A PAZ IRROMPEU

DESTAQUE

Ser construtor da paz nunca foi algo fácil de assimilar. Exige assumir, como atitude fundamental, um amor incondicional e, além disso, aprender a dirigir-se a Deus como Pai. Por outro lado, a paz que Jesus veio nos trazer não significa ausência de conflitos ou sofrimentos; ela não é como a paz do mundo. Ainda assim, vale a pena lutar por ela.

Jesus anuncia que aqueles que trabalham pela paz, que a proclamam e a constroem, serão chamados “filhos de Deus”. Para compreender a quem Ele se refere, no Sermão da Montanha encontramos duas chaves importantes. Em Mt 5,44-45, lemos: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem. Assim sereis filhos do vosso Pai que está nos céus, pois Ele faz nascer o sol sobre maus e bons e faz cair a chuva sobre justos e injustos.
Tudo indica que os construtores da paz têm como atitude essencial um amor incondicional, capaz de amar mesmo quando não é correspondido e, mais ainda, de devolver amor àqueles que oferecem rejeição e ódio.

A outra chave está claramente ligada à oração dos “filhos”: o Pai-Nosso. Os que trabalham pela paz aprendem a dirigir-se a Deus como Pai. Os pacificadores sabem, nos momentos de dificuldade, que têm um Deus que já está do seu lado, que não precisa ser convencido de nada, pois ama gratuitamente. Ao iniciar a oração, sua primeira palavra é: Pai! E assim se sabem acompanhados e amados por Ele. É aqui que a paz começa a nascer.

Pouco a pouco, tornam-se conscientes de que podem “descobrir” quem é esse Pai, qual é o seu nome, pois a sua santidade consiste em ouvir o clamor do seu povo, conduzi-lo pelo deserto, alimentá-lo, dar-lhe água para beber, oferecer-lhe o dom da Terra Prometida e fazê-lo viver em Aliança com Alguém que protege, revela a sua Lei e manifesta a sua vontade – que não é outra vontade, senão a felicidade do ser humano.

A vontade de Deus pode ser chamada de paz. Essa paz consiste em saber que, a cada dia, teremos o pão de que precisamos; que receberemos a reconciliação do seu perdão quando respondemos às agressões com perdão; que Ele não nos deixa cair na tentação de renunciar ao que há de mais profundo em nós – nossa vocação – e nos livra do Mal.

O DEUS DO “SHALOM”

Durante muitos séculos, a paz foi interpretada, seguindo a definição agostiniana, como “tranquilidade da ordem”. Felizmente, os Padres do Concílio Vaticano II reconheceram que essa definição era muito insuficiente. Muitas vezes, esse “ordenamento” é profundamente injusto, sustentado pela opressão e pela repressão, servindo para justificar desigualdades sociais. Aqueles que mais se interessam pela manutenção desse “ordenamento” são justamente os que dele se beneficiam. Goethe declarou sem disfarces: “Prefiro a injustiça à desordem”.

No Egito e na Babilônia, o povo vivia sob uma “tranquilidade de ordem”, mas estava muito distante de viver a paz como a Bíblia a entende. Por isso, Deus assume o papel de “árbitro das nações” e se torna juiz de povos numerosos, instaurando a justiça. Somente quando essa justiça for colocada em prática é que as espadas poderão ser transformadas em arados e as lanças em podadeiras; não se aprenderá mais a arte da guerra.

A raiz da palavra hebraica shalom indica o ato de completar, restaurar o que está ferido, reparar um dano ou cumprir um compromisso. Isso significa bem-estar pleno: harmonia do ser humano com Deus, consigo mesmo, com os outros e com o mundo; abundância, saúde, segurança, honra, bênção divina – em uma palavra, vida. Por isso, a paz é, antes de tudo, um dom de Deus ou, como dirá o Novo Testamento, um fruto do Espírito Santo.

