SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR (ANO A)

A PALAVRA

A Solenidade da Ascensão do Senhor não é uma despedida, mas a revelação do destino glorioso da humanidade redimida. Ao contemplarmos Cristo que sobe aos céus, somos convidados a compreender que o amor vivido até o extremo não termina na morte, mas culmina na comunhão plena com Deus. A Ascensão proclama que o caminho percorrido por Jesus é também o nosso caminho.

No Evangelho (Mt 28,16-20), o Ressuscitado encontra os discípulos no monte da Galileia. Ali, entre adoração e reverência, recebem a missão que atravessaria os séculos: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, pois, fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28,18-19). A Igreja nasce desse encontro entre contemplação e envio. Quem reconhece Cristo como Senhor não pode permanecer imóvel.

Na primeira leitura (At 1,1-11), essa verdade e reforçada: “Homens da Galileia, por que ficais aí parados, olhando para o céu?” (At 1,11). A pergunta ecoa também hoje, em um mundo marcado por crises e incertezas. A fé cristã não é fuga da realidade, mas compromisso transformador. Não somos chamados a uma espiritualidade alienante, mas a uma presença ativa no meio da sociedade, promovendo justiça, reconciliação e esperança.

Na segunda leitura (Ef 1,17-23) São Paulo recorda que fomos chamados a uma esperança concreta: “Que Ele ilumine os olhos do vosso coração, para que saibais qual é a esperança à qual fostes chamados” (Ef 1,18). Essa esperança não é abstrata; ela se realiza na comunhão com Cristo, Cabeça da Igreja, e na unidade entre os irmãos. “Ele é a cabeça do corpo, que é a Igreja” (Ef 1,22-23). Cada batizado torna-se membro vivo desse Corpo, sinal visível da presença do Senhor no mundo.

A Ascensão, portanto, não significa ausência, mas nova forma de presença. Cristo promete: Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20). Essa promessa sustenta os que enfrentam dificuldades e inspira coragem diante dos desafios contemporâneos.

Celebrar a Ascensão é viver com os olhos voltados para o céu e os pés firmes na terra. É assumir a missão de continuar o projeto libertador de Deus, transformando a história com gestos concretos de amor. Assim, caminhamos na esperança da vida plena, certos de que nossa meta é a comunhão eterna com Deus.

Fonte: Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus

Leituras

A Ascensão revela que Cristo nos envia ao mundo com esperança ardente, para transformar a história com fé viva, sem permanecer olhando o céu, mas testemunhando sua presença no cotidiano humano.

1 No meu primeiro livro, ó Teófilo,
já tratei de tudo o que Jesus fez e ensinou,
desde o começo,
2 até ao dia em que foi levado para o céu,
depois de ter dado instruções pelo Espírito Santo,
aos apóstolos que tinha escolhido.
3 Foi a eles que Jesus se mostrou vivo
depois da sua paixão, com numerosas provas.
Durante quarenta dias, apareceu-lhes
falando do Reino de Deus.
4 Durante uma refeição, deu-lhes esta ordem:
“Não vos afasteis de Jerusalém,
mas esperai a realização da promessa do Pai,
da qual vós me ouvistes falar:
5 ‘João batizou com água;
vós, porém, sereis batizados com o Espírito Santo,
dentro de poucos dias'”.
6 Então os que estavam reunidos perguntaram a Jesus:
“Senhor, é agora que vais restaurar
o Reino em Israel?”
7 Jesus respondeu:
“Não vos cabe saber os tempos e os momentos
que o Pai determinou com a sua própria autoridade.
8 Mas recebereis o poder do Espírito Santo
que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas
em Jerusalém, em toda a Judeia e na Samaria,
e até os confins da terra”.
9 Depois de dizer isso,
Jesus foi levado ao céu, à vista deles.
Uma nuvem o encobriu,
de forma que seus olhos não mais podiam vê-lo.
10 Os apóstolos continuavam olhando para o céu,
enquanto Jesus subia.
Apareceram então dois homens vestidos de branco,
11 que lhes disseram: 
“Homens da Galileia,
por que ficais aqui, parados, olhando para o céu?
Esse Jesus que vos foi levado para o céu,
virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu”.
Palavra do Senhor.

