ADORAÇÃO EUCARÍSTICA: UMA REVOLUÇÃO?

DESTAQUE

A capela escura, o ostensório iluminado, o silêncio… pode ser de tirar o fôlego. Às vezes, até mais impactante do que a missa de domingo.

INCLINAR-SE? POR QUÊ? DE JOELHOS!

O que nos dizem hoje é: “Seja forte, confiante, protagonista da sua própria vida… construa o seu destino!” A adoração, por outro lado, nos diz: “Para ser você mesmo, você precisa sair do centro. Em uma selfie, eu ou nós somos o centro: controlamos o ângulo, o filtro, a imagem. A adoração, no entanto, é o oposto da selfie. É girar a câmera 180 graus e apontá-lo para Alguém que é infinitamente maior, mais belo, mais amoroso do que nós. Não é um ato de fraqueza. É um ato de verdade de tirar o fôlego: reconhecemos que não somos a luz, mas que precisamos de Alguém para nos iluminar. Aquele ostensório iluminado na escuridão não é um “objeto bonito”. É um “símbolo explosivo”. O ostensório nos diz: “Aqui está o centro de tudo. Não você, não seus problemas, não seus sucessos. Aqui está o Amor que te sustenta sem que você tenha feito nada para merecê-lo!

O CORPO FALA: OS JOELHOS, O CORAÇÃO, O SILÊNCIO

Somos convidados a nos ajoelhar, a silenciar, a inclinar a cabeça. Por quê? Porque a fé não está apenas na cabeça, está em todo o corpo. Quando nos ajoelhamos fisicamente, dizemos ao nosso coração e ao nosso orgulho: “Abaixe a guarda.” “Deixe-se surpreender.” Esta não é a postura de um escravo. É a postura de alguém que sabe que é amado incondicionalmente e pode, finalmente, parar de atuar, parar de fingir, parar de se esforçar para ser visto. É como quando você chega em casa depois de um dia exaustivo e desaba no sofá. Você pode relaxar porque está em casa. Adorar é reconhecer que em Deus estamos em casa. O silêncio não é vazio. É abrir espaço. Nossas vidas estão cheias de ruído: notificações, opiniões, música, ansiedades. Na adoração, ficamos em silêncio para que possamos ouvir uma voz que não grita, que sussurra: “Você é meu, e eu sou seu. Aqueles que conduzem a adoração com palavras, leituras, música de fundo… a arruínam. Como se tivessem medo do silêncio. É possível adorar sem silêncio?

A RESISTÊNCIA: ADORAÇÃO NA ERA DOS “LIKES”

Aqui vem a parte mais revolucionária. Vivemos em uma cultura de performance e consumo. Tudo é útil: é comprado e vendido. Às vezes, até transformamos a espiritualidade em um produto: “Vou à igreja para sentir paz”, “Rezo para me sair bem na prova”, “Vou à igreja para me sentir em paz”. A adoração rompe com essa lógica. É completamente gratuita. Não se adora para receber algo. Adora-se porque já se recebeu tudo… até demais! (Jean-Luc Marion a entende como um “fenômeno saturado”). É como quando você olha para alguém que ama e diz “obrigado” simplesmente por existir. Você não pede nada dessa pessoa. Basta que ela esteja ali.

No Getsêmani, o Verbo se fez carne não para negar o suor da angústia, mas para adorar a partir de dentro dela. A adoração não é uma fuga do corpo; é o corpo se tornando uma fissura por onde emerge o infinito. É a virtude da fissura aceita, onde a fragilidade deixa de ser um defeito a ser corrigido e se torna o limiar da recepção (Emmanuel Falque). Por isso, em um mundo que diz “produza, consuma, seja útil”, ajoelhar-se em silêncio é um ato de rebeldia pacífica. É declarar: “Há algo mais importante do que a minha produtividade”. Existe um Amor que não pode ser comprado, que não pode ser vendido, que só pode ser recebido e celebrado.

O GRANDE SEGREDO: A ADORAÇÃO NÃO É UM MOMENTO, É UM MODO DE VIDA.

A adoração eucarística é um treinamento, como uma academia para a alma. Mas seu objetivo é que toda a nossa vida se torne adoração. Isso significa viver atentamente. Observar o nascer do sol e dizer “obrigado”. Ouvir um amigo que sofre e ver Jesus nele. Estudar ou trabalhar não apenas para obter uma nota ou um salário, mas como uma forma de servir, de deixar um pouco da beleza de Deus brilhar no mundo. Aqui, a adoração se revela como a “virtude da atenção nua” (Simone Weil): atenção sem objetivo, sem captura. Não é escrutínio, mas “recepção”. Quem adora não analisa o mistério; deixa-se analisar por ele. É um ouvido que se afina para ouvir uma melodia que não compôs, um olho que se abre para receber uma luz que não gera. Essa atenção é a forma mais elevada de inteligência: a inteligência do “amor receptivo”, que não conhece o não-possuir, mas ser possuído pela verdade.

A Eucaristia é a fonte de tudo isso. É a grande adoração, onde não apenas contemplamos, mas comemos e bebemos de Deus, tornando-nos um com Ele. A adoração fora da Missa é como estender esse abraço, permanecendo um pouco mais em silêncio depois de dizer “Eu te amo.

SER UM ESPELHO: A GRANDE CONCLUSÃO

Imagine um espelho em um quarto escuro. Ele é frio, cinza, inútil. Mas, de repente, alguém abre uma janela e um raio de sol brilha diretamente sobre ele. O espelho explode em luz. Não é sua própria luz, é a luz refletida. Mas, graças a ela, todo o quarto se ilumina.

Nós somos esse espelho. Deus é esse sol. E a adoração é voltar-se para a luz. É aceitar com alegria que não somos o fogo, mas fomos feitos para refletir o fogo. Quando nos ajoelhamos, não nos diminuímos. Tornamo-nos transparentes. Deixamos a Luz passar por nós para iluminar todos ao nosso redor.

A adoração não é uma “prática da moda”. É o espaço onde deixamos de ser os protagonistas do nosso próprio filme e transformamos nossas vidas em um reflexo consciente e alegre do maior Amor. Esta é a revolução da adoração.

Aquele que não adora, em sua autossuficiência, é como um espelho voltado para a parede: talvez intacto, mas escuro, inútil, isolado em sua opacidade.

Texto: José Cristo Rey García Paredes