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O Pequeno Caminho

Quase todos nós ouvimos falar de Santa Teresa de Lisieux, uma mística francesa que morreu aos 24 anos em 1897 e que talvez seja a santa mais popular dos últimos dois séculos. Ela é famosa por muitas coisas, e não menos importante, por uma espiritualidade que ela chamou de "PEQUENO CAMINHO". Qual é o seu "PEQUENO CAMINHO"?

A opinião popular frequentemente envolveu Teresa e seu "PEQUENO CAMINHO" com uma piedade simples que não faz justiça à profundidade de sua pessoa ou de sua espiritualidade. Com muita frequência, seu "PEQUENO CAMINHO" é entendido simplesmente como implicando que fazemos pequenos, escondidos e humildes atos de caridade em favor de outros em nome de Jesus, sem esperar nada em troca. Nesta interpretação popular, lavamos roupas, descascamos batatas e sorrimos para pessoas hostis para agradar a Jesus. De alguma forma, é claro, isso é verdade; No entanto, seu "PEQUENO CAMINHO" merece um conhecimento mais profundo.

Sim, isso nos pede para fazermos obras humildes e sermos gentis uns com os outros em nome de Jesus, mas existem dimensões mais profundas. Seu "PEQUENO CAMINHO" é um itinerário para a santidade, baseado em três coisas: PEQUENEZ, ANONIMATO e UMA MOTIVAÇÃO PARTICULAR.

PEQUENEZ: para Teresa, "pequenez" não se refere à pequenez do ato que estamos realizando, como as humildes tarefas de lavar roupas, descascar batatas ou simplesmente sorrir para alguém que não é amigável. Refere-se à nossa própria pequenez, à nossa própria pobreza radical diante de Deus. Diante de Deus, somos pequenos. Aceitar e agir com isso constitui humildade. Nós nos movemos em direção a Deus e aos outros em seu "PEQUENO CAMINHO" quando fazemos pequenos atos de caridade em favor dos outros, não além de nossa força e virtude que sentimos naquele momento, mas acima da pobreza, desamparo e vazio que permite que a graça de Deus atue através de nós, de modo que, ao fazer o que estamos fazendo, atraímos outros a Deus e não a nós mesmos.

Além disso, nossa pequenez nos conscientiza de que, na maioria das vezes, não podemos fazer as grandes coisas que determinam a história do mundo. Mas podemos mudar o mundo com mais humildade, semeando uma semente oculta, sendo um antibiótico de saúde oculto na alma da humanidade e quebrando o átomo do amor em nós mesmos. E, sim, também, o "PEQUENO CAMINHO" tenta fazer coisas pequenas, humildes e ocultas.

ANONIMATO, O "PEQUENO CAMINHO" de Teresa se refere ao que está oculto, ao que é feito em segredo, para que o que o Pai vê em segredo seja recompensado em segredo. E o que está oculto não é nosso ato de caridade, mas nós mesmos que estamos fazendo o ato. No "PEQUENO CAMINHO" de Teresa, nossos pequenos atos de caridade passarão despercebidos em grande parte, aparentemente não terão um impacto real na história do mundo e não nos trarão nenhum reconhecimento. Eles permanecerão ocultos e despercebidos; mas, no Corpo de Cristo, o que está oculto, desinteressado, despercebido, modesto e aparentemente insignificante e sem importância é o veículo mais vital de todos para a graça em um nível mais profundo. Como Jesus não nos salvou através de milagres sensacionais ou ações dignas, mas pela obediência altruísta a seu Pai e ao martírio silencioso, nossas obras podem permanecer ocultas para que nossa morte e o espírito que deixamos para trás se tornem nossa verdadeira riqueza.

Finalmente, seu "PEQUENO CAMINHO" é baseado em uma motivação particular. Somos convidados a agir além de nossa pequenez e anonimato, e a fazer pequenos atos de amor e serviço aos outros por uma razão particular, ou seja, para limpar - metaforicamente - a face do Cristo sofredor. Como?