Deus sobe entre aclamações e nos recorda, em meio às lutas diárias, que seu reinado sustenta a história, convidando-nos a confiar, louvar com alegria e reconhecer sua soberania sobre todos os povos.

R. Por entre aclamações Deus se elevou,
    o Senhor subiu ao toque da trombeta.

2 Povos todos do universo, batei palmas, *
gritai a Deus aclamações de alegria!
3 Porque sublime é o Senhor, o Deus Altíssimo, *
o soberano que domina toda a terra. R.

6 Por entre aclamações Deus se elevou, *
o Senhor subiu ao toque da trombeta.
7 Salmodiai ao nosso Deus ao som da harpa, *
salmodiai ao som da harpa ao nosso Rei! R.

8 Porque Deus é o grande Rei de toda a terra, *
ao som da harpa acompanhai os seus louvores!
9 Deus reina sobre todas as nações, *
está sentado no seu trono glorioso. R.

Que o Pai ilumine nosso coração para compreender a esperança do chamado, reconhecendo Cristo exaltado como Cabeça da Igreja, cuja presença vivifica nossa comunhão e orienta, com amor, cada passo da história humana.

Irmãos:
17 O Deus de nosso Senhor Jesus Cristo,
o Pai a quem pertence a glória,
vos dê um espírito de sabedoria
que vo-lo revele e faça verdadeiramente conhecer.
18 Que ele abra o vosso coração à sua luz,
para que saibais
qual a esperança que o seu chamamento vos dá,
qual a riqueza da glória
que está na vossa herança com os santos,
19 e que imenso poder ele exerceu
em favor de nós que cremos,
de acordo com a sua ação e força onipotente.
20 Ele manifestou sua força em Cristo,
quando o ressuscitou dos mortos
e o fez sentar-se à sua direita nos céus,
21 bem acima de toda a autoridade, poder, potência,
soberania ou qualquer título que se possa mencionar
não somente neste mundo, mas ainda no mundo futuro.
22 Sim, ele pôs tudo sob os seus pés e fez dele,
que está acima de tudo, a Cabeça da Igreja,
23 que é o seu corpo,
a plenitude daquele que possui a plenitude universal.
Palavra do Senhor.

No encontro com o Ressuscitado, somos enviados a todos os povos, sustentados por sua autoridade e pela promessa fiel de permanecer conosco sempre, transformando medo em coragem e missão viva no cotidiano.

Naquele tempo,
16 Os onze discípulos foram para a Galileia,
ao monte que Jesus lhes tinha indicado.
17 Quando viram Jesus, prostraram-se diante dele.
Ainda assim alguns duvidaram.
18 Então Jesus aproximou-se e falou:
“Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra.
19 Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos,
batizando-os em nome do Pai
e do Filho e do Espírito Santo,
20 e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei!
Eis que eu estarei convosco todos os dias,
até ao fim do mundo”.
Palavra da Salvação.

Homilia

NÃO FIQUEIS OLHANDO PARA O CÉU!

ELE SE FOI. Diante dos olhos deles. Envolto por uma nuvem.

Os discípulos permaneceram ali, com o olhar suspenso e o coração atônito, como quem tenta compreender o que acaba de acontecer. O céu parecia guardar o mistério daquele adeus. Até que dois mensageiros os despertaram com palavras que soam como uma repreensão cheia de ternura:  

“Homens da Galileia, por que estais aí parados, olhando para o céu?” (At 1,11)

Quão humano é esse gesto! Ficar imóvel diante da partida. Paralisar-se diante da ausência. Fixar os olhos no vazio deixado por Aquele que mais amávamos.

Na experiência dos discípulos, reconhecemos a nossa própria. Também nós conhecemos despedidas. Também nós sentimos o peso da incerteza e da aparente ausência de Deus. Quantas vezes, diante das crises do mundo, das guerras, das enfermidades e da perda de referências espirituais, ficamos apenas olhando “para o alto”, esperando uma intervenção que nos poupe da responsabilidade do agora?

Mas a Ascensão não é fuga. Não é abandono.

Cristo não sobe aos céus para se afastar da história; Ele ascende para plenificá-la. Entra na glória do Pai para que sua presença já não esteja limitada a um lugar ou a um tempo. Como professamos no Credo: “Subiu aos céus, está sentado à direita do Pai” — expressão que indica senhorio e comunhão plena com o mistério divino.

