26/02/2010 - II Domingo da Quaresma
Fonte: Fernando Torres, cmf


II Domingo da Quaresma
No meio da nuvem luminosa, ouviu-se a voz do Pai:
"Este é o meu Filho muito amado:  escutai-O"

28 de fevereiro de 2010

Introdução
As leituras do II Domingo da Quaresma convidam-nos a refletir sobre a nossa transfiguração, a nossa conversão à vida nova de Deus; nesse sentido, são-nos apresentadas algumas pistas.

A primeira leitura apresenta-nos Abraão, o modelo do crente. Com Abraão, somos convidados a acreditar, isto é, a uma atitude de confiança total, de aceitação radical, de entrega plena aos desígnios desse Deus que não falha e é sempre fiel às promessas.

A segunda leitura convida-nos a renunciar a essa atitude de orgulho, de auto-suficiência e de triunfalismo, resultantes do cumprimento de ritos externos; a nossa transfiguração resulta de uma verdadeira conversão do coração, construída dia a dia sob o signo da cruz, isto é, do amor e da entrega da vida.

O Evangelho apresenta-nos Jesus, o Filho amado do Pai, cujo êxodo (a morte na cruz) concretiza a nossa libertação. O projeto libertador de Deus em Jesus não se realiza através de esquemas de poder e de triunfo, mas através da entrega da vida e do amor que se dá até à morte. É esse o caminho que nos conduz, a nós também, à transfiguração em Homens Novos.
Leituras
Primeira Leitura - Leitura do Livro do Gênesis (Gn 15,5-12.17-18)

Naqueles dias, 5o Senhor conduziu Abrão para fora e disse-lhe: “Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz!” E acrescentou: “Assim será a tua descendência”.
6Abrão teve fé no Senhor, que considerou isso como justiça. 7E lhe disse: “Eu sou o Senhor que te fez sair de Ur dos Caldeus, para te dar em possessão esta terra”.

8Abrão lhe perguntou: “Senhor Deus, como poderei saber que vou possuí-la?” 9E o Senhor lhe disse: “Traze-me uma novilha de três anos, uma cabra de três anos, um carneiro de três anos, além de uma rola e de uma pombinha”.

10Abrão trouxe tudo e dividiu os animais pelo meio, mas não as aves, colocando as respectivas partes uma frente à outra.

11Aves de rapina se precipitaram sobre os cadáveres, mas Abrão as enxotou. 12Quando o sol já ia se pondo, caiu um sono profundo sobre Abrão e ele foi tomado de grande e misterioso terror.

17Quando o sol se pôs e escureceu, apareceu um braseiro fumegante e uma tocha de fogo, que passaram por entre os animais divididos.

18Naquele dia, o Senhor fez aliança com Abrão, dizendo: “Aos teus descendentes darei esta terra, desde o rio do Egito até o grande rio, o Eufrates”.
Palavra do Senhor.

Salmo Responsorial - Salmo 26
O Senhor é minha luz e salvação!

O Senhor é minha luz e salvação;
de quem eu terei medo?
O Senhor é a proteção da minha vida;
perante quem eu tremerei?

O Senhor é minha luz e salvação!


Ó Senhor, ouvi a voz do meu apelo,
atendei por compaixão!
Meu coração fala convosco confiante,
é vossa face que eu procuro.

O Senhor é minha luz e salvação!


Não afasteis em vossa ira o vosso servo,
sois vós o meu auxílio!
Não me esqueçais nem me deixeis abandonado,
meu Deus e Salvador!

O Senhor é minha luz e salvação!

Sei que a bondade do Senhor eu hei de ver
na terra dos viventes.
Espera no Senhor e tem coragem,
espera no Senhor!

O Senhor é minha luz e salvação!

Segunda Leitura - Carta de São Paulo apóstolo aos Filipenses (Fl 3,17—4,1)
17Sede meus imitadores, irmãos, e observai os que vivem de acordo com o exemplo que nós damos.

18Já vos disse muitas vezes, e agora o repito, chorando: há muitos por aí que se comportam como inimigos da cruz de Cristo. 19O fim deles é a perdição, o deus deles é o estômago, a glória deles está no que é vergonhoso e só pensam nas coisas terrenas.

20Nós, porém, somos cidadãos do céu. De lá aguardamos o nosso Salvador, o Senhor Jesus Cristo. 21Ele transformará o nosso corpo humilhado e o tornará semelhante ao seu corpo glorioso, com o poder que tem de sujeitar a si todas as coisas.

4,1Assim, meus irmãos, a quem quero bem e dos quais sinto saudade, minha alegria, minha coroa, meus amigos, continuai firmes no Senhor.
Palavra do Senhor.
Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo, segundo Lucas (Lc 9,28b-36)

Naquele tempo, 28bJesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para rezar. 29Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante.

30Eis que dois homens estavam conversando com Jesus: eram Moisés e Elias. 31Eles apareceram revestidos de glória e conversavam sobre a morte, que Jesus iria sofrer em Jerusalém.