Teresa de Lisieux era uma pessoa extremamente abençoada e graciosa. Apesar de muita tragédia em sua infância, ela foi amada (por seu próprio reconhecimento e testemunho de outras pessoas) de uma maneira que era tão pura, tão profunda e tão admiravelmente afetuosa que deixa muitas pessoas com inveja. Ela também era uma garota muito atraente e estava cercada de amor e segurança em uma família numerosa na qual todos os seus sorrisos e lágrimas foram avisados, honrados (e frequentemente fotografados). Mas quando ele cresceu na maturidade, ela logo percebeu que o que era verdade em sua vida não era verdade em muitos outras. Seus sorrisos e lágrimas geralmente passavam despercebidos e não eram respeitados. Seu "PEQUENO CAMINHO" baseia-se, portanto, nessa motivação particular. Nas suas próprias palavras:

Um domingo, olhando uma foto de Nosso Senhor na Cruz, fiquei impressionada com o sangue que fluía de uma de suas mãos divinas. Senti uma angústia de grande dor ao pensar que esse sangue estava caindo no chão sem que ninguém se apressasse em pegá-lo. Decidi permanecer em espírito aos pés da cruz e receber seu orvalho. Oh, não quero que este precioso sangue se perca. Passarei minha vida coletando-o para o bem das almas. Viver de amor é secar teu rosto

Viver o seu "PEQUENO CAMINHO" é observar e honrar as lágrimas inadvertidas que caem dos rostos dolorosos dos outros.


Texto traduzido por Benjamín Elcano, cmf (Ciudad Redonda)

Os pobres pagam o preço da corrupção

 

 

Os pobres pagam sempre o preço da corrupção. De todas as corrupções: a dos políticos e empresários, mas também a dos eclesiásticos que não cumprem o próprio “dever pastoral” para cultivar o «poder». O Papa Francisco voltou a denunciar com palavras fortes «o pecado da corrupção”, no qual caem «muitas pessoas que têm poder material, político ou espiritual», e exortou a rezar em particular por “quantos — e são muitos — pagam pela corrupção, pelo comportamento dos corruptos: são os mártires da corrupção política, económica e eclesiástica”.

Inspirando-se no trecho do primeiro livro dos Reis (21, 1-16) proclamado durante a liturgia, o Pontífice recordou a história de Nabot de Jezrael, que não quis ceder a sua vinha ao rei Acab, herdada do pai, e por isso, foi lapidado por instigação da rainha Jezabel. “Um texto bíblico muito triste” comentou o bispo de Roma, frisando que a narração segue a mesma estrutura do processo de Jesus e do martírio de Estêvão, e evocando uma frase do Evangelho de Marcos (10, 42): “Sabeis como os governantes das nações fazem sentir o seu domínio sobre elas e os magnatas, a sua autoridade”.

“Nabot — frisou o Papa — parece um mártir daquele rei que governa com tirania e opressão”. Para se apoderar da vinha, no início Acab faz uma proposta honesta a Nabot: “Dar-te-ei em troca uma vinha melhor, ou se te convier, pagar-te-ei o seu justo valor”. Mas depois, diante da rejeição do homem em ceder a “herança dos seus pais”, volta para casa “entristecido, indignado”, comportando-se quase como uma “criança mimada” que faz “caprichos”. E é a este ponto que a sua esposa Jezabel — “a mesma que ameaçou o profeta Elias de morte, depois de ele ter assassinado os sacerdotes de Baal” — organiza uma farsa, um processo com testemunhas falsas e condena Nabot, permitindo que o marido tome posse da vinha. E Acab aceita, frisou o Pontífice, “tranquilamente, como se nada fosse.

A corrupção, explicou o Papa, “é um pecado fácil, que pode cometer a pessoa que tem autoridade sobre os outros, quer económica e política quer eclesiástica. Somos tentados pela corrupção. É um pecado fácil de cometer”.

