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O cuidado pela casa comum e a ciência moderna

A ciência moderna é um empreendimento genuinamente humano, sempre a caminho. Ela realiza demonstrações e busca certezas. A ciência sempre terá com que se ocupar, pois o universo, com suas estruturações, dimensões e realizações, é dinâmico. O universo é um organismo vivo!

A ciência tem um modo de proceder característico. Por meio de método específico, ela se empenha em buscar a verdade. No entanto, em seu empenho ela vai encontrando certezas. Recentemente, a ciência vem apresentando elementos que apontam para uma transformação perigosa do ambiente, por obra humana. Expressão maior dessa transformação é, segundo especialistas, a mudança climática.

Há um razoável consenso entre cientistas a respeito das influências da ação humana sobre as mudanças climáticas em curso. Essas transformações tendem a favorecer a multiplicação de fenômenos climáticos – secas prolongadas, enchentes, furacões, tufões, chuvas torrenciais. Na base desses fenômenos está certamente o modelo de desenvolvimento econômico escolhido pelos governos. Portanto, também as mudanças climáticas são expressão de escolhas políticas. Por isso, é urgente que todos, governos e governados, assumam sua parcela de responsabilidade, deixando de lado os lobbies que se orientam nos meros interesses financeiros, o comodismo, o conformismo e a indiferença.

Urge crescer na consciência de que a geração atual é responsável pela qualidade de vida do planeta para as gerações que virão. Os filhos e netos da atual geração terão um mundo melhor ou pior que o atual, dependendo das opções e decisões, certamente drásticas, que atual geração for capaz de assumir.

O presente é preocupante! O momento atual é considerado crucial para a continuidade da própria vida no planeta Terra.

O Papa Francisco, em 2015, publicou um documento intitulado “Laudato Si – sobre o cuidado da casa comum”, no qual afirma que “há um consenso científico muito consistente, indicando que estamos perante um preocupante aquecimento do sistema climático. Nas últimas décadas, este aquecimento foi acompanhado por uma elevação constante do nível do mar, sendo difícil não o relacioná-lo ainda com o aumento de acontecimentos meteorológicos extremos, embora não se possa atribuir uma causa cientificamente determinada a cada fenômeno particular” (n. 23). E continua: “o aquecimento influi sobre o ciclo do carbono. Cria um círculo vicioso que agrava ainda mais a situação e que incidirá sobre a disponibilidade de recursos essenciais como a água potável, a energia e a produção agrícola das áreas mais quentes e provocará a extinção de parte da biodiversidade do planeta. (…) Se a tendência atual se mantiver, este século poderá ser testemunha de mudanças climáticas inauditas e de uma destruição sem precedentes dos ecossistemas, com graves consequências para todos…” (n. 24).

O cuidado para com a “casa comum” exige uma profunda mudança no estilo de vida e nos princípios e valores que orientam a ação humana. Essa mudança, a tradição cristã denomina de conversão.

Durante o tempo da Quaresma os cristãos são convidados a rever o modo de relacionar-se consigo mesmo, com os demais seres humanos, com o meio ambiente e com Deus. Esse tempo é precedido pelo carnaval, caracterizado, sim, por extravagâncias, mas também pelo espírito sadio e alegre de marchas e foliões, recordando que a existência humana é também marcada pela alegria, pela esperança e, sobretudo, pelo cuidado. Cuidado alegre da vida em suas variadas formas, especialmente quando se manifesta em um conjunto semelhante de vegetação, água, superfície, clima e animais: os biomas.


Dom Jaime Spengler – Arcebispo de Porto Alegre (RS)


 

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