04/02/2010 - V Domingo do Tempo Comum
Fonte: Fernando Torres, cmf


V Domingo do Tempo Comum
Vinde comigo, diz o Senhor,
e farei de vós pescadores
07 de fevereiro de 2010

Introdução

A liturgia do V Domingo da Tempo Comum leva-nos a refletir sobre a nossa vocação: somos todos chamados por Deus e d’Ele recebemos uma missão para o mundo.

Na primeira leitura, encontramos a descrição plástica do chamamento de um profeta - Isaías. De uma forma simples e questionadora, apresenta-se o modelo de um homem que é sensível aos apelos de Deus e que tem a coragem de aceitar ser enviado.

No Evangelho, Lucas apresenta um grupo de discípulos que partilharam a barca com Jesus, que acolheram as propostas de Jesus, que souberam reconhecê-l’O como seu “Senhor”, que aceitaram o convite para ser “pescadores de homens” e que deixaram tudo para seguir Jesus… Neste quadro, reconhecemos o caminho que os cristãos são chamados a percorrer.

A segunda leitura propõe-nos refletir sobre a ressurreição: trata-se de uma realidade que deve dar forma à vida do discípulo e levá-lo a enfrentar sem medo as forças da injustiça e da morte. Com a sua ação libertadora - que continua a acão de Jesus e que renova os homens e o mundo - o discípulo sabe que está a dar testemunho da ressurreição de Cristo.

Leituras
Primeira Leitura - Livro do Profeta Isaías (Is 6,1-2a.3-8)
1No ano da morte do rei Ozias, vi o Senhor sentado num trono de grande altura; o seu manto estendia-se pelo templo. 2aHavia serafins de pé a seu lado; cada um tinha seis asas. 3Eles exclamavam uns para os outros: "Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos; toda a terra está repleta de sua glória".

4Ao clamor dessas vozes, começaram a tremer as portas em seus gonzos e o templo encheu-se de fumaça.

5Disse eu então: "Ai de mim, estou perdido! Sou apenas um homem de lábios impuros, mas eu vi com meus olhos o rei, o Senhor dos exércitos".

6Nisto, um dos serafins voou para mim, tendo na mão uma brasa, que retirara do altar com uma tenaz, 7e tocou a minha boca, dizendo: "Assim que isto tocou teus lábios, desapareceu tua culpa, e teu pecado está perdoado".

8Ouvi a voz do Senhor, que dizia: "Quem enviarei? Quem irá por nós?" Eu respondi: "Aqui estou! Envia-me".
Palavra do Senhor
Salmo Responsorial (137)
Vou cantar-vos ante os anjos, ó Senhor,
e ante o vosso templo vou prostrar-me.
Ó Senhor, de coração eu vos dou graças,
porque ouvistes as palavras dos meus lábios!
Perante os vossos anjos vou cantar-vos
e ante o vosso templo vou prostrar-me.

Vou cantar-vos ante os anjos, ó Senhor,
e ante o vosso templo vou prostrar-me.


Eu agradeço vosso amor, vossa verdade,
porque fizestes muito mais que prometestes;
naquele dia em que gritei, vós me escutastes
e aumentastes o vigor da minha alma.

Vou cantar-vos ante os anjos, ó Senhor,
e ante o vosso templo vou prostrar-me.


Os reis de toda a terra hão de louvar-vos,
quando ouvirem, ó Senhor, vossa promessa.
Hão de cantar vossos caminhos e dirão:
"Como a glória do Senhor é grandiosa!"

Vou cantar-vos ante os anjos, ó Senhor,
e ante o vosso templo vou prostrar-me.


Estendereis o vosso braço em meu auxílio
e havereis de me salvar com vossa destra.
Completai em mim a obra começada;
ó Senhor, vossa bondade é para sempre!
Eu vos peço: não deixeis inacabada
esta obra que fizeram vossas mãos!

Vou cantar-vos ante os anjos, ó Senhor,
e ante o vosso templo vou prostrar-me.
Segunda Leitura - Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios (1Cor 15,3-8.11)

Irmãos: 3O que vos transmiti, em primeiro lugar, foi aquilo que eu mesmo tinha recebido, a saber: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; 4que foi sepultado; que, ao terceiro dia, ressuscitou, segundo as Escrituras; 5e que apareceu a Cefas e, depois, aos Doze.

6Mais tarde, apareceu a mais de quinhentos irmãos, de uma vez. Destes, a maioria ainda vive e alguns já morreram. 7Depois, apareceu a Tiago e, depois, apareceu aos apóstolos todos juntos. 8Por último, apareceu também a mim, como a um abortivo.
11É isso, em resumo, o que eu e eles temos pregado e é isso o que crestes.


Palavra do Senhor.

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo, segundo Lucas (Lc 5,1-11)

Naquele tempo, 1Jesus estava na margem do lago de Genesaré, e a multidão apertava-se ao seu redor para ouvir a palavra de Deus.

2Jesus viu duas barcas paradas na margem do lago. Os pescadores haviam
desembarcado e lavavam as redes.

3Subindo numa das barcas, que era de Simão, pediu que se afastasse um pouco da margem. Depois sentou-se e, da barca, ensinava as multidões.

