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I Domingo da Quaresma
Nem só de pão vive o homem,
mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.
21
de fevereiro de 2010
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| Introdução |
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No início da Quaresma, a Palavra de Deus nos pede para repensar as nossas opções de vida e a tomar consciência dessas “tentações” que nos impedem de renascer para a vida nova, para a vida de Deus.
A primeira leitura convida-nos a eliminar os falsos deuses em quem às vezes apostamos tudo e a fazer de Deus a nossa referência fundamental. Alerta-nos, na mesma lógica, contra a tentação do orgulho e da auto-suficiência, que nos levam a caminhos de egoísmo e de desumanidade, de desgraça e de morte.
O Evangelho apresenta-nos uma catequese sobre as opções de Jesus. Lucas sugere que Jesus recusou radicalmente um caminho de materialismo, de poder, de êxito fácil, pois o plano de Deus não passava pelo egoísmo, mas pela partilha; não passava pelo autoritarismo, mas pelo serviço; não passava por manifestações espetaculares que impressionam as massas, mas por uma proposta de vida plena, apresentada com simplicidade e amor. É claro que é esse caminho que é sugerido aos que seguem Jesus.
A segunda leitura convida-nos a prescindir de uma atitude arrogante e auto-suficiente em relação à salvação que Deus nos oferece: a salvação não é uma conquista nossa, mas um dom gratuito de Deus. É preciso, pois, “converter-se” a Jesus, isto é, reconhecê-l’O como o “Senhor” e acolher no coração a salvação que, em Jesus, Deus nos propõe. |
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| Leituras |
| Primeira
Leitura -
Leitura do Livro do Deuteronômio (Dt 26,4-10) |
1Assim Moisés falou ao povo: 4“O sacerdote receberá de tuas mãos a cesta e a colocará diante do altar do Senhor teu Deus.
5Dirás, então, na presença do Senhor teu Deus: ‘Meu pai era um arameu errante, que desceu ao Egito com um punhado de gente e ali viveu como estrangeiro. Ali se tornou um povo grande, forte e numeroso. 6Os egípcios nos maltrataram e oprimiram, impondo-nos uma dura escravidão.
7Clamamos, então, ao Senhor, o Deus de nossos pais, e o Senhor ouviu a nossa voz e viu a nossa opressão, a nossa miséria e a nossa angústia. 8E o Senhor nos tirou do Egito com mão poderosa e braço estendido, no meio de grande pavor, com sinais e prodígios. 9E conduziu-nos a este lugar e nos deu esta terra, onde corre leite e mel.
10Por isso, agora trago os primeiros frutos da terra que tu me deste, Senhor’.
Depois de colocados os frutos diante do Senhor teu Deus, tu te inclinarás em adoração diante dele”.
Palavra do Senhor.
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| Salmo
Responsorial - Salmo
90 |
| Em minhas dores, ó Senhor, permanecei junto de mim! |
Quem habita ao abrigo do Altíssimo
e vive à sombra do Senhor onipotente,
diz ao Senhor: “Sois meu refúgio e proteção,
sois o meu Deus, no qual confio inteiramente”.
Em minhas dores, ó Senhor, permanecei junto de mim!
Nenhum mal há de chegar perto de ti,
nem a desgraça baterá à tua porta;
pois o Senhor deu uma ordem a seus anjos
para em todos os caminhos te guardarem.
Em minhas dores, ó Senhor, permanecei junto de mim!
Haverão de te levar em suas mãos,
para o teu pé não se ferir nalguma pedra.
Passarás sobre cobras e serpentes,
pisarás sobre leões e outras feras.
Em minhas dores, ó Senhor, permanecei junto de mim!
“Porque a mim se confiou, hei de livrá-lo e protegê-lo,
pois meu nome ele conhece.
Ao invocar-me, hei de ouvi-lo e atendê-lo, e a seu lado eu estarei em suas dores”.
Em minhas dores, ó Senhor, permanecei junto de mim! |
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| Segunda
Leitura -
Carta de São Paulo apóstolo aos Romanos (Rm 10,8-13) |
Irmãos: 8O que diz a Escritura? “A palavra está perto de ti, em tua boca e em teu coração”. Essa palavra é a palavra da fé, que nós pregamos.
9Se, pois, com tua boca confessares Jesus como Senhor e, no teu coração, creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo. 10É crendo no coração que se alcança a justiça e é confessando a fé com a boca que se consegue a salvação. 11Pois a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não ficará confundido”.
12Portanto, não importa a diferença entre judeu e grego; todos têm o mesmo Senhor, que é generoso para com todos os que o invocam.
13De fato, todo aquele que invocar o Nome do Senhor será salvo.
Palavra do Senhor.
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| Proclamação
do Evangelho de Jesus Cristo, segundo Lucas (Lc 4,1-13) |
Naquele tempo, 1Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão, e, no deserto, ele era guiado pelo Espírito. 2Ali foi tentado pelo diabo durante quarenta dias. Não comeu nada naqueles dias e, depois disso, sentiu fome. 3O diabo disse, então, a Jesus: “Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se mude em pão”. 4Jesus respondeu: “A Escritura diz: ‘Não só de pão vive o homem’”.
