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Claret profundamente humano


Todos nós temos em mente a atividade apostólica quase sobre-humana e a profunda experiência espiritual -alguns dizem mística- do nosso Fundador; ambas estão amplamente documentadas. Mas não é demais observar que Claret age e ora desde sua psicologia pessoal e desde o momento histórico e cultural em que lhe toca viver. São fatores que em alguns casos limitam, em outros fortalecem e sempre caracterizam a forma concreta que adquire a ação de Deus nele. Por isto queremos enumerar uma série de pinceladas da sua “humanidade” inigualável.

1. Ele fala expressamente da sua compaixão e ternura. São valores humanos que servem de base à sua vida sobrenatural, que nele aparece no seu ser de apóstolo. Sua entrega apostólica é fruto deste sentimento para com seus irmãos, os homens, a quem quer livrar de todo mal e sobretudo da perdição eterna. Um dos seus propósitos é ter para com os demais “coração de mãe”.

2. O Padre Claret manifestava alguns detalhes no relacionamento com seus companheiros e não deixava passar a oportunidade. Em junho de 1850, os membros da Congregação já são doze e ele presenteia a cada um com uma imagem de um apóstolo, a quem deseja que seja o patrono ou modelo; não se esquece nem de J. Caixal, que, por ser sacerdote de Tarragona, não vivia com o grupo. Este mesmo sacerdote é convidado à festa do primeiro aniversário da Congregação (EC I, p.395 y 410).
Anos mais tarde, presenteia cada membro da Congregação com um “breviarium marianum” (que o Padre Escola publicou com seu apoio) e pede expressamente ao editor que o envie sem encadernar, para que cada um “o faça a seu gosto”.

Recordava o onomástico de pessoas queridas e as felicitava por este motivo (por exemplo: Madre Paris, no dia de Santo Antônio e o Padre Xifré, no dia de São José).

Quando recebeu em “La Granja” a visita dos Padres e Estudantes aspirantes da comunidade de Segóvia, lhes disse: “Aos que vêem me visitar em minha casa, como penitência, costumo servir chocolate” e os serviu.

3. No exercício do governo, o Padre Claret teve especial esmero em exercer a delicadeza.  Desde sua infância caiu na conta que corrigir os operários com aspereza era não só falta de respeito, mas também ineficaz e até contraproducente. Sendo Arcebispo de Santiago teve que intervir -por mandato de Roma- em um problema jurídico delicado da sua Diocese sufragânea de Porto Rico; a carta ao interessado (Padre Jerônimo M. Usera) é um modelo de doçura, confiança na pessoa, agradecimento antecipado pela colaboração que espera, etc. (EC I, p.l228s).

4. Uma característica do seu temperamento é a atividade.  Em alguns exercícios espirituais faz o propósito de não perder um minuto de tempo. O desejo de aproveitá-lo o levou, em Roma, a fazer exercícios espirituais enquanto esperava o retorno das férias do Prefeito de Propaganda Fide. Em Canárias diz que vai sozinho de uma parte a outra “como desesperado”. Para ser confessor real, uma das condições que coloca é não ter que perder tempo em salas de espera.

5. Provavelmente o Padre Claret tenha sido algo inconstante. Observa-se que quando começa uma obra ou época da sua vida se entrega com todo empenho, mas logo vai afrouxando. Concretamente, aos dois anos de estar em Cuba, concluída a primeira visita pastoral, diz: “já estou cansado de ser arcebispo... acho que já cumpri minha missão nesta ilha” e esteve a ponto de apresentar sua renúncia (EC III, p. 130).

6. Tinha um talento extraordinariamente prático. Desde jovem tecedor idealizou novas técnicas para esta indústria. Em sua pregação gostava de fazer comparações com o “funcionamento”: da máquina a vapor, da arma de fogo, etc. O mais curioso dele que conhecemos neste campo é a descrição da técnica de um balão voador; concebeu-a devido a que, quando chegou para a visita pastoral pela primeira vez a Holquin, viu lamentavelmente o que a população tinha preparado para festejar sua chegada, caindo o balão logo por terra com a pessoa que o pilotava, e este ficou ferido.

7. Durante muitos anos esteve especialmente preocupado em praticar a mansidão; talvez não tenha sido casual, pois nele, além de algumas ocasiões, podia ser que existisse predisposição para a indignação.  O caso mais conhecido: um “trapaceiro” se faz chamar por Francisco Claret e se faz passar por irmão do célebre missionário e se dedica a fazer trapaças; “este tal é um farsante e digno de que a autoridade o prenda” (EC I, p.212).

8. Também o preocupou especialmente a humildade, e nem se estranha isto. Inquietava-o sua imagem, a opinião que dele pudessem ter. Em sua juventude, sentiu-se muito humilhado ao ser enganado por um companheiro de negócios (Aut 73-75). Sendo confessor real se questionou muito sobre o que diria o povo se o visse a serviço de uma Rainha que tinha reconhecido a usurpação dos Estados Pontifícios. A precaução diante de possíveis críticas à sua economia o leva a ter as contas econômicas em nome de outro: Sr. Pedro Naudo, administrador da Livraria Religiosa.

9. Na vida de Claret há momentos de verdadeira desorientação.  Já desde sua longa procura vocacional (tecedor, cartuxo, padre diocesano, jesuíta...). O discernimento com relação ao aceitar a mitra de Cuba ou não lhe durou dois meses (4 de agosto a 4 de outubro de 1949); o de continuar ou não na corte depois do reconhecimento do Reino da Itália, cinco meses de reflexão e consultas (julho-dezembro de 1865). Vive uma autêntica angústia no final da sua vida com relação à Congregação: “Os senhores e eu nos prejudicamos mutuamente sem querer, sou um ente misterioso... sou como um prófugo...” (EC II, p. 1485).

10. Provavelmente, devido à sua grande capacidade de iniciativas, o Padre Claret tenha sido um tanto independente, apesar do seu grande carinho pela comunidade. Sua decisão de ir a Canárias a tomou sem consultar Caixal, com quem estava elaborando o grande projeto editorial da Livraria Religiosa. Sua volta de Cuba para Espanha a fez deixando em grande incerteza seus sacerdotes colaboradores naquela ilha; embora, posteriormente tenha incorporado vários deles no seu seminário do Escorial. Não é provável que tenha consultado a comunidade de Vic sobre a proposta do Padre Estêvão Sala para sucessor seu em Santiago de Cuba.

