IV DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A)

A PALAVRA

Como construir uma vida que realmente valha a pena? Essa pergunta, tão antiga quanto a própria humanidade, continua ecoando em nossos corações. Todos desejamos uma existência que faça sentido, que não desmorone diante das crises, das perdas, das frustrações inevitáveis do caminho. As leituras do quarto domingo do tempo comum nos oferecem uma resposta simples e, ao mesmo tempo, profundamente exigente: confiar em Deus, colocar n’Ele a nossa esperança e aprender a viver ao estilo de Jesus.

O profeta Sofonias, na Primeira Leitura (Sf 2,3;3,12-13), fala de humildes e pobres. Não se trata apenas de quem carece de bens materiais, mas daqueles que reconhecem a própria fragilidade e sabem que não se bastam. São pessoas que, diante da insegurança da vida, escolhem apoiar-se em Deus. Quantas vezes tentamos controlar tudo: o futuro, as relações, a carreira, a saúde… E quando algo foge ao nosso controle, sentimos o chão tremer. Os “pobres” de Sofonias nos ensinam outra postura: confiar, entregar, descansar em Deus como quem encontra refúgio nos braços de um Pai. É por isso que Deus os prefere: porque neles há espaço para Ele agir.

São Paulo, na Segunda Leitura (1Cor 1,26-31) escrevendo aos cristãos de Corinto, aprofunda esse caminho. Ele alerta contra a ilusão da “sabedoria humana”, que promete sucesso, reconhecimento e poder, mas muitas vezes deixa um vazio interior. Em vez disso, Paulo propõe a “loucura da cruz”. Loucura, sim, aos olhos do mundo: perdoar quando seria mais fácil revidar; servir quando todos querem ser servidos; amar sem garantias de retorno. No entanto, é exatamente aí que brota a verdadeira sabedoria: uma vida moldada pelo amor que se doa, como fez Jesus.

No Evangelho (Mt 5,1-12a), Jesus apresenta as bem-aventuranças, a grande carta magna do Reino de Deus. São oito caminhos para uma felicidade que não depende de aplausos nem de contas bancárias. Felizes os pobres em espírito, os mansos, os misericordiosos, os que têm fome de justiça… Não é uma lista de exigências frias, mas um retrato do próprio coração de Jesus. Ele nos mostra que a felicidade nasce quando aprendemos a viver com simplicidade, compaixão e confiança em Deus.

Essas leituras nos convidam a rever os alicerces da nossa vida. Em que temos colocado nossa segurança? No dinheiro? Na imagem? No controle? Ou em Deus, que caminha conosco até nas noites mais escuras? Seguir Jesus é escolher, dia após dia, construir sobre a rocha do amor, da humildade e da esperança. É um caminho exigente, mas é o único que conduz à vida plena.

Fonte: Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus

Leituras

Hoje, ecoa a promessa: Deixarei entre vós um punhado de homens humildes e pobres, para que, confiando só em Deus, encontremos refúgio, justiça e esperança que transforma nossas fragilidades em vida plena hoje.

3 Buscai o Senhor, humildes da terra,
que pondes em prática seus preceitos;
praticai a justiça, procurai a humildade;
talvez achareis um refúgio
no dia da cólera do Senhor.
3,12 E deixarei entre vós
um punhado de homens humildes e pobres.
E no nome do Senhor porá sua esperança
o resto de Israel.
13 Eles não cometerão iniquidades
nem falarão mentiras;
não se encontrará em sua boca
uma língua enganadora;
serão apascentados e repousarão,
e ninguém os molestará.
Palavra do Senhor.

Em meio às lutas de hoje, felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus, pois quem confia em Deus encontra justiça, cura interior e esperança que renova a vida.

R. Felizes os pobres em espírito,
    porque deles é o Reino dos Céus.

7 O Senhor é fiel para sempre,*
faz justiça aos que são oprimidos;
ele dá alimento aos famintos,*
é o Senhor quem liberta os cativos. R.

8 O Senhor abre os olhos aos cegos*
o Senhor faz erguer-se o caído;
o Senhor ama aquele que é justo* 
9a É o Senhor quem protege o estrangeiro R.

