|
III Domingo da Quaresma
Arrependei-vos, diz o Senhor;
está próximo o reino dos Céus.
07
de março de 2010
|
| Introdução |

|
As leituras do III Domingo da Quaresma nos leva, mais uma vez, a repensar a nossa existência. O tema fundamental da liturgia de hoje é a “conversão”. Com este tema enlaça-se o da “libertação”: o Deus libertador propõe-nos a transformação em homens novos, livres da escravidão do egoísmo e do pecado, para que em nós se manifeste a vida em plenitude, a vida de Deus.
O Evangelho contém um convite a uma transformação radical da existência, a uma mudança de mentalidade, a um re-centrar a vida de forma que Deus e os seus valores passem a ser a nossa prioridade fundamental. Se isso não acontecer, diz Jesus, a nossa vida será cada vez mais controlada pelo egoísmo que leva à morte.
A segunda leitura avisa-nos que o cumprimento de ritos externos e vazios não é importante; o que é importante é a adesão verdadeira a Deus, a vontade de aceitar a sua proposta de salvação e de viver com Ele numa comunhão íntima.
A primeira leitura fala-nos do Deus que não suporta as injustiças e as arbitrariedades e que está sempre presente naqueles que lutam pela libertação. É esse Deus libertador que exige de nós uma luta permanente contra tudo aquilo que nos escraviza e que impede a manifestação da vida plena. |
|
| Leituras |
| Primeira
Leitura -
Leitura do Livro do Êxodo (Êx 3,1-8a.13-15) |
Naqueles dias, 1Moisés apascentava o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Madiã. Levou, um dia, o rebanho deserto adentro e chegou ao monte de Deus, o Horeb.
2Apareceu-lhe o anjo do Senhor numa chama de fogo, do meio de uma sarça. Moisés notou que a sarça estava em chamas, mas não se consumia, e disse consigo: 3“Vou aproximar-me desta visão extraordinária, para ver por que a sarça não se consome”.
4O Senhor viu que Moisés se aproximava para observar e chamou-o do meio da sarça, dizendo: “Moisés! Moisés!” Ele respondeu: “Aqui estou”.
5E Deus disse: “Não te aproximes! Tira as sandálias dos pés, porque o lugar onde estás é uma terra santa”.
6E acrescentou: “Eu sou o Deus de teus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó”.
Moisés cobriu o rosto, pois temia olhar para Deus.
7E o Senhor lhe disse: “Eu vi a aflição do meu povo que está no Egito e ouvi o seu clamor por causa da dureza de seus opressores. Sim, conheço os seus sofrimentos. 8aDesci para libertá-los das mãos dos egípcios, e fazê-los sair daquele país para uma terra boa e espaçosa, uma terra onde corre leite e mel”.
13Moisés disse a Deus: “Sim, eu irei aos filhos de Israel e lhes direi: ‘O Deus de vossos pais enviou-me a vós’. Mas, se eles perguntarem: ‘Qual é o seu nome?’, o que lhes devo responder?”
14Deus disse a Moisés: “Eu Sou aquele que sou”. E acrescentou: “Assim responderás aos filhos de Israel: ‘Eu sou’ enviou-me a vós’”.
15E Deus disse ainda a Moisés: “Assim dirás aos filhos de Israel: ‘O Senhor, o Deus de vossos Pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó enviou-me a vós’. Este é o meu nome para sempre, e assim serei lembrado de geração em geração”.
Palavra do Senhor.
|
|
| Salmo
Responsorial - Salmo
102 |
| O Senhor é bondoso e compassivo! |
Bendize, ó minha alma, ao Senhor,
e todo o meu ser, seu santo nome!
Bendize, ó minha alma, ao Senhor,
não te esqueças de nenhum de seus favores!
O Senhor é minha luz e salvação!
Pois ele te perdoa toda culpa,
e cura toda a tua enfermidade;
da sepultura ele salva a tua vida
e te cerca de carinho e compaixão.
O Senhor é minha luz e salvação!
O Senhor é indulgente, é favorável,
é paciente, é bondoso e compassivo.
Quanto os céus por sobre a terra se elevam,
tanto é grande o seu amor aos que o temem.
O Senhor é minha luz e salvação!
|
|
| Segunda
Leitura -
Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios (1Cor 10,1-6.10.12) |
1Irmãos, não quero que ignoreis o seguinte: Os nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem e todos passaram pelo mar; 2todos foram batizados em Moisés, sob a nuvem e pelo mar; 3e todos comeram do mesmo alimento espiritual, 4e todos beberam da mesma bebida espiritual; de fato, bebiam de um rochedo espiritual que os acompanhava - e esse rochedo era Cristo -.
5No entanto, a maior parte deles desagradou a Deus, pois morreram e ficaram no deserto.
6Esses fatos aconteceram para serem exemplos para nós, a fim de que não desejemos coisas más, como fizeram aqueles no deserto. 10Não murmureis, como alguns deles murmuraram, e, por isso, foram mortos pelo anjo exterminador. 12Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair.