32Pedro e os companheiros estavam com muito sono. Ao despertarem, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele.

33E quando estes homens se iam afastando, Pedro disse a Jesus: “Mestre, é bom estarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Pedro não sabia o que estava dizendo.

34Ele estava ainda falando, quando apareceu uma nuvem que os cobriu com sua sombra. Os discípulos ficaram com medo ao entrarem dentro da nuvem.

35Da nuvem, porém, saiu uma voz que dizia: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!”

36Enquanto a voz ressoava, Jesus encontrou-se sozinho. Os discípulos ficaram calados e naqueles dias não contaram a ninguém nada do que tinham visto.
Palavra da Salvação.

Comentário

Ver como Deus vê

O relato da transfiguração de Jesus é surpreendente. Por um momento parece que Pedro, Tiago e João saem da vida comum e desde o cume daquele monte vêem o que é o outro mundo, eles contemplam de alguma maneira a glória de Deus. Podemos dizer isso ou podemos dizer mais simplesmente que vêem a realidade tal qual é ou que a vêem tal como Deus a vê. No alto da montanha redescobrem Jesus e percebem sua mais profunda realidade, entendem sua relação profunda, de filiação, com Deus, compreendem a novidade que traz não só para suas vidas senão para nosso mundo. Ali estão Moisés e Elias para dar depoimento de que Jesus abre uma nova etapa na história da humanidade.

A experiência dos apóstolos consiste então em ir para além das aparências, do já sabido e encontrar com a realidade de Jesus tal qual é. Ou, o que é o mesmo, tal como Deus a vê - não pode ter diferença nesse ponto -. A primeira mensagem que nos lança este Evangelho é que devemos fazer o esforço de abrir os olhos e ver a realidade tal como é, tal como Deus a vê. Significa subir ao alto de uma montanha e ter uma visão mística? Certamente que não. Significa abrir bem os olhos e ver para além das aparências e de nossos preconceitos.

Diante de um Centro de Deportação

Esta é uma história que nos aclara a idéia. Faz pouco tempo recebi uma carta de um sacerdote que trabalha em uma paróquia dos Estados Unidos. A maioria de seus paroquianos é imigrante. E a maioria dessa maioria está como costuma suceder, sem documentos (ilegais). Já podemos imaginar os assuntos em que anda metido este amigo meu. Pois bem, faz umas semanas decidiu se aproximar do Centro de Deportação de sua cidade. Para ali são levados todos os ilegais que a polícia de imigração encontra. Toda a sexta-feira de manhã é quando levam os deportados, vestidos como presos, para o aeroporto para proceder à deportação, esta manhã um grupo de pessoas se reúne rezar o rosário com eles e por eles.  

Ali estava meu amigo quando se fixou em uma garota jovem e grávida que, próxima dele, chorava ao mesmo tempo em que rezava. Pensou que talvez tivesse um familiar entre os deportados. Pensou que estava a pouco tempo nos pais – não era assim porque falava inglês perfeitamente –. Perguntou-se onde estaria sua família porque estava sozinha. Tantas voltas deram-lhe à cabeça a presença daquela jovem próxima dele, enquanto rezava o rosário, que terminou aproximando-se dela. Perguntou-lhe quem era e onde vivia. Se estava sozinha, se necessitava de ajuda. Com grande surpresa descobriu que vivia em sua paróquia, que costumava ir à missa, mas que não tinha nem idéia da ajuda que podia lhe oferecer a paróquia.

"Pobre garota grávida", "filha de Deus"

Aqui termina a história. Diria que meu amigo sacerdote passou por uma verdadeira transfiguração. O que podia ter sido nada mais que uma lembrança - mais uma pessoa rezando o rosário naquela manhã fria de sexta-feira ante o centro de deportação - se converteu em uma pessoa, em uma irmã. Olhada com os olhos de Deus, como uma filha sua, à qual atende, cuida e ama.  De estranha tinha passado a ser familiar, irmã, por esse laço que nos une a todos os que formamos a humanidade: filhos de Deus.

Os apóstolos viram Jesus como Ele era realmente. Nós deveríamos abrir os olhos para ver aos que nos rodeiam transfigurados em filhos e filhas de Deus. Basta que agucemos o ouvido e escutaremos também a voz desde a nuvem que nos diz: “Este (a) é meu filho (a), lhe escutem, lhe atendam”. Converter-nos é nos aproximar da realidade e, para além das aparências, a mais profunda realidade é que todos somos filhos e filhas de Deus. Essa é a verdadeira experiência de transfiguração que podemos viver esta Quaresma. Como diz Paulo na segunda leitura, “somos cidadãos do céu”. Assim é como nos devemos ver uns a outros. Assim é como nos devemos tratar uns a outros. Porque não se trata de fazer três tendas, como queria Pedro, mais de baixar do monte e trabalhar pelo Reino.

(em espanhol)

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