De resto, acrescentou, «quando uma pessoa tem autoridade, sente-se poderosa, quase um deus». Portanto, a corrupção “é uma tentação diária”, na qual podem cair “políticos, empresários e prelados”.

Mas — perguntou-se Francisco — quem paga pela corrupção? Certamente não quem paga «o suborno»: de facto, ele só representa “o intermediário”. Na realidade, “o pobre paga pela corrupção! ”, constatou o Pontífice.

Se falamos de corrupção política ou econômica, quem paga isto?”, perguntou-se o Papa. “Pagam — disse — os hospitais sem remédios, os doentes que não são cuidados, as crianças sem escolas. Eles são os Nabot modernos, que pagam pela corrupção dos grandes”. E quem paga «pela corrupção de um prelado? Pagam-na as crianças que não aprenderam a fazer o sinal da cruz, não conhecem a catequese, não são cuidadas; os doentes que não são visitados; os presos que não recebem atenção espiritual. Enfim, são sempre os pobres que pagam pela corrupção: os «pobres materiais» e os “pobres espirituais”.

Na conclusão, o bispo de Roma confirmou o valor do testemunho de Nabot, o qual «não quis vender a herança dos seus pais, dos seus antepassados, os valores»: um testemunho ainda mais significativo se pensarmos que, com frequência, «quando há corrupção», também o pobre corre o risco de perder «os valores, porque são impostos hábitos e leis que vão contra os valores recebidos dos nossos antepassados». Eis o convite a rezar pelos muitos “mártires da corrupção”, para que o “Senhor nos aproxime deles” e conceda a estes pobres a “força para continuar” o seu testemunho.


Texto Bíbilico

I Reis - Capítulo 21, 1-16

Passado tudo isso, aconteceu o seguinte: Nabot de Jezrael possuía uma vinha nessa cidade, ao lado do palácio de Acab, rei de Samaria. Acab disse a Nabot: Cede-me tua vinha, para que eu a transforme numa horta, porque está junto de minha casa. Dar-te-ei em troca uma vinha melhor, ou se o preferires, pagar-te-ei em dinheiro o seu valor. Nabot, porém, respondeu a Acab: Deus me livre de ceder-te a herança de meus pais! Acab voltou para a sua casa sombrio e irritado, por ter Nabot de Jezrael recusado ceder-lhe a herança de seus pais. Estendeu-se na cama com o rosto voltado para a parede, e não quis comer. Jezabel, sua mulher, veio ter com ele e disse-lhe: Por que estás de mau humor e não queres comer? Ele respondeu: Falei a Nabot de Jezrael, propondo-lhe que me vendesse a sua vinha, ou, se o preferisse, que a trocasse comigo por outra melhor; mas ele respondeu-me: Não te cederei a minha vinha. Jezabel, sua mulher, disse-lhe: Não és tu, porventura, o rei de Israel? Vamos! Come, não te incomodes. Eu te darei a vinha de Nabot de Jezrael. Escreveu ela, então, uma carta em nome do rei, selou-a com o selo real, e mandou-a aos anciãos e aos notáveis da cidade, concidadãos de Nabot. Eis o que dizia na carta: Promulgai um jejum, fazei sentar Nabot num lugar de honra, e mandai vir diante dele dois homens inescrupulosos que o acusem, dizendo: Este amaldiçoou a Deus e ao rei. - Conduzi-o em seguida para fora da cidade e apedrejai-o até que morra! Os homens da cidade, os anciãos e os notáveis, concidadãos de Nabot, fizeram o que ordenava Jezabel, segundo o conteúdo da carta que lhes tinha mandado. Promulgaram um jejum e fizeram Nabot sentar-se num lugar de honra. Vieram então os dois miseráveis, colocaram-se diante dele e fizeram publicamente a deposição seguinte contra ele: Nabot amaldiçoou a Deus e ao rei. Depois disto, levaram-no para fora da cidade, onde foi apedrejado e morreu. E mandaram dizer a Jezabel: Nabot foi apedrejado e morto. Quando ela soube que Nabot fora apedrejado e morto, foi dizer a Acab: Vai e toma posse da vinha que Nabot de Jezrael te recusara vender. Ele já não vive; está morto. Acab, tendo ouvido dizer que Nabot morrera, levantou-se e dirigiu-se para a sua vinha, para tomar posse dela. (voltar)


