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Porque Cristo ressuscitou

Porque Cristo Ressuscitou...
Porque Cristo ressuscitou, me animo a viver.
Porque Cristo ressuscitou, acredito que o Reino de Deus vai prevalecer.
Porque Cristo ressuscitou os medos se afastam, e o desânimo também.
Porque Cristo ressuscitou, tudo agora tem um sentido novo.
Porque Cristo ressuscitou, minha esperança permanece viva, mesmo diante de uma realidade que ainda se apresenta sombria.
Porque Cristo ressuscitou, vou viver a vida nova e testemunhar o Evangelho.

Se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é sem fundamento, e sem fundamento também é a vossa fé” (1 Cor 15,14).

O apóstolo Paulo demonstra como a fé na Ressurreição dos mortos é fundamental para a vida do cristão. Cristo ressuscitou e nós também ressuscitaremos com Ele.

E mais, já nesta vida Cristo nos renova, pelo Batismo, e nos faz novas criaturas, mergulhados no mistério de sua morte e ressurreição! De fato, acrescenta Paulo, “se é para esta vida que pusemos a nossa esperança em Cristo, somos, dentre todos os homens, os mais dignos de compaixão”! (1 Cor 15,19).

A insistência de Paulo se explica pelo fato de haver pessoas em seu tempo que não acreditavam na ressurreição de Jesus. Esta realidade persiste hoje, e não só em pessoas que se declaram não crentes, mas também em pessoas que um dia foram batizadas, mas que ainda não experimentaram a vivência da graça de um verdadeiro encontro com Cristo. Por isso, não se dão conta de uma realidade que as envolve. É como uma cegueira, por não distinguir algo que existe, embora não possa ser visto.

De fato, o Documento de Aparecida fala que “uma fé católica reduzida a uma bagagem, a um elenco de algumas normas e de proibições, a práticas de devoção fragmentadas, a adesões seletivas e parciais das verdades da fé, a uma participação ocasional em alguns sacramentos, à repetição de princípios doutrinais, a moralismos brandos ou crispados que não convertem a vida dos batizados, não resistiria aos embates do tempo. Nossa maior ameaça é o medíocre pragmatismo da vida cotidiana da Igreja na qual, aparentemente, tudo procede com normalidade, mas na verdade a fé vai se desgastando e degenerando em mesquinhez. A todos nos toca recomeçar a partir de Cristo, reconhecendo que não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva” (DAp 12).

A mística deste tempo pascal nos fala de vida, de passagem, de encontros com o Ressuscitado. Encontro como o das mulheres Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago, e outras mulheres. Encontro como o de Pedro e João. Encontro como o dos discípulos de Emaús, desanimados, e de Tomé, descrente. Encontro às margens do lago de Tiberíades, quando Jesus aparece aos discípulos que estavam retomando a rotina da pesca, e os convida a segui-lo, a cuidar de suas ovelhas, a sair em missão, para outro tipo de pesca, aquela de águas mais profundas. Encontros que fortalecem a fé e levam ao testemunho.

Encontros transformadores. O encontro continua possível, pois o Cristo que veio e que virá no final dos tempos continua vindo ao presente. No segundo volume de seu livro Jesus de Nazaré, Joseph Ratzinger, então Papa Bento XVI, lembra a visão esclarecedora da tríplice vinda do Senhor, das homilias de São Bernardo de Claraval: “Entre a primeira e a última, há uma vinda intermédia... Na primeira, o Senhor veio revestido da nossa fraqueza humana; na intermédia, vem espiritualmente, manifestando o poder da sua graça; na última virá com todo o esplendor da sua glória”.

Esta sua tese se baseia nas palavras de Jesus referidas por João: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra; meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada” (Jo 14,23). E o Papa comenta: “É a escatologia do presente”.

Por isso, continua Bento XVI, podemos orar pela vinda de Jesus, “peçamos antecipações da sua presença renovadora no mundo. Em momentos de tribulação pessoal, supliquemos: Vinde, Senhor Jesus!, e acolhei a minha vida na presença benigna do vosso poder. Peçamos-lhe que acompanhe as pessoas que amamos ou com quem estamos preocupados. Peçamos-lhe que se torne eficazmente presente na sua Igreja. E porque não pedir-lhe que nos conceda também hoje testemunhas novas da sua presença, nas quais Ele mesmo se aproxime de nós? E esta súplica, que não visa imediatamente o fim do mundo, mas é uma verdadeira oração pela sua vinda, traz consigo toda a amplitude daquela oração que Ele mesmo nos ensinou: ‘venha a nós o vosso reino’? Vinde, Senhor Jesus!

Há um ano, lançamos o Plano Diocesano de Evangelização, justamente por ocasião da Páscoa. Celebrando novamente a Páscoa, após um ano de caminhada, realimentamos a fé e o compromisso assumido, para sermos a Igreja que ama Jesus Cristo, que se torna testemunha de sua presença acolhedora, misericordiosa, samaritana, missionária: “Pedro, tu me amas?... Apascenta as minhas ovelhas”.

Quanto mais sombria nos parece a realidade, mais precisamos da luz da Páscoa! A fé nos faz viver a vida nova em Cristo ressuscitado. Somos novas criaturas, renascidas pelo batismo! Só nos resta agradecer e aderir pela fé ao projeto de amor misericordioso de Deus, entregando também nossa vida por amor, porque Cristo ressuscitou!


Fonte: Presença Diocesana


 

Via Crucis - Caminho da Cruz

A Via Crucis é uma pratica piedosa para qual nos convida a Igreja, sobre tudo durante a Quaresma. Via Crucis significa “Caminho da Cruz”, também chamada de Estações da Cruz, Via Sacra e Via Dolorosa.

É um caminho de oração que busca que adentremos na meditação da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo em seu caminho para o Calvário. O caminho é representado com uma serie de imagens da Paixão, ou “Estações” correspondentes aos incidentes particulares que Jesus sofreu por nossa salvação.

Divide-se em 14 Estações, ante as quais nos detemos para recordar e meditar cada momento doloroso do caminho de Jesus rumo ao Calvário. A Via Crucis se reza de pé, e em alguns momentos de joelhos; detendo-se em cada estação, para recordar o caminho de Jesus ao Calvário, é por isso que as imagens da representação da Via Crucis estão nas paredes, arredor do templo.


Primeira Estação

Jesus é condenado à morte


Do evangelho segundo São Mateus 27, 22-26

22 Tornou-lhes Pilatos: Que farei então de Jesus, que se chama Cristo? Disseram todos: Seja crucificado.
23 Pilatos, porém, disse: Pois que mal fez ele? Mas eles clamavam ainda mais: Seja crucificado.
24 Ao ver Pilatos que nada conseguia, mas pelo contrário que o tumulto aumentava, mandando trazer água, lavou as mãos diante da multidão, dizendo: Sou inocente do sangue deste homem; seja isso lá convosco.
25 E todo o povo respondeu: O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos.
26 Então lhes soltou Barrabás; mas a Jesus mandou açoitar, e o entregou para ser crucificado.

Meditação

O Juiz do mundo, que um dia voltará para nos julgar a todos, está ali, aniquilado, insultado e inerme diante do juiz terreno. Pilatos não é um monstro de malvadez. Sabe que este condenado é inocente; procura um modo de O libertar. Mas o seu coração está dividido. E, no fim, faz prevalecer a sua posição, a si mesmo, sobre o direito.

Também os homens que gritam e pedem a morte de Jesus não são monstros de malvadez. Muitos deles, no dia de Pentecostes, sentir-se-ão "emocionados até ao fundo do coração" (Atos dos Apóstolos 2, 37), quando Pedro lhes disser: A Jesus de Nazaré, Homem acreditado por Deus junto de vós, (...), matastes, cravando-O na cruz pela mão de gente perversa» (Atos dos Apóstolos 2, 22.23). Mas naquele momento sofrem a influência da multidão. Gritam porque os outros gritam e como gritam os outros. E, assim, a justiça é espezinhada pela cobardia, pela pusilanimidade, pelo medo do diktat da mentalidade predominante. A voz subtil da consciência fica sufocada pelos gritos da multidão. A indecisão, o respeito humano dão força ao mal.

