|
IV Domingo do Tempo Comum
O Senhor enviou-me a anunciar a boa nova
aos pobres,
a proclamar aos cativos a redenção.
31
de janeiro de 2010
|
| Introdução |
|
A liturgia do IV Domingo da Tempo Comum nós convida a refletir sobre o “caminho do profeta”: caminho de sofrimento, de solidão, de risco, mas também caminho de paz e de esperança, porque é um caminho onde Deus está. A liturgia de hoje assegura ao “profeta” que a última palavra será sempre de Deus: “não temas, porque Eu estou contigo para te salvar”.
A primeira leitura apresenta a figura do profeta Jeremias. Escolhido, consagrado e constituído profeta por Jahwéh, Jeremias vai enfrentar todo o tipo de dificuldade; mas não desistirá de concretizar a sua missão e de tornar uma realidade viva no meio dos homens a Palavra de Deus.
O Evangelho apresenta-nos o profeta Jesus, desprezado pelos habitantes de Nazaré (eles esperavam um Messias espetacular e não entenderam a proposta profética de Jesus). O episódio anuncia a rejeição de Jesus pelos judeus e o anúncio da Boa Nova a todos os que estiverem dispostos a acolhê-la - sejam pagãos ou judeus.
A segunda leitura parece um tanto desenquadrada desta temática: fala do amor, o amor desinteressado e gratuito, apresentando-o como a essência da vida cristã. Pode, no entanto, ser entendido como um aviso ao “profeta” no sentido de se deixar guiar pelo amor e nunca pelo próprio interesse… Só assim a sua missão fará sentido. |
|
| Leituras |
| Primeira
Leitura -
Livro do Profeta Jeremias (Jr 1,4-5.17-19) |
Nos dias de Josias, rei de Judá, 4foi-me dirigida a palavra do Senhor, dizendo: “5Antes de formar-te no ventre materno, eu te conheci; antes de saíres do seio de tua mãe, eu te consagrei e te fiz profeta das nações.
17Vamos, põe a roupa e o cinto, levanta-te e comunica-lhes tudo que eu te mandar dizer: não tenhas medo, senão eu te farei tremer na presença deles.
18Com efeito, eu te transformarei hoje numa cidade fortificada, numa coluna de ferro, num muro de bronze contra todo o mundo, frente aos reis de Judá e seus príncipes, aos sacerdotes e ao povo da terra; 19eles farão guerra contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para defender-te”, diz o Senhor.
Palavra do Senhor |
|
| Salmo Responsorial (70) |
Minha boca anunciará todos os dias
vossas graças incontáveis, ó Senhor! |
Eu procuro meu refúgio em vós, Senhor:
que eu não seja envergonhado para sempre!
Porque sois justo, defendei-me e libertai-me!
Escutai a minha voz, vinde salvar-me!
Minha boca anunciará todos os dias
vossas graças incontáveis, ó Senhor!
Sede uma rocha protetora para mim,
um abrigo bem seguro que me salve!
Porque sois a minha força e meu amparo,
o meu refúgio, proteção e segurança!
Libertai-me, ó meu Deus, das mãos do ímpio.
Minha boca anunciará todos os dias
vossas graças incontáveis, ó Senhor!
Porque sois, ó Senhor Deus, minha esperança,
em vós confio desde a minha juventude!
Sois meu apoio desde antes que eu nascesse,
desde o seio maternal, o meu amparo.
Minha boca anunciará todos os dias
vossas graças incontáveis, ó Senhor!
Minha boca anunciará todos os dias
vossa justiça e vossas graças incontáveis.
Vós me ensinastes desde a minha juventude,
e até hoje canto as vossas maravilhas.
Minha boca anunciará todos os dias
vossas graças incontáveis, ó Senhor! |
|
| Segunda
Leitura -
Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios (1Cor 12,31-13,13) |
Irmãos: 31Aspirai aos dons mais elevados. Eu vou ainda mostrar-vos um caminho incomparavelmente superior.
13,1Se eu falasse todas as línguas, as dos homens e as dos anjos, mas não tivesse caridade, eu seria como um bronze que soa ou um címbalo que retine.
2Se eu tivesse o dom da profecia, se conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, se tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, mas se não tivesse caridade, eu não seria nada.
3Se eu gastasse todos os meus bens para sustento dos pobres, se entregasse o meu corpo às chamas, mas não tivesse caridade, isso de nada me serviria.
4A caridade é paciente, é benigna; não é invejosa, não é vaidosa, não se ensoberbece;
5não faz nada de inconveniente, não é interesseira, não se encoleriza, não guarda rancor; 6não se alegra com a iniqüidade, mas se regozija com a verdade. 7Suporta tudo, crê tudo, espera tudo, desculpa tudo.
8A caridade não acabará nunca. As profecias desaparecerão, as línguas cessarão, a ciência desaparecerá.
9Com efeito, o nosso conheci-mento é limitado e a nossa profecia é imperfeita. 10Mas, quando vier o que é perfeito, desaparecerá o que é imperfeito.
11Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Quando me tornei adulto, rejeitei o que era próprio de criança.
12Agora nós vemos num espelho, confusamente, mas, então, veremos face a face.
Agora conheço apenas de modo imperfeito, mas, então, conhecerei como sou conhecido.
13Atualmen-te, permanecem estas três coisas: fé, esperança, caridade. Mas a maior delas é a caridade.
