V DOMINGO DA QUARESMA – (ANO A)

A PALAVRA

A caminhada quaresmal avança e, na quinta etapa deste itinerário espiritual, a Palavra de Deus volta a tocar o coração humano com um apelo claro e exigente: converter-se. Não se trata apenas de mudar alguns hábitos exteriores, mas de permitir que Deus nos conduza novamente à vida. A Quaresma recorda-nos que, muitas vezes, carregamos dentro de nós pequenos “túmulos”: feridas antigas, desânimos, pecados repetidos, acomodação espiritual. São lugares onde a esperança parece ter sido sepultada. Contudo, é precisamente aí que Deus deseja entrar.

Na primeira leitura (Ez 37,12-14), o profeta Ezequiel ergue a voz em meio ao drama do exílio. O povo de Judá encontra-se longe da sua terra, desanimado, sem horizonte. A sensação é de morte coletiva: sonhos destruídos, identidade ferida, futuro incerto. E é nesse cenário que Deus pronuncia uma promessa surpreendente: “Vou abrir os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar, ó meu povo.” Não é apenas uma metáfora; é uma revelação profunda do coração de Deus. O Senhor não se conforma com a morte do seu povo. Ele entra nos lugares onde pensamos que tudo terminou e ali faz nascer algo novo. Quantas vezes, também na nossa vida, acreditamos que certas situações não têm solução – uma relação quebrada, uma culpa que pesa, uma esperança que se perdeu. A promessa de Deus continua a ecoar: Ele é capaz de abrir túmulos.

O Evangelho (Jo 11,1-45) aprofunda ainda mais esta esperança ao apresentar-nos o episódio de Lázaro, amigo de Jesus. Não é apenas um milagre impressionante; é uma verdadeira catequese sobre quem é Cristo. Diante do sofrimento de Marta e Maria, Jesus não se mantém distante. Ele chora. Esse detalhe é profundamente humano e revela que Deus não observa a nossa dor de longe. Ele entra nela. E então pronuncia palavras que atravessam os séculos: Eu sou a ressurreição e a vida.” Não diz apenas que traz vida; Ele próprio é a vida. Seguir Jesus significa caminhar com Aquele que tem poder sobre tudo aquilo que parece definitivo, inclusive a morte.

São Paulo, na segunda leitura (Rm 8,8-11), recorda-nos que esta vida nova não é apenas uma promessa futura. Ela começa já agora. No dia do nosso batismo fomos introduzidos numa nova realidade: a vida no Espírito. Viver segundo o Espírito significa deixar que Deus molde as nossas escolhas, ilumine os nossos passos e transforme o nosso coração.

Assim, a Quaresma torna-se um convite concreto: sair dos túmulos interiores e caminhar com Cristo. Porque, onde Ele entra, a morte nunca tem a última palavra. E quem se deixa conduzir por Ele descobre que a verdadeira vida começa precisamente quando confiamos plenamente em Deus.

Fonte: Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus

Leituras

Quando a esperança parece sepultada nas crises da vida, Deus sussurra ao coração cansado: “Abrirei os vossos túmulos e vos farei levantar, ó meu povo”, lembrando-nos que seu Espírito sempre recria vida onde pensávamos existir apenas fim.

12 Assim fala o Senhor Deus:
“Ó meu povo, vou abrir as vossas sepulturas
e conduzir-vos para a terra de Israel;
13 e quando eu abrir as vossas sepulturas
e vos fizer sair delas, sabereis que eu sou o Senhor.
14 Porei em vós o meu espírito,
para que vivais e vos colocarei em vossa terra.
Então sabereis que eu, o Senhor, digo e faço
– oráculo do Senhor”.
Palavra do Senhor.

Das profundezas das nossas noites interiores clamamos a Deus, sustentados pela esperança que não falha, pois “no Senhor se encontra toda graça e copiosa redenção”, capaz de levantar corações cansados e renovar a vida.