11. O Padre Claret, seguidor apaixonado de Cristo pobre, pôde ter sido um bom economista. Sabe empregar o dinheiro tirando o maior proveito; a administração do Escorial foi modelo de transparência e de eficácia (chegou a ser um “pequeno negócio” segundo a Rainha Isabel II) e, ao mesmo tempo, de desprendimento, pois nem ele e nem o vice (Sr. Dionísio González) receberam algum dinheiro por isto. Para a Livraria Religiosa contou com o grande colaborador Sr. Pedro Naudo, e com ele pôde levar a administração de modo muito eficaz, vendendo os produtos muito baratos e sem perigo de bancarrota.

12. Foi o Padre Claret um homem bucólico? Certamente não foi um poeta, mas teve uma grande sensibilidade pelo campo e seus trabalhos e nos chamam a atenção seus muitos conhecimentos. Além dos detalhes que se destacam em seu livro pedagógico Delicias do Campo e Reflexões sobre a Agricultura, foi notável seu interesse por aproveitar melhor o grande terreno do Escorial, no qual fez plantar 10.000 árvores frutíferas (algumas nogueiras talvez existam ainda hoje) e não se conformava com qualquer árvore: “destas frutíferas, algumas mandei trazer da Catalunha, da vila Berga, onde se cultivam as melhores peras” (El Confesor... p.351).

13. Conheceu e praticou o Padre Claret alguma técnica de relaxamento? Não podemos saber, mas é muito provável, já que durante vários anos da sua vida não dormia mais que três horas diárias (e dizia não precisar de mais), tendo grandes preocupações e desempenhando simultaneamente sua espantosa atividade.

14. O Padre Claret, talvez por motivos pastorais, tenha tido sua afeição à psicologia. Em carta enviada a Santa Micaela (EC I, p.l525ss) descreve até seis tipos temperamentais, em algum caso relacionando tipo psíquico e formas físicas: a mulher “linfática” é “gordona, de carne fofa”. Em carta a Caixal sobre como encadernar os livros que são enviados a Cuba, dá a entender que conhece a psicologia do povo daí: “aqui o povo gosta muito de cores alegres, como exemplo, branco, rosa, azul claro, amarelo claro” (EC I, p.554).

15. Interpretava Claret arbitrariamente a Bíblia? Certamente transmite algumas leituras modificadas de propósito, levando a água ao seu moinho; teria sido um bom rabino targumista. Em Mt 10, 20 lê “o Espírito do vosso Pai e da vossa Mãe falará por vós” (Aut 687), e em Atos 20, 24 acrescenta uma palavra à frase de Paulo: “Nada me importa (...) contanto que conclua minha carreira e cumpra o ministério da Palavra que recebi do Senhor Jesus”(EC III, p.504). Não se trata de leitura caprichosa, mas de apropriação personalizante. Claret utilizou os melhores comentaristas católicos acessíveis em seu tempo.

16. A Obediência de Claret não foi cega; e sabia pesar circunstâncias e fazer epiquéias. Conhecemos sua estranha viagem (1837) de Sallent para Vic via Olost (0nde vivia seu irmão José); ia pedir ao Vigário Geral que revogasse sua destinação como Cura regente de Cupons. As revoltas carlistas não lhe permitiram chegar a Vic, mas ficou em Olost; e desta vez se sabe que fez uma viagem não de batina, mas com vestes civis (ECI, p.81).

17. A criatividade foi uma característica constante no apostolado de Claret; e também lhe deu seus desgostos. Em um livrinho composto em 1847, intitulado “Irmandade do Santíssimo e Imaculado Coração de Maria”, coloca todos os níveis da igreja em pé de evangelização; a um grupo de mulheres, devido ao papel que lhes atribuía, lhes dava o título de “diaconisas”. A obra foi proibida pelo Arcebispo de Tarragona, D. Echanove (EC I, p.260).

18. Claret teve que ser homem de equilíbrios. Uma e outra vez afirma seu distanciamento da política; mas muitos de seus amigos catalães (começando pelo Padre Xifré) não puderam ver com bons olhos que fosse confessor de uma Rainha rodeada de ministros liberais. É particularmente estranha a prolongada amizade e colaboração entre Claret e Caixal, já que este era um carlista convencido, e inclusive vigário geral castrense do pretendente D. Carlos.

19. Era o Padre Claret catalanista? A palavra pode admitir muitos matizes; é normal que gostasse do povo da sua terra e apreciasse seus valores. Suas constantes falhas na ortografia indicam que nunca aprendeu bem o castelhano; e foi desaconselhado pela Irmã Patrocínio para ser o confessor da Rainha, por ver nele um catalão que não se acomodaria ao gênio dos Madrilenhos. A Cuba levou consigo um grupo de sacerdotes e leigos quase todos catalães e continuou convidando seminaristas com a carreira adiantada para que a terminassem em Cuba e ali os foi ordenando para sua Diocese; chegou a ordenar 36 deles. Mas, quando fala dos espanhóis que vivem em Cuba, despacha assim: “os piores são os que vieram da Espanha e especialmente os catalães são muito maus; são péssimos; nunca confessam, nem comungam, nem vão à missa; todos vivem amancebados ou têm ilícitas relações com mulatas e negras e não apreciam outro Deus que o seu próprio interesse” (EC I, p.705).

20. O Padre Claret era paciente, generoso; mas o realismo o levou à conclusão de que do lado de algumas pessoas não é possível trabalhar; por isso fez expulsar do Escorial o antigo monge Jerônimo Pages (EC II, p.296), e ele mesmo expulsou o presbítero Francisco Sansoli da sua madrilenha igreja de Montserrat (EC II, p.524).

21. O Padre Claret era perspicaz. Queria que certas operações financeiras não se fizessem em seu nome, mas em nome de algum dos seus colaboradores, talvez pela má fama que tinha de manejar muito dinheiro. Dos seus anos de Catalunha conta que, quando lhe perguntavam de onde era, respondia que da cidade de Sallent, se a pergunta vinha de um liberal; ou da Diocese de Vic, se lhe perguntava um carlista.