Palavra do Senhor.
|
|
| Proclamação
do Evangelho de Jesus Cristo, segundo Lucas (Lc 4,21-30) |
Naquele tempo, estando Jesus na sinagoga, começou a dizer: 21“Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”.
22Todos davam testemunho a seu respeito, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca. E diziam: “Não é este o filho de José?”
23Jesus, porém, disse: “Sem dúvida, vós me repetireis o provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo. Faze também aqui, em tua terra, tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum”.
24E acrescentou: “Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria.
25De fato, eu vos digo: no tempo do profeta Elias, quando não choveu durante três anos e seis meses e houve grande fome em toda a região, havia muitas viúvas em Israel.
26No entanto, a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a uma viúva que vivia em Sarepta, na Sidônia.
27E no tempo do profeta Eliseu, havia muitos leprosos em Israel. Contudo, nenhum deles foi curado, mas sim Naamã, o sírio”.
28Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos.
29Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no até ao alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício. 30Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho.
Palavra da Salvação.
|
|
| Comentário |
A constância do Amor |
O Evangelho deste domingo convida-nos a refletir sobre um dos grandes mistérios das relações humanas: a rejeição ao que quer fazer o bem. O texto evangélico segue relatando sobre a estadia de Jesus em Nazaré, com seu povo, justo ali onde o deixamos no domingo passado. Jesus tinha lido a leitura do profeta Isaías que anunciava a libertação dos oprimidos e o ano da graça do Senhor. E tinha concluído com as palavras com que hoje começa o Evangelho: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”.
Essas palavras de Jesus suscitam primeiramente a admiração. Mais, em seguida, essa atitude vai mudando. E pouco a pouco chega à rejeição mais radical. Os que lhe escutam ao final ficam furiosos. Tanto que tratam de matá-lo. É um relato que causa surpresa. Como é possível que aqueles aos quais é anunciada a libertação terminam se voltando contra o mensageiro dessa boa nova?
A experiência da rejeição
Neste breve relato se condensa de alguma maneira toda a vida de Jesus. As primeiras palavras suscitam a admiração, mais terminam provocando a rejeição. Uma rejeição tão grande que lhe levará à morte, e uma morte de cruz, a mais humilhante das mortes. É a sorte de Jesus e – aí está o mistério – e a sorte de muitos profetas. Sem nos prolongar em nossa história, recordamos que Gandhi, o grande profeta moderno da não-violência, morreu assassinado. Seguramente podemos fazer memória e recordar outras pessoas de paz, pessoas que exerceram a misericórdia e que experimentaram a rejeição ou que foram marginalizadas.
Isso tem sucedido inclusive dentro de nossa Igreja. Basta ler a história de muitos fundadores de congregações e ordens religiosas para ver como sofreram a rejeição, como suas idéias foram marginalizadas e suas iniciativas esmagadas. Demorou muito tempo para que terminassem sendo aceitas como algo bom. Como exemplo, serve a vida de Mary Ward, fundadora de uma congregação feminina, condenada em vida como herege e só mais tarde reconhecida a bondade de sua obra e de sua iniciativa.
Parece que a cruz e a rejeição fazem parte da trama da vida e que as coisas boas somente são alcançadas através do sofrimento, da dor e do sacrifício. É uma mensagem difícil de entender e menos ainda nas sociedades desenvolvidas onde tendemos a evitar tudo o que implique em sofrimento. Mas para chegar a Páscoa da Ressurreição não há outra caminho senão passar pela dor sem fim da morte.
Porque o Reino é Amor
O que marca a vida de Jesus, e de muitos de seus discípulos ao longo do tempo e de muitos homens e mulheres de boa vontade, é a constância no amor. Jesus não se afastou das dificuldades, nem sequer ante a fúria de seus compatriotas. Confiou em Deus e seguiu falando da misericórdia e do amor de Deus, estando próximo dos mais pobres e estendendo suas mão aos marginalizados. Não lhe assustaram a rejeição nem as dificuldades. Jesus não leu nunca o texto da primeira carta aos Coríntios, que hoje escutamos na segunda leitura, mas não há dúvida de que Paulo expressou perfeitamente nessas palavras o mais fundo do espírito de Jesus – e, por tanto, do Deus mesmo –.
Devemos ler e reler a segunda leitura deste domingo. Não é um amor tolo o que aí se propõe. Não é uma espécie de romantismo adolescente, frágil e delicado. É um amor para homens e mulheres fortes, livres, responsáveis, capazes de tomar as rédeas de seu destino e levá-lo onde acham que deve ir. Esses homens e mulheres não são pacientes ou constantes ou misericordiosos por debilidade senão por fortaleza. Não perdoam por perdoar, senão porque estão cheios do amor e da misericórdia de Deus. O ideal do amor oferece-nos uma maneira diferente de viver e nos relacionar com os demais. O ideal do amor é o Reino de Deus.
Só os que amam muito são capazes de se manter constantes no momento da rejeição. Seguem amando porque para eles o amor não é uma emoção senão uma atitude, um estilo de viver. Sabem que Deus é amor. E que só amando poderemos fazer um mundo mais humano, mais fraterno: o mundo que Deus quer. E estão dispostos a assumir a rejeição, a cruz e todas as dificuldades que encontrem no caminho. Porque vale a pena. Como Jesus. Até o final do caminho.
(em espanhol) |
|
|
|
|