 

 

O sinal da Santa Cruz

A cruz é, por excelência, sinal de identificação do cristão. Já no Batismo ele é traçado pelo ministro na fronte de quem recebe este sacramento da iniciação cristã; é como uma marca indelével em sua vida. Jesus Cristo fez da cruz um sinal de salvação, pois nela morreu por amor à humanidade: “NINGUÉM TEM AMOR MAIOR DO QUE AQUELE QUE DÁ A VIDA POR SEUS AMIGOS” (Jo 15, 13). Com sua ressurreição, o que era sinal de morte tornou-se sinal de vida. Sua Páscoa (morte e ressurreição) venceu as trevas do pecado e fez emergir a luz da imortalidade para os que nele creem.

Há inúmeras formas para externar esse ser cristão. O primeiro deles é ser testemunha de vida cristã autêntica que, em sua forma extrema, pode chegar até ao martírio, ou seja, dar a vida pela causa de Cristo, como fizeram muitos cristãos, através dos séculos. Ainda hoje temos testemunhos de martírio, em partes do mundo, onde pessoas são mortas por professarem a fé cristã. Mas nem todos os que se identificam com o sinal da cruz chegarão ao martírio. Muitas pessoas vivem coerentemente seu cristianismo no dia a dia de sua vida: dentro de suas famílias, de suas comunidades e em meio à sociedade. Isso se manifesta no seu modo de ser, de relacionar-se, de agir, em seu estado de vida e em sua profissão, tomando cada dia a cruz, seguindo o Senhor como discípulos missionários (cf. Mc 8, 34-35). 

Pelo mundo afora, vemos inúmeros sinais, onde a cruz está presente. Em nossas igrejas, em lugares públicos, em nossas praças, nossos caminhos, seguidamente nos defrontamos com esse símbolo da identidade cristã. Nossos antepassados (imigrantes) cravavam uma cruz ao chegarem em sua nova terra, como primeiro sinal de identificação cristã. Como é significativo, ainda hoje, observar as pessoas que traçam o sinal da cruz ao passarem na frente de uma igreja; outros usam a cruz em seu peito, em objetos de trabalho e até em tatuagens pelo corpo. Quantos se assinalam com a cruz, qual invocação de bênção, ao iniciarem o dia e qual ação de graças, ao deitarem à noite?! Outros o repetem nos momentos significativos do dia; até os atletas sabem fazê-lo ao se aproximarem do objetivo maior de seu esporte. Como diz o Documento de Aparecida: É UMA ESPIRITUALIDADE ENCARNADA NA CULTURA DOS SIMPLES, MAS NEM POR ISSO MENOS ESPIRITUAL E QUE NÃO PODE SER DESPREZADA (cf. DAp 263).

Reconhecemos como legitima a laicidade do Estado, mas também percebemos a reação imediata do povo cristão e de pessoas de bom senso a atitudes laicistas, como afirmações e comportamentos hostis a qualquer manifestação religiosa, como o desrespeito à presença de símbolos religiosos, cristãos ou não. O que nos faz lembrar intolerantes movimentações contra a presença da cruz em repartições públicas e cenas chocantes de desrespeito a símbolos religiosos em manifestações de rua. Estas pessoas ou grupos desejarão tirar também o Cristo do Corcovado ou mudar o nome dos Estados de São Paulo, de Santa Catarina, do Espírito Santo e, inclusive, de Santa Cruz do Sul? Se a laicidade do Estado é legítima, o laicismo não o é, pois este quer erradicar a religião da vida pública, a todo custo, desrespeitando a alteridade, por vezes até com atitudes radicais e agressivas que contradizem as bandeiras minoritárias que defendem. Esquecem que nosso povo vive e se identifica com uma cultura cristã de séculos, certamente não perfeita, mas que não será mudada com decretos ou atitudes hostis. Com o sinal da cruz, que nos identifica como cristãos, abençoamos a todos. 