R. No Senhor, toda graça e redenção!

1 Das profundezas eu clamo a vós, Senhor,*
2 escutai a minha voz!
Vossos ouvidos estejam bem atentos*
ao clamor da minha prece! R.
 
3 Se levardes em conta nossas faltas,*
quem haverá de subsistir?
4 Mas em vós se encontra o perdão,*
eu vos temo e em vós espero. R.
 
5 No Senhor ponho a minha esperança,*
espero em sua palavra.
6 A minh’alma espera no Senhor *
mais que o vigia pela aurora. R.
 
7 Espere Israel pelo Senhor,*
mais que o vigia pela aurora!
Pois no Senhor se encontra toda graça
e copiosa redenção.
8 Ele vem libertar a Israel*
de toda a sua culpa. R.

Quando o coração se deixa conduzir pelo Espírito de Deus, até as fragilidades humanas se transformam em esperança, pois “se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus habita em vós, Ele dará vida também aos vossos corpos mortais”.

Irmãos:
8 Os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus.
9 Vós não viveis segundo a carne,
mas segundo o Espírito,
se realmente o Espírito de Deus mora em vós.
Se alguém não tem o Espírito de Cristo,
não pertence a Cristo.
10 Se, porém, Cristo está em vós,
embora vosso corpo esteja ferido de morte
por causa do pecado,
vosso espírito está cheio de vida, graças à justiça.
11 E, se o Espírito daquele
que ressuscitou Jesus dentre os mortos mora em vós,
então aquele que ressuscitou 
Jesus Cristo dentre os mortos 
vivificará também vossos corpos mortais
por meio do seu Espírito que mora em vós.
Palavra do Senhor.

Quando a dor parece fechar todas as portas da esperança, Cristo aproxima-se do nosso luto e sussurra ao coração humano: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim viverá”, transformando lágrimas em esperança.