9bc Ele ampara a viúva e o órfão*
mas confunde os caminhos dos maus. 
10 O Senhor reinará para sempre! †
Ó Sião, o teu Deus reinará*
para sempre e por todos os séculos! R.

Nos desafios de hoje, Deus escolheu o que o mundo considera como fraco, para confundir a soberba, revelar seu amor, levantar os pequenos e lembrar-nos que a graça sustenta nossas vidas hoje e sempre.


26 Considerai vós mesmos, irmãos,
como fostes chamados por Deus.
Pois entre vós não há muitos sábios de sabedoria humana
nem muitos poderosos nem muitos nobres.
27 Na verdade,
Deus escolheu o que o mundo considera como estúpido,
para assim confundir os sábios;
Deus escolheu o que o mundo considera como fraco,
para assim confundir o que é forte;
28 Deus escolheu o que para o mundo
é sem importância e desprezado,
o que não tem nenhuma serventia,
para assim mostrar a inutilidade
do que é considerado importante,
29 para que ninguém possa gloriar-se diante dele.
30 É graças a ele que vós estais em Cristo Jesus,
o qual se tornou para nós, da parte de Deus:
sabedoria, justiça, santificação e libertação,
31 para que, como está escrito,
“quem se gloria, glorie-se no Senhor”.
Palavra do Senhor.

Nas bem-aventuranças, Jesus proclama: Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus, convidando-nos hoje a viver a humildade, a misericórdia e a esperança, encontrando força na fragilidade humana em nossos dias atuais.

Naquele tempo,
1 vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se.
Os discípulos aproximaram-se,
2 e Jesus começou a ensiná-los:
3 “Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o Reino dos Céus.
4 Bem-aventurados os aflitos,
porque serão consolados.
5 Bem-aventurados os mansos,
porque possuirão a terra.
6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
7 Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
8 Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
9 Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
10 Bem-aventurados os que são perseguidos
por causa da justiça,
porque deles é o Reino dos Céus.
11 Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem
e perseguirem, e mentindo,
disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim.
12a Alegrai-vos e exultai,
porque será grande a vossa recompensa nos céus”.
Palavra da Salvação.

HOMILIA

ONDE ESTÁ A NOSSA FELICIDADE?

Às vezes eu me pergunto – e talvez você também: em que estou buscando a felicidade? No que possuo, no que sei, no reconhecimento que recebo? Em metas cumpridas, em elogios, em segurança financeira, em relações que me façam sentir importante? São perguntas simples, mas que tocam fundo, porque revelam onde repousa, de fato, o nosso coração. E, quando nos atrevemos a formulá-las com sinceridade, percebemos como muitas das nossas buscas nos deixam cansados, inquietos, sempre à espera de algo mais.

As três leituras deste domingo – Sofonias, Paulo e, sobretudo, Jesus – nos dão um choque de realidade, como uma luz que atravessa as nossas ilusões mais confortáveis. Elas nos recordam algo que facilmente esquecemos: Deus não escolhe o que é impressionante. Ele não se deixa seduzir por aparências, currículos brilhantes ou histórias de sucesso. Ele escolhe aquilo que o mundo ignora. O que é fraco. O que não conta. O que parece pouco promissor. E isso muda tudo, porque desmonta a lógica com a qual muitas vezes tentamos construir a nossa vida.

Sofonias fala de um “resto humilde e pobre” que confia no Senhor. Não se trata apenas de pobreza material, mas de uma atitude interior: pessoas que sabem que não se bastam, que reconhecem os próprios limites e que, por isso mesmo, aprendem a esperar tudo de Deus. Em um mundo que exalta a autossuficiência e despreza a fragilidade, essa palavra soa quase como provocação. Mas é justamente aí que Deus encontra espaço para agir.