Oração

Senhor, fostes condenado à morte porque o medo do olhar alheio sufocou a voz da consciência. E, assim, acontece que, sempre ao longo de toda a história, inocentes sejam maltratados, condenados e mortos. Quantas vezes também nós preferimos o sucesso à verdade, a nossa reputação à justiça. Dai força, na nossa vida, à voz subtil da consciência, à vossa voz. Olhai-me como olhastes para Pedro depois de Vos ter negado. Fazei com que o vosso olhar penetre nas nossas almas e indique a direção à nossa vida. Àqueles que na Sexta-feira Santa gritaram contra Vós, no dia de Pentecostes destes a contrição do coração e a conversão. E assim destes esperança a todos nós. Não cesseis de dar também a nós a graça da conversão.

Abençoada e louvada seja a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo e as dores de sua Santíssima Mãe aos pés da Cruz. Assim seja!

Rezar: Pai Nosso, Ave-Maria e Glória


Segunda Estação
Jesus é carregado com a cruz


Do evangelho segundo São Mateus 27, 27-31

27 Nisso os soldados do governador levaram Jesus ao pretório, e reuniram em torno dele toda a corte.
28 E, despindo-o, vestiram-lhe um manto escarlate;
29 e tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha na cabeça, e na mão direita uma cana, e ajoelhando-se diante dele, o escarneciam, dizendo: Salve, rei dos judeus!
30 E, cuspindo nele, tiraram-lhe a cana, e davam-lhe com ela na cabeça.
31 Depois de o terem escarnecido, despiram-lhe o manto, puseram-lhe as suas vestes, e levaram-no para ser crucificado.

Meditação

Jesus, condenado como pretenso rei, é escarnecido, mas precisamente na troça aparece cruelmente a verdade. Quantas vezes as insígnias do poder trazidas pelos poderosos deste mundo são um insulto à verdade, à justiça e à dignidade do homem! Quantas vezes os seus rituais e as suas grandes palavras, verdadeiramente, não passam de pomposas mentiras, uma caricatura do dever que lhes incumbe por força do seu cargo, ou seja, colocar-se ao serviço do bem. Por isso mesmo, Jesus, Aquele que é escarnecido e que traz a coroa do sofrimento, é o verdadeiro rei. O seu cetro é a justiça (cf. Salmo 45/44, 7). O preço da justiça é sofrimento neste mundo: Ele, o verdadeiro rei, não reina por meio da violência, mas através do amor com que sofre por nós e connosco. Ele carrega a cruz, a nossa cruz, o peso de sermos homens, o peso do mundo. É assim que Ele nos precede e mostra como encontrar o caminho para a vida verdadeira.

Oração

Senhor, deixastes que Vos escarnecessem e ultrajassem. Ajudai-nos a não fazer coro com aqueles que escarnecem quem sofre e quem é frágil. Ajudai-nos a reconhecer o vosso rosto em quem é humilhado e marginalizado. Ajudai-nos a não desanimar perante as zombarias do mundo quando a obediência à vossa vontade é metida a ridículo. Carregastes a cruz e convidastes-nos a seguir-Vos por este caminho (Mateus 10, 38). Ajudai-nos a aceitar a cruz, a não fugir dela, a não lamentarmo-nos nem deixar que os nossos corações se abatam com as provas da vida. Ajudai-nos a percorrer o caminho do amor e, obedecendo às suas exigências, a alcançar a verdadeira alegria.

Abençoada e louvada seja a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo e as dores de sua Santíssima Mãe aos pés da Cruz. Assim seja!

Rezar: Pai Nosso, Ave-Maria e Glória.


Terceira Estação
Jesus cai pela primeira vez


Do livro do profeta Isaías 53, 4-6

4 Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e carregou com as nossas dores; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido.
5 Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e esmagado por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.
6 Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada um se desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de todos nós.

Meditação

O homem caiu e continua caindo: quantas vezes ele se torna a caricatura de si mesmo, já não é a imagem de Deus, mas algo que ridiculariza o Criador. Aquele que, ao descer de Jerusalém para Jericó, embateu nos ladrões que o despojaram deixando-o meio morto, sangrando na beira da estrada, não é porventura a imagem por excelência do homem? A queda de Jesus sob a cruz não é apenas a queda do homem Jesus já extenuado pela flagelação. Aqui aparece algo de mais profundo, como diz Paulo na carta aos Filipenses: “Ele que era de condição divina não reivindicou o direito de ser equiparado a Deus. Mas despojou-Se a Si mesmo tomando a condição de servo, tornando-Se semelhante aos homens (…) humilhou-Se a Si mesmo, feito obediente até à morte e morte de cruz” (Filipenses 2, 6-8). Na queda de Jesus sob o peso da cruz, é visível todo este seu itinerário: a sua voluntária humilhação para nos levantar do nosso orgulho. E ao mesmo tempo aparece a natureza do nosso orgulho: a soberba pela qual desejamos emancipar-nos de Deus sendo apenas nós mesmos, pela qual cremos que não temos necessidade do amor eterno, mas queremos organizar a nossa vida sozinhos. Nesta revolta contra a verdade, nesta tentativa de nos tornarmos deus, de sermos criadores e juízes de nós mesmos, caímos e acabamos por autodestruir-nos. A humilhação de Jesus é a superação da nossa soberba: com a sua humilhação, Ele faz-nos levantar. Deixemos que nos levante. Despojemos-nos da nossa auto-suficiência, da nossa errada cisma de autonomia e aprendamos o contrário d’Ele, d’Aquele que Se humilhou, ou seja, aprendamos a encontrar a nossa verdadeira grandeza, humilhando-nos e voltando-nos para Deus e para os irmãos espezinhados.

Oração

Senhor Jesus, o peso da cruz fez-Vos cair por terra. O peso do nosso pecado, o peso da nossa soberba deita-Vos ao chão. Mas, a vossa queda não é sinal de um destino adverso, nem é a pura e simples fraqueza de quem é espezinhado. Quisestes vir até junto de nós que, pela nossa soberba, jazemos por terra. A soberba de pensar que somos capazes de produzir o homem fez com que os homens se tenham tornado um espécie de mercadoria para comprar e vender, como que uma reserva de material para as nossas experiências, pelas quais esperamos de, por nós mesmos, superar a morte, quando, na verdade, conseguimos apenas humilhar cada vez mais profundamente a dignidade do homem. Senhor, vinde em nossa ajuda, porque caímos. Ajudai-nos a abandonar a nossa soberba devastadora e, aprendendo da vossa humildade, a pormo-nos novamente de pé.

Abençoada e louvada seja a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo e as dores de sua Santíssima Mãe aos pés da Cruz. Assim seja!

Rezar: Pai Nosso, Ave-Maria e Glória.


Quarta Estação
Jesus encontra sua Mãe


Do evangelho segundo São Lucas 2, 34-35.51

34 E Simeão os abençoou, e disse a Maria, mãe do menino: Eis que este é posto para queda e para levantamento de muitos em Israel, e para ser alvo de contradição,
35 sim, e uma espada traspassará a tua própria alma, para que se manifestem os pensamentos de muitos corações.
51 Então, descendo com eles, foi para Nazaré, e era-lhes sujeito. E sua mãe guardava todas estas coisas em seu coração.

