Confesso uma paixão especial pelo Tempo Comum. Este extenso período de 33 a 34 semanas, que tece o tecido do nosso ano litúrgico entre as celebrações do Natal e da Páscoa e depois de Pentecostes, é frequentemente mal compreendido. Chama-se “comum” não por ser banal ou secundário, mas porque celebra o mistério de Cristo em sua totalidade, inserido na normalidade de nossos dias. É o tempo do cotidiano santificado, no qual o extraordinário de Deus se revela no ordinário de nossa existência. É no Tempo Comum que aprendemos a ouvir o Mestre em sua vida pública, a contemplar seus ensinamentos e milagres, não em um cenário distante, mas nas ruas, nas casas e nos corações do nosso próprio tempo.
O VERDE DA ESPERANÇA CRESCENTE
No altar, a cor verde domina. Ela não é o roxo penitencial, nem o branco jubiloso, nem o dourado glorioso. É o verde da esperança, da vida que pulsa, da vegetação que cresce em silêncio rumo aos frutos. Este é o símbolo perfeito para o Tempo Comum. Trata-se de um tempo de crescimento e de maturação. Se no Natal contemplamos o Verbo que se fez carne e, na Páscoa, celebramos a vitória sobre a morte, no Tempo Comum somos chamados a assimilar esse mistério, a permitir que ele se enraíze nas fibras mais íntimas do nosso ser e transforme a vida diária.
Vivemos em uma cultura que idolatra o extraordinário: o sucesso instantâneo, o evento espetacular, a experiência emocionante. A rotina, o trabalho perseverante e a fidelidade nos pequenos gestos são frequentemente desvalorizadas, vistos como tempo “perdido” entre um pico de felicidade e outro. A espiritualidade do Tempo Comum é um antídoto profético para essa ansiedade. Ela nos ensina que Deus não habita apenas nos cumes das montanhas, mas também – e sobretudo – no caminho que leva até elas. A liturgia dessas semanas nos conduz, por meio do Evangelho, pelos anos da vida pública de Jesus, mostrando-nos como o Reino de Deus se manifesta nos encontros à beira do poço, nas ceias com pecadores, nas curas realizadas em dia de sábado, nas parábolas inspiradas na agricultura e na vida familiar.
Como afirma o Cardeal Orani Tempesta, a grande graça desse período é “encontrar o extraordinário no comum”. Trata-se de descobrir que o mesmo Cristo que nasceu em Belém, morreu e ressuscitou em Jerusalém deseja encarnar-se e manifestar-se, a cada dia, por meio de nossos gestos mais simples, iluminados pela fé. O Tempo Comum é, portanto, uma verdadeira escola de presença. Ele nos convida a desacelerar a ânsia pelo próximo grande evento e a saborear a beleza sagrada do momento presente, pois é nele que Deus nos fala.
O Evangelho de Mateus no Ano A: O Reino em Nossos Ouvidos
No ciclo litúrgico do Ano A, que vivemos agora, nosso guia principal é o Evangelho de São Mateus – e que guia magnífico! Mateus escreve para uma comunidade de judeus convertidos e estrutura seu relato para apresentar Jesus como o novo Moisés, o Mestre por excelência, o Filho de Davi que cumpre as promessas da Antiga Aliança.
Ao longo dos domingos do Tempo Comum, seremos conduzidos por Mateus ao coração do “Reino dos Céus”, expressão tão característica deste evangelista. Ouviremos o Sermão da Montanha, verdadeira carta magna desse Reino, com suas bem-aventuranças que invertem a lógica do mundo. Acompanharemos as parábolas que desvendam, em linguagem simples, o mistério do agir de Deus: o semeador, o joio e o trigo, o tesouro escondido, a pérola preciosa. Testemunharemos os milagres que são sinais concretos de que o Reino não é uma utopia distante, mas uma força ativa que cura, liberta e restaura.
A liturgia do Tempo Comum, contudo, não é uma mera leitura sequencial dos textos bíblicos. Ela é uma verdadeira sinfonia que harmoniza as leituras do Antigo Testamento, os Salmos e as epístolas com o trecho do Evangelho, criando um diálogo divino-humano que ilumina o nosso caminho. Tomemos, por exemplo, o Evangelho proclamado no início desse tempo litúrgico:
“Depois que João foi preso, Jesus foi para a Galileia, pregando o Evangelho do Reino de Deus e dizendo: ‘Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; convertei-vos e crede no Evangelho’.” (Mc 1,14-15)
Esse chamado à conversão, lançado na Galileia das nações, ecoa através dos séculos e chega até nós em nosso “tempo comum”. Trata-se de um apelo urgente e amoroso para que ajustemos nossa vida à realidade nova inaugurada por Jesus. Ele não espera por um momento especial: o “tempo completo” é agora, no meio das atividades cotidianas. E sua primeira ação é chamar pessoas comuns, no exercício de seu trabalho diário:
“E passando à beira do mar da Galileia, viu Simão e André… E Jesus lhes disse: ‘Segui-me e eu farei de vós pescadores de homens’. E eles, deixando imediatamente as redes, o seguiram.” (Mc 1,16-18)
A vocação nasce no ordinário. Deus não espera que terminemos nossas tarefas para nos chamar; Ele nos chama dentro delas, transformando o ato de pescar, de consertar redes, em sinal de uma missão eterna. Essa é a dinâmica própria do Tempo Comum: descobrir a dimensão divina e eterna escondida no tecido aparentemente monótono da existência.
