A SANTIDADE DO COTIDIANO: QUANDO DEUS SE REVELA NAS COISAS SIMPLES

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Há dentro de nós uma inquietação que nem sempre se satisfaz com o ordinário. Desejamos beleza, novidade, criatividade, paixão, celebração. Sonhamos com uma vida extraordinária e, muitas vezes, olhamos para a rotina como se ela fosse uma prisão: levantar, trabalhar, cuidar da casa, cumprir responsabilidades, preparar o dia seguinte e dormir. Repetir tudo novamente.

É compreensível. O coração humano foi criado para algo maior. Santo Agostinho expressou essa verdade com uma profundidade incomparável: Fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em ti. (Confissões, I, 1). O problema começa quando confundimos a sede de infinito com a necessidade de fugir do cotidiano.

Vivemos numa época que transforma a novidade em valor absoluto. As redes sociais nos apresentam vidas aparentemente extraordinárias, viagens constantes, experiências inéditas, corpos perfeitos, conquistas sucessivas. Aos poucos, podemos começar a acreditar que uma vida feliz precisa ser uma vida espetacular. E então o cotidiano parece pequeno demais.

Mas o Evangelho nos conduz por outro caminho.

Jesus não desprezou a simplicidade. Ele viveu grande parte de sua existência em Nazaré, uma pequena cidade, trabalhando, convivendo com sua família, participando da vida do seu povo. Antes de anunciar o Reino em palavras e sinais, passou anos na silenciosa escola da vida cotidiana.

Quando alguém pergunta se a vida possui apenas essa dimensão material, Jesus responde:

Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.” (Mateus 4,4)

O pão é necessário. O trabalho é necessário. A casa, a família, as responsabilidades e o descanso também são necessários. Mas nenhuma dessas realidades, isoladamente, consegue preencher o coração humano. Precisamos do pão, mas também precisamos da beleza; precisamos do dever, mas também da gratuidade; precisamos da rotina, mas também da contemplação.

O segredo, portanto, não está em abandonar o cotidiano, mas em descobrir Deus dentro dele.

A espiritualidade cristã não nos ensina a desprezar as pequenas coisas, mas a enxergá-las com novos olhos. Uma refeição partilhada, uma conversa, o cuidado com alguém, o trabalho realizado com honestidade, uma oração antes de dormir, o abraço de quem amamos: tudo pode tornar-se lugar de encontro com Deus.

São Paulo nos oferece uma extraordinária síntese dessa espiritualidade:

Tudo o que fizerdes, fazei-o de coração, como para o Senhor e não para os homens.” (Colossenses 3,23)

Talvez seja essa uma das grandes conversões que precisamos realizar atualmente: deixar de procurar o extraordinário para começar a reconhecer o extraordinário escondido no ordinário.

A rotina pode realmente cansar. Há dias em que o trabalho pesa, os relacionamentos exigem paciência e as preocupações parecem não terminar. Mas a rotina também pode ser uma âncora. Ela nos dá raízes quando o mundo nos empurra para todos os lados. Ensina-nos perseverança, fidelidade e responsabilidade.

Há uma sabedoria espiritual profunda em simplesmente continuar.

Depois de uma doença, valorizamos a possibilidade de trabalhar. Depois de uma perda, compreendemos o valor de uma presença. Depois de uma noite difícil, agradecemos pela manhã. Quando alguma coisa simples nos é retirada, descobrimos que ela jamais foi pequena.

Jesus também nos convida ao descanso:

Vinde a mim, todos vós que estais cansados e carregados, e eu vos darei descanso.” (Mateus 11,28)

Talvez a verdadeira serenidade não consista em possuir uma vida sem problemas, mas em aprender a habitar o presente com confiança. Há uma profunda dignidade em ser uma pessoa simples, agradecida, enraizada na realidade e capaz de terminar o dia dizendo: hoje fiz o que estava ao meu alcance; agora posso descansar nas mãos de Deus.

Porque, no fim, a santidade talvez seja menos extraordinária do que imaginamos. Ela pode estar justamente nisso: amar bem as pessoas que Deus colocou ao nosso lado, realizar com fidelidade aquilo que nos foi confiado e reconhecer, nas pequenas coisas de cada dia, a presença silenciosa daquele que sustenta todas as coisas.

Texto: Ron Rolheiser archivos – Ciudad Redonda