Meditação

Na Via-Sacra de Jesus, aparece também Maria, sua Mãe. Durante a sua vida pública, teve de ficar de lado para dar lugar ao nascimento da nova família de Jesus, a família dos seus discípulos. Teve também de ouvir estas palavras: “Quem é a minha Mãe e quem são os meus irmãos? (…) Todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mateus 12, 48.50). Pode-se agora constatar que Ela é a Mãe de Jesus não só no corpo, mas também no coração. Ainda antes de O ter concebido no corpo, pela sua obediência concebera-O no coração. Fora-Lhe dito: “Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho (…) Será grande (…) O Senhor Deus dar-Lhe-á o trono de seu pai David” (Lucas 1, 31-32). Mas algum tempo depois ouvira da boca do velho Simeão uma palavra diferente: “Uma espada Te há-de trespassar a alma” (Lucas 2, 35). Deste modo ter-Se-á lembrado de certas palavras pronunciadas pelos profetas, tais como: “Foi maltratado e resignou-se, não abriu a boca, como cordeiro levado ao matadouro” (Is 53, 7). Agora tudo isto se torna realidade. No coração, tinha sempre conservado as palavras que o anjo Lhe dissera quando tudo começou: “Não tenhas receio, Maria” (Lucas 1, 30). Os discípulos fugiram; Ela não foge. Ela está ali, com a coragem de mãe, com a fidelidade de mãe, com a bondade de mãe, e com a sua fé, que resiste na escuridão: “Feliz daquela que acreditou” (Lucas 1, 45). “Mas, quando o Filho do Homem voltar, encontrará fé sobre a terra?” (Lucas 18, 8). Sim, agora Ele sabe-o: encontrará fé. E esta é, naquela hora, a sua grande consolação.

Oração

Santa Maria, Mãe do Senhor, permanecestes fiel quando os discípulos fugiram. Tal como acreditastes quando o anjo Vos anunciou o que era incrível - que haverias de ser Mãe do Altíssimo - assim também acreditastes na hora da sua maior humilhação. E foi assim que, na hora da cruz, na hora da noite mais escura do mundo, Vos tornastes Mãe dos crentes, Mãe da Igreja. Nós Vos pedimos: ensinai-nos a acreditar e ajudai-nos para que a fé se torne coragem de servir e gesto de um amor que socorre e sabe partilhar o sofrimento.

Abençoada e louvada seja a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo e as dores de sua Santíssima Mãe aos pés da Cruz. Assim seja!

Rezar: Pai Nosso, Ave-Maria e Glória.


Quinta Estação
Jesus é ajudado a levar a cruz pelo Cireneu


Do evangelho segundo São Mateus 27, 32; 16, 24

32 Ao saírem, encontraram um homem cireneu, chamado Simão, a quem obrigaram a levar a cruz de Jesus.
24 Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me.

Meditação

Simão de Cirene regressa do trabalho, vai a caminho de casa quando se cruza com aquele triste cortejo de condenados - para ele talvez fosse um espetáculo habitual. Os soldados valem-se do seu direito de coação e colocam a cruz às costas dele, robusto homem do campo.

Que aborrecimento não deverá ter sentido ao ver-se inesperadamente envolvido no destino daqueles condenados! Faz o que deve fazer, mas certamente com grande relutância. O evangelista Marcos nomeia, juntamente com ele, também os seus filhos, que evidentemente eram conhecidos como cristãos, como membros daquela comunidade (Marcos 15, 21). Do encontro involuntário, brotou a fé. Acompanhando Jesus e compartilhando o peso da cruz, o Cireneu compreendeu que era uma graça poder caminhar juntamente com este Crucificado e assisti-Lo. O mistério de Jesus que sofre calado tocou-lhe o coração. Jesus, cujo amor divino era o único que podia, e pode, redimir a humanidade inteira, quer que compartilhemos a sua cruz para completar o que ainda falta aos seus sofrimentos (Col 1, 24). Sempre que, bondosamente, vamos ao encontro de alguém que sofre, alguém que é perseguido e inerme, partilhando o seu sofrimento ajudamos a levar a própria cruz de Jesus. E assim obtemos salvação, e nós mesmos podemos contribuir para a salvação do mundo.

Oração

Senhor, abristes a Simão de Cirene os olhos e o coração, dando-lhe, na partilha da cruz, a graça da fé. Ajudai-nos a assistir o nosso próximo que sofre, ainda que este chamamento resultasse em contradição com os nossos projetos e as nossas simpatias. Concedei-nos reconhecer que é uma graça poder partilhar a cruz dos outros e experimentar que dessa forma estamos caminhando Convosco. Fazei-nos reconhecer com alegria que é precisamente pela partilha do vosso sofrimento e dos sofrimentos deste mundo que nos tornamos ministros da salvação, podendo assim ajudar a construir o vosso corpo, a Igreja.

Abençoada e louvada seja a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo e as dores de sua Santíssima Mãe aos pés da Cruz. Assim seja!
Rezar: Pai Nosso, Ave-Maria e Glória.


Sexta Estação
A Verônica limpa o rosto de Jesus


Do livro do profeta Isaías 53, 2-3

2 Deus olha lá dos céus para os filhos dos homens, para ver se há algum que tenha entendimento, que busque a Deus.
3 Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não há sequer um.

Do livro dos Salmos 27(26), 8-9

8 Quando disseste: Buscai o meu rosto; o meu coração te disse a ti: O teu rosto, Senhor, buscarei.
9 Não escondas de mim o teu rosto, não rejeites com ira o teu servo, tu que tens sido a minha ajuda. Não me enjeites nem me desampares, ó Deus da minha salvação.

Meditação

"É, Senhor, o vosso rosto que eu persigo. Não escondais de mim o vosso rosto" (Sal 27/26,8). Verônica - Berenice, segundo a tradição grega - encarna este anseio que irmana todos os homens piedosos do Antigo Testamento, o anseio que provam todos os homens crentes de verem o rosto de Deus. Em todo o caso, na Via-Sacra de Jesus, inicialmente ela limitara-se a prestar um serviço de gentileza feminina: oferecer um lenço a Jesus. Não se deixa contagiar pela brutalidade dos soldados, nem imobilizar pelo medo dos discípulos. É a imagem da mulher bondosa que, perante o turbamento e escuridão dos corações, mantém a coragem da bondade, não permite ao seu coração de entenebrecer-se: "Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus" - dissera o Senhor no Discurso da Montanha (Mt 5, 8). Ao princípio, Verônica via apenas um rosto maltratado e marcado pela dor. Mas, o ato de amor imprime no seu coração a verdadeira imagem de Jesus: no Rosto humano, coberto de sangue e de feridas, ela vê o Rosto de Deus e da sua bondade que nos acompanha mesmo na dor mais profunda. Somente com o coração podemos ver Jesus. Apenas o amor nos torna capazes de ver e nos torna puros. Só o amor nos faz reconhecer Deus, que é o próprio amor.

Oração

Senhor, dai-nos a inquietação do coração que procura o vosso rosto. Protegei-nos do obscurecimento do coração que vê apenas a superfície das coisas. Concedei-nos aquela generosidade e pureza de coração que nos tornam capazes de ver a vossa presença no mundo. Quando não formos capazes de realizar grandes coisas, dai-nos a coragem de uma bondade humilde. Imprimi o vosso rosto nos nossos corações, para Vos podermos encontrar e mostrar ao mundo a vossa imagem.

Abençoada e louvada seja a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo e as dores de sua Santíssima Mãe aos pés da Cruz. Assim seja!
Rezar: Pai Nosso, Ave-Maria e Glória
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Sétima Estação
Jesus cai pela segunda vez


Do livro das Lamentações 3, 1-2.9.16

Eu sou o homem que conheceu a miséria sob a vara do seu furor. Ele me guiou e me fez andar nas trevas e não na luz. (…) Embarrou meus caminhos com blocos de pedra, obstruiu minhas veredas. (…) Ele quebrou meus dentes com cascalho, mergulhou-me na cinza.

Meditação

A tradição da tríplice queda de Jesus sob o peso da cruz recorda a queda de Adão – o ser humano caído que somos nós – e o mistério da associação de Jesus à nossa queda. Na história, a queda do homem assume sempre novas formas. Na sua primeira carta, São João fala duma tríplice queda do homem: a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida. Assim interpreta ele a queda do homem e da humanidade, no horizonte dos vícios do seu tempo com todos os seus excessos e depravações. Mas, olhando a história mais recente, podemos também pensar como a cristandade, cansada da fé, abandonou o Senhor: as grandes ideologias, com a banalização do homem que já não crê em nada e se deixa simplesmente ir à deriva, construíram um novo paganismo, um paganismo pior que o antigo, o qual, desejoso de marginalizar definitivamente Deus, acabou por perder o homem. Eis o homem que jaz no pó. O Senhor carrega este peso e cai... cai, para poder chegar até nós; Ele olha-nos para que em nós volte a palpitar o coração; cai para nos levantar.

