos amados por Deus,
que sois do número dos escolhidos.
5b Porque o nosso evangelho não chegou até vós
somente por meio de palavras,
mas também mediante a força que é o Espírito Santo;
e isso, com toda a abundância.
Palavra do Senhor.

Perante os dilemas e divisões do mundo atual, o discernimento da palavra liberta nossa consciência, ensinando-nos a entregar a Deus a integridade do coração para guiar cada passo da nossa caminhada diária.

Naquele tempo,
15 Os fariseus fizeram um plano
para apanhar Jesus em alguma palavra.
16 Então mandaram os seus discípulos,
junto com alguns do partido de Herodes,
para dizerem a Jesus:
“Mestre, sabemos que és verdadeiro
e que, de fato, ensinas o caminho de Deus.
Não te deixas influenciar pela opinião dos outros,
pois não julgas um homem pelas aparências.
17 Dize-nos, pois, o que pensas:
É lícito ou não pagar imposto a César?”
18 Jesus percebeu a maldade deles e disse: “Hipócritas!
Por que me preparais uma armadilha?
19 Mostrai-me a moeda do imposto!”
Levaram-lhe então a moeda.
20 E Jesus disse:
“De quem é a figura e a inscrição desta moeda?”
21 Eles responderam: “De César”.
Jesus então lhes disse:
“Dai pois a César o que é de César,
e a Deus o que é de Deus”.
Palavra da Salvação.

HOMILIA

UM POVO QUE NÃO ESTÁ À VENDA: DEVOLVER O EFÊMERO E ENTREGAR O CORAÇÃO

A liturgia do XXIX Domingo do Tempo Comum (Ano A) coloca diante do nosso coração inquieto uma das cenas mais emblemáticas e provocativas do Santo Evangelho. Frequentemente, aproximamo-nos de Jesus trazendo as dúvidas, as angústias e as divisões do nosso próprio tempo.

Queremos respostas políticas prontas, fórmulas diretas sobre em quem votar, quais ideologias abraçar ou quais bandeiras defender no debate público. No entanto, com a sabedoria serena e o amor infinito que desarmam nossas certezas superficiais, o Mestre desconcerta os nossos esquemas humanos.

Ao olharmos com fé para o Evangelho de São Mateus, ouvimos a sua resposta transformadora: «Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus» (Mt 22,21).

À primeira vista, essa palavra pode parecer uma simples divisão burocrática ou territorial, como se a realidade do mundo estivesse repartida em duas metades distintas: uma secular, entregue aos governantes materiais, e outra sagrada, reservada às orações do templo. Mas a teologia de Cristo vai infinitamente além.

Absolutamente nada no universo deixa de pertencer ao Criador. Jesus nunca nos deu receitas fáceis ou comodismos; Ele nos presenteou com algo muito maior: a dignidade do discernimento e o esforço interior de buscar a verdade e implicar ativamente a própria vida no Reino de Deus.

A imagem revela: a moeda carrega a face do imperador e as nossas obrigações terrenas, mas as mãos enrugadas e a vida inteira pertencem a Deus. Cumpra os seus deveres, mas entregue o coração ao Criador.

A grande chave espiritual desta passagem reside em um gesto radical e profundamente libertador: “Devolvei a César as suas moedas”. Que os imperadores e os poderes do mundo fiquem com aquilo que lhes pertence! Afinal, a moeda fria do império carrega estampada a imagem, o nome e a inscrição do César humano.

Contudo, aquilo que pertence verdadeiramente a Deus – mais do que a terra inteira, os impérios ou as riquezas materiais – é o seu povo amado. Cada ser humano traz gravada, no mais íntimo e sagrado da alma, a imagem e a semelhança do próprio Criador. Nós somos um povo de Deus que não está à venda em mercado algum, resgatado por um amor de Aliança fiel e eterno. É o ciúme santo de um Pai apaixonado que não aceita divisões e nos pede uma entrega sem reservas.

Essa fidelidade divina manifesta-se de maneiras surpreendentes ao longo de toda a história da salvação. Na Primeira Leitura, o profeta Isaías contempla a dor de Israel no desterro da Babilônia: o Templo de Jerusalém em ruínas, a esperança do povo despedaçada e a dignidade humana pisoteada.