Jesus, o único Mestre, olhava para as pessoas humildes, para quem sofre, para os feridos da vida, e algo se movia dentro d’Ele. Seu coração se enchia de alegria. Nelas, Ele via um terreno fértil para o Reino de Deus. Não porque o sofrimento seja bom em si mesmo, mas porque a dor, quando acolhida na verdade, abre fendas por onde a graça pode entrar. Por isso Jesus subiu à montanha e nos entregou este manifesto que ainda hoje nos sacode por dentro:

Felizes os pobres em espírito… os que choram… os mansos… os que têm fome e sede de justiça… os misericordiosos… os puros de coração… os pacificadores… os perseguidos por causa da justiça.

Não é um “felizes os de lá”. Não é uma promessa distante para um grupo idealizado. É um “felizes nós”, quando o nosso coração está aí. Quando deixamos de confiar nas nossas próprias seguranças e passamos a confiar somente n’Ele. Quando, na nossa pobreza – que todos temos de um modo ou de outro -, não deixamos de acreditar que Deus está fazendo algo novo, mesmo quando tudo em nós e ao nosso redor parece estagnado ou quebrado.

Quantas vezes nos sentimos pobres em espírito porque não sabemos mais rezar como antes, porque a fé parece fraca, porque estamos cansados de lutar? Quantas vezes choramos perdas, decepções, rupturas que ninguém vê? Quantas vezes temos fome de justiça e nos revoltamos diante da violência, da desigualdade, da corrupção, da indiferença? Jesus não nos chama felizes apesar disso, mas a partir disso. Ele nos diz: “É aí, exatamente aí, que o Reino pode nascer”.

Paulo nos fala com clareza, a comunidades como a nossa, como fez com os coríntios: Considerai, irmãos, a vossa própria vocação. Olhemos ao nosso redor, olhemos para dentro. Não é verdade que Deus age justamente naquilo que nós desprezamos? Nas nossas fraquezas, nas nossas limitações… e também nas pessoas que passam despercebidas: os idosos esquecidos, os doentes, os pobres, os que não têm voz, os que não se encaixam nos padrões.

Este texto nos humilha, se nos achamos muito espertos ou importantes. Ele desmonta o nosso orgulho espiritual, a tentação de nos sentirmos melhores do que os outros. Mas também nos liberta profundamente. Ele nos diz: “O teu valor não está no que tens ou aparentas. Não está no teu sucesso, nem na tua eficiência, nem na tua reputação. Está em que, na tua indigência, confies. E, a partir daí, sejas misericordioso, pacífico, puro de coração”.

Isso muda a forma como olhamos para nós mesmos e para os outros. Começamos a tratar com mais ternura as nossas próprias feridas e as fragilidades alheias. Deixamos de exigir perfeição. Aprendemos a perdoar, a pedir perdão, a recomeçar. Descobrimos que a santidade não é uma vida sem quedas, mas uma vida que se deixa levantar sempre de novo por Deus.

Como dizia Santo Agostinho: Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração anda inquieto enquanto não repousa em Ti. Talvez aí esteja a chave. Deixar de procurar a paz onde ela não está: no consumo sem fim, no aplauso dos outros, no controle absoluto da própria vida. E encontrá-la exatamente onde Jesus a proclama: num coração que se esvazia para se deixar encher por Ele.

Neste Tempo Comum, tempo de passos pequenos e fiéis, tempo de crescimento silencioso, somos convidados a caminhar com Cristo nessa lógica tão diferente do mundo. Uma lógica que não promete sucesso fácil, mas oferece sentido. Não garante ausência de dor, mas assegura uma alegria profunda. Uma lógica que transforma fragilidade em bênção e pobreza em espaço para Deus habitar.

Que possamos, neste domingo, fazer uma pausa, respirar fundo e permitir que essa Palavra nos encontre onde estamos: cansados, esperançosos, feridos, agradecidos. E, ali mesmo, ouvir Jesus nos chamar de felizes. Não porque somos fortes, mas porque, enfim, aprendemos a confiar. E, confiando, começamos a viver de verdade.

Texto: JOSÉ CRISTO REY GARCÍA PAREDES
Fonte: ECOLOGÍA DEL ESPÍRITU

Este artigo foi produzido com a assistência de ferramentas de inteligência artificial.