Oração

Senhor Jesus Cristo, carregastes o nosso peso e continuais a carregar-nos. É o nosso peso que Vos faz cair. Mas sois Vós a levantar-nos, porque, sozinhos, não conseguimos levantar-nos do pó. Livrai-nos do poder da concupiscência. Em vez do coração de pedra, dê-nos novamente um coração de carne, um coração capaz de ver. Destruí o poder das ideologias, para os homens poderem reconhecer que estão permeadas de mentiras. Não permitais que o muro do materialismo se torne intransponível. Fazei que Vos ouçamos de novo. Tornai-nos sóbrios e vigilantes para podermos resistir às forças do mal, e ajudai-nos a reconhecer as necessidades interiores e exteriores dos outros, e a socorrê-las. Erguei-nos, para podermos levantar os outros. Concedei-nos esperança no meio de toda esta escuridão, para podermos ser portadores de esperança no mundo.

Abençoada e louvada seja a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo e as dores de sua Santíssima Mãe aos pés da Cruz. Assim seja!
Rezar: Pai Nosso, Ave-Maria e Glória
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Oitava Estação
Jesus encontra as mulheres de Jerusalém


Do evangelho segundo São Lucas 23, 28-31

28 Jesus, porém, voltando-se para elas, disse: Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai antes por vós mesmas, e por vossos filhos.
29 Porque dias hão de vir em que se dirá: Bem-aventuradas as estéreis, e os ventres que não geraram, e os peitos que não amamentaram!
30 Então começarão a dizer aos montes: Caí sobre nós; e aos outeiros: Cobri-nos.
31 Porque, se isto se faz no lenho verde, que se fará no seco?

Meditação

As palavras com que Jesus adverte as mulheres de Jerusalém que O seguem e choram por Ele, fazem-nos refletir. Como entendê-las? Não se trata porventura de uma advertência contra uma piedade puramente sentimental, que não se torna conversão e fé vivida? De nada serve lamentar, por palavras e sentimentalmente, os sofrimentos deste mundo, se a nossa vida continua sempre igual. Por isso, o Senhor nos adverte do perigo em que nós próprios nos encontramos. Mostra-nos a seriedade do pecado e a seriedade do juízo. Apesar de todas as nossas palavras de horror à vista do mal e dos sofrimentos dos inocentes, não somos nós porventura demasiado inclinados a banalizar o mistério do mal? Da imagem de Deus e de Jesus, no fim de contas, admitimos apenas o aspecto terno e amável, enquanto tranquilamente cancelamos o aspecto do juízo? Como poderia Deus fazer-Se um drama com a nossa fragilidade – pensamos conosco –, não passamos de simples homens? Mas, fixando os sofrimentos do Filho, vemos toda a seriedade do pecado, vemos como tem de ser expiado até ao fim para poder ser superado. Não se pode continuar a banalizar o mal, quando vemos a imagem do Senhor que sofre. Também a nós, diz Ele: Não choreis por Mim, chorai por vós próprios... porque se tratam assim o madeiro verde, que será com o madeiro seco?

Oração

Senhor, às mulheres que choravam, falastes de penitência, do dia do Juízo, quando nos encontrarmos diante da vossa face, a face do Juiz do mundo. Chamais-nos a sair da banalização do mal que nos deixa tranqüilos para podermos continuar a nossa vida de sempre. Mostrai-nos a seriedade da nossa responsabilidade, o perigo de sermos encontrados, no Juízo, culpados e estéreis. Fazei com que não nos limitemos a caminhar ao vosso lado, oferecendo apenas palavras de compaixão. Convertei-nos e dai-nos uma vida nova; não permitais que acabemos por ficar como um madeiro seco, mas fazei que nos tornemos ramos vivos em Vós, a videira verdadeira, e produzamos fruto para a vida eterna (cf. Jo 15, 1-10).

Abençoada e louvada seja a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo e as dores de sua Santíssima Mãe aos pés da Cruz. Assim seja!

Rezar: Pai Nosso, Ave-Maria e Glória.


Nona Estação
Jesus cai pela terceira vez


Do livro das Lamentações 3, 27-32

27 Bom é para o homem suportar o jugo na sua mocidade.
28 Que se assente ele, sozinho, e fique calado, porquanto Deus o pôs sobre ele.
29 Ponha a sua boca no pó; talvez ainda haja esperança.
30 Dê a sua face ao que o fere; farte-se de afronta.
31 Pois o Senhor não rejeitará para sempre.
32 Embora entristeça a alguém, contudo terá compaixão segundo a grandeza da sua misericórdia.

Meditação

E que dizer da terceira queda de Jesus sob o peso da cruz? Pode talvez fazer-nos pensar na queda do homem em geral, no afastamento de muitos de Cristo, caminhando à deriva para um secularismo sem Deus. Mas não deveríamos pensar também em tudo quanto Cristo tem sofrido na sua própria Igreja? Quantas vezes se abusa do Santíssimo Sacramento da sua presença, frequentemente como está vazio e ruim o coração onde Ele entra! Tantas vezes celebramos apenas nós próprios, sem nos darmos conta sequer d’Ele! Quantas vezes se contorce e abusa da sua Palavra! Quão pouca fé existe em tantas teorias, quantas palavras vazias! Quanta sujeira há na Igreja, e precisamente entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam pertencer completamente a Ele!

Quanta soberba, quanta auto-suficiência! Respeitamos tão pouco o sacramento da reconciliação, onde Ele está à nossa espera para nos levantar das nossas quedas! Tudo isto está presente na sua paixão. A traição dos discípulos, a recepção indigna do seu Corpo e do seu Sangue é certamente o maior sofrimento do Redentor, o que Lhe trespassa o coração. Nada mais podemos fazer que dirigir-Lhe, do mais fundo da alma, este grito: Kyrie, eleison - SENHOR, SALVAI-NOS (cf. Mt 8, 25).

Oração

Senhor, muitas vezes a vossa Igreja parece-nos uma barca que está para afundar, uma barca que mete água por todos os lados. E mesmo no vosso campo de trigo, vemos mais cizânia que trigo. O vestido e o rosto tão sujos da vossa Igreja horrorizam-nos. Mas somos nós mesmos que os sujamos! Somos nós mesmos que Vos traímos sempre, depois de todas as nossas grandes palavras, os nossos grandes gestos. Tende piedade da vossa Igreja: também dentro dela, Adão continua caindo. Com a nossa queda, deitamo-Vos ao chão, e Satanás a rir porque espera que não mais conseguireis levantar-Vos daquela queda; espera que Vós, tendo sido arrastado na queda da vossa Igreja, ficareis por terra derrotado. Mas, Vós erguer-Vos-eis. Vós levantastes-Vos, ressuscitastes e podeis levantar-nos também a nós. Salvai e santificai a vossa Igreja. Salvai e santificai a todos nós.

Abençoada e louvada seja a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo e as dores de sua Santíssima Mãe aos pés da Cruz. Assim seja!

Rezar: Pai Nosso, Ave-Maria e Glória.


Décima Estação
Jesus é despojado das suas vestes


Do evangelho segundo São Mateus 27, 33-36

33 Quando chegaram ao lugar chamado Gólgota, que quer dizer, lugar da Caveira,
34 deram-lhe a beber vinho misturado com fel; mas ele, provando-o, não quis beber.
35 Então, depois de o crucificarem, repartiram as vestes dele, lançando sortes, [para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta: Repartiram entre si as minhas vestes, e sobre a minha túnica deitaram sortes.]
36 E, sentados, ali o guardavam.