22. Manejou muito dinheiro? Sem dúvida o caso da medalha (Aut 360) não é tudo. Pôde ter vivido com tranqüilidade, dado seu espírito empreendedor e habilidoso e também pelas rendas anexas a seus cargos. Como Arcebispo de Cuba percebia uma quantia de 18.000 duros anuais. Em Madri lhe pagavam (frequentemente com atraso) 9.000 para a manutenção da casa (várias pessoas), 6.000 como Arcebispo demissionário e 3.000 por ser confessor real; e muitíssimo dinheiro que lhe davam os que o conheciam e admiravam suas empresas. Não quis dinheiro por ter prestado serviço como presidente do Escorial. E exigia pontualmente ditas rendas para poder dar livros (o fez em quantidades grandes) e auxiliar os necessitados. Aplicou a si mesmo o ditado de Tobias: “Se tens muito, dá muito; se pouco, mesmo deste pouco dá com boa vontade” (EC II, 130). Os que o conheciam de perto não se perguntavam o que fazia com tanto dinheiro, mas como podia fazer tanto com tão pouco. Curiosamente, entre seus modestos gastos pessoais se destaca o de sapatos.

23. Para com algumas mulheres teve grande admiração e cultivou sua amizade: Madre Sacramento, Maria Sancho Guerra, Jacoba Balzola,... Mas não superou o preconceito anti-feminino que corria. A Caixal diz: “devemos nos lembrar que tratamos com mulheres, que sempre andam precipitadamente e com pouca reflexão e são perniciosas, que nunca param até saírem com as suas e depois às vezes correspondem muito mal (...)” (EC I, p.354). E, com relação às luzes sobrenaturais da Madre Maria Antônia Paris sobre ele, escreverá a Pio IX: “não se deve acreditar em todos os espíritos, sobretudo quando falam por meio de mulheres” (EC II, p.88).

24. A saúde física de Claret não foi boa; daí que se deve admirar mais ainda sua grande atividade. Quando era seminarista sofreu a “tísica”. A dor no joelho que o fez sair do noviciado foi persistente; foi operado, mas sem grande êxito, em dezembro de 1849. O clima de Roma nunca lhe caiu bem. Em Cuba teve épocas boas: “já saberás que todos os dias estou pregando e confessando e dando audiência de dia e de noite, sempre que me chamam e apesar de todo este trabalho estou sadio e robusto” (EC I, p.659). Nos seus anos de Madri sabemos que estava com hérnias e usava proteção. Sua vista também foi se cansando e pelo menos nos últimos anos usava óculos; o livro de contas da sua casa de Madri menciona o gasto de 24 reais “por umas lentes” (El Beato II, p.715). Uns óculos se esqueceu em uma igreja de Daimiel, quando voltava de Lisboa em 1866, relíquia que se recuperou há poucos anos. Outras figuravam no museu de Vic anterior à guerra civil.

25. Fazia Claret acepção de pessoas? Seu olhar se centrava sempre no que mais colaborasse para a glória de Deus. Mas entre a multidão de pessoas e instituições não se pode negar que teve suas preferências e distinções. Houve dois privilegiados no conhecimento da sua interioridade: Pe. Carmelo Sala e Pe. Paladio Curríus.  E entre as Congregações Religiosas em cuja fundação interveio, depois da dos seus Missionários -cuja profissão emitiu antes de morrer-, por nenhuma se interessou tanto como pelas Carmelitas da Caridade ou Vedrunas (as “nossas”, costumava escrever ele aos Claretianos).

26. Foi Claret um homem ingênuo? Teria que distinguir áreas. Não se enganava facilmente. Um Padre de Santiago, Miguel Hidalgo, censurável por diversos motivos, tentou justificar-se diante do Arcebispo com uma carta cheia de “provas” de boa vontade; Claret, em vez de acreditar nele e responder a carta, escreveu a seu Vigário Geral: “Ao Miguelito não lhe respondo, porque sei que é uma mania sua para desculpar-se...” (EC I, p. 1807). Em outras áreas Claret é mais confiante; é o caso da sua “Refutação de Renan” ou da pretensão de que os seminaristas do Escorial, com sua bagagem estritamente “eclesiástica”, serão capazes de combater os erros de Strauss, Hegel e Schelling.

27. Era Claret providencialista ou previdente?  Não se pode duvidar da sua confiança em Deus; a expressão “confiemos em Jesus e Maria” é uma constante em sua linguagem. Mas não se esquece dos meios humanos. Em fevereiro de 1868, sete meses antes da revolução, aconselha o Padre Xifré a fundar uma casa em Argel, “pois, quando vier a perseguição que se fará à Religião na Espanha possam refugiar-se os da Congregação em Argel, que está aqui tão perto” (EC 11, p. 1245).

28. Claret conheceu o êxito e o fracasso. Sua primeira atividade como pároco de Sallent não teve êxito. Escreveu à Prefeitura para que impedisse que um grupo de gente de mercado ficasse gritando na porta da igreja e o estorvava na pregação da missa principal (EC I, p. 76s). Não pôde impedir que a Rainha reconhecesse o Reino da Itália. Várias das suas grandes iniciativas do seu tempo de Madri pereceram com a revolução de 1868. No entanto, como pregador popular, tanto nas regiões rurais como em Barcelona, Madri ou Las Palmas, experimentou grande êxito.

29. Claret teve uma grande resistência psicológica, agüentou muito. Seu sucessor à frente do Escorial, depois de dois meses, já não podia mais; tudo eram dificuldades, tropeços e calúnias. Claret comentou “parece que o Escorial é o potro para atormentar os que devem cuidar dele” (EC II, p.1290); mas ele o governou por nove anos.

30. Claret foi atrevido, e não temerário. Em seus tempos de missionário pela Catalunha, apesar da sua disposição a morrer pelo Evangelho, esquivava-se com sagacidade de quem podia atentar contra sua vida. Desterrado em Paris, avisava aos correspondentes que as cartas não fossem enviadas em seu nome, mas em nome de Mr. Laurent Puig” (seu capelão, Pe. Lorenzo Puig cmf), certamente para que os inimigos não ficassem sabendo do seu paradeiro.