E quem o Senhor levanta para libertar o seu povo? Ciro, um rei pagão que sequer conhecia a fé e o nome do Deus de Israel, como nos recorda a Sagrada Escritura: «Assim fala o Senhor ao seu ungido, a Ciro, a quem tomei pela mão direita… Eu te chamei pelo teu nome; dei-te um título de glória, sem que me conhecesses» (Is 45,1.4). Sem pedir licença às nossas convenções humanas, Deus manifesta a sua soberania absoluta e cumpre as suas promessas através de caminhos e pessoas totalmente inesperados.

Quando rezamos no Pai-Nosso “santificado seja o Vosso nome”, pedimos exatamente isso: que o próprio Senhor mostre a sua fidelidade obstinada e restaure o valor sagrado da vida humana.

A imagem revela que, em meio à cidade e às obrigações do cotidiano, a Palavra de Deus ilumina um caminho seguro de fé e esperança. Cumpra os seus deveres no mundo, mas caminhe sempre sob a luz do Criador.

No entanto, o drama da existência humana revela também o reverso doloroso dessa moeda. Ao longo dos séculos, surgem constantemente césares, governantes e ideologias que tentam ocupar o lugar que pertence unicamente a Deus, instrumentalizando a fé e o sagrado para subjugar, dominar e oprimir as consciências.

O grande bispo Santo Agostinho, ao refletir sobre a fragilidade e as injustiças dos impérios humanos na sua obra monumental A Cidade de Deus (Livro IV, capítulo 4), deixou-nos um alerta profético que ecoa com força estarrecedora em nossos dias contemporâneos: «QUITADA A JUSTIÇA, O QUE SÃO OS REINOS SENÃO GRANDES BANDAS DE LADRÕES?». Quando a ação política se desvincula da justiça social, do bem comum e do cuidado com os mais pobres, ela perverte sua vocação e desfigura a imagem divina na humanidade.

Por essa razão, a Igreja, chamada a ser luz que ilumina as trevas dos dias de hoje, não pode jamais trilhar as estradas do domínio, da arrogância ou do despotismo. Na Primeira Carta aos Tessalonicenses, o apóstolo São Paulo mostra-nos a verdadeira face do serviço evangélico. Ele se une a Silvano e Timóteo para olhar com reverência e emoção para a comunidade de fé: «Damos contínuas graças a Deus por todos vós, lembrando-nos sem cessar da vossa fé atuante, do vosso amor dedicado e da vossa firme esperança em nosso Senhor Jesus Cristo» (1Ts 1,2-3).

Este é o único estilo autêntico de evangelizar: caminhar juntos em fraternidade, descobrir primeiro a ação da graça no coração do irmão, viver a autoridade unicamente como serviço humilde e jamais exercê-la como busca de poder ou controle sobre o outro.

A imagem mostra que dar a Deus o que é d’Ele exige viver a comunhão e a fraternidade em comunidade. Ao partilhar o pão e acolher a todos sem distinção, expressamos o verdadeiro amor e serviço ao Criador.

Irmãos e irmãs caríssimos, neste tempo moderno marcado por tantos ruídos, divisões e incertezas, a atitude mais audaz, corajosa e libertadora é a daquele que sabe que já tem um dono – e que Pai amoroso nós temos no céu! O Deus que nos criou por amor jamais nos abandona às próprias forças ou às tempestades da história humana. Quando o nosso coração está inteiramente entregue ao Senhor, cada voto consciente de cidadania, cada esforço honesto no trabalho diário e cada palavra de reconciliação tornam-se uma oração viva e encarnada. Ao recusarmos vender nossa alma e nossa dignidade às ilusões passageiras do mundo, proclamamos com a nossa própria vida a glória do Criador: Santificado seja para sempre o Vosso Santo Nome!

Texto de:  JOSÉ CRISTO REY GARCÍA PAREDES
Fonte: ECOLOGÍA DEL ESPÍRITU

Este artigo foi produzido com a assistência de ferramentas de inteligência artificial.