Meditação

Jesus é despojado das suas vestes. A roupa confere ao homem a sua posição social; dá-lhe o seu lugar na sociedade, fá-lo sentir alguém. Ser despojado em público significa que Jesus já não é ninguém, nada mais é que um marginalizado, desprezado por todos. O momento do despojamento recorda-nos também a expulsão do paraíso: ficou sem o esplendor de Deus o homem, que agora está, ali, nu e exposto, desnudado e envergonha-se. Deste modo, Jesus assume mais uma vez a situação do homem caído. Jesus despojado recorda-nos o fato de que todos nós perdemos a "primeira veste", isto é, o esplendor de Deus. Junto da cruz, os soldados lançam sortes para repartirem entre si os seus míseros pertences, as suas vestes.

Os evangelistas narram isto com palavras tiradas do Salmo 22, 19 e assim afirmam-nos o mesmo que Jesus há-de dizer aos discípulos de Emaús: tudo aconteceu "conforme as Escrituras". Não se trata aqui de pura coincidência, tudo o que acontece está contido na Palavra de Deus e assente no seu desígnio divino. O Senhor experimenta todos os estádios e degraus da perdição dos homens, e cada um destes degraus é, com toda a sua amargura, um passo da redenção: é precisamente assim que Ele traz de volta para casa a ovelha perdida. Recordemos ainda que, segundo diz Saõ João, o objeto do sorteio era a túnica de Jesus, a qual, "toda tecida de alto a baixo, não tinha costura" (Jo 19, 23). Podemos considerar isto como uma alusão à veste do sumo sacerdote, que era "tecida como um todo", sem costura (Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, III, 161). Ele, o Crucificado, é realmente o verdadeiro sumo sacerdote.

Oração

Senhor Jesus, fostes despojado das vossas vestes, exposto à desonra, expulso da sociedade. Assumistes sobre Vós a desonra de Adão, sanando-a. Assumistes os sofrimentos e as necessidades dos pobres, daqueles que são expulsos do mundo. Deste modo é que realizais a palavra dos profetas. É precisamente assim que dais significado àquilo que não tem significado. Assim mesmo nos dais a conhecer que nas mãos do vosso Pai estais Vós, nós e o mundo.  Concedei-nos um respeito profundo pelo homem em todas as fases da sua existência e em todas as situações onde o encontrarmos. Dai-nos a veste luminosa da vossa graça.

Abençoada e louvada seja a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo e as dores de sua Santíssima Mãe aos pés da Cruz. Assim seja!

Rezar: Pai Nosso, Ave-Maria e Glória.


Décima Primeira Estação
Jesus é pregado na Cruz


Do evangelho segundo São Mateus 27, 37-42
37 Puseram-lhe por cima da cabeça a sua acusação escrita: ESTE É JESUS, O REI DOS JUDEUS.
38 Então foram crucificados com ele dois salteadores, um à direita, e outro à esquerda.
39 E os que iam passando blasfemavam dele, meneando a cabeça
40 e dizendo: Tu, que destróis o santuário e em três dias o reedificas, salva-te a ti mesmo; se és Filho de Deus, desce da cruz.
41 De igual modo também os principais sacerdotes, com os escribas e anciãos, escarnecendo, diziam:
42 A outros salvou; a si mesmo não pode salvar. Rei de Israel é ele; desça agora da cruz, e creremos nele

Meditação

Jesus é pregado na cruz. O sudário de Turim permite formar uma idéia da crueldade incrível deste processo. Jesus não toma a bebida anestesiante que Lhe fora oferecida: conscientemente assume todo o sofrimento da crucifixão. Todo o seu corpo é martirizado; cumpriram-se as palavras do Salmo: "Eu, porém, sou um verme e não um homem, o opróbrio dos homens e a abjeção da plebe" (Sal 22/21, 7). "Como um homem (…) diante do qual se tapa o rosto, menosprezado e desestimado. Na verdade Ele tomou sobre Si as nossas doenças, carregou as nossas dores" (Is 53, 3-4). Detenhamo-nos diante desta imagem de sofrimento, diante do Filho de Deus sofredor. Olhemos para Ele nos momentos de presunção e de prazer, para aprendermos a respeitar os limites e a ver a superficialidade de todos os bens puramente materiais. Olhemos para Ele nos momentos de calamidade e de angústia, para reconhecermos que precisamente assim estamos perto de Deus. Procuremos reconhecer o seu rosto naqueles que tendemos a desprezar. Diante do Senhor condenado, que não quer usar o seu poder para descer da cruz, mas antes suportou o sofrimentos da cruz até ao fim, pode assomar ainda outro pensamento. Inácio de Antioquia, ele mesmo preso com cadeias pela sua fé no Senhor, elogiou os cristãos de Esmirna pela sua fé inabalável: afirma que estavam, por assim dizer, pregados com a carne e o sangue à cruz do Senhor Jesus Cristo (1, 1). Deixemo-nos pregar a Ele, sem ceder a qualquer tentação de nos separarmos nem ceder às zombarias que pretendem levar-nos a fazê-lo.

Oração

Senhor Jesus Cristo, fizestes-Vos pregar na cruz, aceitando a crueldade terrível deste tormento, a destruição do vosso corpo e da vossa dignidade. Fizestes-Vos pregar, sofrestes sem evasões nem descontos. Ajudai-nos a não fugir perante o que somos chamados a realizar. Ajudai-nos a fazermo-nos ligar estreitamente a Vós. Ajudai-nos a desmascarar a falsa liberdade que nos quer afastar de Vós. Ajudai-nos a aceitar a vossa liberdade «ligada» e a encontrar nesta estreita ligação convosco a verdadeira liberdade.

Abençoada e louvada seja a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo e as dores de sua Santíssima Mãe aos pés da Cruz. Assim seja!

Rezar: Pai Nosso, Ave-Maria e Glória.


Décima Segunda Estação
Jesus morre na Cruz


Do evangelho segundo São Mateus 27, 45-50.54

45 E, desde a hora sexta, houve trevas sobre toda a terra, até a hora nona.
46 Cerca da hora nona, bradou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactani; isto é, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?
47 Alguns dos que ali estavam, ouvindo isso, diziam: Ele chama por Elias.
48 E logo correu um deles, tomou uma esponja, ensopou-a em vinagre e, pondo-a numa cana, dava-lhe de beber.
49 Os outros, porém, disseram: Deixa, vejamos se Elias vem salvá-lo.
50 De novo bradou Jesus com grande voz, e entregou o espírito.

54 ora, o centurião e os que com ele guardavam Jesus, vendo o terremoto e as coisas que aconteciam, tiveram grande temor, e disseram: Verdadeiramente este era filho de Deus.

Meditação

No cimo da cruz de Jesus - nas duas línguas do mundo de então, o grego e o latim, e na língua do povo eleito, o hebraico - está escrito quem é: o Rei dos Judeus, o Filho prometido a David. Pilatos, o juiz injusto, tornou-se profeta sem querer. Perante a opinião pública mundial é proclamada a realeza de Jesus. O próprio Jesus não tinha aceitado o título de Messias, enquanto poderia induzir a uma idéia errada, humana, de poder e de salvação. Mas, agora, o título pode estar escrito ali publicamente sobre o Crucificado. Ele, assim, é verdadeiramente o rei do mundo. Agora foi verdadeiramente "elevado". Na sua descida, Ele subiu. Agora cumpriu radicalmente o mandamento do amor, cumpriu a oferta de Si próprio, e precisamente deste modo Ele é agora a manifestação do verdadeiro Deus, daquele Deus que é amor. Agora sabemos quem é Deus. Agora sabemos como é a verdadeira realeza. Jesus reza o Salmo 22, que começa por estas palavras: "Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?" (Sal 22/21, 2). Assume em Si mesmo todo o Israel, a humanidade inteira, que sofre o drama da escuridão de Deus, e faz com que Deus Se manifeste precisamente onde parece estar definitivamente derrotado e ausente. A cruz de Cristo é um acontecimento cósmico. O mundo fica na escuridão, quando o Filho de Deus sofre a morte. A terra treme. E junto da cruz tem início a Igreja dos pagãos. O centurião romano reconhece, compreende que Jesus é o Filho de Deus. Da cruz, Ele triunfa sem cessar.