O Chamado para os Dias Atuais: Esperança em Tempo de Fragilidade
Que luz essa espiritualidade projeta sobre os nossos dias? Vivemos uma época marcada por profundas incertezas: crises ecológicas, polarizações sociais, uma sensação difusa de cansaço e desencanto, intensificada pelo ritmo frenético da vida digital. Muitos têm a impressão de que a história perdeu o rumo e de que o futuro se apresenta mais como ameaça do que como promessa. A Palavra de Deus proclamada no Tempo Comum nos oferece uma perspectiva radicalmente diferente.
A primeira leitura de um dos domingos desse período nos apresenta a figura do Servo do Senhor, que se sente frágil e sem forças, mas escuta de Deus uma promessa que ultrapassa seus limites:
“Disse-me o Senhor: ‘… não basta que sejas meu servo… Vou fazer de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra’.” (Is 49,6)
Deus escolhe o que é frágil e comum para realizar sua obra extraordinária. Este é um consolo imenso para nós, que tantas vezes nos sentimos pequenos e impotentes diante dos problemas do mundo. Nossa condição ordinária, nossa vida aparentemente simples, é o terreno escolhido por Deus para fazer brilhar a luz de Cristo. Não somos chamados a resolver tudo, mas a ser fiéis, com esperança, no lugar onde fomos plantados.
Em outra leitura, São Paulo nos oferece uma visão cósmica da esperança cristã, profundamente atual diante da crise ecológica e existencial de nosso tempo:
“Pois sabemos que toda a criação, até ao presente, geme e sofre as dores de parto… na esperança de ser também libertada da escravidão da corrupção para a liberdade da glória dos filhos de Deus.” (Rm 8,22.21)
Nossa inquietação, nosso “gemido”, não é apenas sinal de angústia, mas anúncio de um parto: o nascimento de uma nova criação. O Tempo Comum nos ensina a discernir os sinais dessa gestação no interior da história, e não apenas em seu desfecho final. Cada ato de justiça, cada gesto de cuidado com a criação, cada experiência de perdão é fruto desse Reino que já está em gestação no ventre do tempo ordinário. A cor verde do Tempo Comum é, assim, a cor da Terra que geme esperando sua redenção e a cor da virtude teologal da esperança, que nos impede de sucumbir ao desespero ou à fuga do mundo.
A Arte de Ser Contemplativo no Mundo: Práticas para o Cotidiano
Como, então, viver bem este tempo? Como evitar que ele se reduza a uma mera rotina espiritual? A tradição da Igreja nos oferece caminhos concretos.
A prática da Lectio Divina é particularmente adequada para esse período. Ela consiste em “ruminar” a Palavra de Deus, não com a finalidade de um estudo acadêmico, mas como um encontro pessoal, permitindo que o texto sagrado ilumine os acontecimentos concretos do dia a dia. É no silêncio da meditação que descobrimos como o Evangelho do domingo fala diretamente aos desafios da semana.
O Tempo Comum também é um tempo privilegiado para cultivar uma espiritualidade do cotidiano. São Josemaria Escrivá insistia na necessidade de “ser contemplativos no meio do mundo”. Isso significa transformar o trabalho, a vida familiar e as relações sociais em lugar de encontro com Deus, fazendo deles matéria-prima da oração. Como ensinava o Beato Álvaro del Portillo: “Ou sabemos encontrar o Senhor na nossa vida de todos os dias, ou não o encontraremos nunca”.
Por fim, é um tempo propício para celebrar a santidade no ordinário por meio das festas dos santos que pontilham o calendário litúrgico. Eles não são super-heróis da fé, mas homens e mulheres que souberam viver o Evangelho nas circunstâncias normais de suas vidas. Mostram-nos que a santidade não é fuga do mundo, mas presença transformadora dentro dele.
Para uma Vida no Espírito do Tempo Comum
Para ajudar a integrar essas reflexões à caminhada espiritual, seguem algumas sugestões práticas:
- Transforme um momento rotineiro (como o trajeto para o trabalho ou uma tarefa doméstica) em um momento consciente de presença, oferecendo-o a Deus.
- Escolha uma frase do Evangelho da missa dominical e repita-a interiormente ao longo da semana, especialmente nos momentos de decisão ou cansaço.
- Observe a cor verde na natureza ao seu redor e deixe que ela recorde a presença silenciosa e fecunda de Deus em sua vida e no mundo.
- Pratique a gratidão pelo ordinário: antes de dormir, agradeça por três coisas simples e boas que aconteceram ao longo do dia.
Conclusão: A Revolução do Ordinário
O Tempo Comum, longe de ser um simples intervalo sem importância, é o coração pulsante da espiritualidade cristã. Ele nos convida a uma revolução silenciosa: crer que Deus age e se revela precisamente naquilo que consideramos banal, monótono ou insignificante. O evangelista Mateus nos conduzirá a descobrir que o Reino dos Céus é como o fermento escondido na massa da história, como uma semente minúscula lançada no campo do cotidiano, que cresce sem que saibamos como.
Neste tempo marcado pela cor verde da esperança e do crescimento, sejamos discípulos atentos. Aprendamos a escutar, no ruído do mundo e no sussurro da rotina, a voz do Mestre que nos diz, como aos primeiros discípulos: “SEGUI-ME”. Ele não nos retira do nosso mar da Galileia, nem do nosso barco ou de nossas redes. Mas, se O seguirmos, transformará nossa pesca cotidiana em missão eterna, e o nosso tempo comum tornar-se-á o lugar onde experimentaremos, de modo concreto, a graça extraordinária de sua presença.