DIZER A VERDADE EM PARÁBOLAS

ARTIGOS

Certa vez, Jesus foi questionado sobre o motivo de falar em parábolas. Sua resposta, à primeira vista, soa desconcertante: “Falo-lhes em parábolas para que, vendo, não vejam; e ouvindo, não ouçam nem compreendam” (Mt 13,13). Em outro momento, a explicação parece ainda mais difícil: “Para que olhem e não enxerguem; escutem e não compreendam, para que não se convertam e não sejam perdoados” (Mc 4,12).

À primeira vista, parece que Jesus deseja esconder a verdade. Contudo, a realidade é exatamente o contrário. Sua maneira de falar revela uma profunda delicadeza espiritual. Jesus compreende que o coração humano é frágil e complexo. Há verdades que não podem ser lançadas como pedras; precisam ser semeadas lentamente, esperando o tempo da alma.

Não basta possuir a verdade. A verdade pode libertar — afinal, “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32) —, mas também pode endurecer um coração ferido quando é pronunciada sem ternura e sem amor.

Há um exemplo profundamente humano disso.

A escritora Joyce Carol Oates publicou certa vez um romance inspirado na vida real de uma jovem aluna a quem havia dado uma nota baixa na universidade. Algum tempo depois, recebeu uma carta dessa estudante.

Nela, a jovem relatava uma vida marcada pela dor. Vinha de um lar difícil, havia sofrido abusos na infância e passara anos tentando anestesiar suas feridas em relacionamentos vazios. Quando escreveu aquela carta, lutava para romper os ciclos destrutivos que haviam marcado sua história.

Ela dizia que o curso de literatura não a havia ajudado verdadeiramente. Em certo trecho, escreveu:

“Uma vez você disse em sala de aula: ‘A literatura dá forma à vida’. Nunca me esqueci disso. Mas hoje quero lhe perguntar: o que é ‘forma’?

Odeio tantas palavras bonitas e tantos livros. Onde está a forma nas coisas que nos acontecem? Eu queria ter gritado isso para você, porque suas palavras pareciam erradas.

E, ainda assim, invejo você. Sua facilidade em conversar, sua maneira de pertencer ao mundo. Vi você entrando na universidade sorrindo com outros professores, como se viver fosse algo simples.

Enquanto isso, eu já vivi minha vida inteira e nada saiu disso. Minha vida não tem forma.

Eu poderia lhe contar coisas sobre a vida. Sobre mulheres que se deitam sozinhas à noite, carregando medo, vazio e ódio dentro de si. Sobre pessoas que passam horas esperando que alguém venha e dê sentido a tanta dor. O que vocês sabem disso?

Essa carta revela algo profundamente evangélico. Ela nos ajuda a compreender por que Jesus falava em parábolas.

A verdade pode libertar, mas também pode humilhar quando é dita sem misericórdia. Pode iluminar, mas também ferir quando é usada apenas para expor a fragilidade do outro.

Jesus nunca utilizava a verdade como arma. Ele a oferecia como caminho. Suas parábolas não esmagavam as pessoas; elas as convidavam. Não eram discursos frios, mas portas abertas para que cada pessoa pudesse entrar no mistério de Deus a partir de suas próprias dores e esperanças.

Atualmente, isso se torna ainda mais urgente. Vivemos um tempo marcado pela rapidez das opiniões, pela dureza dos julgamentos e pela superficialidade das palavras. Muitas vezes, até mesmo entre cristãos, a verdade é usada para vencer debates, não para salvar pessoas.

Mas Cristo nos ensina outro caminho.

A verdade do Evangelho jamais pode ser separada da caridade. Não basta estar certo; é preciso amar enquanto se fala. O coração humano não se abre pela imposição, mas pelo encontro. Foi assim que Jesus alcançou os pecadores, os cansados e os feridos: aproximando-se deles com histórias simples, imagens do cotidiano, sementes, vinhas, pais e filhos. Ele traduzia o Reino de Deus na linguagem da vida.

Talvez seja isso que tantas vezes falta ao nosso testemunho cristão: menos condenação e mais compaixão; menos dureza e mais escuta; menos respostas prontas e mais presença verdadeira.

Porque existem dores que não podem ser curadas por definições frias. Existem pessoas que não precisam primeiro de explicações, mas de alguém disposto a caminhar ao lado delas enquanto tentam compreender a própria vida.

Precisamos aprender novamente a dizer a verdade em parábolas.

A verdade não é algo que possa ser lançado às pressas, sem cuidado. Ela é sagrada. E, quando nasce do coração de Deus, sempre vem acompanhada de misericórdia.

Texto: Ron Rolheiser
Fonte: Ciudad Redonda