DOM ALOÍSIO ALBERTO DILLI
Bispo de Santa Cruz do Sul


Mc 8, 34-35

34.Em seguida, convocando a multidão juntamente com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.

35.Porque o que quiser salvar a sua vida, irá perdê-la; mas o que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, irá salvá-la.


Documento de Aparecida 263 (DAp 263)

Não podemos desvalorizar a espiritualidade popular ou considerá-la como modo secundário da vida cristã, porque seria esquecer o primado da ação do Espírito e a iniciativa gratuita do amor de Deus. A piedade popular contém e expressa um intenso sentido da transcendência, uma capacidade espontânea de se apoiar em Deus e uma verdadeira experiência de amor teologal. É também uma expressão de sabedoria sobrenatural, porque a sabedoria do amor não depende diretamente da ilustração da mente, mas da ação interna da graça. Por isso, a chamamos de espiritualidade popular. Ou seja, uma espiritualidade cristã que, sendo um encontro pessoal com o Senhor, integra muito o corpóreo, o sensível, o simbólico e as necessidades mais concretas das pessoas. É uma espiritualidade encarnada na cultura dos simples, que nem por isso é menos espiritual, mas que o é de outra maneira.


 

O tempo é breve

O tempo corre veloz e as pessoas buscam meios para aproveitá-lo, de acordo com a idade, situação social e os eventuais desafios que se apresentam. De fato, diferente é o tempo da criança que se entrega às brincadeiras e jogos próprios de sua etapa de vida, parecendo jogar fora preciosos minutos da existência, se comparado com o afã de ganhar o necessário para enfrentar os dias atuais, com o qual tantos adultos têm que se haver. Sonhadores são os tempos de quem se apaixona, imaginando a realização de seus planos com a pessoa querida! Longos os minutos do enfermo numa cama de hospital, aguardando o gotejar dos aparelhos que lhes são aplicados. Mais demorados os dias das muitas pessoas solitárias de nossa época, ou aquelas que se apavoram diante do espectro do abandono, este mais comum do que se pode imaginar! Mistério do tempo!

Maravilhosa a aventura das horas trabalhadas, com a qual homens e mulheres retornam para casa, depois de uma jornada intensa, trazendo cansaço e felicidade pelo dever cumprido. Angustiantes as horas passadas na busca de trabalho e emprego, quando se quer mesmo ganhar o pão com o próprio labor e a situação da sociedade dificulta alcançar tal nobre objetivo. Complicado o sentido do tempo para quem está mergulhado no vício, sem enxergar uma luz no caminho, mendigando auxílio de alguma parte! Intrigante o uso do tempo para quem se entrega ao ócio e à falta de sentido para a existência! Mistério do tempo!

Quando ouvimos o Evangelho na Missa, começa assim: “Naquele tempo…” Aquele tempo é o da graça de uma presença e companhia inigualáveis, quando os desígnios amorosos da Santíssima Trindade fizeram acontecer a entrada do Filho amado nesta nossa história, para ser nosso Senhor e Salvador, esperança e rumo para toda a humanidade. O tempo do calendário ou das agendas, o tempo do relógio, torna-se oportunidade para um encontro que preenche todos os outros tempos! Deus nos dá de presente a possibilidade de um sentido para a vida, tornando-se não apenas uma edificação feita de planos muitas vezes irrealizáveis, mas resultado de uma aventura de amor, iniciada por Deus e destinada a ser correspondida por todos os homens e mulheres de qualquer tempo. Somos criaturas, fomos pensados com amor e por amor, destinados à felicidade e não jogados por acaso neste mundo. Mistério do tempo!