4Quando acabou de falar, disse a Simão: “Avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes para a pesca”.

5Simão respondeu: “Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes”.

6Assim fizeram, e apanharam tamanha quantidade de peixes que as redes se rompiam.
7Então fizeram sinal aos companheiros da outra barca, para que viessem ajudá-los. Eles vieram, e encheram as duas barcas, a ponto de quase afundarem.

8Ao ver aquilo, Simão Pedro atirou-se aos pés de Jesus, dizendo: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador!”

9É que o espanto se apoderara de Simão e de todos os seus companheiros, por causa da pesca que acabavam de fazer.

10Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram sócios de Simão, também ficaram espantados. Jesus, porém, disse a Simão: “Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens”.
Palavra da Salvação.

Comentário

Chamados a construir o Reino

Definitivamente, vivemos em um sistema que promove o consumo rápido, a satisfação imediata do desejo. É um sistema que se baseia em usar e jogar fora”. Ainda encontramos com facilidade pessoas que não entendem como pode ser mais barato comprar um objeto novo que consertar o antigo estragado. Mas é assim. Assim funciona o sistema. E o que vale para as coisas, para o material, termina valendo também para as relações entre as pessoas. Tudo também se baseia no “usar e jogar fora”, tudo serve para “satisfazer meus desejos e/ou as minhas necessidades”. A pessoa, cada pessoa, situa-se no centro do universo e, como uma espécie de buraco negro imenso, absorve tudo o que está próximo dela para, uma vez utilizado, o jogar como lixo. A descrição tem algo de caricatura, é exagerada, mas vale para entendermos.

A Palavra de Deus como sempre, nos confunde e nos convida a viver de outra maneira. É profética não porque nos anuncie o futuro, mais porque nos provoca, nos desafia e nos leva a mudar de vida, nos faz sentir incomodados com o que fazemos. Porém, sempre é para nos fazer mais pessoas, mais livres, mais irmãos, mais filhos e filhas de Deus.

Jesus convida-nos a segui-lo 

Hoje, a Palavra coloca-nos ante nossa vocação, ante o chamado que Deus nos faz para ser pessoas, ser livres, viver em fraternidade. Seguir Jesus não é senão nos comprometer em construir seu reino. O que segue a Jesus se faz pescador de homens e mulheres, que estão perdidos em seus buracos negros, para levar à rede da solidariedade, da fraternidade, do encontro gozoso com o Pai comum que nos senta a todos à mesa da eucaristia.

Esse chamado de Deus tira-nos dos nossos costumes, do lugar em que nos sentimos cômodos, nos desloca, nos descentra. Convida-nos a deixar de nos considerar o centro do universo, em torno do qual tudo (pessoas, coisas, idéias…) giram, para nos situar em uma relação diferente com tudo o que nos rodeia. Somos parte da criação e vivemos em relação de fraternidade e igualdade com as pessoas. E as coisas, a realidade material, fazem parte de nosso ecossistema, do equilíbrio mágico e maravilhoso que é a vida.

Anunciar e viver em nosso mundo essa realidade pode não ser fácil. É complicado para nós porque nos tira de nossa comodidade e nos obriga a viver de uma maneira nova. Desde aí se pode compreender que o fogo que o anjo leva aos lábios do profeta queima. E como o fogo destrói e abre espaço para a nova criação, para fazer de nós servidores de seu reino.

Assim se entende que para Paulo a missão de anunciar o Evangelho tenha sido um verdadeiro trabalho, tenha sido um autêntico esforço e compromisso de vida. Paulo abriu-se à graça de Deus e deixou-se trabalhar por ela até que nascesse nele o homem novo, o cidadão do Reino.

Aassim entendemos que a primeira resposta dos discípulos de Jesus ao serem convidados para lançarem as redes, mesmo cansados. Passaram a noite inteira brigando e não tiraram nada. Não têm vontade de nada. Porém, Jesus era muito Jesus e era difícil negar-lhe seu pedido. Em seu nome voltaram a jogar as redes e a pescaria foi tão grande que quase se rompe a rede. A graça de Deus é capaz de fazer realidade o que a nós nos pode parecer impossível!

O Reino é possível

Isaías sentiu o fogo da Palavra em seus lábios, mais não se afastou, escutou o chamado e foi um grande profeta para seu povo. Paulo começou perseguindo os cristãos, mais a graça de Deus lhe tocou o coração e o converteu no grande apóstolo dos gentiles, isto é, de nós. Os discípulos abandonaram as redes e seguiram Jesus porque, ainda sem entender tudo, pressentiram que Jesus os levava por caminhos novos e que sua Palavra dava uma dimensão nova para suas vidas.

Hoje nós escutamos a Palavra de novo. Se deixamos que a Palavra chegue até nosso coração e renunciarmos à comodidade de nossos lugares negros, seguramente nos deixaremos encantar por ela e começaremos a sonhar que um mundo novo é possível, e começaremos a trabalhar dia a dia por fazer realidade o Reino do qual Jesus falou. Sua graça e seu espírito são nossos aliados. Eles farão realidade o que a nós nos parece impossível.

(Em espanhol)

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