FELIZES OS PÉS DO MENSAGEIRO QUE ANUNCIA A PAZ

Os reiterados anúncios do Antigo Testamento apresentam o Messias como o “Príncipe da Paz”. Para São Lucas, esse Príncipe é o próprio Jesus Cristo, que vem “endireitar nossos passos no caminho da paz” (Lc 1,79). Sua presença no meio de nós é anunciada pelos anjos, que proclamam: “Paz na terra aos homens por Ele amados” (Lc 2,14).

Esses “anjos” serão depois os discípulos, que, ao entrar numa casa, desejarão que a paz nela habite; se não for acolhida, ela retornará a eles (Mt 10,12-13).

“Paz” será também a saudação do Ressuscitado, pois sua entrega ao Pai até a Páscoa reconciliou os seres humanos entre si e com o próprio Pai. O pecado e a morte foram vencidos, as divisões foram superadas e lançaram-se os alicerces da Nova Jerusalém, a “cidade da paz”.

Entretanto, não se deve perder de vista que a paz de Cristo não é simples tranquilidade: Pensais que vim trazer paz à terra? Não, eu vos digo, mas divisão (Lc 12,51). A mensagem pacífica e pacificadora de Jesus provoca a reação das forças que sustentam a injustiça deste mundo e o conduz à cruz. Não podemos nos iludir: a paz de Cristo não significa ausência de conflitos ou sofrimentos, pois “a minha paz não é como a do mundo” (Jo 14,27). Essa paz passa pelo reconhecimento das próprias feridas e pecados, e só então podemos ouvir dos lábios do Senhor: “Vai em paz”.

OS FILHOS DA PAZ

Nós, discípulos, recebemos do Senhor Ressuscitado a missão de semear a paz de Deus, o Evangelho da paz (Ef 6,15). Diante dessa missão, também eu preciso pedir esse dom para mim. Não me sinto um homem plenamente pacificado nem pacífico; falta-me muita paz interior. Muitas vezes, como os discípulos, permaneço fechado em meu cenáculo, porque não consigo aceitar-me como sou, carregando inquietações, complexos e invejas. Vivo em guerra comigo mesmo.

Peço que o Deus do Natal me ajude a descobrir que a paz começa quando me faço criança: limitado, frágil e necessitado diante de mim e dos outros. Uma criança desarmada e confiante tem o poder de desarmar o agressor e gerar paz. É isso que preciso aprender a viver comigo mesmo, para depois despertar nos outros os sonhos da paz.

Assim poderei assumir o desafio da paz entre os meus, vivendo o apelo de Jesus: QUE TODOS SEJAM UM, PARA QUE O MUNDO CREIA. Vivemos tempos marcados por nervosismo e agressividade: gritamos, ofendemos, ameaçamos – no trânsito, no esporte, na política, nas escolhas cotidianas, até nas pequenas decisões da convivência diária.

Preciso, como dizia Madeleine Delbrêl, de olhos benevolentes, nos quais os companheiros de caminhada possam se aquecer como junto a uma lareira. Olhos que não busquem motivos para combater, porque desejo ser um “contador da paz”, e a paz não se constrói com batalhas. Creio que, assim como a divisão de um átomo pode desencadear forças imensas, também um gesto de reconciliação pode gerar um contágio de paz capaz de alcançar o mundo inteiro. Onde nasce um pouco de paz – como em Belém – ali começa uma força silenciosa que pode transformar toda a terra.

Posso ser verdadeiramente feliz e bem-aventurado, porque o Senhor nos trouxe a paz e porque, no fundo do meu coração, ressoa uma voz suave e inefável que diz: Pai.

PARA DIALOGAR E ORAR
  1. O que significa, para nós hoje, ser instrumentos da paz em nossos contextos concretos?
  2. Fazer uma leitura orante do Salmo 121 e, a partir dela, escrever uma oração da Igreja ou da comunidade como “Cidade da Paz”.
  3. O que habitualmente me faz perder a paz? Em que preciso trabalhar mais para ser um verdadeiro filho da paz?
  4. Reconhecer nossas violências, sementes de divisão e inquietações pessoais e levá-las a uma celebração comunitária do perdão.

Texto: Enrique Martínez de la Lama
Fonte: Ciudad Redonda