Quarta-feira de Cinzas
"Do suor do teu rosto comerás o teu pão,
até que tornes à terra, porque dela foste tomado;
porquanto és pó, e ao pó tornarás"
(Gênesis 3, 19)
17
de fevereiro de 2010
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| Introdução |
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Iniciamos hoje o tempo favorável, tempo de salvação: a Quaresma.
Queremos com Jesus realizar nossa passagem da morte para a vida plena. Este tempo de graça e reconciliação se inicia com a celebração das Cinzas: apelo para a conversão e convite à revisão de nossas atitudes.
Iniciamos, também, a Campanha da Fraternidade que nos propõe o desafio de colaborar na promoção de uma economia a serviço da vida, fundamentada no ideal da cultura da paz, a partir do esforço conjunto das Igrejas Cristãs e de pessoas de boa vontade, para que todos contribuam na construção do bem comum em vista de uma sociedade sem exclusão.
Caminhemos juntos, com alegria e esperança, para a Páscoa do Senhor! |
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| Leituras |
| Primeira
Leitura -
Leitura da profecia de Joel
(Jl 2,12-18) |
12“Agora, diz o Senhor, voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos;
13rasgai o coração, e não as vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus; ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo”.
14Quem sabe, se ele se volta para vós e vos perdoa, e deixa atrás de si a bênção, oblação e libação para o Senhor, vosso Deus?
15Tocai trombeta em Sião, prescrevei o jejum sagrado, convocai a assembléia;
16congregai o povo, realizai cerimônias de culto, reuni anciãos, ajuntai crianças e lactentes; deixe o esposo seu aposento, e a esposa, seu leito.
17Chorem, postos entre o vestíbulo e o altar, os ministros sagrados do Senhor, e digam: “Perdoa, Senhor, a teu povo, e não deixes que esta tua herança sofra infâmia e que as nações a dominem”. Por que se haveria de dizer entre os povos: “Onde está o Deus deles?”
18Então o Senhor encheu-se de zelo por sua terra e perdoou ao seu povo.
Palavra do Senhor.
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| Salmo
Responsorial - Salmo
50 |
| Misericórdia, ó Senhor, pois pecamos! |
Tende piedade, ó meu Deus, misericórdia!
Na imensidão do vosso amor, purificai-me!
Lavai-me todo inteiro do pecado
e apagai completamente a minha culpa!
Misericórdia, ó Senhor, pois pecamos!
Eu reconheço toda a minha iniqüidade,
o meu pecado está sempre à minha frente.
Foi contra vós, só contra vós, que eu pequei,
pratiquei o que é mau aos vossos olhos!
Misericórdia, ó Senhor, pois pecamos!
Criai em mim um coração que seja puro,
dai-me de novo um espírito decidido.
Ó Senhor, não me afasteis de vossa face,
nem retireis de mim o vosso Santo Espírito!
Misericórdia, ó Senhor, pois pecamos!
Dai-me de novo a alegria de ser salvo
e confirmai-me com espírito generoso!
Abri meus lábios, ó Senhor, para cantar,
e minha boca anunciará vosso louvor!
Misericórdia, ó Senhor, pois pecamos! |
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| Segunda
Leitura -
Segunda
Carta de Paulo aos
Coríntios (2Cor 5,20—6,2) |
Irmãos,
20Somos embaixadores de Cristo, e é Deus mesmo que exorta através de nós. Em nome de Cristo, nós vos suplicamos: deixai-vos reconciliar com Deus.
21Aquele que não cometeu nenhum pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nós nos tornemos justiça de Deus.
6,1Como colaboradores de Cristo, nós vos exortamos a não receberdes em vão a graça de Deus,
2pois ele diz: “No momento favorável, eu te ouvi e, no dia da salvação, eu te socorri”. É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação.
Palavra do Senhor.
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| Proclamação
do Evangelho de Jesus Cristo, segundo Mateus (Mt 6,1-6.16-18) |
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
1“Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens, só para serdes vistos por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus.
2Por isso, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem elogiados pelos homens.
Em verdade vos digo: eles já receberam a sua recompensa.
3Ao contrário, quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita,
4de modo que a tua esmola fique oculta. E o teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa.
5Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar de pé, nas sinagogas e nas esquinas das praças, para serem vistos pelos homens.
Em verdade vos digo: eles já receberam a sua recompensa.
6Ao contrário, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta, e reza ao teu Pai que está oculto. E o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa.
16Quando jejuardes, não fiqueis com o rosto triste como os hipócritas. Eles desfiguram o rosto, para que os homens vejam que estão jejuando.
Em verdade vos digo: eles já receberam a sua recompensa.
17Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto,
18para que os homens não vejam que tu estás jejuando, mas somente teu Pai, que está oculto. E o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa”.
Palavra da Salvação.