Para iluminar o nosso tempo, a Igreja tem um caminho, chamado “Ano litúrgico”, com o qual percorre, a nosso favor e proveito, todo o mistério de Cristo, do seu nascimento até o retorno no fim dos tempos. Deus é sempre novo, e cada tempo da Igreja pode revelar-se cheio de sentido para cada pessoa que acolhe sua riqueza espiritual. Sabemos que Jesus veio uma vez, realizou sua entrega, ofereceu-nos a graça e a salvação, mas quer ser de novo anunciado e acolhido pelas sucessivas gerações e oferecer a todos sua graça. Cabe a nós, neste final de ano, com a fé que professamos, viver o tempo da Igreja de tal forma que muitas outras pessoas se sintam convidadas a fazer a mesma experiência. O Tempo de Advento, tempo da esperança e da chegada, seja tão fecundo e importante para nós, que os outros não assistam a peças teatrais de Natal, ou apenas troquem presentes. A nós cabe a tarefa de oferecer “o presente” que é Jesus Salvador. É hora de despertar para esta missão. Tempo litúrgico, tempo de Cristo, tempo da Igreja. Mistério do tempo!

Somos ajudados a viver este período pela luz da Palavra de Deus. Naquele tempo (Cf. Mc 13, 33-37), Jesus disse aos seus discípulos: “ficai atentos, porque não sabeis quando chegará o momento… O que vos digo, digo a todos: vigiai”. Não é difícil perceber o quanto o Senhor é realista, abrindo-nos para a responsabilidade diante da vida. Mesmo quem quer apenas aproveitar e desfrutar todos os prazeres e oportunidades de seu dia a dia acaba se defrontando com os dramas, quais sejam a enfermidade ou a sombra da morte, e tantas vezes se sente desorientado. Um dia terá que pensar no sentido da existência. Mistério do tempo!

Uma característica da vida humana, a um tempo desafiadora é maravilhosa, é a brevidade da existência. Vidas fecundas e dedicadas fazem com que, à velhice que chega, a pessoa tenha a impressão de que tudo passou como um momento, quase um sonho, um sopro apenas, visto no sorriso alegre de tantos anciãos e anciãs! E estas pessoas nos ensinam ainda como é verdadeira a palavra da Escritura que afirma serem vaidades todas as coisas! De fato, o que sobra das riquezas, se não são bem usadas? Curta ou longa a duração da vida nesta terra, transformadas as riquezas e potencialidades no bem que se pode fazer ou, infelizmente, desperdiçadas tantas vezes, mas ninguém poderá fugir da responsabilidade que lhe cabe pela única vida que lhe foi dada! Mistério do tempo.

É ato de inteligência acordar e não deixar fugir o momento presente, mas vigiar, tomar nas mãos as rédeas daquilo que nos foi dado com tanta generosidade por Deus. Para ser vigilantes, é necessário ajustar a mira na vida, objetivos claros, escolhas bem definidas, superação do improviso. Quem sabe o que quer busca os meios necessários para a viagem da existência. Nada de alarde ou apavoramento, mas buscar o que corresponde aos valores da dignidade das pessoas e da vida, usar as armas da verdade e da retidão. Quem o faz terá o equilíbrio necessário, pois as surpresas não faltam. Quando chegarem, viver na certeza de que tudo, tudo mesmo, coopera para o bem dos que amam a Deus. Quem tem a visão de conjunto é Deus! Mistério do tempo!

Quais serão as surpresas dos dias que virão? Deus nos fala através de sua Palavra, que é “de vida eterna”, assim como fala pelos acontecimentos, os apelos do próximo, especialmente os pobres, fala nas crises da sociedade que pedem uma revisão dos caminhos que percorremos, assim como fala através de pessoas sábias, capazes de alertar-nos diante dos riscos e perigos. Ninguém precisa exercitar a adivinhação, que, aliás, revela uma grande insegurança! Cada minuto seja uma oportunidade para acolher o que Deus nos preparou com amor. Mistério do tempo!

