MIRRA: O PRESENTE INDESEJADO

DESTAQUE

Nos Evangelhos, encontramos a história dos três Reis Magos, que vieram do Oriente e depositaram seus presentes na manjedoura do Menino Jesus recém-nascido. Os presentes não eram práticos: não eram comida de bebê, nem fraldas, nem mantas. Eram simbólicos. O que simbolizam?

Num primeiro nível, simbolizam, como nos foi ensinado tradicionalmente: realeza, divindade e humanidade. Mas há também outros níveis de significado. O ouro pode ser visto como um presente que oferece recursos à criança para aquilo de que ela precisará na vida; o incenso pode ser visto como uma forma de honrar a dignidade única de sua pessoa; e a mirra pode ser vista como um lembrete de que um dia Ele morrerá.

Ora, estes são três presentes que todo pai e toda mãe precisam dar a um filho: isto é, recursos para aquilo de que a criança necessita para crescer; um senso de honra que reconheça sua dignidade; e um lembrete (em qualquer forma que ele assuma) que mantenha a criança consciente de que um dia ela morrerá. Estes são os presentes dos Magos: recebemos recursos, somos honrados e somos lembrados de que um dia morreremos.

Quando crianças, ansiamos pelos dois primeiros presentes, o ouro e o incenso, mas resistimos ao último, a mirra: um lembrete de que somos mortais, um lembrete que não queremos, mas de que precisamos profundamente.

Enquanto eu crescia, meu pai e minha mãe me deram esses três presentes: ouro, os recursos de que eu precisava para viver e me desenvolver; incenso, um senso da minha dignidade única; e mirra, a consciência de que um dia morrerei, de que esta vida não é tudo o que existe, de que a juventude e a saúde não duram para sempre, e de que minhas decisões mais importantes devem ser tomadas sempre com esse horizonte ao fundo.

Quando criança, eu sempre resisti a esse último presente. Não queria olhar os corpos nos velórios ou funerais, e qualquer conversa sobre a fragilidade da vida me fazia sair correndo do cômodo. Eu não queria ver nem ouvir nada sobre a morte. Para mim, aquilo era uma conversa mórbida que apagava o sol e drenava o oxigênio de um ambiente.

Mas meus pais, entre todas as coisas boas que deram a mim e a meus irmãos, nunca nos permitiram fugir da mirra. Em todos os tempos havia lembretes de nossa mortalidade, do fato de que a vida é frágil e de que a morte, no fim, nos espera. Meu pai e minha mãe não eram cruéis, sádicos ou particularmente pessimistas; simplesmente mantinham essa consciência sempre diante de nós, recordando-nos do que era real. Enquanto isso, eu sonhava com a Disneylandia.

Talvez nisso houvesse não apenas a influência de sua fé, mas também da cultura germânica da qual provinham, a cultura que nos deu os contos de fadas dos irmãos Grimm, que tinha um estoicismo particular diante da morte e que acreditava que os adultos não faziam nenhum favor às crianças ao protegê-las dos aspectos mais sombrios da vida. Mas, no fim das contas, este presente em particular veio, sim, de sua fé, e foi saudável e profundamente necessário.

Apesar de toda a minha resistência e de minhas tentativas de escapar desse presente, ele se infiltrou, e se infiltrou de tal modo que posso dizer, com toda honestidade, que todas as decisões importantes da minha vida foram tomadas sob esse horizonte. Eu nunca teria entrado numa comunidade religiosa nem me tornado sacerdote se não fosse por esse presente, que me manteve sempre consciente disso. Eu não teria perseverado em meus votos religiosos se não fosse por esse presente. Quem desejaria viver os votos de pobreza, castidade e obediência se não houvesse a consciência da realidade de nossa mortalidade? De fato, em qualquer caminho de vida, quem teria a força de ser fiel se não existisse a consciência desse horizonte mais amplo?

Quando criança, eu não era grato a meus pais (nem à cultura católica em que viviam) por não me deixarem esquecer jamais que eu era mortal, por trazerem simbolicamente mirra à minha manjedoura. Mas agora olho para trás e percebo que este foi um dos melhores presentes que me deram: um presente que eu não queria, mas de que eu precisava desesperadamente.

Lembro-me de um período particularmente escuro da minha infância, o verão e o outono quando eu tinha treze anos. No espaço de cinco meses, três jovens que eu conhecia – dois vizinhos e um colega de escola – morreram repentinamente: dois em acidentes e um por suicídio. Cada uma dessas mortes, que arrancou a vida de uma pessoa jovem e saudável, foi um golpe contra minhas energias e meus sonhos juvenis, todos baseados em caminhar na luz, no sol, na saúde, na juventude e num mundo onde a morte não era real. Durante seis meses, lutei com a negação, numa dolorosa e isolada solidão adolescente, tentando fazer as pazes com a crua realidade da morte. E essa luta marcou minha alma numa profundidade que ainda hoje sinto. Naquele verão, foi-me dado, mais uma vez, o presente da mirra, a bênção que nasce de fazer as pazes com a própria mortalidade.

Perguntas para reflexão

  1. Quais “presentes” – ouro, incenso e mirra – você reconhece como tendo recebido ao longo da sua vida? De que modo eles moldaram suas escolhas e sua fé?
  2. Em que aspectos você ainda resiste ao “presente da mirra”, isto é, à consciência da própria fragilidade e mortalidade?
  3. Como a lembrança de que a vida é passageira pode ajudar você a viver com mais verdade, liberdade interior e fidelidade à sua vocação hoje?
  4. De que maneira este texto ilumina suas ansiedades e esperanças no Tempo Comum, como um convite a caminhar com Cristo com mais profundidade e confiança?


Texto: Ron Rolheiser
Fonte: Ciudad Redonda