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12 de outubro - Padroeira do Brasil


A História...
Tudo começou quando Dom Pedro de Almeida Portugal, o conde de Assumar, chegou à Vila de Santo antonio de Guaratinguetá , naquele dia de 17 de outubro de 1717, um domingo. Ele havia assumido ha pouco tempo o governo da Capitania de São Paulo e estava em viagem para as Minas Gerais, que naquela época fazia parte da Capitania por ele agora governada.

Durante a estada do Conde de Assumar em Guaratinguetá, o Capitão-mor da Vila, Domingo Antunes Fialho, no afã de agradar tão ilustre visitante, ordenou aos pescadores da localidade que colocassem suas canoas e suas redes nas águas do rio Paraíba, e destas retirassem a maior quantidade possível de peixes.

Entre os que foram incumbidos de trazerem pescados para Dom Pedro de Almeida Portugal e sua comitiva estava Domingos Martins Garcia, João Alves e Felipe Pedroso. Com suas canoas e redes eles iniciaram sua pescaria no Porto de José Corrêa Leite. Mas esta, a princípio, mostrou-se frustrante. Por mais que lançassem suas redes ou mudassem as canoas de lugar, nenhum peixe saia das águas.

Orar, Trabalha e Sofrer


 

“Digo a mim mesmo: Um filho do Imaculado Coração de Maria é um homem que arde em caridade e abrasa por onde passa; que deseja eficazmente e procura por todos os meios inflamar o mundo no fogo do divino amor. Nada o detém. Alegra-se nas privações. Enfrenta os trabalhos. Abraça os sacrifícios. Compraz-se nas calúnias e se alegra nos tormentos. Seu único pensamento é seguir e imitar a Jesus Cristo, no trabalho, no sofrimento, procurando sempre e unicamente a maior glória de Deus e a salvação das almas”. (Aut. 494)


Santos para os tempos críticos

O magistério dos santos está submetido aos vai-e-vens da história. Há épocas em que o que vivem e dizem se converte em pauta para os demais. Há outras em que suas vidas são trituradas pela vulgaridade e ficam deslocados pelas estrelas fugazes do momento. Os “santos” de hoje são os astros do esporte e do espetáculo, algum excêntrico, poucos cientistas e pesquisadores e quase nenhuma pessoa dedicada só a entregar sua vida a Deus e aos demais.

A nossa não é uma época muito inclinada a escutar os santos, embora se continue invocando como intercessores. Com a desculpa, por demais vazia, de que pertencem a outros tempos e não têm muito que trazer aos nossos, passam desapercebidas sua sabedoria de vida e sua autenticidade evangélica. Nós os admiramos, os invocamos, mas não os imitamos.

Todo santo é uma proposta de humanidade bem sucedida, porque chegaram até o centro e em profundidade. E somente desde o centro e desde a profundidade se iluminam as encruzilhadas humanas. Os tempos conflitivos como os nossos são precisamente os que mais precisam dos santos. Eles nos oferecem o Evangelho feito história, encarnado em um determinado tempo. Não nos oferecem respostas pré-fabricadas aos problemas que hoje nos angustiam, mas nos apontam claramente o caminho. A nenhum deles foi fácil viver o evangelho em seu tempo. As dificuldades não são exclusivas dos tempos presentes.

Santo Antônio Maria Claret é um dos santos que Deus deu de presente à humanidade. Viveu e morreu no século XIX (1807-1870). Desenvolveu suas atividades na Europa (Espanha, Itália, França) e na América (Cuba). Para muitos, o simples fato de ser um santo do século dezenove o torna incapaz de dizer algo significativo ao povo de hoje. Um santo daquele século é, queiramos ou não, um santo que pertence ao passado, do qual queremos nos desprender. Os santos dos primeiros séculos ou da idade média podem ser admirados sem muitos problemas hermenêuticos. A distância no tempo permite todo tipo de projeções. Mas, como fazer o mesmo com um santo que está aí na esquina e de quem se sabem tantas coisas? Sem um esforço para superar os preconceitos e descobrir o essencial dentro da história, torna-se impossível recuperar estes irmãos e irmãs que “tiveram a desgraça” de viver muito perto de nós, e até parece difícil descobrir neles a ação do Espírito de Deus.

A fórmula carismática do missionário

Santo Antônio Maria Claret fundou a Congregação dos Filhos do Imaculado Coração de Maria no dia 16 de julho de 1849. Em um quarto do velho seminário conciliar de Vic (Barcelona), reuniu os cinco primeiros companheiros com a idéia de constituir um grupo de missionários itinerantes.

Vencendo o calor do verão vicense, começam seu particular itinerário com dez dias de exercícios espirituais. Em uma das meditações, Claret explica a seus novos irmãos o que ele entende por um “filho do Coração de Maria”. A fórmula a conservamos todos os Claretianos do mundo como uma espécie de “carteira de identidade”. Trata-se de uma descrição breve, densa e atrativa, algo semelhante ao que Karl Rahner sugeria aos institutos religiosos para explicar o próprio carisma, tendo em vista uma boa proposta vocacional.

A fórmula de Claret diz assim:

Um Filho do Imaculado Coração de Maria é um homem que arde em caridade e abrasa por onde passa, que deseja e procura eficazmente por todos os meios possíveis inflamar o mundo inteiro com o fogo do divino amor. Nada o detém, alegra-se nas privações, enfrenta os trabalhos, abraça os sacrifícios, compraz-se nas calúnias e tormentos que sofre. Não pensa senão em como seguir e imitar Jesus Cristo no orar, no trabalhar e no sofrer, e no procurar só e unicamente a maior glória de Deus e a salvação dos homens”.

Este é o contexto dos três verbos (orar, trabalhar e sofrer) que dão título a esta meditação. Como se pode observar, os três condensam a maneira como Antônio Maria Claret entende o seguimento de Jesus Cristo a serviço da glória de Deus e da salvação dos homens. Poderíamos dizer que os três verbos apontam os núcleos centrais de um itinerário evangélico.