Diante de tudo o que pode acontecer, ainda uma proposta, pois o Senhor pede para vigiar e orar. Na oração temos a possibilidade de reencontrar-nos e refletir sobre a própria vida. Nela, Deus recolhe os muitos fragmentos de nosso dia a dia, para compor uma obra de arte! E ninguém é mais artista do que o Pai do Céu, que fez bem todas as coisas! É o tempo do Advento, com o qual se inicia o Ano Litúrgico da Igreja, convida justamente a rezar mais e melhor, cheios da esperança. E veremos nosso tempo se transformar, cada dia mais, em tempo de graça e salvação, no mistério do tempo!


Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará


 

A Água e o Batismo

O Batismo é, sem dúvida, o sacramento de que mais fala o Novo Testamento. Trata-se do sacramento da iniciação cristã, a porta pela qual judeus e gentios vão ter acesso à comunidade daqueles que crêem em Jesus Cristo e o seguem ao longo da vida e até a morte.

O simbolismo do Batismo passa pela água, esse elemento da natureza sem o qual a humanidade não consegue viver e que carrega em si tão profunda e consistente riqueza de significado.  Pois a água não apenas dá vida, lava e purifica, mata a sede satisfazendo o desejo e hidratando o corpo, como também mata quando desce dos morros e favelas em enxurradas que a tudo arrasta e afoga homens, mulheres, crianças, casas, animais, destruindo plantações e colheitas.

O significado etimológico da palavra Batismo está intimamente ligado a este elemento que é seu sinal sensível, criador da realidade sacramental: a água. Batismo, portanto, palavra de origem grega quer dizer imersão, banho.  Nas Escrituras hebraicas há todo um riquíssimo simbolismo da água em chave cosmológica e histórica, sobre o qual não nos cabe estender-nos aqui. A Lei judaica, já no Antigo Testamento, prevê e inclui em suas prescrições abluções e banhos rituais purificadores, usando a água como elemento central. E, entre os dois testamentos, aparece o Batismo de João Batista, que o próprio Jesus vai receber e que tem características penitenciais e purificadoras.

O Batismo de João, porém, é diferente do Batismo de Jesus, e os autores neotestamentários fazem questão de ressaltar este ponto.  O primeiro é um rito de penitência, que vai servir de preparação para o verdadeiro Batismo, que será o de Jesus (cf. (Atos dos Apóstolos 19,1-7).  Entre João e Jesus há, pois, uma continuidade, na medida em que Jesus recebeu o batismo de João, recebeu discípulos de João em seu grupo, os quais receberam o batismo de João e há igualmente na superação e novidade, expressa pelo próprio João (Mateus 3,11).

Na verdade, o sentido da água no rito batismal não está tanto ligado em primeiro plano a uma ideia de purificação, mas de passagem, que expressa a salvação. O catecúmeno que vai se batizar “passa” pela água e isto simboliza sua passagem da vida em pecado para uma vida nova, a vida da graça.

Nos textos neotestamentários, a Igreja Primitiva nos aparece mais preocupada em salientar a novidade radical deste ritual em relação aos rituais judaicos e o conteúdo salvífico próprio desse gesto sacramental: o comprimento das promessas de Deus e a realização das maravilhas de sua salvação em favor do povo.