5O diabo levou Jesus para o alto, mostrou-lhe por um instante todos os reinos do mundo 6e lhe disse: “Eu te darei todo este poder e toda a sua glória, porque tudo isto foi entregue a mim e posso dá-lo a quem quiser. 7Portanto, se te prostrares diante de mim em adoração, tudo isso será teu”.
8Jesus respondeu: “A Escritura diz: ‘Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás’”.
9Depois o diabo levou Jesus a Jerusalém, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo e lhe disse: “Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo! 10Porque a Escritura diz: ‘Deus ordenará aos seus anjos a teu respeito, que te guardem com cuidado!’ 11E mais ainda: ‘Eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’”.
12Jesus, porém, respondeu: “A Escritura diz: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’”.
13Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno.
Palavra da Salvação.
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| Comentário |
Converter-nos como Deus quer |
A este tema das tentações demos muitas voltas ao longo de nossa história cristã. Geralmente coloca-se a imagem de um demônio tentador, que assumia as formas de tudo o que pode ser desejável neste mundo. E tudo isso de bom deste mundo se apresentava como inadmissível. Era fonte de tentação porque o que tinha que fazer o cristão era se centrar em penar em seus pecados, em fazer penitência, em recusar a tentação. A conseqüência, não desejada, de uma espiritualidade deste tipo era que a pessoa se centrava basicamente em si mesmo, em seu próprio umbigo, em seus pecados, em suas penitências.
Porém o certo é que Jesus de nenhuma maneira nos chama a nos centrar em nós mesmos. Mais pede é que nos descentremos para abrir à relação. O Reino é relação de filiação e de fraternidade. O Reino é justiça e amor. O Reino é encontro e mãos abertas. O Reino é caminhar juntos e não deixar que ninguém fique para trás. O Reino é olhar este mundo como é na realidade – como o vê Deus, que é seu criador – e não como o vemos nós desde nossa perspectiva míope e individualista.
Que é isso de se converter?
Estamos em Quaresma, no tempo de conversão, que significa mudar de caminho, se transformar, nos fazer pessoas novas. Centrar-se no passado não pode ser bom. Leva-nos a nós perder no labirinto de nós mesmos, de nossos erros, de nossos enganos, de nossos pecados. O devemos fazer e nos levantar e sair adiante. Converter-se é levantar os olhos, olhar a Jesus e segui-lo. Converter-se é ver a realidade tal como é, tal como a vê Jesus. A realidade são as coisas que nos rodeiam, as pessoas com as quais nos tocaram viver, os acontecimentos que sucedem a nosso arredor.
Converter-se é entrar no deserto e ali deixar-se guiar pelo Espírito. Como Jesus, encontraremos com o diabo que tenta. Sua tentação é enganadora. Pretende fazer-nos viver em um mundo que não é o real, o autêntico. Precisamos do pão para viver. Mas não é suficiente. O pão come-se em família, em comunidade. O pão compartilhado cria fraternidade. Não é isso que na Eucaristia celebramos a cada domingo? A verdadeira tentação é a que nos convida a comer nosso pão em solidão sem compartilhar com os irmãos.
Converter-se é renunciar ao poder que abusa dos demais e que destrói a fraternidade. Converter-se é reconhecer a realidade: não somos mais que os demais, não somos melhores que os demais, estamos juntos em nossas muitas limitações. Mas também reconhecer a realidade é nos dar conta de que estamos juntos na misericórdia e na graça de Deus que nos dá sempre a possibilidade de voltar a tentar. Porque ele crê em nós e seu poder nos recria sempre para o bem. Deus é nossa esperança porque espera sempre em nós. E sua esperança possibilita nossa mudança. Mas esta conversão só é possível se o reconhecemos como o único senhor, se deixarmos de adorar as criaturas e voltarmos o olhar para o nosso único Senhor, nosso único Pai-Mãe, amor misericordioso.
Só de Deus nos vem a salvação
Se converter é nos conhecer a nós mesmos e as nossas limitações. Converter-nos é saber que só de Deus podemos esperar a salvação e o Reino. Mas que em nenhum caso o podemos controlar nem manipular para colocá-lo a nosso serviço. Por mais rosários que rezemos, por mais sacrifícios que façamos, nunca conseguiremos que Deus seja um instrumento para nosso serviço. Não podemos chegar a nos crer tão poderosos que convertamos Deus em um de nossos servidores. Deus é Deus e o temos que respeitar como é. Grande, livre, pai, amor, misericórdia, ternura, justiça. O Deus de Jesus é, como Jesus, um Deus surpreendente que não faz sempre o que nós achamos que deveria fazer. Mas confiamos nele e estamos seguros de que, ainda que às vezes não o entendamos, sempre atua em nosso favor e para nosso bem.
Converter-nos é olhar para trás, mais não para nos olhar a nós mesmos senão para contemplar a obra de Deus que nos presenteou a vida e nos foi levando com sua mão. Como Moisés pede aos israelitas na primeira leitura, também nós deveríamos guardar a memória do que Deus tem feito por nós.
Neste caminho de conversão, a Palavra está próxima de nós – segunda leitura –. Deus fala-nos ao coração com palavras de ternura e de amor. É questão de escutá-la e corrigir nossos caminhos.
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