O espanto que abre o mistério
A cena do Batismo de Jesus, narrada em Mateus 3,13-17, é marcada por um diálogo breve, mas teologicamente denso. A pergunta de João Batista – “Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?” – expressa mais do que humildade pessoal: revela o espanto diante do paradoxo central do cristianismo. Aquele que é o Santo de Deus, o Filho amado do Pai, coloca-se na fila dos pecadores e pede um batismo de conversão. Esse gesto, aparentemente desconcertante, torna-se chave de leitura para compreender a identidade de Jesus, sua missão salvífica e o sentido profundo do Batismo cristão.
A humildade do Salvador e o cumprimento da “justiça” (Mt 3,13-15)
João Batista reconhece em Jesus uma santidade que o ultrapassa infinitamente. Seu batismo é um sinal de arrependimento, destinado àqueles que confessam seus pecados e desejam preparar o coração para a vinda do Messias. Por isso, a presença de Jesus no Jordão causa perplexidade: Ele não tem pecados a confessar, nem conversão a realizar.
A resposta de Jesus – “Deixa por agora, pois convém que cumpramos toda a justiça” – ilumina o mistério. A “justiça”, aqui, não se reduz a um cumprimento legal, mas designa a plena adesão à vontade salvífica do Pai. Jesus aceita o batismo de João não por necessidade pessoal, mas por solidariedade radical com a humanidade pecadora. Ele se coloca no lugar dos que precisam de conversão para, assumindo nossa condição, iniciar o caminho que culminará no seu verdadeiro “batismo”: a entrega total na cruz e a glorificação na Ressurreição.
O Batismo de Jesus: kenosis, antecipação pascal e epifania
O Catecismo da Igreja Católica ensina que o Batismo de Jesus é, antes de tudo, uma manifestação de sua kenosis, seu esvaziamento voluntário (cf. CIC 535). Ao descer às águas do Jordão, o Filho eterno de Deus antecipa sacramentalmente o movimento descendente de toda a sua missão: descer até a condição humana para elevá-la à comunhão com Deus.
Segundo o CIC 536-537, esse gesto é também uma antecipação do Mistério Pascal. As águas do Jordão prefiguram as águas da morte, nas quais Jesus mergulhará livremente, e das quais sairá vencedor, inaugurando a nova vida para todos.
Nesse mesmo momento, ocorre uma epifania decisiva: os céus se abrem, o Espírito Santo desce como pomba e a voz do Pai proclama: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3,17). Revela-se, assim, a Santíssima Trindade e inaugura-se simbolicamente a nova criação. Jesus manifesta-se como o Servo sofredor anunciado por Isaías, o Filho amado e aquele que traz o Espírito Santo para ser comunicado à humanidade.
Do batismo de água ao Batismo no Espírito: uma diferença ontológica
Aqui se impõe um contraste fundamental entre os dois batismos.
O batismo de João é um rito penitencial, um sinal externo de arrependimento realizado com água, destinado a preparar o povo para a vinda do Messias. Ele aponta para algo maior, mas não confere, por si mesmo, a vida nova do Espírito.
O Batismo cristão, ao contrário, é um verdadeiro sacramento instituído por Cristo. Conforme ensina o Catecismo (CIC 1265-1266), ele não apenas simboliza, mas realiza interiormente aquilo que significa: liberta do pecado original, concede a graça santificante, justifica o ser humano e o faz nova criatura em Cristo. Trata-se de uma transformação ontológica, não apenas moral.
“Participantes da natureza divina”: a transformação interior do Batismo
O fruto central do Batismo cristão é a participação real na vida divina. O CIC 1262-1264 afirma que o batizado é incorporado a Cristo, torna-se membro do seu Corpo e templo do Espírito Santo. Essa realidade culmina no dom descrito pelo CIC 1999: a graça santificante, pela qual o ser humano é introduzido na própria vida de Deus.
À luz de 2Pedro 1,4, o Batismo nos torna “participantes da natureza divina”. Não se trata de uma metáfora piedosa, mas de uma verdade teológica central: pelo Espírito Santo, recebemos uma vida nova que nos capacita a viver como filhos no Filho. O que em Jesus é natural – sua filiação divina – em nós se torna dom, participação e graça.
O Batismo do Senhor, fonte e modelo do nosso
O espanto de João Batista revela a lógica paradoxal do Evangelho: o Santo assume o lugar do pecador para santificar as águas e, por elas, toda a humanidade. No Batismo de Jesus, já se anuncia o mistério da cruz e da ressurreição; no nosso Batismo, somos mergulhados nesse mesmo mistério (cf. Rm 6,3-4).
O Espírito que desceu sobre Jesus é o mesmo que nos é dado, tornando-nos filhos no Filho. A humildade de Deus que se deixa batizar traça o caminho do discipulado cristão: descer para servir, morrer para o pecado e viver para Deus. Contemplar o Batismo do Senhor é redescobrir a grandeza do próprio Batismo e responder com gratidão e fidelidade ao dom recebido.