 
Naquele tempo,
1 havia um doente, Lázaro, que era de Betânia,
o povoado de Maria e de Marta, sua irmã.
2 Maria era aquela que ungira o Senhor com perfume
e enxugara os pés dele com seus cabelos.
O irmão dela, Lázaro, é que estava doente.
3 As irmãs mandaram então dizer a Jesus:
“Senhor, aquele que amas está doente”.
4 Ouvindo isto, Jesus disse:
“Esta doença não leva à morte;
ela serve para a glória de Deus,
para que o Filho de Deus seja glorificado por ela”.
5 Jesus era muito amigo de Marta,
de sua irmã Maria e de Lázaro.
6 Quando ouviu que este estava doente, 
Jesus ficou ainda dois dias no lugar onde se encontrava.
7 Então, disse aos discípulos:
“Vamos de novo à Judeia”.
8 Os discípulos disseram-lhe:
“Mestre, ainda há pouco os judeus queriam
apedrejar-te, e agora vais outra vez para lá?”
9 Jesus respondeu:
“O dia não tem doze horas?
Se alguém caminha de dia, não tropeça,
porque vê a luz deste mundo.
10 Mas se alguém caminha de noite, tropeça,
porque lhe falta a luz”.
11 Depois acrescentou:
“O nosso amigo Lázaro dorme. Mas eu vou acordá-lo”.
12 Os discípulos disseram:
“Senhor, se ele dorme, vai ficar bom”.
13 Jesus falava da morte de Lázaro,
mas os discípulos pensaram que falasse do sono mesmo.
14 Então Jesus disse abertamente:
“Lázaro está morto.
15 Mas por causa de vós, alegro-me por não ter estado lá,
para que creiais. Mas vamos para junto dele”.
16 Então Tomé, cujo nome significa Gêmeo,
disse aos companheiros:
“Vamos nós também para morrermos com ele”.
17 Quando Jesus chegou,
encontrou Lázaro sepultado havia quatro dias.
18 Betânia ficava a uns três quilômetros de Jerusalém.
19 Muitos judeus tinham vindo à casa de Marta e Maria
para as consolar por causa do irmão.
20 Quando Marta soube que Jesus tinha chegado,
foi ao encontro dele.
Maria ficou sentada em casa.
21 Então Marta disse a Jesus:
“Senhor, se tivesses estado aqui,
meu irmão não teria morrido.
22 Mas mesmo assim, eu sei que
o que pedires a Deus, ele to concederá”.
23 Respondeu-lhe Jesus: “Teu irmão ressuscitará”.
24 Disse Marta:
“Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia”.
25 Então Jesus disse:
“Eu sou a ressurreição e a vida.
Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá.
26 E todo aquele que vive e crê em mim,
não morrerá jamais. Crês isto?”
27 Respondeu ela: “Sim, Senhor, eu creio firmemente
que tu és o Messias, o Filho de Deus,
que devia vir ao mundo”.
28 Depois de ter dito isto,
ela foi chamar a sua irmã, Maria, dizendo baixinho:
“O Mestre está aí e te chama”.
29 Quando Maria ouviu isso,
levantou-se depressa e foi ao encontro de Jesus.
30 Jesus estava ainda fora do povoado,
no mesmo lugar onde Marta se tinha encontrado com ele.
31 Os judeus que estavam em casa consolando-a,
quando a viram levantar-se depressa e sair,
foram atrás dela,
pensando que fosse ao túmulo para ali chorar.
32 Indo para o lugar onde estava Jesus,
quando o viu, caiu de joelhos diante dele e disse-lhe:
“Senhor, se tivesses estado aqui,
o meu irmão não teria morrido”.
33 Quando Jesus a viu chorar, 
e também os que estavam com ela, estremeceu interiormente,
ficou profundamente comovido,
34 e perguntou: “Onde o colocastes?”
Responderam: “Vem ver, Senhor”.
35 E Jesus chorou.
36 Então os judeus disseram:
“Vede como ele o amava!”
37 Alguns deles, porém, diziam:
“Este, que abriu os olhos ao cego, 
não podia também ter feito com que Lázaro não morresse?”
38 De novo, Jesus ficou interiormente comovido.
Chegou ao túmulo.
Era uma caverna, fechada com uma pedra.
39 Disse Jesus: “Tirai a pedra!”
Marta, a irmã do morto, interveio:
“Senhor, já cheira mal. Está morto há quatro dias”.
40 Jesus lhe respondeu:
“Não te disse que, se creres,
verás a glória de Deus?”
41 Tiraram então a pedra.
Jesus levantou os olhos para o alto e disse:
“Pai, eu te dou graças porque me ouviste.
42 Eu sei que sempre me escutas.
Mas digo isto por causa do povo que me rodeia,
para que creia que tu me enviaste”.
43 Tendo dito isso, exclamou com voz forte:
“Lázaro, vem para fora!”
44 O morto saiu,
atado de mãos e pés com os lençóis mortuários
e o rosto coberto com um pano.
Então Jesus lhes disse:
“Desatai-o e deixai-o caminhar!”
45 Então, muitos dos judeus que tinham ido à casa de Maria
e viram o que Jesus fizera, creram nele.
Palavra da Salvação.

Homilia

A VIDA QUE DEUS FAZ NASCER NO MEIO DA MORTE

A liturgia deste quinto domingo da Quaresma faz ecoar uma palavra que atravessa toda a Escritura como um grito de esperança: VIDA. Quando nos aproximamos da Semana Santa – tempo em que contemplamos a paixão e a morte de Cristo – a Palavra de Deus surpreende o nosso coração ao anunciar que a morte não tem a última palavra.