O teólogo Karl Rahner descreveu essa realidade com uma palavra audaz: Cristo torna-se “pancósmico” (relativo ao universo inteiro). Sua humanidade glorificada não se restringe mais à Galileia ou a Jerusalém.

Antes, podiam encontrá-Lo caminhando às margens do lago. Agora, Ele sustenta o universo inteiro.

São Paulo proclama:

Ele está acima de todo principado, autoridade, poder e soberania” (Ef 1,21)

e ainda:

Tudo Ele colocou debaixo de seus pés” (Ef 1,22).

A Ascensão revela que Cristo não está ausente — está soberanamente presente. Sua presença tornou-se mais íntima que o ar que respiramos e mais vasta que as galáxias que a ciência descobre.

Num mundo fragmentado, onde muitos vivem como se Deus fosse distante ou irrelevante, a Ascensão proclama algo decisivo: Cristo é Senhor da história. Não apenas da história sagrada, mas da história concreta — das estruturas sociais, dos avanços tecnológicos, das dores humanas e das buscas espirituais do nosso tempo.

Ele não nos deixa órfãos. Ao contrário, inaugura um novo modo de proximidade. Ele prometeu:

Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20).

A Ascensão confirma essa promessa. E há algo ainda mais provocador: Ele se vai… para nos enviar.

O envio missionário nasce precisamente dessa elevação. Se permanecesse visivelmente entre nós, talvez nos acomodássemos à sua presença. Mas ao subir, Ele nos confia sua própria missão. Não nos envia para impor ideias, mas para revelar o mistério que já pulsa no coração humano. Não para dominar, mas para despertar a luz que Deus semeou em cada pessoa.

São Paulo fala de três dons que acompanham esse envio:

  • Esperança — porque a história tem direção. Não caminhamos para o caos, mas para a plenitude. Em tempos de ansiedade coletiva e insegurança existencial, essa virtude sustenta o coração cristão. Há futuro. Há promessa.
  • Glória — porque fomos destinados a participar da própria vida divina. Não estamos condenados à mediocridade espiritual. Somos chamados à comunhão eterna. Existe uma beleza que ultrapassa qualquer imaginação humana, uma herança que nenhuma crise pode destruir.
  • Poder — não o poder da dominação, mas o poder transformador do Espírito. O mesmo poder que ressuscitou Cristo dentre os mortos atua em nós. Não é metáfora piedosa; é graça operante.

Mas a pergunta permanece: cremos realmente nisso?

 Se cremos, não podemos permanecer olhando para o céu como espectadores passivos. A Igreja não é uma comunidade de nostálgicos que aguardam um retorno distante. É um Corpo vivo, impulsionado pelo Espírito, chamado a tornar visível a presença do Ressuscitado.

Cristo está aqui. Agora.

Está na assembleia reunida em seu nome.
Está no pão partido que se torna seu Corpo.
Está no irmão ferido que pede cuidado.
Cada Eucaristia atualiza esse mistério.

O Senhor que ascendeu se oferece sob sinais humildes.

O Cristo glorificado torna-se alimento. O Senhor do cosmos se faz presença silenciosa no altar

Por isso, a Ascensão não nos convida a evasões espirituais, mas a um olhar novo sobre a realidade. Não se trata de desprezar o mundo em nome do céu, mas de descobrir que o céu já começou a transformar a terra.

Hoje, nesta Solenidade da Ascensão do Senhor, a liturgia nos interpela com firmeza e ternura:

Não fiqueis olhando para o céu como quem perdeu tudo.
Olhai ao redor como quem descobriu que tudo foi transfigurado.

O Ressuscitado não está distante. Ele está no coração da história. Está no sofrimento que pede redenção. Está na esperança que resiste. Está na Igreja que caminha, frágil, mas sustentada por uma promessa irrevogável.

Deixemos a paralisia. Abandonemos a nostalgia estéril. Ergamos o olhar — não para fugir da terra, mas para compreender sua vocação eterna.

Ele já está aqui. E nos envia.
Aleluia.

Texto: José Cristo Rey García Paredes
ECOLOGÍA DEL ESPÍRITU
Este artigo foi produzido com a assistência de ferramentas de  inteligência artificial.