No segundo Domingo da Quaresma, a Palavra não nos oferece teorias; oferece-nos um caminho. E caminho supõe decisão, movimento, risco. Deus não nos pede apenas sentimentos religiosos, mas uma fé que se levanta e anda.
Na primeira leitura (Gn 12,1-4a), Abraão é o primeiro a nos inquietar. Quando escuta: “Põe-te a caminho”, ele não recebe um mapa detalhado, nem garantias humanas. Apenas uma promessa. E parte. Deixa terra, segurança, referências. Quem já precisou recomeçar a vida – mudar de cidade, aceitar um chamado inesperado, atravessar uma crise familiar – sabe o quanto isso dói. A fé de Abraão não é ingenuidade; é confiança madura. Ele ensina que obedecer a Deus nem sempre faz sentido à lógica imediata, mas abre horizontes que os cálculos humanos jamais alcançariam.
No Evangelho (Mt 17,1-9), contemplamos a Transfiguração. Jesus sobe ao monte e deixa transparecer sua glória. Os discípulos, ainda assustados com o anúncio da cruz, recebem uma confirmação do Pai: “Este é o meu Filho amado… Escutai-O”. A experiência é luminosa, mas breve. Logo depois, é preciso descer o monte e continuar rumo a Jerusalém. Eis o paradoxo da fé: há momentos de consolação profunda – retiros, orações, experiências que aquecem o coração – mas o discipulado verdadeiro se prova na descida, na fidelidade cotidiana, na cruz abraçada com amor.
O caminho de Jesus passa pela entrega total. Aos olhos do mundo, a cruz parece fracasso; aos olhos da fé, é passagem para a vida plena. Quantas vezes tememos perder, renunciar, sofrer? E, no entanto, é justamente no dom sincero de si que floresce a ressurreição.
A Carta a Timóteo, segunda leitura (2Tm 1,8b-10), recorda-nos que não somos espectadores desse mistério. Somos enviados. Deus conta conosco para anunciar sua salvação. Isso pode significar enfrentar incompreensões, sair do comodismo, sustentar a esperança quando tudo parece obscurecido.
A Quaresma nos pergunta com delicadeza e firmeza:
- Estamos dispostos a escutar?
- A sair de nossas seguranças?
- A seguir Jesus até Jerusalém?
A fé não é um abrigo contra os ventos da vida; é a coragem de atravessá-los com a certeza de que, no fim do caminho, nos espera a vida verdadeira.
Leituras
Como Abraão que ouviu o chamado – “Sai da tua terra” (Gn 12,1) -, somos convidados a deixar nossas seguranças e confiar, pois a fé transforma partidas dolorosas em caminhos de promessa.
e vai para a terra que eu te vou mostrar.
de modo que ele se torne uma bênção.
em ti serão abençoadas todas as famílias da terra!”.
Confiando que “a bondade do Senhor enche a terra” (Sl 32(33),5), caminhamos entre incertezas com esperança firme, pois seu olhar vela por nós, sustenta-nos na provação e renova nossa confiança hoje e sempre.
R. Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, venha a vossa salvação!
18 Mas o Senhor pousa o olhar sobre os que o temem,*
e que confiam esperando em seu amor,
19 para da morte libertar as suas vidas*
e alimentá-los quando é tempo de penúria. R.
20 No Senhor nós esperamos confiantes,*
porque ele é nosso auxílio e proteção!
22 Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça,*
da mesma forma que em vós nós esperamos! R.
Sustentados pela graça que nos foi dada em Cristo Jesus, recordamos que “Deus não nos deu um espírito de medo” (2Tm 1,7), mas com coragem para testemunhar, mesmo nas provações, a esperança que salva.
mas em virtude do seu desígnio e da sua graça,
que nos foi dada em Cristo Jesus
desde toda a eternidade.
Ele não só destruiu a morte,
como também fez brilhar a vida e a imortalidade
por meio do Evangelho,
Palavra do Senhor.
No alto do monte, quando o medo ainda nos habita, ecoa a voz do Pai – “Este é o meu Filho amado; escutai-O” (Mt 17,5) -, e a luz de Cristo transfigura nossas noites.
Naquele tempo,
1 Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão,
e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha.
2 E foi transfigurado diante deles;
o seu rosto brilhou como o sol
e as suas roupas ficaram brancas como a luz.