Oração

Senhor Jesus Cristo, na hora da vossa morte, o sol escureceu. Sois pregado na cruz sem cessar. Precisamente nesta hora da história, vivemos na escuridão de Deus. Pelo sofrimento sem medida e pela maldade dos homens o rosto de Deus, o vosso rosto, aparece obscurecido, irreconhecível. Mas foi precisamente na cruz que Vos fizestes reconhecer. Precisamente enquanto sois Aquele que sofre e que ama, sois aquele que é elevado. Foi precisamente lá que triunfastes. Ajudai-nos a reconhecer, nesta hora de escuridão e confusão, o vosso rosto. Ajudai-nos a crer em Vós e a seguir-Vos precisamente na hora da escuridão e da privação. Mostrai-Vos novamente ao mundo nesta hora. Fazei com que a vossa salvação se manifeste.

Abençoada e louvada seja a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo e as dores de sua Santíssima Mãe aos pés da Cruz. Assim seja!

Rezar: Pai Nosso, Ave-Maria e Glória.


Décima Terceira Estação
Jesus é descido da Cruz e entregue a sua Mãe


Do evangelho segundo São Mateus 27, 54-55

54 ora, o centurião e os que com ele guardavam Jesus, vendo o terremoto e as coisas que aconteciam, tiveram grande temor, e disseram: Verdadeiramente este era filho de Deus.
55 Também estavam ali, olhando de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galiléia para o ouvir...

Meditação

Jesus morreu, o seu coração é trespassado pela lança do soldado romano e dele brotam sangue e água: misteriosa imagem do rio dos sacramentos, do Batismo e da Eucaristia, dos quais, em virtude do coração trespassado do Senhor, renasce incessantemente a Igreja. E não Lhe são quebradas as pernas, como aos outros dois crucificados; deste modo Ele aparece como o verdadeiro cordeiro pascal, ao qual nenhum osso deve ser quebrado (cf. Ex 12, 46). E agora que tudo suportou, vemos que Ele, apesar de toda a confusão dos corações, apesar do poder do ódio e da cobardia, não ficou sozinho. Os fiéis existem. Junto da cruz, estavam Maria, sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria, Maria de Madalena e o discípulo que Ele amava. Agora chega também um homem rico, José de Arimateia: o rico encontra modo de passar pela buraco de uma agulha, porque Deus lhe dá a graça. Sepulta Jesus no seu túmulo ainda intacto, num jardim: o cemitério onde fica sepultado Jesus transforma-se em jardim, no jardim donde fora expulso Adão quando se separara da plenitude da vida, do seu Criador. O túmulo no jardim faz-nos saber que o domínio da morte está para terminar. E chega também um membro do Sinédrio, Nicodemos, a quem Jesus tinha anunciado o mistério do renascimento pela água e pelo Espírito. Até no Sinédrio, que tinha decidido a sua morte, há alguém que acredita, que conhece e reconhece Jesus após a sua morte. Sobre a hora do grande luto, da grande escuridão e do desespero, aparece misteriosamente a luz da esperança. O Deus escondido permanece em todo ocaso, o Deus vivo e próximo. O Senhor morto permanece em todo ocaso, o Senhor e nosso Salvador, mesmo na noite da morte. A Igreja de Jesus Cristo, a sua nova família, começa a formar-se.

Oração

Senhor, descestes à escuridão da morte. Mas o vosso corpo é recolhido por mãos bondosas e envolvido num cândido lençol (Mt 27, 59). A fé não está completamente morta, não se pôs totalmente o sol. Quantas vezes parece que Vós estais a dormir. Como é fácil a nós, homens, afastar-nos dizendo para nós mesmos:  Deus morreu. Fazei com que, na hora da escuridão, reconheçamos que em todo ocaso Vós estais lá. Não nos deixeis sozinhos quando tendemos a desanimar. Ajudai-nos a não deixar-Vos sozinho. Dai-nos uma fidelidade que resista no desânimo e um amor que Vos acolha no momento mais extremo da vossa necessidade, como a vossa Mãe, que Vos abraçou de novo no seu regaço. Ajudai-nos, ajudai os pobres e os ricos, os simples e os sábios, a ver através dos seus medos e preconceitos e a oferecer-Vos a nossa capacidade, o nosso coração, o nosso tempo, preparando assim o jardim no qual possa dar-se a ressurreição.

Abençoada e louvada seja a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo e as dores de sua Santíssima Mãe aos pés da Cruz. Assim seja!

Rezar: Pai Nosso, Ave-Maria e Glória.


Décima Quarta Estação
Jesus é sepultado


Do evangelho segundo São Mateus 27, 59-61

59 E José, tomando o corpo, envolveu-o num pano limpo, de linho,
60 e depositou-o no seu sepulcro novo, que havia aberto em rocha; e, rodando uma grande pedra para a porta do sepulcro, retirou-se.
61 Mas achavam-se ali Maria Madalena e a outra Maria, sentadas defronte do sepulcro.

Meditação

Jesus, desonrado e ultrajado, é deposto com todas as honras num túmulo novo. Nicodemos traz uma mistura de mirra e aloés de cem libras destinada a emanar um perfume precioso. Agora na oferta do Filho revela-se, como sucedera já na unção de Betânia, um excesso que nos recorda o amor generoso de Deus, a "superabundância" do seu amor. Deus faz generosamente oferta de Si próprio. Se a medida de Deus é superabundante, também para nós nada deveria ser demasiado para Deus. Foi o que o próprio Jesus nos ensinou no discurso da Montanha (Mt 5, 20). Mas é preciso lembrar também as palavras de S. Paulo a propósito de Deus, que "por nosso meio faz sentir em todos os lugares o odor do seu conhecimento. Somos, para Deus, o bom odor de Cristo" (2 Cor 2, 14-15). Na putrefação das ideologias, a nossa fé deveria ser de novo o perfume que reconduz às pegadas da vida. No momento da deposição, começa a realizar-se a palavra de Jesus: "Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto" (Jo 12, 24). Jesus é o grão de trigo que morre. Do grão de trigo morto começa a grande multiplicação do pão que dura até ao fim do mundo: Ele é o pão de vida capaz de saciar em medida superabundante a humanidade inteira e dar-lhe o alimento vital: o Verbo eterno de Deus, que Se fez carne e também pão, para nós, através da cruz e da ressurreição. Sobre a sepultura de Jesus resplandece o mistério da Eucaristia.

Oração

Senhor Jesus Cristo, na sepultura fizestes vossa a morte do grão de trigo, tornastes-Vos o grão de trigo morto que produz fruto ao longo de todos os tempos até à eternidade. Do sepulcro brilha em cada tempo a promessa do grão de trigo, do qual provém o verdadeiro maná, o pão de vida em que Vós mesmo Vos ofereceis a nós. A Palavra eterna, através da encarnação e da morte, tornou-Se a Palavra próxima: Colocais-Vos nas nossas mãos e nos nossos corações para que a vossa Palavra cresça em nós e produza fruto. Dais-Vos a Vós próprio através da morte do grão de trigo, para que nós tenhamos a coragem de perder a nossa vida para encontrá-la; para que também nós nos fiemos da promessa do grão de trigo. Ajudai-nos a amar cada vez mais o vosso mistério eucarístico e a venerá-lo - a viver verdadeiramente de Vós, Pão do Céu. Ajudai-nos a tornarmo-nos o vosso "odor", a tornar palpáveis os vestígios da vossa vida neste mundo. Do mesmo modo que o grão de trigo se eleva da terra como caule e espiga, assim também Vós não podeis ficar no sepulcro: o sepulcro está vazio porque Ele - o Pai - não Vos «abandonou na habitação dos mortos nem permitiu que a vossa carne conhecesse a decomposição» (cf. At 2, 31; Sal 16, 10 LXX). Não, Vós não experimentastes a corrupção. Ressuscitastes e destes espaço à carne transformada no coração de Deus. Fazei com que possamos alegrar-nos com esta esperança e possamos levá-la jubilosamente pelo mundo; fazei que nos tornemos testemunhas da vossa ressurreição.

Abençoada e louvada seja a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo e as dores de sua Santíssima Mãe aos pés da Cruz. Assim seja!

Rezar: Pai Nosso, Ave-Maria e Glória.