A fórmula em que se incluem estes três verbos está construída a partir do símbolo do fogo. Seu vigor cósmico e bíblico é evidente. O fogo, em atraente e fugidia realidade, esquenta, arde, purifica, ilumina, etc. Para Claret, o fogo é Deus mesmo, seu amor, manifestado através da ação do seu Espírito vivificador. Em certo sentido, é também Maria. Claret a chama “frágua de misericórdia e amor” em uma preciosa oração que costumava recitar no começo das missões populares.

Por isso, o “filho do Imaculado Coração de Maria” é, como os profetas, um homem tocado pelo fogo. Na fórmula inicial se diz que tem que deixar-se abrasar para arder em caridade e assim poder inflamar o mundo inteiro no fogo do divino amor. Este “circuito carismático” fica perfeitamente expresso nos três verbos aos quais se faz alusão na fórmula:

Orar (o fogo da relação) como Jesus.
Trabalhar (o fogo da ação) como Jesus.
Sofrer (o fogo da paixão) como Jesus.

Deixemos que o mesmo Santo nos conte sua experiência através de alguns textos extraídos de sua Autobiografia. O estilo é de outros tempos. O conteúdo substancial é válido para os nossos tempos.

Orar, o fogo da relação

Nenhum fogo ilumina sem arder. Nenhum objeto arde se não há uma fonte de calor. Antônio Maria Claret se serviu da força do símbolo para expressar a dinâmica da vida cristã e, mais concretamente, sua dimensão missionária. O missionário não ilumina, nem aquece, se não “arde em caridade”. E não pode arder em caridade se não se deixar abrasar pelo amor de Deus.

Com seu habitual estilo rasteiro, conta assim na Autobiografia: “A virtude mais necessária é o amor". Sim, digo e direi mil vezes: a virtude de que mais precisa um missionário apostólico é o amor. Deve amar a Deus, a Jesus Cristo, a Maria Santíssima e ao próximo. Se não tiver amor, todos os seus belos talentos serão inúteis; mas, se tiver grande amor e mais os talentos naturais, terá tudo. A quem prega a Palavra o amor faz o que faz o fogo no fuzil. Se um homem atirar uma bala com os dedos, bem pouco dano fazer, mas, se esta mesma bala for lançada pelo fogo da pólvora, matará. Assim é a divina Palavra. Se for pronunciada naturalmente, bem pouco efeito fará, mas se for dita por um sacerdote cheio do fogo de caridade, de amor a Deus e ao próximo, ferirá vícios, matará pecados, converterá os pecadores, operará prodígios” (Aut. 438-439).

Não explica isto a ineficácia de muitas de nossas ações? Fazemos muitas coisas, mas sem fogo, alimentados por energias menores: o desejo de agradar, um sentido difuso de filantropia, o cumprimento do dever, etc. Bem, e agora? Como é que alguém pode se deixar inflamar pelo fogo do amor? Onde está o segredo? Esta pergunta nós a formulamos a nós mesmos com certa freqüência, sobretudo em momentos nos quais, cansados de fazer propostas voluntaristas (antigas ou modernas), percebemos que nos falta energia para viver e que não transmitimos vida.

A cultura democrática e secular em que vivemos é incuravelmente voluntarista. Acha que tudo é resultado do planejamento e do esforço. Passam a um segundo plano, ou desaparecem de tudo, a graça e a sabedoria. É uma cultura que regula a vida social na base de contínuos deve-se: deve-se dirigir a menos de 120 por hora, deve-se jogar o lixo nos recipientes específicos, deve-se fazer declaração de imposto de renda, deve-se salvar as baleias, respeitar a capa de ozônio, fumar o menos possível, etc.

Também existe uma espiritualidade do deve-se, baseada no cumprimento de objetivos e práticas:

Deve-se aprender a respirar, deve-se fazer uma hora diária de meditação, deve-se unir ação e contemplação, deve-se integrar a experiência de Deus na trama da vida ordinária, deve-se descobrir Deus nos pobres, deve-se trabalhar a integração afetivo-sexual...

Os santos são grandes peritos no deve-se. Comprometem-se seriamente com a realidade de cada dia. Mas, diferentemente dos voluntaristas, a energia, o fogo, lhes vem de uma fonte mais profunda que de uma vontade treinada ou de uma sensibilidade ética. Esta fonte “que mana e corre” ou este fogo interior, que está mais aquém e mais além de qualquer compromisso, se acende através da oração. Este é o grande segredo! Claret, homem apostólico, sabia disto muito bem. Por isto, em sua gramática evangélica, conjugou sempre, desde muito pequeno, o verbo orar:

“Estimulado a trabalhar para a maior glória de Deus e para a salvação das almas, como disse até aqui, direi agora de que meios me servi para conseguir este fim, conforme o Senhor me deu a conhecer como mais apropriados e adequados. O primeiro meio de que me servi sempre e me sirvo é a oração. Este é o meio maior que achei que devia usar para obter a conversão dos pecadores, a perseverança dos justos e o alívio das almas do Purgatório. E por isto, na meditação, na missa, nas preces e nas demais devoções que praticava e jaculatórias que fazia, sempre pedia a Deus e à Santíssima Virgem Maria estas três coisas” (Aut 264).

Para ele a oração não era só um exercício pessoal, mas uma experiência comunitária, eclesial. Estava consciente da importância de criar uma rede de orantes para que o fogo se fizesse mais intenso:

“Não só orava eu, mas ainda pedia às Monjas, às Irmãs de Caridade, Terciárias e a todas as pessoas virtuosas e zelosas que orassem. Para isto, pedia que ouvissem a santa Missa e que recebessem a sagrada Comunhão, e que durante a Missa e depois de ter comungado apresentassem ao Eterno Pai o seu Santíssimo Filho e que em seu nome e por seus méritos lhe pedissem estas três graças,como já disse, isto é: a conversão dos pecadores, a perseverança dos justos e o alívio das pobres almas do Purgatório. Também lhes dizia que se servissem da visita ao Santíssimo Sacramento e da devoção da Via Sacra” (Aut 265).