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| Comentário |
Renovai o meu interior |
"Ó Senhor, criai em mim um coração puro e renovai ao meu interior um espírito reto" (Salmo 50, 12).
Estas palavras do Salmo responsorial contêm, num certo sentido, o núcleo mais profundo da Quaresma e, ao mesmo tempo, exprimem o seu programa essencial. São palavras tiradas do salmo Miserere, no qual o pecador abre o próprio coração a Deus, confessa a própria culpabilidade e implora a remissão dos pecados: "Lavai-me totalmente das minhas iniqüidades, purificai-me dos meus delitos. Reconheço, de verdade, as minhas culpas, o meu pecado está sempre diante de mim. Contra Vós apenas é que eu pequei, pratiquei o mal perante os Vossos olhos... Não me afasteis da Vossa presença nem me priveis do Vosso santo espírito" (ibid., 50, 46.13).
Este Salmo constitui um comentário litúrgico de singular eficácia ao rito das Cinzas. A cinza é sinal da caducidade do homem e da sua submissão à morte. Neste tempo em que nos preparamos para reviver liturgicamente o mistério da morte do Redentor na cruz, devemos sentir e viver de modo mais profundo a nossa mortalidade. Somos seres mortais, contudo, a nossa morte não significa destruição nem aniquilamento. Deus inscreveu nela a perspectiva profunda da nova criação. Por isso o pecador que celebra a Quarta-Feira de Cinzas pode e deve bradar: "Ó Senhor, criai em mim um coração puro e renovai ao meu interior um espírito reto" (ibid., 50, 12).
Na Quaresma a certeza desta nova criação brota da luz do mistério de Cristo: mistério da Sua paixão, morte e ressurreição. São Paulo, na Liturgia hodierna, afirma: "Suplicamo-vos, pois, em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus. Aquele que não havia conhecido pecado, Deus O fez pecado por nós para que nos tornássemos n’Ele justiça de Deus" (2 Cor. 5, 20-21). Aceitando experimentar na Sua carne o drama da morte humana, Cristo tornou-Se partícipe do aspecto destrutível ligado à existência temporal do homem. O Apóstolo fala disto com muita clareza, quando afirma: "Deus O fez pecado". Isto significa que Deus tratou Cristo, "Aquele que não havia conhecido pecado", como se fosse um pecador, e isto em nosso favor. Com efeito, Cristo compartilhou a nossa sorte de homens sobrecarregados pelo pecado, para que por meio d’Ele pudéssemos tornar-nos justiça de Deus. Por esta nossa fé em Cristo podemos bradar juntamente com o Salmista: "Ó Senhor, criai em mim um coração puro e renovai ao meu interior um espírito reto» (Salmo 50, 12). Para que serviria a imposição das cinzas, se não nos iluminasse a esperança da vida nova, da nova criação, que Deus nos deu em Cristo?
Durante todo o Ano litúrgico a Igreja vive do Sacrifício redentor de Cristo. Contudo, no tempo da Quaresma, desejamos imergir-nos nele de modo particularmente intenso, segundo a exortação do Apóstolo: "É este o tempo favorável; este é o dia da salvação!"» (2 Cor. 6, 2). Neste tempo forte foram-nos dispensados, de um modo muito especial, os tesouros da redenção, que Cristo crucificado e ressuscitado nos obteve. A exclamação do Salmista: "Criai em mim... um coração novo e renovai ao meu interior um espírito reto" tornou-se, assim, no início da Quaresma, um forte apelo à conversão.
Com as palavras do salmo Miserere o pecador não só acusa as próprias culpas, mas inicia ao mesmo tempo um novo itinerário criativo, o caminho da conversão: "Convertei-vos a Mim de todo o vosso coração" (Joel 2, 12), diz em nome de Deus o profeta Joel na primeira Leitura. "Converter-se" significa, por conseguinte, entrar em profunda intimidade com Deus, como propõe também o Evangelho de hoje.
Uma conversão autêntica implica o cumprimento de todas aquelas obras que são próprias do tempo da Quaresma: a esmola, a oração, o jejum. Contudo, elas não devem ser vividas apenas como cumprimento exterior, mas como expressão do encontro íntimo, e em certa medida desconhecido aos homens, com o próprio Deus. A conversão comporta uma nova descoberta de Deus. Na conversão, experimenta-se que n’Ele reside a plenitude do bem, que foi revelada no mistério pascal de Cristo, e dela se bebe a mãos-cheias na morada íntima do coração.
Deus espera isto! Deus quer criar em nós um coração puro e renovar em nós um espírito reto. E nós, no início desta Quaresma, queremos abrir a nossa alma à graça de Deus, para vivermos intensamente o itinerário de conversão rumo à Páscoa.
Homilia do Papa João Paulo II por
ocasião
da quarta-feira
12 de Fevereiro de 1997 |
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