Há um caminho invisível, mas de uma solidez inabalável, que vai de coração a coração. Muitos de nós, assustados com as incertezas da vida, evitam essa senda; julgam que entregar-se por inteiro é um risco perigoso demais. No entanto, Maria nunca temeu essa travessia. No silêncio de suas pegadas, o ritmo de seus passos afinava-se com a melodia eterna de Deus.
Enquanto caminhava rumo à região montanhosa, o próprio Jesus já entoava, no santuário do ventre materno, a beleza oculta e redentora do mundo. Sua prima Isabel a aguardava do outro lado do horizonte, pronta para celebrar a alegria profunda de uma cumplicidade santa. Era preciso falar sobre o mistério daquela espera fecunda. Duas mulheres unidas pela doce nostalgia no olhar de quem traz a vida pulsando dentro de si; duas mulheres diante de uma promessa que, enfim, tornara-se carne e história. Como bem nos lembra o apóstolo Paulo, “a esperança não nos decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Romanos 5,5).
O REFLEXO DO OLHAR DIVINO NA TERRA
Existe, também, um caminho sublime que vai dos olhos de Deus aos olhos dos homens. Maria é a porta aberta para que o Altíssimo caminhe ao nosso lado, sem armaduras, vestindo a nossa própria fragilidade. Na bagagem dessa peregrina, não há excessos, apenas as provisões inesgotáveis do amor: a delicadeza que acolhe, o cuidado que protege, a atenção que escuta e o carinho que sara.
Maria é a mulher profundamente habitada por Deus, aquela que a Deus nos leva e que a Deus nos traz, humanizando o divino. Nela compreendemos que o caminho de um ser humano ao outro já é, por excelência, o itinerário por onde Deus transita nos dias de hoje. Como nos recorda o magistério da Igreja na constituição Gaudium et Spes (n. 22):
“O Verbo encarnado revela o homem ao próprio homem… Aquele que é a imagem do Deus invisível é também o homem perfeito.”
A CRIAÇÃO EM FESTA E OS DESAFIOS DE HOJE
Embora os Evangelhos canônicos guardem silêncio sobre este detalhe, a tradição poética da piedade popular sussurra que, à passagem da Virgem, até os pássaros e as árvores entoavam uma melodia nunca antes ouvida. “Formosa”, diziam as brisas e as matas em um louvor singelo, próprio de criaturas que, na pureza de sua essência, voltavam a desfrutar da luz e do calor de seu Criador. Jesus já caminhava, ainda oculto, por esta terra que logo se tornaria a Sua pátria.
Hoje, em meio às correrias, incertezas e dores do nosso século, somos convidados a refazer esse mesmo percurso. Vivemos tempos assoberbados pela pressa e pelo isolamento, onde o coração humano muitas vezes se resseca. Contudo, olhar para Maria do Caminho é redescobrir a coragem da ternura. Ela nos ensina que a nossa “boa esperança” — a fé em um mundo renovado pela graça — não é uma ilusão, mas uma presença viva que caminha conosco na poeira da estrada.
Deixar-se guiar por Maria é permitir que o Filho de Deus continue a dar os seus primeiros passos na geografia concreta da nossa história. Que saibamos, pois, calçar as sandálias da escuta e da entrega, certos de que, com Ela, nunca estamos desamparados na jornada.
Pergunta para reflexão
Como você sente que a figura de Maria e o mistério da Visitação podem inspirar os seus passos e as suas esperanças na rotina desta semana?
Texto: Pedro Manuel Sarmiento
Fonte: CIUDAD REDONDA
