DEUS É AMOR. Se isso é verdade – e é –, então por que temos medo de Deus e por que tememos a morte? Vivemos com excessivo temor de Deus e da morte. De onde vem isso? Por que alguém deveria temer encontrar-se face a face com o amor? Esse temor não é simplesmente produto de uma religião inadequada, que pode nos dar um conceito distorcido de Deus. Uma má religião pode influenciar na criação de um medo doentio de Deus em nós, mas aqui entram em jogo fatores mais profundos.
Em primeiro lugar, a menos que tenhamos sido extremamente afortunados na forma como fomos amados, todos nós lutamos contra um medo profundo de que, de alguma forma, não merecemos ser amados, não somos dignos e somos incapazes de nos apresentar moral e psicologicamente nus diante do amor puro. Portanto, é compreensível que sintamos certa apreensão diante de um Deus que é amor puro, e não é surpreendente que temamos encontrá-Lo quando morrermos. Digo isso com compaixão. Para a maioria de nós, esta é simplesmente nossa condição humana, e a má religião não está nas raízes mais profundas disso. O que está, então, em suas raízes?
Nossa luta congênita com o amor. Em essência, nossa luta é a do Jacob bíblico, que passa uma noite lutando com uma força divina desconhecida. Qual é essa força? Um anjo? Deus? Sim, ambos, mas, em última instância, ele está lutando sem saber com o amor. E é por isso que, quase ao final da luta, quando já está gravemente ferido, ele finalmente percebe com quem está lutando e agora se agarra a essa força, suplicando sua bênção. Essa é a nossa profunda luta com Deus, com o amor.
No entanto, uma teologia inadequada às vezes desempenha um papel, devido ao nosso mal-entendido do conselho bíblico: «O temor do Senhor é o princípio da sabedoria» (Provérbios 9,10). A teologia e a catequese da minha juventude (boa parte dela muito saudável) continham, no entanto, e com bastante força, um motivo de medo doentio. Era preciso temer a Deus. Deus anotava nossos pecados, os contava e mantinha um registro rigoroso deles em um livro. Um dia teríamos que enfrentar Deus, com esse encontro abrasando nossas almas, e prestar contas dessas faltas. Além disso, havia também o medo de ir para o inferno após a morte. Independentemente de nossa sinceridade, poderíamos morrer em estado de pecado mortal e ser condenados ao inferno por toda a eternidade. A teologia e a catequese nas quais fui batizado e criado, apesar de toda a sua bondade em outros aspectos, incutiram em mim um medo doentio de Deus. Suspeito que isso seja verdade para muitos de nós.
Mas, afinal, não é o temor de Deus o princípio da sabedoria? Não deveríamos nos apresentar diante de Deus com temor? Sim, mas apenas com um certo tipo de temor.
O medo tem muitas faces: algumas saudáveis, outras não. Tememos o valentão do pátio da escola, tememos contrair uma doença grave, tememos a dor física, tememos perder alguém na morte, tememos nossa própria morte e tememos o julgamento por nossas faltas. Essa é uma face do medo.
Mas há outra: o medo de ser infiel, o medo de trair alguém que amamos, o medo de ser insensível e grosseiro, de permanecer com os sapatos calçados diante da sarça ardente. Esse é o tipo de temor que é o princípio da sabedoria. Esse é um temor saudável diante de Deus e do amor.
São Paulo, ao falar da graça, essencialmente coloca a questão desta forma: Não deveríamos tentar ser bons para que Deus nos ame. Pelo contrário, deveríamos querer ser bons porque Deus nos ama! Por exemplo, em um casamento, deveríamos querer ser fiéis não primariamente para que nosso cônjuge não deixe de nos amar. Deveríamos, antes, querer ser fiéis porque nosso cônjuge nos ama. Isso é santo temor: o temor de trair o amor, o princípio da sabedoria, um temor saudável a Deus e ao amor.
Além disso, hoje temos uma literatura cada vez mais ampla que relata a experiência de pessoas que estiveram clinicamente mortas e depois foram reanimadas e retornaram à vida. Praticamente em todos os casos, a pessoa que havia estado morta e depois reviveu não queria voltar à sua vida terrena. Quase todos descrevem terem sido recebidos por uma calor, uma luz e um abraço de amor que superava tudo o que já haviam experimentado nesta vida. Nenhum sentiu medo.