3 Nisto apareceram-lhes Moisés e Elias,
conversando com Jesus.
4 Então Pedro tomou a palavra e disse:
“Senhor, é bom ficarmos aqui.
Se queres, vou fazer aqui três tendas:
uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias”.
5 Pedro ainda estava falando,
quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra.
E da nuvem uma voz dizia:
“Este é o meu Filho amado,
no qual eu pus todo meu agrado.
Escutai-o!”
6 Quando ouviram isto, os discípulos ficaram muito
assustados e caíram com o rosto em terra.
7 Jesus se aproximou, tocou neles e disse:
“Levantai-vos, e não tenhais medo”.
8 Os discípulos ergueram os olhos e não viram mais
ninguém, a não ser somente Jesus.
9 Quando desciam da montanha, Jesus ordenou-lhes:
“Não conteis a ninguém esta visão até que o
Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos”.
Palavra da Salvação.
Homilia
A VOCAÇÃO DOS INQUIETOS
Existe uma inquietação que não nasce da ansiedade desordenada, mas de uma espécie de saudade do infinito. Ela se manifesta quando, mesmo tendo alcançado certa estabilidade, sentimos que ainda não chegamos aonde deveríamos estar. É discreta, mas insistente. Não vem de fora; ecoa no mais íntimo da consciência. É ali que Deus costuma falar.
Abraão experimentou essa inquietação. Sua vida estava estruturada, suas referências eram sólidas, seu mundo era conhecido. Ainda assim, ao ouvir o chamado para partir, reconheceu naquela voz algo mais verdadeiro do que todas as suas seguranças. Ele não recebeu garantias detalhadas, apenas uma promessa. E partiu. Esse movimento revela algo essencial: a fé não é apego ao que já possuímos, mas confiança no que Deus ainda realizará. Abraão não caminhou para conquistar; caminhou para responder. E é nessa resposta que descobriu sua verdadeira identidade.
Na vida cotidiana, essa dinâmica se repete. Quantas vezes percebemos que permanecer onde estamos – profissionalmente, afetivamente, espiritualmente – já não nos faz crescer? O medo nos diz para ficar; a inquietação de Deus nos convida a avançar. Nem sempre isso significa mudar de cidade ou de trabalho. Muitas vezes significa mudar de postura: perdoar quando é mais fácil endurecer, recomeçar quando é mais simples desistir, assumir responsabilidades que evitávamos.
São Paulo, ao encorajar Timóteo a participar das dificuldades do Evangelho, mostra que a vocação cristã nunca foi sinônimo de conforto. Evangelizar é aceitar viver com o coração desperto. No cotidiano, isso se traduz em atitudes concretas: defender a verdade mesmo quando isso custa popularidade, permanecer fiel aos valores cristãos em ambientes que os relativizam, oferecer esperança a quem perdeu o sentido de viver. A inquietação aqui se torna compromisso.
No Monte Tabor, Pedro expressa um desejo muito humano: permanecer na experiência luminosa. “É bom estarmos aqui.” Todos nós conhecemos esses momentos – uma oração profunda, um encontro marcante, uma celebração que renova a alma. Porém, Jesus não permite que os discípulos se instalem. A experiência de Deus não é fuga da realidade; é força para transformá-la. Descer o monte é voltar ao cotidiano com um olhar transfigurado.
Esse texto reflete profundamente nossa vida diária. Vivemos entre o desejo de estabilidade e o chamado ao crescimento. Queremos segurança, mas precisamos de sentido. Buscamos tranquilidade, mas somos feitos para algo maior. A inquietação santa nos impede de reduzir a existência ao conforto imediato.
Deus nos chama a uma fé em movimento. Como Abraão, somos convidados a sair. Como Timóteo, a perseverar. Como os apóstolos, a descer do monte e enfrentar os desafios da história. A luz que recebemos na intimidade com Deus não é propriedade privada; é MISSÃO.
A vocação dos inquietos é, na verdade, a vocação de todo cristão: viver com o coração disponível, permitir que Deus nos desinstale e transformar cada passo cotidiano em resposta fiel ao Seu chamado.
Texto: JOSÉ CRISTO REY GARCÍA PAREDES
Fonte: ECOLOGÍA DEL ESPÍRITU
Este artigo foi produzido com a assistência de ferramentas de inteligência artificial.