Diferente do rito de iniciação judaico, que passa obrigatoriamente pela anatomia masculina, e que só é concedido a judeus, o rito batismal vai incluir as mulheres, os gentios de toda sorte, os escravos e os de qualquer condição social, inaugurando uma nova maneira de ser e de viver, que não encontra espaço e não deixa lugar para a exclusão de qualquer espécie. É de uma Igreja feita de batizados que Paulo vai poder proferir a libertadora afirmação da carta aos Gálatas, capítulo 3, 28: Não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos sois um só em Cristo JesusO Batismo vai não só mostrar, mas sinalizar indelevelmente com a força do sacramento, que em Cristo Jesus todas as diferenças foram abolidas e que as águas batismais lavaram e diluíram todas as fronteiras separatistas, abrindo caminho a uma comunidade universal que não admite discriminações dentro ou fora de seus limites de pertença.

Assim sendo, o Batismo dá ao ser humano uma nova identidade, toda ela marcada por uma dinâmica pascal. Significa morte ao “velho homem” ou ao Adão antigo, o que significa morte ao pecado e à separação de Deus, e a tudo que constitui o reino das trevas.  Morte, portanto, à vida antiga.  Por outro lado, esta morte e ruptura radical, implica um estar disposto, como Cristo, a dar sua vida pelo povo. Aí está o sentido da existência não só do leigo, nem só do sacerdote ou do religioso, mas de todo cristão. Existir não mais para si, mas para "fora de si" - para Deus e para os outros. (cf. 2 Coríntios 5,15).

Esse novo modo de existir não acontece, no entanto, sem conflitos. Para Jesus, o conflito desembocou na Cruz. Para os batizados que seguem a Jesus, isso implicará deixar para trás apoios e seguranças outras para compartilhar com Jesus as situações humanas-limite, que pontilharam seu existir: incompreensão, solidão, sofrimento, fracasso, incerteza, perseguição, tortura, morte. Mas também - e não menos - amizade, amor, comunhão, solidariedade, paz, alegria, ressurreição e exaltação.

O batizado, portanto, “perde” a sua antiga identidade para ganhar uma nova identidade, uma identidade crística (agir conforme os ensinamentos de Jesus Cristo), já que o fundo mais profundo desta nova identidade é a própria pessoa de Jesus Cristo, sua vida, seu agir e sua morte e ressurreição.

Além e para além de incorporar o ser humano a Cristo, outro efeito fundamental do Batismo é incorporá-lo a uma comunidade eclesial (1Coríntios 12,13; Gálatas 3,27). Por isso, além de trazer uma nova identidade - a identidade crística - àquele ou àquela que por ele passa, o Batismo é o sacramento que configura a Igreja. O modelo de Igreja que surge a partir do Batismo é, portanto, o de uma comunidade dos que existem para os outros, dos que assumiram um destino na vida: VIVER PARA OS OUTROS

Não se trata, portanto, de uma Igreja massificada e amorfa, nem muito menos de uma Igreja eivada de divisões de classes.  Trata-se, sim, da grande comunidade dos que vivem em suas pessoas e em suas vidas o mistério de Cristo, dos que são batizados, dos que foram mergulhados na morte de Cristo e renasceram para uma vida nova, voltada para fora de si, de serviço e dedicação aos outros e de construção do Reino.  A partir daí se organiza a Igreja, que será uma comunidade viva, construída a partir não de cargos previamente estruturados que determinam a importância de cada membro da comunidade dentro do todo, mas a partir da comum graça de serem batizados e portadores, portanto, de uma identidade que é o próprio Jesus Cristo.

Nos dias de hoje, a Igreja vem lutando, com coragem e determinação, para re-encontrar esse modelo presente nas fontes da revelação e da vida cristã.  Isso a vem obrigando, igualmente, a navegar em águas mais profundas e mover-se em terrenos talvez mais movediços e complexos, a fim de ser capaz de fazer-se ouvir em meio ao tumulto do mundo de hoje, eivado de tantos apelos e tantas possibilidades.

O Batismo, no entanto, com a força de suas águas onde fomos imergidos e das quais emergimos para uma nova vida nos convoca para uma vida semelhante à de Jesus.  É para essas águas sempre mais profundas que o Espírito do Senhor hoje nos convida a avançar.


Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio.


 

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