O profeta Ezequiel fala a um povo abatido pelo exílio. Israel sente-se como um campo de ossos secos, um povo sem futuro, sem força, sem esperança. E, no entanto, é justamente nesse cenário de desolação que Deus se revela como Aquele que recria a vida. Ele diz com ternura e autoridade: Abrirei os vossos túmulos e deles vos farei sair, ó meu povo; porei em vós o meu Espírito e vivereis.” (Ez 37,12.14).

Essa promessa não pertence apenas ao passado. Ela continua a ressoar hoje, nas realidades concretas do nosso mundo. Quantas vezes também nós nos sentimos como aquele vale de ossos secos: quando a esperança parece esgotada, quando as feridas da vida nos deixam cansados, quando olhamos ao redor e vemos tanta dor, tanta injustiça e tanta solidão.

O Evangelho deste domingo apresenta-nos um dos sinais mais comoventes do amor de Jesus: a ressurreição de Lázaro. Marta e Maria enviam uma mensagem simples e cheia de confiança: Senhor, aquele que amas está doente.” (Jo 11,3). No entanto, Jesus parece demorar. Quando finalmente chega, Lázaro já está morto há quatro dias.

Essa demora de Jesus muitas vezes nos desconcerta. Também nós já experimentamos momentos em que rezamos e parece que Deus se atrasa. Pedimos cura, pedimos paz, pedimos justiça – e o silêncio parece prolongar-se. Quantos “Lázaros” continuam hoje esperando: crianças que passam fome, jovens presos nas armadilhas das drogas e do vazio, idosos esquecidos na solidão, famílias marcadas pela guerra, migrantes que deixam sua terra em busca de dignidade.

A pergunta brota inevitavelmente do coração humano: Onde estás, Senhor?

Mas o Evangelho revela algo profundamente humano e divino ao mesmo tempo. Diante do túmulo do amigo, Jesus não permanece distante. O texto diz simplesmente: Jesus chorou.” (Jo 11,35). Deus não é indiferente à dor do mundo. Ele entra nela. Ele partilha as nossas lágrimas.

Então Jesus pronuncia a palavra decisiva: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que tenha morrido, viverá.” (Jo 11,25).

Com essa afirmação, Cristo revela que a vida verdadeira não depende apenas das circunstâncias externas. A vida nasce da comunhão com Ele. Por isso, quando chama Lázaro para fora do túmulo, Jesus não realiza apenas um milagre: Ele antecipa o mistério da Páscoa.

De certa forma, todos nós carregamos dentro de nós pequenos túmulos. Há esperanças enterradas, relações feridas, pecados que nos aprisionam, medos que nos impedem de viver plenamente. A Quaresma é o tempo em que Cristo se aproxima desses lugares escondidos da nossa história e repete, com a mesma autoridade: “SAI PARA FORA.”

Mas há um detalhe importante no Evangelho. Depois que Lázaro sai do túmulo, Jesus diz aos que estavam ao redor: Desatai-o e deixai-o caminhar.” (Jo 11,44). A vida nova que Deus nos dá também passa pelas mãos e pelo coração da comunidade. Somos chamados a ajudar uns aos outros a retirar as faixas que aprisionam a vida: a indiferença, a injustiça, o egoísmo.

Assim, este domingo torna-se um convite profundo à esperança. Mesmo quando parece que Deus se atrasa, Ele nunca abandona seus amigos. Seu tempo não é o nosso, mas sua fidelidade nunca falha.

E no coração de cada sofrimento humano continua a ecoar a pergunta que Jesus dirigiu a Marta – uma pergunta que também chega até nós hoje: Eu sou a ressurreição e a vida. Você acredita nisso? (Jo 11,25-26).

Textos de referência:
JOSÉ CRISTO REY GARCÍA PAREDES
Fonte: ECOLOGÍA DEL ESPÍRITU

QUIQUE MARTÍNEZ DE LA LAMA-NORIEGA, CMF  
Fonte: MISSIONÁRIOS CLARETIANOS (CIUDAD REDONDA)

Este artigo foi produzido com a assistência de ferramentas de inteligência artificial.