II DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A)

A PALAVRA

As leituras deste domingo recordam-nos uma verdade exigente e, ao mesmo tempo, profundamente consoladora: Deus conta conosco. O seu projeto de salvação não se realiza à margem da história humana, mas passa por pessoas concretas, com nomes, limites e possibilidades. Deus chama, envia e confia. E essa confiança, quando percebida de verdade, muda tudo. Não somos meros espectadores do que Ele faz no mundo; somos colaboradores. Por isso, a recusa, o adiamento ou a indiferença nunca são neutros: eles afetam o próprio fluxo da salvação que Deus deseja oferecer a todos.

A Primeira Leitura (Is 49,3.5-6) apresenta a vocação do chamado “servo do Senhor”. Ele não surge por acaso: é escolhido “desde o seio materno”. Antes mesmo de agir, já é amado e conhecido. Sua missão é grandiosa – ser “luz das nações” -, mas não nasce da autossuficiência. O servo reconhece o cansaço, a fragilidade, até a sensação de inutilidade. Ainda assim, confia: Deus o sustenta. Essa consciência transforma a missão em resposta. Quando Deus nos inclui em seus planos, o único caminho possível é o “SIM” inteiro, sem cálculos, sem reservas, mesmo quando não vemos claramente os resultados.

Na Segunda Leitura (1Cor 1,1-3), Paulo escreve aos cristãos de Corinto e amplia o horizonte: todos são chamados. Não apenas apóstolos ou líderes, mas cada batizado. Paulo sabe bem disso. Sua própria vida foi deslocada por um chamado inesperado, que o lançou pelas estradas do mundo. Os cristãos de Corinto, por sua vez, são chamados à santidade no cotidiano: nas escolhas, nos relacionamentos, na forma de viver. A fé não é uma ideia abstrata, mas uma vida coerente com o Evangelho assumido.

No Evangelho (Jo 1,29-34), João Batista aponta para Jesus e desaparece do centro. Ele reconhece no Nazareno o “Cordeiro de Deus”, aquele que tira o pecado do mundo, o Filho amado que possui a plenitude do Espírito. Jesus cumpre sua missão com fidelidade total, até o dom da própria vida. E nós, que nos aproximamos d’Ele, somos inseridos nesse mesmo movimento. Seguir Jesus é aceitar ser enviado. A salvação de Deus continua a passar por mãos humanas – pelas nossas.

Fonte: Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus

Leituras

Chamados desde o seio materno, acolhemos a missão quando Deus nos diz Farei de ti a luz das nações, para que sejas minha salvação, iluminando hoje vidas feridas com esperança, fidelidade e serviço.

3 O Senhor me disse: “Tu és o meu Servo,
Israel, em quem serei glorificado”.
5 E agora diz-me o Senhor
– ele que me preparou desde o nascimento
para ser seu Servo – que eu recupere Jacó para ele
e faça Israel unir-se a ele;
aos olhos do Senhor esta é a minha glória.
6 Disse ele: “Não basta seres meu Servo
para restaurar as tribos de Jacó
e reconduzir os remanescentes de Israel:
eu te farei luz das nações, para que minha salvação
chegue até aos confins da terra”.
Palavra do Senhor.

Na escuta silenciosa da vida ferida, respondo hoje com fé madura eis que venho, Senhor, com prazer faço a vossa vontade, transformando espera em caminho, obediência em alegria, e missão em esperança compartilhada.

R. Eu disse: Eis que venho, Senhor,
     com prazer faço a vossa vontade!

2 Esperando, esperei no Senhor,*
e inclinando-se, ouviu meu clamor.
4a Canto novo ele pôs em meus lábios,*
b um poema em louvor ao Senhor. R.

7 Sacrifício e oblação não quisestes,*
mas abristes, Senhor, meus ouvidos;
não pedistes ofertas nem vítimas,*
holocaustos por nossos pecados. R. 

8a E então eu vos disse: “Eis que venho!”*
b Sobre mim está escrito no livro:
9 “Com prazer faço a vossa vontade,*
guardo em meu coração vossa lei!” R.
 
10 Boas-novas de vossa justiça †

anunciei numa grande assembleia;*
vós sabeis: não fechei os meus lábios! R.

Chamados em Cristo para sermos santos no mundo ferido, acolhemos hoje a vós, graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus, vivendo comunhão, esperança perseverante e missão concreta.

1 Paulo, chamado a ser apóstolo de Jesus Cristo,
por vontade de Deus, e o irmão Sóstenes,
à Igreja de Deus que está em Corinto:
aos que foram santificados em Cristo Jesus,
chamados a ser santos 
junto com todos que, em qualquer lugar,
invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo,
Senhor deles e nosso.
3 Para vós, graça e paz,
da parte de Deus, nosso Pai,
e do Senhor Jesus Cristo.
Palavra do Senhor.

Entre perguntas e buscas humanas, somos convidados a escutar: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, acolhendo hoje sua presença humilde que liberta, cura feridas e devolve sentido pleno.

Naquele tempo,
29 João viu Jesus aproximar-se dele e disse:
“Eis o Cordeiro de Deus,
que tira o pecado do mundo.
30 Dele é que eu disse:
‘Depois de mim vem um homem que passou à minha frente,
porque existia antes de mim’.
31 Também eu não o conhecia,
mas se eu vim batizar com água,
foi para que ele fosse manifestado a Israel”.
32 E João deu testemunho, dizendo:
“Eu vi o Espírito descer,
como uma pomba do céu,
e permanecer sobre ele.
33 Também eu não o conhecia,
mas aquele que me enviou a batizar com água me disse:
‘Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer,
este é quem batiza com o Espírito Santo’.
34 Eu vi e dou testemunho:
Este é o Filho de Deus!”
Palavra da Salvação.

