UMA REFLEXÃO SOBRE O SOFRIMENTO DE JESUS

DESTAQUE

Ouvi esta história de um teólogo renomado que prefere manter o anonimato ao compartilhá-la, embora o texto fale muito bem de sua teologia.

Ele estava dando uma palestra e, em um determinado momento, afirmou que Deus não queria que Jesus sofresse da maneira como sofreu. Uma mulher na plateia levantou a voz imediatamente: “Você está falando sério?“. Sem saber se era uma objeção ou uma afirmação, ele a convidou para conversar durante o intervalo. Ao se aproximar, ela repetiu a pergunta: “Você está falando sério? Acredita que Deus não queria que Jesus sofresse daquela maneira?“. Ele respondeu que, efetivamente, estava falando sério. Deus não queria que Jesus sofresse assim. A resposta dela foi: “Ainda bem, então posso voltar a rezar. É muito difícil para mim me dirigir a um Deus que precisa desse tipo de sofrimento para cobrar algum tipo de dívida“.

O MISTÉRIO DA DÍVIDA E DO APLACAMENTO

Por que Jesus sofreu? O seu sofrimento era necessário para pagar uma dívida que apenas um ser divino poderia quitar? O pecado original de Adão e Eva foi uma ofensa tão grande a Deus que nenhuma sinceridade humana, adoração, altruísmo ou sacrifício poderia acalmá-Lo? Mais ainda: será que Deus precisa ser “apaziguado” alguma vez?

A ideia de que Jesus precisava sofrer daquela forma para apaziguar Deus por nossos pecados está muito arraigada na nossa compreensão popular de sua paixão e morte. Além disso, parecem existir referências sólidas que apoiam isso nas Escrituras e na teologia da expiação. O que sugerem é que era necessária uma “cota” de sofrimento para pagar a dívida do pecado, e que a dor de Jesus saldou essa conta. E, como a dívida era enorme, o sofrimento de Jesus tinha que ser atroz.

Mas, quanto disso é metáfora e quanto devemos tomar ao pé da letra? Aqui está outra forma de ver por que Jesus escolheu aceitar o sofrimento desta maneira:

Ele o fez para estar em plena solidariedade conosco. Ele aceitou sofrer de uma forma tão extrema para que ninguém pudesse jamais dizer: “Jesus não sofreu o que eu sofri! Passei por dores e humilhações maiores que as dele!”.

ANALISANDO O SOFRIMENTO À LUZ DA SOLIDARIEDADE

Vamos analisar o sofrimento de Jesus à luz deste desafio:

  • Sofrimento comum: Em sua vida antes da paixão e da cruz, Ele sofreu a dor da pobreza, da incompreensão, do ódio, da traição e a solidão do celibato. Além disso, na cruz, passou pela “noite escura da fé“. Estes são sofrimentos humanos comuns.
  • Sofrimento extraordinário: É na sua paixão e morte que seu sofrimento se torna extremo. Jesus foi crucificado. A crucificação foi projetada pelos romanos para causar a máxima quantidade de dor que um ser humano poderia suportar. Por isso, às vezes ofereciam drogas aos crucificados, não para aliviar a dor, mas para mantê-los conscientes por mais tempo.
  • Humilhação total: Pior ainda, a crucificação foi desenhada para humilhar completamente o condenado. Eram atos públicos, o crucificado era despido para que ficasse exposto; além disso, nos espasmos da agonia, os esfíncteres relaxavam. Uma humilhação total. Isso é o que Jesus sofreu.
CONCLUSÃO

Por que Jesus aceitou sofrer desta maneira? Por que, como diz o Ofício da Igreja, “Ele se fez pecado por nós”?

Seja qual for o mistério profundo e a verdade que se escondem por trás da ideia de pagar uma dívida pelos nossos pecados, a razão mais profunda pela qual Jesus escolheu aceitar o sofrimento desta forma foi para estar em total solidariedade conosco, em toda a nossa dor e humilhação.

Jesus veio do nosso inefável Deus, colocou um rosto humano na divindade e nos ensinou o que há verdadeiramente no coração de Deus. Ao fazer isso, assumiu nossa condição humana por completo. Não apenas tocou a vida humana, mas adentrou profundamente nela, chegando ao mais íntimo da dor humana. É verdade que há sofrimentos específicos que talvez Jesus não tenha experimentado explicitamente (racismo, machismo, exílio, deficiência física), mas na sua noite escura da fé e na humilhação da crucificação, Ele sofreu de tal maneira que ninguém poderá dizer: “Jesus não sofreu como eu sofri!“.

Perguntas para reflexão
  1. Que imagem de Deus habita o meu coração: a de um juiz que cobra dívidas ou a de um Pai que se solidariza com minha dor?
  2. De que maneira o sofrimento de Cristo ilumina as minhas próprias feridas e as feridas do mundo atual?
  3. Consigo perceber, nas experiências de humilhação ou abandono, a presença silenciosa de um Deus que sofreu comigo?
  4. Como sou chamado, à luz da cruz, a ser solidário com o sofrimento dos outros em minha realidade concreta?

Texto: Ron Rolheiser