Deus nunca é um tirano, um valentão, arbitrário, legalista, frio, sem calor e sem plena compreensão e compaixão. Só precisamos temer trair essa bondade. Minha imagem de estar diante de Deus após a morte é a de um recém-nascido sendo tomado nos braços por sua mãe pela primeira vez, ou a de um avô sorrindo radiante para seu neto, tentando arrancar um sorriso do pequeno. Não temos motivo para temer enfrentar Deus antes ou depois da morte. Será uma experiência de encontro com o amor puro e incondicional. Então, como o Jacob bíblico, finalmente poderemos deixar de lutar contra o amor e nos agarrar a Ele.
Explicação Teológica do Texto: A Dialética do Temor e do Amor
O texto aborda uma profunda experiência religiosa: se Deus é Amor (1Jo 4,8), por que o ser humano, tantas vezes, O teme e receia o encontro definitivo com Ele?
A reflexão desenvolve-se em três movimentos essenciais:
- A Raiz Existencial do Medo: O temor não patológico nasce de uma consciência ferida. A “luta congênita com o amor” remete à nossa condição de criaturas marcadas pela fragilidade e pelo pecado, que, como Jacob, lutamos no escuro contra uma Presença que, no fundo, é Amor oferecendo sua bênção (Gn 32,23-33). Tememos a nudez moral diante da Pureza. Este é um temor humano e compreensível, anterior a quaisquer distorções doutrinais.
- A Distorção Catequética e a Releitura do “Temor de Deus”: O texto reconhece que uma formação religiosa inadequada pode ter exacerbado esse medo, transformando-o em um “temor doentio”, centrado num Deus contabilista e punitivo, deturpando o sentido bíblico de que “o temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Pr 9,10). Distingue-se, então, o medo servil (do castigo, do tirano) do temor filial (santo).
- O Santo Temor: A Resposta do Amor ao Amor: O cerne da resposta teológica está na dinâmica da graça, exposta por São Paulo. A motivação fundamental da vida moral não é o medo de perder o amor, mas o temor de ferir, de ser infiel a um Amor que nos é dado gratuitamente. É o temor de quem, sabendo-se profundamente amado, quer corresponder. Este é o “princípio da sabedoria”: uma relação madura, livre e responsável, semelhante à fidelidade no matrimônio, que brota da gratidão, não do cálculo.
Conclusão e Imagem Esperançosa: A visão final é escatológica e terapêutica. Superando imagens de tribunal, oferece a analogia do acolhimento materno e familiar – o bebê nos braços da mãe, o avô e o neto. Este ícone revela a verdade última do Deus cristão: o encontro final será uma imersão no Amor incondicional, onde nossa luta cessa e podemos, finalmente, abraçar Aquele que sempre nos abraçou. A mensagem é um convito a purificar nossa imagem de Deus, substituindo o medo paralisante pela saudável reverência do amado, que sabe que sua única tarefa é não trair o dom recebido.
Perguntas para Reflexão
- Em sua jornada espiritual, você identifica mais o “medo do valentão” ou o “temor de trair o amor” quando pensa em seu relacionamento com Deus? O que em sua formação (familiar, religiosa, cultural) contribuiu para isso?
- A imagem de Jacob lutando com o anjo (Gênesis 32,23-33) é apresentada como uma metáfora da nossa luta interior com o amor divino. Em que aspectos da sua vida você percebe essa “luta” entre o receio de se entregar e o anseio pela bênção do Amor Incondicional?
- Como a distinção entre ser bom para ser amadoe querer ser bom porque é amado pode transformar concretamente sua forma de viver a fé, os mandamentos e seus relacionamentos no dia a dia?
- O texto termina com imagens de acolhimento íntimo e familiar (a mãe com o bebê, o avô com o neto). Essa imagem ressoa com sua esperança para o encontro definitivo com Deus? Que feridas ou concepções anteriores sobre julgamento ela pode ajudar a curar no contexto das ansiedades e culpas do mundo atual?
Texto: Ron Rolheiser
Fonte: Ciudad Redonda