O fogo da oração tem um efeito evangelizador. Quem arde, queima e ilumina. Claret estabelece uma relação estreita entre sua experiência de oração e o compromisso apostólico. Na base da experiência mística da conservação das espécies sacramentais, escreve:

“No dia 26 de agosto de 1861, achando-me em oração na Igreja do Rosário, na Granja, às 7 da tarde, o Senhor me concedeu a grande graça da conservação das espécies sacramentais e ter sempre, dia e noite, o Santíssimo Sacramento no peito, por isto, eu sempre devo estar muito recolhido e devoto interiormente; e além disso, devo orar e fazer frente a todos os males da Espanha, como assim me disse o Senhor” (Aut 694).

Como conjugava ele na prática o verbo orar? Um pouco deformados por certa literatura elitista sobre a oração, imaginamos os santos praticarem um tipo de oração reservada só a uns poucos privilegiados. Para nos curar destes preconceitos, nos faz bem ouvir o testemunho de Claret:

“A oração vocal para mim talvez me vá melhor que a pura mental, graças a Deus. Em cada palavra do Pai nosso, Ave Maria e Glória vejo um abismo de bondade e misericórdia. Deus nosso Senhor me concede a graça de estar muito atento e fervoroso quando rezo ditas orações. Na oração mental também me concede o Senhor, por sua bondade e misericórdia, muitas graças; mas na vocal me sinto melhor” (Aut 766).

Orava como o fizeram e o fazem milhões de homens e mulheres simples: usando a “oração de Jesus” e outras fórmulas simples conhecidas pela tradição. Isto sim, em cada palavra via “um abismo de bondade e de misericórdia”.

O Claret da etapa final, da França e Roma (1868-1870), intensifica o verbo que o acompanhou desde pequeno. Ao término da sua vida, orar significa a rendição completa a Deus. São os anos do desterro e da morte.

Um verbo leva a outro verbo. A oração que Claret pratica o leva ao trabalho e ao sofrimento pelo evangelho:

“De algum tempo para cá, Deus Nosso Senhor, por sua infinita bondade, me revela muitas coisas quando estou em oração, me deixa com muita vontade de trabalhar e sofrer para sua maior honra e glória e bem das almas” (Aut 761).

Trabalhar: o fogo da ação

Em Claret a laboriosidade era uma virtude adquirida desde a infância. Fazia parte das virtudes do povo catalão. Falando da sua infância e juventude, recorda o que para ele significava trabalhar:

“Como meu pai era fabricante de fios e tecidos, me pus na fábrica a trabalhar. Eu obedeci sem dizer uma palavra, nem fazer cara feia, nem manifestar desgosto. Pus-me a trabalhar e trabalhava quanto podia, sem ter jamais um dia de preguiça, nem má vontade; e fazia tudo tão bem como sabia, para não desgostar em nada meus queridos pais, a quem amava muito e eles também a mim” (Aut 31).

Como em tudo o mais, seu modelo é Jesus. Trabalha como trabalhava Jesus:

“Quem mais e mais me move sempre é contemplar Jesus Cristo, ver como vai de um povoado a outro, pregando por todas as partes; não só nos povoados grandes, mas também nas aldeias; até a uma só mulher, como o fez com a Samaritana, embora se achasse cansado do caminho, com sede, em uma hora muito intempestiva, tanto para ele como para ela” (Aut 221). Seu programa de vida o sintetiza nesta frase: “Comer pouco e trabalhar muito” (Aut 745).

Este verbo se desenvolve mais em sua etapa de missionário apostólico por terras da Catalunha, Canárias e Cuba. Claret tem entre 34 e 49 anos. Está na plenitude de suas faculdades.

Não é fácil conjugar hoje o verbo trabalhar. Por uma parte, é um dos verbos favoritos da nossa cultura burguesa e produtivista. O trabalho é a porta de entrada no circuito do consumo. Não ter trabalho significa ficar excluído do acesso aos bens e não desenvolver as próprias possibilidades. Por outra, cresceu uma corrente crítica que desmascara o trabalho como substitutivo do vazio humano. Freqüentemente, não só se trabalha para viver, mas também se vive para trabalhar.

Que entende um santo como Claret por trabalhar? Como conjuga ele este verbo? Aqui não se pretende fazer um resumo da sua ingente obra no campo da evangelização, mas chegar às suas motivações. O objetivo do seu trabalho é nítido: que Deus “seja conhecido, amado, servido e louvado” por todos. Às vezes o expressa com relação à sorte do homem, especialmente do pecador. Quer a todo custo que viva e que viva abundantemente. Não pode tolerar a perdição eterna de nenhum filho ou filha de Deus:

“Esta mesma idéia é a que mais me tem feito e me faz trabalhar ainda e me fará trabalhar, enquanto viva, na conversão dos pecadores” (Aut 9).

Quão difícil é transmitir a força destas motivações em uma cultura como a nossa, que, desde o valor da tolerância, escorrega pela encosta do “vale tudo”! “Se tudo dá no mesmo, o caminho fica livre”. “Cada um se vira como pode”. Não é fácil encontrar pessoas que queiram trabalhar pelo evangelho sem pôr condições. Também entre os religiosos cresceu a consciência de que não somos mão de obra barata para qualquer trabalho. Valorizamos a especialização. Exigimos harmonia entre trabalho e lazer. Queremos que se coloque preço justo em nossas qualidades e preferências. Procuramos uma legítima recompensa, inclusive econômica. Tudo isto são conquistas de uma vida religiosa que prestou cada vez mais atenção em sua dimensão antropológica. Dito isto, que espaço fica ao zelo missionário? Até que ponto trabalhamos generosamente para que Deus “seja conhecido, amado, servido e louvado” sem esperar recompensa? Vivemos hoje tempos de paixão generosa, de oferecimento sem medida?

O zelo nunca surge quando se busca a todo custo o equilíbrio. Surge quando o fogo nos devora.

Todo impulso evangélico tem algo de exagerado, de sem-medidas. Sem a paixão do orar não surge o impulso do trabalhar. Quando levamos dentro o fogo, em seguida surgem as expressões da ação.

Quando não há fogo, todos os projetos e programas nascem mortos, são superestruturas que nos confundem.