 

Sexta-Feira Santa do Ano 2005
Meditações e Orações do Cardeal Joseph Ratzinger


 

Vivamos cada dia da Semana Santa

 
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Para viver a Páscoa

Quando na Vigília Pascal, o sacerdote marca no Círio Pascal o ano em curso, impõem as cinco chagas de Cristo e o acende com o fogo abençoado, entramos uma vez mais no mistério mais profundo de nossa fé. Em nosso mundo, no qual convivem a vida e a morte, Cristo glorioso, morto e ressuscitado, centro da fé, da vida e da liturgia, é a certeza da vitória da Luz sobre as trevas. Isso é o que significa quando a luz do Círio Pascal vai se difundindo pela assembleia que celebra e, desde ela, por todas as realidades que precisam de ressurreição.

Ver para crer

A celebração da Ressurreição não teria força se não fôssemos conscientes da morte. Sem “ver” as mortes que nos rodeiam, não poderíamos “crer” para valer em Cristo vitorioso sobre a morte e o pecado. Nossa fé não faria sentido. Por isso a Quaresma, tempo de preparação pessoal e comunitária para a Páscoa, nos permite tomar consciência das forças da morte de nossa sociedade e de nossa vida pessoal em quarenta dias de olhar atento e crente no coração e ao nosso redor.

Ver os sinais da morte que há em nosso próprio interior e no mundo não é pessimismo, senão um esforço para olhar tudo com os olhos de Deus, que está atento ao clamor dos que sofrem e o que destrói seu projeto de amor e salvação. Ele é um Deus que antes de qualquer coisa quer nossa plenitude, a superação da dor e do pecado, e a felicidade de todos seus filhos.

Converter-nos ao Evangelho

O olhar que sabe descobrir os sinais da morte é capaz de almejar a vida e celebrar a Ressurreição. É capaz de converter-se. Na Quarta-feira de Cinzas, quando iniciemos o itinerário da quaresma na preparação para a Páscoa, impondo as cinzas, como sinal do caminho de conversão. Uma das fórmulas que acompanha o gesto diz: “Arrependei-vos, e crede no evangelho”. São palavras de Jesus tomadas de Marcos 1, 15, quando inicia sua pregação, proclamando a proximidade do Reino e a necessidade de mudar de vida. A conversão, esforço permanente de todo crente, é aprender a viver segundo os critérios de Deus, revelados em Jesus e em seu Evangelho.

A Quaresma é uma nova oportunidade que o Senhor presenteia a sua Igreja para mudar de vida, de atitude, e de mente. Mas isso só é possível se soubermos “ver” dentro de nós mesmos e para o que nos rodeia: família, trabalho, paróquia, cidade, país e mundo. Ali descobriremos os sinais da cruz e os sinais da luz. Descobriremos que Cristo segue morrendo e ressuscitando, que a Paixão, e que a Ressurreição ilumina toda a história desde a singeleza de pequenos sinais de vida.

Sinais da Cruz

A Quaresma e a Páscoa convidam-nos a olhar com os olhos de Deus, desde a Cruz de Jesus Cristo. Eles nos permitirão ver, à sombra das cifras otimistas e das projeções promissoras, sem as negar, mas alargando o ângulo de visão, aos pobres e aos tristes que estão à margem do modelo bem-sucedido. E também a tantos outros sofredores a quem possa não lhes faltar o material, mas sim o amor. Não são poucos, e embora fossem dois ou três em milhões, são nossos irmãos. E são os prediletos do Senhor.

Se não vemos a nossos irmãos que não têm acesso à educação e aos bens culturais; se não somos conscientes da crescente desigualdade que divide a nosso país em grupos fechados e sem comunicação; se não reagimos ante a avareza e a falta de solidariedade, ante a dificuldade de valorizar ao outro; se não pomos fim ao individualismo consumista, à soberba de nos achar melhores que outros, à desconfiança mútua em todos os âmbitos, desde a paróquia até a política; se não condenamos a imoralidade que aparece nos casos de corrupção, de pedofilia e de tantos outros; se não reconhecemos nossas próprias cumplicidades no descuido da natureza e dos recursos que são de todos, na contaminação de nosso ar, de nossos rios, mares, cidades e campos; se não “vemos” tudo isto e não pomos nosso coração em atitude de conversão, não poderemos celebrar realmente a Páscoa, a irrupção da vida, e nos teremos ficado em uma escuridão que o Círio Pascal não terá força para iluminar.

Todos estes sinais de morte nos permitem olhar o interior de nosso próprio coração e nossas comunidades, e descobrir se estamos abertos aos demais ou encerrados em nós mesmos, se somos manipulados pelos modelos culturais dominantes ou se lutamos contra eles. A conversão parte pela consciência dos sinais de morte pessoal e social.

Sinais da Luz

Para os cristãos não há cruz sem Ressurreição, não há morte sem vida. Por isso a Páscoa, que não é um mero fato do passado de Jesus de Nazaré, senão um fato do presente de todos nós, que resplandece em sinais luminosos, embora pequenos. Eles nos falam de um Deus vivo e salvador, e interpelam nossa coerência com o Evangelho ao nos fazer construtores de um mundo novo, segundo os critérios de Deus. Basta elevar um pouco o Círio Pascal, de maneira que ilumine os recantos que normalmente não apreciamos e que não costumam fazer notícia, e ali veremos voluntários nas mais diversas tarefas solidárias, jovens e adultos generosos que presenteiam seu tempo livre para construir tetos e casas, para atender crianças, doentes e abandonados, para dar alimento, calor e um momento de amizade aos habitantes das veredas, pontes e ruas; veremos muitos homens e mulheres que buscam a Deus e se abrem à transcendência em um mundo escravo do material e do imediato; veremos o espontâneo da generosidade de milhares de pessoas ante as emergências desastrosas; veremos tantos pais que se esforçam até o limite para que seus filhos melhorem suas possibilidades e sua qualidade de vida; veremos a capacidade festiva inesgotável, ainda de quem com frequência têm pouco motivo para festejar; veremos o lado luminoso da globalização, a consciência de ser uma grande família de irmãos destinada à fraternidade e à paz. Veremos isto e tantos outros sinais de vida!

Todos eles, presentes já em nosso mundo, nos levam a crer em um Deus que enviou a seu Filho a nos dar vida em abundância. Ajudam-nos a celebrar a Páscoa com sentido, crendo na força da Ressurreição porque somos conscientes da força da morte. A luz de Cristo, que nos ilumina na noite de Páscoa, realmente vence as trevas, porque a história está agora iluminada pela vitória de Cristo ressuscitado.

Pão para o caminho

O itinerário da Quaresma, caminho de quarenta dias, percorridos ajudados pelo alimento das práticas tradicionais deste tempo litúrgico: a esmola, a oração e o jejum (Mateus 6, 2.5.16). O jejum, que é sobriedade de vida e privação do alimento em alguns momentos para significar com isso que o alimento verdadeiro não é o material, senão a Palavra de Deus, que nos ajuda a centrar a vida no essencial; a esmola, que é solidariedade com o pobre e privação do supérfluo para ir ao auxílio de quem não tem o necessário para viver, nos abre aos irmãos e nos ajuda a lutar contra o individualismo e o egoísmo; e a oração que é intimidade e diálogo com Deus, que nutre nossa fé e nos abre às necessidades dos pobres e sofredores.

A escuta atenta da Palavra, pão quotidiano do crente, é neste tempo de Quaresma acolher o mesmo Jesus que nos diz: “Convertam-se e creiam no Evangelho. O Círio Pascal será a celebração de um esforço renovado por cumprir essa Palavra.

 

A Semana Santa celebra-se na comunidade

A Semana Santa celebra-se na comunidade. A Semana Santa para os cristãos se reveste de um sentido todo especial e é um marco importante no seguimento de Jesus Cristo.

Neste tempo, muitos procuram sair das cidades e abandonar as suas comunidades para fazer alguns dias de descanso na praia ou no campo.

