Há cinquenta e seis anos, em uma fria noite de dezembro, meu pai partiu para a Casa do Pai. Ainda hoje, a lembrança daquele inverno permanece viva em minha memória. Recordo-me do frio intenso com a mesma nitidez com que recordo sua morte. Em menos de um dia, a temperatura despencou, como se a própria natureza acompanhasse o silêncio e a dor que invadiram nossa família.
Eu ainda era muito jovem. Naquele momento, acreditava ser jovem demais para perder um pai. Com o passar dos anos, porém, compreendi que estava enganado. Ninguém é jovem demais para experimentar essa perda. A ausência de um pai sempre deixa marcas. Quando ela acontece antes que determinadas palavras sejam ditas, antes que certos gestos sejam compartilhados ou que algumas lições sejam plenamente assimiladas, essas marcas tornam-se ainda mais profundas, acompanhando-nos ao longo da existência.
Entretanto, olhando para trás com serenidade, reconheço que fomos agraciados. Tivemos tempo para nos preparar para sua partida. Durante um ano inteiro ele enfrentou o câncer com coragem admirável. A doença consumia suas forças físicas, mas não conseguiu diminuir sua fé, sua generosidade nem seu bom humor. Conservou intacta a capacidade de agradecer, de amar e de abençoar.
Morreu sem ressentimentos, sem revolta contra Deus, sem permitir que a amargura encontrasse morada em seu coração. Despediu-se da vida reconhecendo-a como um dom recebido das mãos do Senhor. Somente meses depois, quando o inverno havia cedido lugar a dias mais amenos, compreendi verdadeiramente que meu pai havia recebido aquilo que tantas vezes pedíramos em nossas orações familiares: uma santa morte.
A tradição cristã sempre ensinou que uma boa morte não consiste simplesmente em morrer sem sofrimento, mas em entregar a vida reconciliado com Deus, em paz consigo mesmo e com aqueles que se ama. Afinal, “Preciosa aos olhos do Senhor é a morte dos seus fiéis“ (Salmo 116,15).
Contudo, esta reflexão não pretende ser um elogio ao meu pai, algo que provavelmente o deixaria desconfortável, nem uma meditação exclusiva sobre a boa morte. O que desejo é refletir sobre algo ainda mais profundo: o que significa ser pai? Qual é a missão que Deus confia a um homem quando lhe entrega um filho?
A paternidade ultrapassa infinitamente o simples fato biológico de gerar uma criança. Um pai não comunica apenas a vida física; ele é chamado a participar da obra criadora de Deus, tornando-se cooperador do próprio Criador na formação de uma alma.
Por isso, a Sagrada Escritura apresenta Deus como Pai por excelência. Toda verdadeira paternidade encontra sua origem naquele de quem procede toda família.
“Por isso dobro os joelhos diante do Pai, de quem recebe o nome toda família, no céu e na terra.“ (Efésios 3,14-15).
Cada pai humano é, portanto, um reflexo imperfeito da paternidade divina.
Ao longo dos anos, diversas correntes da psicologia e da antropologia procuraram compreender como pai e mãe contribuem, de maneiras distintas e complementares, para a formação da personalidade humana. Embora essas perspectivas pertençam ao campo das ciências humanas, elas encontram profunda sintonia com a visão cristã da família.
A mãe representa, desde os primeiros instantes da existência, o primeiro abraço da vida. É nela que a criança experimenta o acolhimento, a ternura, a segurança e o amor incondicional. Ela gera, alimenta, protege e consola. Seu amor comunica à criança a certeza de que sua existência é desejada.
Tal experiência permanece gravada nas profundezas da alma durante toda a vida.
O pai, por sua vez, desempenha outra missão igualmente indispensável.
É ele quem ajuda o filho a descobrir que o amor também educa, corrige, fortalece e prepara para enfrentar o mundo. Sua presença oferece segurança para caminhar, coragem para assumir responsabilidades e equilíbrio entre liberdade e disciplina.
Mais do que por discursos, essa educação acontece através do testemunho.
Os filhos aprendem muito menos com aquilo que os pais dizem e muito mais com aquilo que os veem viver.
Um pai ensina quando trabalha com honestidade.
Ensina quando pede perdão.
Ensina quando permanece fiel.
Ensina quando protege os mais fracos.
Ensina quando renuncia a si mesmo para cuidar da família.
Ensina, sobretudo, quando ama.
Essa missão encontra eco nas palavras do apóstolo Paulo:
“Pais, não exaspereis os vossos filhos, mas educai-os na disciplina e na instrução do Senhor.“ (Efésios 6,4).