Sofrer: o fogo da paixão

A conjugação deste verbo não surge de nenhuma patologia masoquista. Surge da única fonte possível: Jesus Cristo. Claret O contempla em seu mistério pascal e se estremece diante do seu sofrimento:

“Jesus Cristo, para a glória do seu Pai e para a salvação das almas, o que não fez? Ai!, contemplo-O em uma cruz morto e desprezado. Eu também, ajudado por sua graça, estou disposto a sofrer penas, trabalhos, desprezos, burlas, murmurações, calúnias, perseguições e até a mesma morte” (Aut 752).

Estas palavras não são retórica. Claret sofreu mais de uma dúzia de atentados e uma intensa campanha de perseguição. Morreu no desterro. Como pôde enfrentar tanto sofrimento? Ele mesmo o explica:

“Neste ano fui caluniado e perseguido por toda classe de pessoas, pelos jornais, por folhetos, por livros parodiados, por fotografias e por muitas outras coisas e até pelos mesmos demônios. Um pouquinho, às vezes, ressentia a natureza, mas me tranqüilizava logo e me resignava e me conformava com a vontade de Deus. Contemplava Jesus Cristo e via quão longe estava eu de sofrer o que Jesus Cristo sofreu por mim e assim me tranqüilizava” (Aut 798).

O amor implica dar a vida. Não pode existir amor sem sofrimento. Não se trata, naturalmente, de um sofrimento patológico, fruto do mal-funcionamento psíquico, mas do sofrimento que surge de uma vida impostada desde o amor. Claret cria uma expressão que o sintetiza bem porque ele mesmo o viveu em sua própria carne: “o fazer e o sofrer são as grandes provas do amor” (Aut 424).

Este é o verbo que mais conjuga o Claret da etapa de Madri. Tem entre 50 e 61 anos. São os anos duros: falta de trabalho, perseguições, calúnias. A configuração com o Cristo morto e ressuscitado se faz nele biografia.

O verbo sofrer, em seu sentido mais evangélico, adquire hoje novas expressões. Muitos religiosos sofrem pela situação geral da igreja, pelo ocaso das formas tradicionais de vida religiosa, pela falta de vocações, pela perda de reconhecimento social, pela sensação de que qualquer proposta atrai mais que o evangelho de Jesus. Estes sofrimentos históricos se unem a muitos outros que nascem da nossa condição de homens e mulheres do nosso tempo.

Poderemos conjugar serenamente este verbo, como o fizeram os santos, confiantes de que faz parte da configuração real com Jesus?

 

São Francisco - 04 de Outubro

Francisco nasceu em Assis, na Úmbria (Itália) em 1182. Jovem orgulhoso, vaidoso e rico, que se tornou o mais italiano dos santos e o mais santo dos italianos. Aos vinte anos sonhou com as horas militares, alistou-se no exército de Gualtieri de Brienne que combatia pelo papa, mas em Spoleto teve um sonho revelador. 
Com 24 anos, renunciou a toda riqueza para desposar a "Senhora Pobreza". Aconteceu que Francisco foi para a guerra como cavaleiro, mas doente ouviu e obedeceu a voz do Patrão que lhe dizia: "Francisco, a quem é melhor servir, ao amo ou ao criado?". Ele respondeu que ao amo. "Porque, então, transformas o amo em criado?", replicou a voz. No início de sua conversão, foi como peregrino a Roma, vivendo como eremita e na solidão, quando recebeu a ordem do Santo Cristo na igrejinha de São Damião: "Vai restaurar minha igreja, que está em ruínas".
Partindo em missão de paz e bem, seguiu com perfeita alegria o Cristo pobre, casto e obediente. No campo de Assis havia uma ermida de Nossa Senhora chamada Porciúncula. Este foi o lugar predileto de Francisco e dos seus companheiros, pois na Primavera do ano de 1200 já não estava só; tinham-se unido a ele alguns valentes que pediam também esmola, trabalhavam no campo, pregavam, visitavam e consolavam os doentes.
A partir daí, Francisco dedica-se a viagens missionárias: Roma, Chipre, Egito, Síria... Peregrinando até aos Lugares Santos. Quando voltou à Itália, em 1220, encontrou a Fraternidade dividida. Parte dos Frades não compreendia a simplicidade do Evangelho. Em 1223, foi a Roma e obteve a aprovação mais solene da Regra, como ato culminante da sua vida.
Na última etapa de sua vida, recebeu no Monte Alverne os estigmas de Cristo, em 1224. Já enfraquecido por tanta penitência e cego por chorar pelo amor que não é amado, São Francisco de Assis, na igreja de São Damião, encontra-se rodeado pelos seus filhos espirituais e assim, recita ao mundo o Cântico das Criaturas (também conhecido como: "cântico ao Irmão Sol").
O seráfico pai, São Francisco de Assis, retira-se então para a Porciúncula, onde morre deitado nas humildes cinzas a 3 de outubro de 1226. Passados dois anos incompletos, a 16 de julho de 1228, o Pobrezinho de Assis era canonizado por Gregório IX. 


Cântico das Criaturas


2 Só a ti, Altíssimo, são devidos; E homem algum é digno de te mencionar. 
3 Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas (cfr. Tb 8,7), especialmente o senhor Frei Sol, que é dia e nos iluminas por ele. 
4 E ele é belo e radiante com grande esplendor; de ti, Altíssimo, carrega a significação. 
5 Louvado sejas, meu Senhor, pela Irmã Lua e as Estrelas (cfr. Sl 148,3), no céu as formaste claritase preciosas e belas. 
6 Louvado sejas, meu Senhor pelo Frei Vento, pelo ar, ou nublado ou sereno, e todo o tempo (cfr. Dn 3,64-65), pelo qual às tuas criaturas dás sustento. 
7 Louvado sejas, meu Senhor pela Irmã Água (cfr. Sl 148, 4-5), que é muito útil e humilde e preciosa e casta. 
8 Louvado sejas, meu Senhor, pelo Frei Fogo (cfr. Dn 3, 63) pelo qual iluminas a noite (cfr. Sl 77,14), e ele é belo e alegre e vigoroso e forte. 
9 Louvado sejas, meu Senhor, por nossa Irmã a mãe Terra (cfr. Dn 3,74), que nos sustenta e governa, e produz frutos diversos e coloridas flores e ervas (cfr. Sl 103,13-14). 
10 Louvado sejas, meu Senhor, pelos que perdoam por teu amor (cfr. Mt 6,12), e suportam enfermidades e tribulações. 
11 Bem-aventurados os que as suportam em paz (cfr. Mt 5,10), que por ti, Altíssimo, serão coroados.
12 Louvado sejas, meu Senhor, por nossa Irmã a Morte corporal, da qual nenhum homem vivo pode escapar. 
13 Ai dos que morrerem em pecados mortais! Felizes os que ela achar conformes à vossa santíssima vontade, porque a morte segunda não lhes fará mal! (cfr. Ap 2,11; 20,6) 
14 Louvai e bendizei a meu Senhor (cfr. Dn 3,85), e dai-lhe graças, e servi-o com grande humildade.


