O COMPLEXO MISTÉRIO DO SOFRIMENTO

ARTIGOS

Há momentos em que se torna difícil distinguir doença de saúde, fraqueza de fidelidade, queda de purificação. Quando sofremos, surge a pergunta inquietante: esse sofrimento é sinal de que algo está desordenado em nós, ou pode ser o fruto doloroso — porém saudável — de uma vida vivida com coerência? Quando a ansiedade nos atravessa, estamos sendo consumidos por angústias estéreis ou estamos, como sentinelas da madrugada, gestando com vigilância o Reino de Deus?

O sofrimento é misterioso. É ambíguo. Ele pode tanto nos desfigurar quanto nos transfigurar. Para compreendê-lo, contemplemos uma história concreta.

Henri Nouwen, um dos guias espirituais mais respeitados do século XX, era — como ele mesmo reconhecia com desconcertante sinceridade — um homem interiormente complexo e, muitas vezes, atormentado. Sacerdote católico, consagrado pelo voto de celibato, buscava viver com radicalidade o Evangelho. Seu compromisso era firme; suas emoções, porém, eram intensas e por vezes turbulentas.

Em determinado momento de sua vida, apaixonou-se de maneira profunda e obsessiva. Sabia, contudo, que seu voto de celibato não lhe permitiria viver aquela intimidade desejada. Além disso, recebeu da outra pessoa um sinal claro de que seus sentimentos não eram correspondidos. A tensão entre o desejo e a fidelidade abriu em sua alma uma ferida dilacerante. Ele entrou em depressão e precisou ser internado por vários meses.

À primeira vista, poderíamos ler esse episódio como mera patologia: uma fragilidade emocional, uma crise afetiva, talvez uma imaturidade não resolvida. De fato, muitos assim interpretaram. Apontaram fatores psicológicos, traços temperamentais, complexidades afetivas. Tudo isso certamente teve peso.

Entretanto, se penetrarmos mais fundo — com olhar espiritual e não apenas clínico — poderemos perceber algo mais profundo. Poderemos vislumbrar não apenas uma crise, mas um Getsêmani.

Mais do que uma doença, talvez tenha sido uma prova de fidelidade. Nouwen preferiu deixar-se quebrar por dentro a romper seus compromissos. Aceitou atravessar a noite escura da alma para permanecer fiel à sua vocação.

Recordemos o que nos ensina o Evangelho. Em sua hora mais decisiva, Cristo experimentou uma angústia extrema:

“Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice! Contudo, não se faça como eu quero, mas como tu queres.” (Mt 26,39)

E o evangelista Lucas acrescenta:

“Em agonia, ele rezava com mais insistência. E seu suor tornou-se como gotas de sangue caindo no chão.” (Lc 22,44)

Jesus suou sangue. E onde isso aconteceu? Num jardim. Na Escritura, o jardim não é mero espaço agrícola. É o lugar do amor, da intimidade, da aliança. O jardim do Éden, o Cântico dos Cânticos, o jardim da Ressurreição. O jardim é o espaço onde o coração é provado.

Cristo não suou sangue no Templo, nem no alto da montanha, nem em meio às multidões. Suou sangue num jardim — lugar do amor ferido, lugar da decisão radical. Ali, Ele preferiu ser interiormente dilacerado a trair a missão recebida do Pai.

A clínica onde Nouwen esteve internado tornou-se, de certo modo, seu jardim. Seu Getsêmani. Ali, viveu não apenas um colapso, mas uma transformação pascal. Ali, algo morreu — mas algo mais profundo nasceu. A Escritura nos oferece um critério decisivo:

“Pelos seus frutos os conhecereis.” (Mt 7,16)

Após essa travessia dolorosa, Nouwen emergiu transformado. Durante toda a sua vida adulta lutara com a sensação de não ser verdadeiramente amado, de não ser digno de amor. Após a crise, experimentou uma certeza interior nova: era amado por Deus, de maneira irrevogável. Essa convicção não era teoria; era experiência purificada pelo sofrimento.

Foi desse horizonte interior que nasceu sua obra-prima espiritual, O Retorno do Filho Pródigo, uma meditação que ajudou milhares de pessoas a acolherem o amor misericordioso do Pai.

Não é este o paradoxo cristão? A cruz, quando assumida com fidelidade, torna-se fonte de vida.

Vivemos hoje numa cultura que evita o sofrimento a qualquer custo. A lógica contemporânea tende a identificar qualquer dor como falha, qualquer tensão como anormalidade, qualquer crise como fracasso. Contudo, o Evangelho nos ensina algo mais profundo: há sofrimentos que são sinais de doença — e devem ser tratados com cuidado e ciência —, mas há sofrimentos que são o preço da fidelidade.

O discernimento espiritual consiste precisamente em distinguir um do outro.

Quando permanecemos fiéis ao matrimônio em meio a crises; quando perseveramos numa vocação sacerdotal ou religiosa apesar das aridezes; quando mantemos a integridade ética num ambiente profissional corrupto; quando escolhemos perdoar em vez de retaliar — algo em nós pode doer profundamente. Esse sofrimento não é patologia; pode ser maturidade.

O próprio Senhor nos advertiu:

“Quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a sua vida por causa de mim, a encontrará.” (Mt 16,25)

Há uma perda que é destruição. Mas há uma perda que é entrega. Há uma ruptura que nos adoece. Mas há uma ruptura interior que nos purifica.

Isso não significa romantizar a dor. A Igreja jamais glorifica o sofrimento por si mesmo. O sofrimento só se torna redentor quando é unido, com liberdade e amor, à fidelidade a Deus.

Talvez a pergunta decisiva não seja: “Estou sofrendo?”
Mas: “Por que estou sofrendo? Por fidelidade ou por desordem?”

A vida espiritual madura reconhece que, às vezes, é preciso suar sangue para manter compromissos. É preciso atravessar jardins escuros para que a aurora da Ressurreição surja.

Quando aceitamos romper-nos interiormente antes de romper nossos votos, alianças e promessas, participamos do mistério pascal. Morremos para algo — orgulho, desejo desordenado, fuga — e ressuscitamos para uma liberdade mais profunda.

O sofrimento permanece complexo e ambíguo. Mas, quando vivido na luz do Evangelho, pode tornar-se lugar de revelação. Pode tornar-se jardim.

E talvez, no silêncio de nossas próprias noites, descubramos que aquilo que parecia apenas colapso era, na verdade, gestação.

Perguntas para reflexão

  1. Como discernir se o sofrimento que estou vivendo é sinal de doença ou expressão de fidelidade aos meus compromissos diante de Deus?
  2. Em quais áreas da minha vida tenho sido tentado a romper promessas para evitar a dor?
  3. Qual tem sido o meu “Getsêmani” — o lugar onde meu coração foi provado pelo amor?
  4. Que frutos espirituais nasceram das crises que atravessei, e como eles revelam a ação transformadora de Deus em minha história?

Texto: Ron Rolheiser
Fonte: Ciudad Redonda