Essa é uma prática imprópria e que em nada condiz com o sentido espiritual da pastoral e da liturgia que se celebra. Isso acarreta uma perda para a formação cristã e priva as pessoas da oportunidade de crescerem espiritualmente e se integrarem mais profundamente na vivência do Mistério Pascal de Cristo. O lugar para passar a Semana Santa é a comunidade, participando de suas celebrações.

Tempo de Retiro

A Semana Santa é tempo privilegiado para a comunidade e os cristãos, no silêncio e na oração, fazerem o encontro com o Senhor, conviverem mais intensamente com Ele, avaliarem as suas práticas em busca da vida plena.

É um tempo propício para acolher a misericórdia de Deus Pai, revelada na vida de Jesus, o Filho amado. Tempo para ler e escutar a Palavra de Deus e colocar a vida em dia diante do Senhor e dos irmãos.

TEMPO DE AÇÃO DE GRAÇAS PARA BENDIZER O SENHOR PELA SALVAÇÃO QUE NOS OFERECE.

Tempo de renovação

Nos dias da Semana Santa a graça e a bênção de Deus são mais palpáveis e mais intensamente sentidas na comunidade. A força pascal do Cristo invade o tempo, atinge o coração, ilumina as mentes, questiona as contradições humanas e provoca o novo. Transforma o ser humano e o introduz numa nova vida, despertando o gosto pelas coisas de Deus, alimentando o prazer de estar com Deus, a serviço do seu Reino.

PARTICIPAR DAS CELEBRAÇÕES NA SEMANA SANTA SIGNIFICA ENTRAR NA FORÇA DA PÁSCOA DO CRISTO QUE TUDO RENOVA E COMPLETA COM SEU ESPÍRITO.

Tempo de cultivar o novo

Durante oito dias, celebrando o mistério da morte e ressurreição do Senhor, aprendemos em que consiste a liturgia do Filho de Deus que disse: Eu vim para servir e não para ser servido (Mateus 20,28) e que afirmou: ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos (João 15,13). Esse jeito de Jesus entender a vida como serviço, nós lembramos e celebramos na liturgia. E pela liturgia, o Espírito Santo imprime em nossas vidas esse jeito de Deus amar e servir. Fazer memória de Jesus na liturgia nada mais é do que permitir que a novidade do evangelho, essa liturgia de Jesus, a sua solidariedade humano-divina se instaure em nossas vidas e nos torne pessoas novas e santas, provocadoras do Projeto de vida em abundância para todos (cf. João 10,10).

NAS CELEBRAÇÕES DA SEMANA SANTA SE DESCOBRE E SE CULTIVA A NOVIDADE DO REINO DE DEUS.

A Cruz é o sinal que marca

“O coração tem razões que a razão não compreende”: expressão da sabedoria popular que se usa para definir atitudes humanas indefiníveis. A mesma expressão há de valer, e com maior razão, para aceitarmos as “loucuras de amor” do coração de Deus no mistério da Cruz. Por isso mesmo que é mistério, a inteligência entende menos a Cruz que o coração. São “pensamentos do coração”.

A Cruz simboliza as duas direções que se cruzam do mandamento do amor: o amor a Deus na direção vertical e o amor ao próximo na direção horizontal. Pela primeira Carta do Apóstolo João (1Jo 4, 10), sabemos que antes de mandar amar, Deus nos amou primeiro. Em sua encíclica "Deus é amor", o Papa Bento XVI observa: "Agora o amor já não é apenas um mandamento mas é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro" (nº 10). Antes de mandar amá-lo e amar o próximo, Ele ama.

A Cruz é o sinal que marca, envolve e acompanha a vida do cristão. Ela é sempre a forte lembrança da maior prova do amor de Deus pela humanidade: a entrega do seu Filho único pela vida do mundo. A Eucaristia é mais do que simples lembrança do ato de amor. É a sua presença duradoura, fonte e ápice da vida cristã, conforme a define o Concílio Vaticano II. A Cruz só fala do amor. Olhá-la e não ver o que ela significa de amor é não ver sentido nela. Como os judeus, só vê nela motivo de escândalo; como os pagãos, só vê loucura, conforme testemunha São Paulo na primeira Carta aos Coríntios: "Pois o que é dito loucura de Deus é mais sábio do que os homens e o que é dito fraqueza de Deus é mais forte do que os homens" (1Cor 1, 25).

Olhar a Cruz e não ver que foi nela que Jesus Cristo, o amor encarnado de Deus, deu sua vida por nós é não ver o que viu o oficial romano que estava bem na frente da Cruz na hora em que Jesus expirou: "De fato esse homem era mesmo o Filho de Deus" (Mc 15, 39). Olhar a Cruz e não ver que nela se travou o verdadeiro duelo entre vida e morte com a vitória da vida é estar desamparado na fé segundo declaração do Apóstolo Paulo: "Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé".

Eis a mais bela lição da Cruz na qual Jesus Cristo ofereceu por nós sua vida: a morte por amor não é negação da vida. É passagem, é páscoa. É assim também toda morte unida à dele: caminho para a ressurreição. Cito mais uma vez Bento XVI na encíclica "Deus é Amor": "Eis como Jesus descreve seu caminho pessoal que o conduz através da Cruz à ressurreição: o caminho do grão de trigo que morre e dá muito fruto. Partindo do centro do seu sacrifício pessoal e do amor que aí alcança a sua plenitude, Ele, com tais palavras, descreve a essência do amor e da existência humana em geral" (nº 8).

Escondido pelo manto da noite para não ser reconhecido pelos companheiros do Sinédrio e, ao mesmo tempo, atraído pela Luz que desfaz as trevas, Nicodemos vai ao encontro de Jesus porque sente que Deus está com Ele mas ainda não vê Deus nele. E Jesus revela-lhe: "É necessário que o Filho do homem seja levantado para que todos que nele crerem tenham a vida eterna" (Jo 3, 14). Levantado na Cruz ele esteve para que todos vejam nele quanto Deus amou o mundo entregando o seu Filho unigênito; levantado na Cruz ele implorou perdão ao Pai pelos seus algozes que não "sabem o que fazem", jeito próprio da misericórdia divina de perdoar; levantado na Cruz ele deu cumprimento ao oráculo do Senhor Javé ao profeta Ezequiel: "Deus não quer a morte do pecado, e sim que ele se converta e viva" (Ez 18, 23-32).

Na Sexta-feira Santa, a liturgia da Igreja celebra o mistério da Cruz fazendo-nos sentir o significado e o alcance dos sofrimentos de Jesus como Sumo Sacerdote da nova Aliança: "Embora sendo Filho de Deus, aprendeu a ser obediente através de seus sofrimentos. E tornou-se a fonte de salvação eterna para todos que lhe obedecem" (Heb.5, 8-9). A sua experiência de "Servo Sofredor" era inseparável da sua experiência íntima com Deus.

O momento comovente dessa celebração é a "Adoração da Cruz", exposta de modo encenado e com a participação dos fiéis. E, a cada vez que a Cruz vai sendo desvelada, canta-se: "Eis o lenho da Cruz do qual pendeu a salvação do mundo. Vinde adoremos!". A Cruz não é um lenho que significa morte mas vida. Hoje celebramos a morte do Senhor na Cruz; hoje contemplamos sua cabeça coroada de espinhos, suas chagas expostas e o lado do seu coração rasgado pela lança; hoje beijamos seu Corpo pendente na Cruz; hoje consolamos sua mãe dolorosa que nos foi dada por Ele mesmo como nossa mãe.

A Igreja também canta nesse dia: "Salve, ó Cruz, nossa esperança!" Porque, no primeiro dia da semana, manhã da Páscoa da nova Aliança, como Ele mesmo havia predito, "o Filho do homem sofrerá muito, será entregue à morte, mas ao terceiro dia ressurgirá" (Mt 16, 21). Ele "retomará a vida que livremente ofereceu ao Pai" para caminhar vitorioso no meio de nós: "Eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo" (Mt 28, 20).

Se me perguntarem: por que Jesus Cristo quis morrer na Cruz? Responderei simplesmente: o coração de Deus tem razões que a inteligência humana não compreende.


Fonte: CNBB


 

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