Oração de São Francisco de Assis

Senhor,
Fazei de mim um instrumento de vossa paz !
Onde houver ódio, que eu leve o amor,
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.
Onde houver discórdia, que eu leve a união.
Onde houver dúvida, que eu leve a fé.
Onde houver erro, que eu leve a verdade.
Onde houver desespero, que eu leve a esperança.
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria.
Onde houver trevas, que eu leve a luz !

Ó Mestre,
fazei que eu procure mais.
Consolar, que ser consolado.
Compreender, que ser compreendido.
Amar, que ser amado.
Pois é dando, que se recebe.
Perdoando, que se é perdoado e
é morrendo, que se vive para a vida eterna !
Amém

 

 

 

 

Em quem você vai votar?

O voto nunca deveria ser carimbado de ódio, raiva ou irresponsabilidade em relação ao bem comum

Já escolheu em quem vai votar? No próximo dia 7 de outubro, os brasileiros serão chamados às urnas para escolher um novo presidente da República, o governador e dois senadores do próprio Estado, um deputado federal e um deputado estadual. São cinco decisões determinantes para os rumos da vida política do Brasil nos próximos anos.

Embora a campanha para presidente e governador esteja em maior evidência e mereça especial discernimento, a escolha dos parlamentares não deveria receber atenção menor. De fato, eles integrarão o Poder Legislativo, com a missão de aprovar ou rejeitar os projetos do Poder Executivo e de controlar suas ações de governo. Bons deputados e senadores são tão necessários quanto bons presidentes e governadores. Para governar, o presidente precisa de uma boa base parlamentar, formada por políticos sérios, corretos e verdadeiramente interessados no bem do povo e do país.

Já está na hora de fazer a listinha, a ser levada na mão no dia da votação. Ainda dá tempo para se informar melhor sobre o perfil e a idoneidade dos candidatos, mas não se deveria chegar ao dia da eleição sem ter uma ideia clara a respeito dos candidatos a votar. O voto de cada cidadão tem peso e, por isso, fugir das urnas, votar em branco ou nulo, embora possam ser atitudes legítimas, não são a melhor prática. Além de demonstrar desinteresse pelo bem comum, isso poderia favorecer candidatos que o cidadão não gostaria de ver eleitos. O melhor mesmo é escolher e votar conscientemente, valorizando o próprio voto. E não é o caso de, simplesmente, votar com a maioria: cada um deve tomar a decisão autonomamente e responder à própria consciência pela escolha que faz.

Talvez, alguém ainda espera que a hierarquia da Igreja indique partido e candidato aos fiéis, mas isso não é possível, porque a própria lei eleitoral é restritiva em relação a isso. Além disso, foi uma decisão do próprio episcopado católico do Brasil não fazer escolhas em lugar dos eleitores. A Igreja Católica não é um partido nem tem partido: ela é uma comunidade de muitas pessoas, no meio das quais podem existir várias expressões políticas, contanto que não contradigam os fundamentos e princípios da própria Igreja. Da mesma forma, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) não é um partido, nem tem uma opção de partido ou candidato.

Entendemos que não é correto instrumentalizar a ação religiosa em função da busca do poder político; nem devem os clérigos mesclar atuação religiosa com campanha eleitoral. Mas é legítimo que os representantes da Igreja se interessem pela vida política e pela formação da consciência política dos cidadãos, propondo critérios de discernimento para a participação dos cidadãos na vida política e de escolha de partidos e candidatos nas eleições. Esses critérios decorrem dos princípios doutrinais e morais da fé católica e estão presentes na Doutrina Social da Igreja. Mas também decorrem da análise atenta da situação social, política, econômica e moral na qual se encontra o país.

O Papa Francisco recordou vários desses princípios na sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (2013), na qual ele ensina com clareza que a evangelização e a vida cristã possuem uma forte “dimensão social”. O ensinamento católico não é neutro em relação à vida política e social. Por isso, os católicos não podem se desinteressar pela promoção do bem comum e a ação política. Aos bispos da América Latina, o Papa Francisco manifestou sua preocupação pela fraca presença e atuação de católicos na vida política de seus países. Naturalmente, ele também ensina que a militância partidária e o desempenho de cargos políticos são atividades próprias da missão dos cristãos leigos.

Para ser mais direto, está claro que a Igreja Católica não incentiva o voto em quem não possui as capacidades esperadas para o exercício do cargo pleiteado, ou em quem já deu provas de corrupção, falta de retidão e honestidade na gestão do bem público. A Igreja também não incentiva a votar em quem tem propostas políticas que incluam o uso da violência e sejam contrárias à justiça e à paz, ou sejam lesivas à vida e à dignidade da pessoa, de toda pessoa. É de se esperar que aqueles que assumirão os mandatos tenham uma atenção especial pelos pobres e as camadas mais injustiçadas e esquecidas da sociedade brasileira, de maneira a promover uma verdadeira equidade e solidariedade social.

O voto nunca deveria ser carimbado de ódio, raiva ou irresponsabilidade em relação ao bem comum. Voto é questão de consciência e chegou a hora de cada um fazer a sua parte para deixar o Brasil melhor após as eleições. No final de tudo, é isso o que conta.


Fontes:
Aleteia
O São Paulo 


 

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