HOMILIA

CHAMADOS PARA SER SINAL

A PERGUNTA QUE O MUNDO NOS FAZ

Irmãos e irmãs, celebramos hoje o II Domingo do Tempo Comum. Ficou para trás o ciclo do Natal – o tempo da manifestação – e iniciamos, de fato, a caminhada do “TEMPO COMUM”. Mas “comum” não significa banal ou insignificante. É o tempo de crescer na fé do Deus que se revelou, de ouvir o seu chamado e de viver a sua Palavra no cotidiano da vida. As leituras de hoje nos apresentam um grande tema: a nossa vocação para ser testemunhas. O Profeta Isaías fala de um servo que será “luz para as nações”. O Salmo 40 canta a alegria de quem responde: “Eis que venho!”. São Paulo, escrevendo aos Coríntios, recorda que somos santificados e chamados a viver em comunhão. E, no Evangelho, João Batista aponta para Jesus e declara: “Eis o Cordeiro de Deus!”. Diante de um mundo com tantas vozes a gritar, tantos “salvadores” a prometer soluções fáceis e tantas sombras de desânimo, a liturgia nos pergunta: Qual é o testemunho que a nossa vida está dando?

DA AUTOPROMOÇÃO À MISSÃO DE SER LUZ

João Batista poderia ter criado um movimento em torno de si mesmo. As pessoas iam até ele no deserto. Ele tinha autoridade. Mas sua grandeza está justamente no gesto de apontar para outro: “Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo. Ele não centraliza, não retém; ele indica o caminho. Isso é ser testemunha: não ser o foco, mas ser um sinal que direciona para Jesus.

E qual a realidade para a qual somos chamados a ser essa “luz” e esse “sinal”? Vivemos em uma “era da autopromoção”. Nas redes sociais, somos incentivados a ser a estrela do nosso próprio espetáculo, a cultivar uma imagem de sucesso e felicidade permanente. No trabalho, muitas vezes, prevalece a lógica do “salve-se quem puder”. No debate público, vemos a dificuldade de um diálogo que não seja um monólogo de acusações. A solidão, mesmo em meio a centenas de “amigos” digitais, é uma epidemia silenciosa. É neste mundo que o profeta Isaías nos lembra: “Eu te formei e te constituí como luz das nações, para que leves a salvação até os confins da terra”. Nossa vocação é não apontar para nós mesmos, mas para Aquele que é a fonte da paz, do perdão e do sentido verdadeiro. É testemunhar, nas relações familiares desgastadas, a paciência que vem de Cristo. É no ambiente de trabalho competitivo, agir com integridade e solidariedade. É na esfera digital, semear palavras de ânimo e verdade, em vez de críticas destrutivas.

O CORDEIRO QUE NOS ENVIA

João Batista identifica Jesus como “o Cordeiro de Deus”. Esta expressão rica nos remete ao cordeiro pascal do Êxodo, cujo sangue protegeu o povo, e ao servo sofredor de Isaías, que carrega sobre si as dores de todos. Jesus é aquele que, com sua vida, morte e ressurreição, assume o peso do mal do mundo e o vence com o poder do amor. Ele não é um revolucionário político ou um mestre de leis severas. Ele é o Cordeiro que oferece a própria vida.

E o que isso significa para nós, hoje? Significa que a força do cristão não está no poderio, na imposição ou no grito, mas no testemunho humilde e corajoso do amor que se doa. O Papa Francisco, na Exortação Evangelii Gaudium, nos convida a sermos uma “IGREJA EM SAÍDA”, que não se contenta em guardar a luz, mas que a leva para as periferias existenciais. Ser “luz das nações” não é um título de honra, mas uma missão de serviço. Como o salmista, somos chamados a ouvir o chamado de Deus e a responder com a nossa vida: “Aqui estou, Senhor, para fazer a vossa vontade”. Essa vontade se concretiza quando nos fazemos próximos do colega de trabalho que está deprimido, quando perdoamos uma ofensa familiar, quando nos engajamos em uma iniciativa que promova justiça e dignidade para os pobres. A nossa liturgia dominical é o encontro vital com o Cordeiro que nos alimenta, para que, fortalecidos, possamos sair e apontar para Ele, não com discursos longos, mas com gestos de bondade que despertem a pergunta: “O que motiva esta pessoa?”.

SEU GESTO CONCRETO, NOSSA ESPERANÇA

Portanto, a Palavra de hoje nos convida a um exame de consciência missionário: A minha vida, a nossa comunidade, aponta para Cristo ou para os nossos próprios interesses? Somos um sinal que esclarece ou uma névoa que confunde?

Nesta semana, proponho um gesto concreto: Seja um “João Batista” no seu ambiente. Em uma situação concreta, tente apontar para Jesus. Talvez seja oferecendo uma palavra de esperança a quem está desanimado, talvez seja renunciando a um comentário fútil para rezar por alguém, talvez seja assumindo um serviço na comunidade com alegria discreta. A missão não começa em terras distantes, mas no olhar que reconhece no outro alguém por quem Cristo, o Cordeiro, deu a vida.

Não tenhamos medo. Aquele a quem testemunhamos caminha conosco. Ele é a luz que já venceu as trevas. Somos canais frágeis, mas Ele é a fonte inesgotável. Que, ao final de nossa vida, possam dizer de nós o que o Evangelho diz de João: “Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz”.

ORAÇÃO FINAL

Senhor Jesus, Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós. Vós que nos chamastes para ser vossa luz no mundo, dai-nos a humildade de João Batista, a coragem do profeta Isaías e a disposição do salmista. Fazei que, pela nossa vida, outros possam vos reconhecer e encontrar a salvação. Amém.