Há momentos em que Deus não nos pede grandes realizações. Pede apenas que preparemos um lugar. O Evangelho de Marcos (14, 12-16) nos conduz a uma cena aparentemente simples: aproximava-se a Páscoa, e Jesus envia dois discípulos para preparar o lugar onde celebrariam juntos. Eles deveriam encontrar uma sala e deixá-la pronta para a ceia.
“Onde está a sala em que poderei comer a Páscoa com meus discípulos?” (Mc 14,14)
Antes da mesa ser preparada, antes do pão ser repartido, antes de Jesus entregar sua vida por amor, alguém precisou abrir espaço. Há, nesse gesto aparentemente pequeno, uma profunda pedagogia espiritual: Deus deseja entrar, mas é preciso haver lugar para sua presença.
Os discípulos prepararam uma sala sem conhecer plenamente o que aconteceria ali. Talvez também nós sejamos chamados a preparar espaços sem saber exatamente o que Deus realizará neles. A fé muitas vezes começa assim: abrimos uma porta, afastamos alguns obstáculos, organizamos o necessário e confiamos.
Nossa vida, porém, nem sempre está disponível. Vivemos cercados de compromissos, preocupações, mensagens, notícias, reuniões e responsabilidades. A agenda fica cheia, a mente permanece ocupada e, pouco a pouco, podemos nos tornar incapazes de perceber quem está ao nosso lado.
Há pessoas que não precisam de grandes presentes, mas de nossa presença. Um filho precisa ser ouvido. Um amigo necessita de uma palavra. Um familiar espera uma visita. Alguém que sofre talvez esteja apenas aguardando que lhe ofereçamos tempo.
“Preparai-nos a sala para que aí possamos comer a Páscoa.” (Mc 14,15)
Preparar a sala é também preparar o coração. É retirar aquilo que ocupa um espaço que deveria estar disponível para o amor. Às vezes, precisamos desligar o celular para olhar verdadeiramente nos olhos de alguém; silenciar nossas próprias certezas para escutar uma dor; interromper a pressa para perceber uma necessidade.
Fazer espaço não significa abandonar nossas responsabilidades. Significa reconhecer que nem tudo aquilo que ocupa nosso tempo merece ocupar nosso coração.
Também Deus espera encontrar em nós uma sala preparada. Um espaço de silêncio em meio ao barulho. Um momento de oração em meio à correria. Um coração aberto em meio às preocupações. Uma consciência capaz de escutar sua Palavra e discernir seus caminhos.
Quantas vezes pedimos que Deus entre em nossa vida, mas não lhe oferecemos espaço? Queremos sua paz, mas conservamos nossas inquietações. Pedimos sua presença, mas permanecemos excessivamente ocupados para percebê-la.
A sala da Última Ceia tornou-se lugar de comunhão, entrega e amor. Naquele espaço, Jesus transformou uma refeição em memória viva de sua entrega. Isso nos recorda que um espaço preparado com amor pode tornar-se lugar de encontro com Deus.
Hoje, talvez o Senhor esteja nos convidando a preparar novamente nossa sala interior. O que precisa ser retirado? Que preocupação ocupa espaço demais? Que relacionamento necessita de tempo? Que pessoa está esperando ser acolhida? Que lugar precisamos abrir para Deus?
São perguntas simples, mas podem transformar uma existência.
Talvez algumas das experiências mais importantes de nossa vida não precisem de grandes acontecimentos. Precisem apenas de espaço: um espaço para escutar, para acolher, para perdoar, para amar e para permitir que Deus faça morada em nós.
Porque quando abrimos espaço para o outro, o amor encontra morada. E quando abrimos espaço para Deus, descobrimos que Ele já estava à nossa espera.
“E os discípulos foram, encontraram tudo como Jesus lhes havia dito e prepararam a Páscoa.” (Mc 14,16)
Que também nós saibamos preparar nossa sala interior. Talvez não saibamos o que acontecerá depois. Mas podemos confiar: quando o coração se abre, Deus transforma o espaço vazio em lugar de encontro, comunhão e vida nova.
Texto: Rafael Moya
Fonte: Catholic.Net