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Ver com o coração

O que significa “ver com o coração”, sentir deveras ”compaixão” e não simples “pena” diante da dor das pessoas. A este tema o Papa dedicou a meditação da missa celebrada em Santa Marta. Inspirando-se no trecho evangélico do dia (Lucas 7, 11-17) com a narração do encontro de Jesus com a viúva de Naim, o Pontífice aproveitou a ocasião para uma catequese sobre a relação do cristão com o sofrimento dos pobres e dos marginalizados.

Francisco começou evidenciando que Jesus, embora estando com os discípulos no meio da multidão, “teve a capacidade de ver uma pessoa”, uma “viúva que ia sepultar a seu único filho”. É preciso observar, recordou, que “no Antigo Testamento, os mais pobres eram as viúvas, os órfãos e os estrangeiros, os forasteiros”. Na Escritura aparecem continuamente exortações do tipo ”Cuidai das viúvas, dos órfãos e dos migrantes”. De resto, “a viúva fica sozinha, o órfão precisa de cuidados para se inserir na sociedade” e ao estrangeiro, ao migrante se faz constantemente referência no exílio do Egito. É um verdadeiro “refrão no Deuteronômio, no Levítico... é um refrão... nos Mandamentos...”. Parece, acrescentou o Papa, que eles eram precisamente “os mais pobres, até mais pobres do que os escravos: a viúva, o órfão e o migrante, o forasteiro, o estrangeiro”.

Uma atenção que se nota na atitude de Jesus que “tem a capacidade de ver os detalhes”: havia uma grande multidão, mas “Jesus vê com o coração”.

Então o Pontífice analisou o comportamento de Jesus e indicou “três palavras que nos ajudam a compreender o que fez” para estar ao lado da viúva, para “ir pelo mesmo caminho”.

Antes de tudo, “sentiu compaixão”. De fato, lê-se que “Vendo-a, o Senhor sentiu grande compaixão por ela”. “A compaixão  explicou Francisco - é um sentimento que envolve, é um sentimento do coração, das vísceras, envolve tudo”. Principalmente, “não é o mesmo que pena”, ou o de quem diz “... que pena, pobrezinhos: não, não é o mesmo”. Com efeito, a compaixão “associa.. é sofrer com”. E Jesus “associa-se a uma viúva e a um órfão...”. Alguém, disse o Pontífice, poderia objetar: “Mas tu tens uma multidão, por que não falas à multidão? Deixa... a vida é assim... são tragédias que acontecem, sucedem...”. Mas “não, para ele eram mais importantes a viúva e o órfão falecido do que a multidão à qual estava a falar e que o seguia”.

“Por quê?” questionou-se o Papa. E a resposta foi “Porque o seu coração, as suas vísceras foram envolvidos”, isto é, “sentiu compaixão”.

Depois há uma “segunda palavra” a observar: Jesus “aproximou-se, a compaixão impeliu-o a aproximar-se”. Explicou Francisco: “Posso ver muitas coisas sem me aproximar. Talvez sinta qualquer dor...”, ou pense: “pobres pessoas...”. Mas aproximar-se é outra coisa. O Evangelho acrescenta um pormenor: Jesus disse à mulher “não chores”. E o Pontífice, a tal propósito revelou que lhe apraz pensar que “o Senhor, enquanto dizia isto àquela mulher, a acariciou”, que “tocou nela e no ataúde”. É preciso, disse, “que nos aproximemos e toquemos a realidade. Tocar. Não ver de longe”.

Depois houve o milagre da ressurreição do filho da viúva, e “Jesus não diz: Até à vista, e continuo o seu caminho”, mas “conduz o jovem, dizendo: Restituo-o à sua mãe”. Eis então a terceira palavra-chave: “restituir, Jesus realiza milagres para restituir, para pôr as pessoas no próprio lugar”. E, acrescentou o Papa, foi precisamente “o que fez com a redenção, Deus sentiu compaixão, aproximou-se de nós no seu Filho e restituiu todos nós à dignidade de filhos de Deus. Recriou-nos todos”.

Um exemplo que todos os cristãos devem seguir na vida diária: “Também nós devemos fazer o mesmo”, explicou o Papa, dando uma sugestão concreta. De fato, acontece que “muitas vezes assistimos aos telejornais ou vemos as primeiras páginas dos jornais, as tragédias... mas olha... naquele país as crianças não têm o que comer; naquele país as crianças são soldados; naquele país as mulheres são escravizadas; naquele país... oh, que calamidade! Pobrezinhos...”, depois, “viro a página e passo ao romance, à telenovela que vem em seguida. ISTO NÃO É SER CRISTÃO”.

Eis a exortação a fazer um exame de consciência: “Sou capaz de sentir compaixão? De rezar? Quando vejo essas situações, que chegam dentro da minha casa, através dos meios de comunicação... movem-se as vísceras? O coração sofre por aquelas pessoas, ou sinto pena, digo POBREZINHOS” e acaba assim...?”.

E, acrescentou Francisco, se nos dermos conta disto, devemos pedir a graça: “Senhor, concedei-me a graça da compaixão!”.

Do mesmo modo, quando nos encontramos com uma pessoa necessitada: “Aproximo-me? Há muitos modos de nos aproximarmos... Ou procuro ajudar de longe?”. Com efeito, há quem se justifique: “Sabe, padre, que essas pessoas cheiram mal e não gosto de o sentir, porque elas não tomam banho, exalam cheiro forte...”.

E ainda, disse o Pontífice, cada cristão deveria questionar-se: “Sou capaz - com a oração de intercessão, com a minha obra de cristão - de ajudar a fim de que as pessoas que sofrem sejam restituídas à sociedade, na vida de família, na vida de trabalho, na vida diária?”.

Eis a exortação final: “Pensemos nestas três palavras, que nos ajudarão: Compaixão, Aproximar-se, Restituir” e o convite a rezar a fim de que “o Senhor nos conceda a graça de sentir compaixão diante de quem sofre, nos conceda a graça de nos aproximar e a graça de restituí-los pela mão ao lugar de dignidade que Deus deseja para eles”.


Lucas 7, 11-17

11No dia seguinte dirigiu-se Jesus a uma cidade chamada Naim. Iam com ele diversos discípulos e muito povo.12Ao chegar perto da porta da cidade, eis que levavam um defunto a ser sepultado, filho único de uma viúva; acompanhava-a muita gente da cidade.13Vendo-a o Senhor, movido de compaixão para com ela, disse-lhe: Não chores!14E aproximando-se, tocou no esquife, e os que o levavam pararam. Disse Jesus: Moço, eu te ordeno, levanta-te.15Sentou-se o que estivera morto e começou a falar, e Jesus entregou-o à sua mãe.16Apoderou-se de todos o temor, e glorificavam a Deus, dizendo: Um grande profeta surgiu entre nós: Deus voltou os olhos para o seu povo.17A notícia deste fato correu por toda a Judéia e por toda a circunvizinhança.


Catequese do Papa Francisco 

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