COM A RESSURREIÇÃO DE JESUS, O TEMPO RECOMEÇOU.

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Dito com simplicidade e reverência: até que Cristo ressuscitou dentre os mortos, tudo o que morria permanecia na morte. A morte parecia ter a última palavra, como um silêncio definitivo sobre a história humana. Mas, quando o Pai O ergueu do sepulcro, algo mudou nas raízes do ser. Desde então, nada permanece definitivamente morto. O tempo, ferido pelo pecado e pela finitude, foi visitado pela eternidade — e começou de novo.

O Evangelho segundo São Lucas inicia o relato pascal com estas palavras: “No primeiro dia da semana, ao amanhecer” (cf. Lucas 24,1). Essa expressão é mais do que uma indicação cronológica. É um sinal teológico. Trata-se do domingo, o primeiro dia, mas também do primeiro dia de uma nova criação. Assim como no Gênesis a luz irrompeu sobre o caos, agora a luz da Ressurreição rasga as sombras da morte. O mundo, inclusive, passou a contar os anos a partir desse acontecimento. Estamos em 2026 depois daquela manhã em que o túmulo foi encontrado vazio. A história humana foi atravessada por um novo princípio.

Desde os primórdios até a Ressurreição, todo ser mortal morria e permanecia na morte. A narrativa de Adão e Eva nos fala, em linguagem simbólica e profunda, da ruptura original que introduziu a experiência da morte na condição humana. Independentemente de como compreendamos esses relatos — como história literal ou como verdade arquetípica — uma realidade permanece: ser humano é ser mortal. A morte nos acompanha como horizonte inevitável.

MAS ISSO MUDOU NA MANHÃ DA PÁSCOA.

Quando Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos, a própria criação foi tocada. A natureza, marcada pela corrupção, foi visitada por uma novidade impensável: um corpo morto retornou à vida gloriosa. Humanamente falando, é impossível. Contudo, o impossível se torna possível quando o próprio Autor do tempo intervém na história. Houve um novo “princípio”. Podemos novamente pronunciar, com assombro: “No princípio…

Jesus é a “primícia” dessa nova criação. O que aconteceu com Ele inaugura aquilo que está prometido a nós. Não permaneceremos na morte. Somos chamados à vida nova. E essa promessa não diz respeito apenas ao ser humano isoladamente. Cristo veio salvar o mundo inteiro — não apenas as pessoas que nele habitam.

São Paulo, na sua Carta aos Romanos, afirma com extraordinária força: “Ela também será libertada da escravidão da corrupção para participar da liberdade e da glória dos filhos de Deus. Pois sabemos que toda a criação geme e sofre como que em dores de parto até o presente” (Romanos 8,21-22). A criação inteira geme como quem aguarda redenção.

Nosso planeta, como nossos corpos, é mortal. Também ele participa da fragilidade do tempo. A ciência nos recorda que o próprio cosmos caminha para transformações radicais. Contudo, a fé nos anuncia que a história não termina no esgotamento da matéria. A Escritura nos assegura que Deus não abandona aquilo que criou por amor.

Essa perspectiva amplia o coração e desafia nossa imaginação. Os animais? A terra? O próprio universo? Como se dará essa transfiguração? Não sabemos os modos. Nossa inteligência é limitada. Porém, sabemos Quem é Deus. O Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo é maior que nossos cálculos. Ele pode realizar o que ultrapassa todo entendimento e transformar todas as coisas em vida nova.

O Evangelho segundo São João oferece uma imagem particularmente luminosa dessa nova criação. Na primeira aparição aos discípulos, reunidos com medo e portas fechadas, Jesus Ressuscitado coloca-Se no meio deles e sopra sobre eles (cf. João 20,22). A cena ecoa o Gênesis, quando Deus soprou sobre o caos e a luz começou a separar-se das trevas.

São João registra: “Soprou sobre eles e disse: ‘Recebei o Espírito Santo’” (João 20,22).

Esse sopro não é apenas consolo; é recriação. Assim como no princípio a luz se separou da escuridão, agora, pela Ressurreição, a luz começa a separar-se do medo, da culpa e da paralisia dos discípulos. O vazio interior é preenchido pela caridade; o medo cede lugar à paz; a confusão é iluminada pela esperança. É o nascimento de um povo novo.

Por isso, é justo afirmar: com a Ressurreição  de Jesus, o tempo recomeçou. Houve um novo primeiro dia. A luz voltou a brilhar nas trevas. Desde aquele instante, a história caminha para a plenitude, e não para o nada.

No Tempo que agora vivemos, essa verdade não é apenas doutrina; é caminho. Crescer na fé é aprender, dia após dia, a viver como quem já participa dessa nova criação. Em meio às ansiedades do nosso tempo — a crise ambiental, o medo do futuro, o cansaço interior — a Ressurreição nos recorda que nenhuma escuridão é definitiva, nenhuma perda é absoluta, nenhuma lágrima é ignorada por Deus.

Até a manhã da Páscoa, tudo o que morria permanecia morto. Agora, isso já não é verdade. Em Cristo, a morte não é ponto final, mas passagem. O tempo foi tocado pela eternidade, e cada dia — inclusive o nosso — pode tornar-se início, porque o Senhor ressuscitado caminha conosco e faz novas todas as coisas.

Perguntas para reflexão

  1. Se a Ressurreição de Cristo inaugurou um novo “primeiro dia”, que áreas da minha vida ainda permanecem como se estivessem fechadas no medo, esperando que a luz do Ressuscitado as visite?
  2. Diante das ansiedades do mundo atual — crises, inseguranças, fragilidades pessoais — vivo como alguém que crê que a morte não tem a última palavra, ou deixo-me conduzir pelo desânimo e pela sensação de fim?
  3. Se toda a criação “geme em dores de parto”, como afirma “toda a criação geme e sofre como que em dores de parto até o presente” (Romanos 8,22), de que modo minha fé se traduz em cuidado concreto com a vida, com a terra e com as pessoas ao meu redor?
  4. No caminho do Tempo, onde sou chamado a crescer de modo paciente e cotidiano, que passos concretos posso dar para permitir que o sopro do Espírito Santo transforme minha escuridão em luz, meu medo em missão e minha rotina em esperança viva?

Texto: Ron Rolheiser