O verdadeiro pai é chamado a formar homens e mulheres livres, capazes de amar sem egoísmo e de servir sem buscar recompensas.
Seu exemplo ajuda os filhos a integrar forças que frequentemente parecem opostas: ternura e firmeza, alegria e sacrifício, liberdade e responsabilidade, coragem e misericórdia.
Essa integração constitui um dos grandes desafios da maturidade humana.
Um pai deve mostrar, por sua própria vida, que nossa capacidade de amar e nossa capacidade de lutar não são inimigas.
Somos chamados a amar intensamente e, ao mesmo tempo, proteger aquilo que Deus nos confiou.
Somos convidados a desfrutar das alegrias legítimas da existência, sem nos tornar escravos dos prazeres.
Somos chamados a renunciar quando o amor exige sacrifício.
Jesus mesmo revelou essa síntese perfeita. Nele contemplamos infinita mansidão e inabalável firmeza.
Abraça as crianças, consola os pecadores, chora diante do túmulo de um amigo, mas também enfrenta a injustiça, denuncia a hipocrisia e entrega livremente sua própria vida pela salvação do mundo.
“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos.“ (João 15,13).
Meu pai, como todo pai humano, não era perfeito. Também enfrentava suas limitações.
Nem sempre conseguia manter equilíbrio absoluto entre trabalho e descanso, entre firmeza e delicadeza, entre o sacrifício e o desfrutar das alegrias simples da vida.
Hoje reconheço que também caminho sobre essa mesma corda estreita.
Há momentos em que oscilo entre o excesso de trabalho e o desânimo.
Entre a paciência e a irritação.
Entre a generosidade e o egoísmo.
Há dias em que consigo proteger aqueles que amo.
Em outros, descubro que nem sequer sou capaz de proteger meu próprio coração.
Entretanto, quando observo minha vida com sinceridade, percebo que ainda existe dentro de mim algo da firmeza de meu pai.
Seu exemplo continua falando.
Sua presença continua educando.
Sua memória continua sustentando minhas escolhas.
Foi um bom pai.
Amou – Lutou – Serviu.
Errou algumas vezes, como todos os homens, mas nunca deixou de procurar o bem daqueles que Deus lhe confiou.
Passaram-se mais de cinquenta anos desde aquela madrugada.
Por vezes, meu espírito ainda sente o frio daquele dia distante.
Em alguns momentos volto a experimentar a insegurança daquela criança que perdeu o pai cedo demais e que ainda procura alguém que lhe mostre o caminho da maturidade.
Mas a fé cristã oferece uma esperança que ultrapassa a saudade.
Nós não buscamos nossos pais apenas nas lembranças preservadas pela memória nem apenas nos retratos antigos guardados em uma gaveta. Nós os encontramos na esperança da vida eterna.
A Igreja nos ensina que aqueles que morreram na amizade de Deus permanecem unidos a nós pelo vínculo da caridade. A morte não rompe a comunhão daqueles que vivem em Cristo.
Por isso, quando procuro meu pai, não o encontro entre os mortos, mas entre aqueles que vivem no Senhor.
Ali seu testemunho continua iluminando meu caminho.
Sua vida ainda me inspira a amar com mais generosidade.
Sua memória continua me ensinando a unir firmeza e misericórdia, coragem e ternura, trabalho e descanso, luta e contemplação.
Nos dias atuais, quando tantas famílias experimentam a ausência paterna — seja pela distância física, pelo abandono afetivo ou pelas exigências de uma sociedade que frequentemente reduz o pai ao papel de mero provedor material —, torna-se ainda mais urgente redescobrir a beleza da verdadeira paternidade.
O mundo necessita de pais que saibam abraçar sem sufocar, corrigir sem humilhar, orientar sem dominar e amar sem condições.
Necessita de homens cuja autoridade nasça do serviço, e não do poder.
De homens que, olhando para São José, aprendam que a grandeza da paternidade está na humildade, na presença silenciosa e na fidelidade cotidiana.
No fim, compreendo que todo pai terreno é apenas um sinal daquele único Pai que jamais abandona seus filhos.
Mesmo quando nossos pais partem, permanece conosco Aquele que prometeu:
“Ainda que meu pai e minha mãe me abandonem, o Senhor me acolherá.“ (Salmo 27,10).
É nesta certeza que repousa nossa esperança.
Porque o amor verdadeiro nunca morre.
Transforma-se em herança.
Transforma-se em bênção.
Transforma-se em caminho.
E continua conduzindo nossos passos até o dia em que, pela infinita misericórdia de Deus, nos reuniremos definitivamente na casa do Pai, onde toda saudade encontrará seu fim e todo amor alcançará sua plenitude.