Palavra do Senhor.
|
|
| Proclamação
do Evangelho de Jesus Cristo, segundo Lucas (Lc 13,1-9) |
1Naquele tempo, vieram algumas pessoas trazendo notícias a Jesus a respeito dos galileus que Pilatos tinha matado, misturando seu sangue com o dos sacrifícios que ofereciam.
2Jesus lhes respondeu: “Vós pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem sofrido tal coisa? 3Eu vos digo que não. Mas se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo.
4E aqueles dezoito que morreram, quando a torre de Siloé caiu sobre eles? Pensais que eram mais culpados do que todos os outros moradores de Jerusalém? 5Eu vos digo que não. Mas, se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”.
6E Jesus contou esta parábola: “Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha.
Foi até ela procurar figos e não encontrou. 7Então disse ao vinhateiro: ‘Já faz três anos que venho procurando figos nesta figueira e nada encontro. Corta-a! Por que está ela inutilizando a terra?’
8Ele, porém, respondeu: ‘Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volta dela e colocar adubo. 9Pode ser que venha a dar fruto. Se não der, então tu a cortarás’”.
Palavra da Salvação.
|
|
| Comentário |
Livres porque Deus nos liberta |
Vão desculpar-me que comece recordando uma das tiras cômicas de Quino (Joaquín Salvador Lavado) e de sua personagem emblemática Mafalda. É uma das vezes em que Mafalda está contemplando o globo terrestre e sente um natural pessimismo. Tem presente tudo o que passa em nosso mundo: guerras, injustiças, opressão, doença. E muitas dessas coisas causadas pela mão do homem. De modo que olha para o céu como invocando a ira e o castigo de Deus. Mas em seguida arrepende-se e na última vinheta da tira sai seu pensamento em um balão: “É que temos um paciente!”.
Nessa tira Quino tem sabido recolher algo que é central no Evangelho e na Bíblia: a misericórdia e a paciência de Deus conosco não têm limite. Deus é assim pela singela razão de que somos suas criaturas e nos ama infinitamente e sem condições. Desde esta perspectiva deveríamos ler a primeira leitura e o Evangelho deste domingo.
Eu sou o que liberta
A primeira leitura nos aproxima aos primeiros momentos do relato da grande história do Êxodo. Deus dirige-se a Moisés. Identifica-se como o Deus de seus pais. Anuncia sua intervenção em favor de seu povo. Vai libertar-lhes da opressão dos egípcios, vai tirar-lhes daquela terra de opressão e injustiça para levá-los a uma terra de liberdade, que corre leite e mel. Deus define-se a si mesmo como “Eu Sou aquele que sou” e se conhece unicamente pela ação que vai executar: libertar a seu povo.
Dito com outras palavras, Deus é o que liberta. E liberta porque tem piedade dos que sofrem opressão e injustiça. Aí está a motivação profunda da ação de Deus. Não leva seu povo do Egito para ter seus próprios escravos. Não se trata de uma luta entre o faraó e Deus para determinar quem é o amo do povo. Deus quer a liberdade para seu povo. E assim tem passado a testemunha de geração em geração até nossos dias.
No Evangelho parece que Jesus pretende em primeiro destruir uma imagem falsa de Deus que se foi criando entre os judeus - e também entre nós atualmente -, que a doença, a morte, o sofrimento são castigo de Deus. Se assim fosse, Deus seria uma espécie de juiz terrível que iria repartindo castigos a torto e a direito a todos que não cumprisse à perfeição suas leis. Ante ele teria que estar cheios de temor e tremor porque sua presença suporia sempre uma ameaça para nossa vida.
Deixá-la um ano mais
Muito pelo contrário, a parábola que conta Jesus oferece a imagem oposta de Deus. Não é o juiz terrível sempre disposto a ditar sentença condenatória. A idéia central da parábola é que o vinhateiro intercede para conceder uma nova prorrogação, um novo prazo, à figueira. Sempre se pode fazer algo mais em seu favor, sempre se pode abonar mais e cavar mais. E esperar que chegue o tempo em que dê seu fruto.
Definitivamente, assim é Deus: cheio de misericórdia e paciência, amor incondicional para todos e a cada um de nós. Deus deseja nossa vida e que nos libertemos de tudo o que nos oprime e nos impede de viver com a dignidade de filhos e filhas de Deus. Deus fez-nos para que sejamos seus filhos e filhas. Deus criou-nos para ser livres. E quando vivemos na escravatura, Deus sofre e se rebela. Com mão forte e braço poderoso intervém em favor dos oprimidos e luta com eles por sua libertação. Esse é o Abbá de Jesus, esse é o Deus em quem cremos.
As leituras de hoje, no marco da Quaresma, ajudam-nos a seguir purificando nossa imagem de Deus. E a recordar-nos que nosso comportamento, nossas atitudes, se devem modelar sobre a mesma forma de ser de Deus. Aí é onde nos temos que converter. Para que nem nós sejamos escravos de ninguém nem de nada nem façamos escravos aos demais. Para que nos comprometamos a viver, nós e todos, como filhos e filhas de Deus.
(em espanhol) |
|
|
|
|