21/01/2010 - III Domingo do Tempo Comum
Fonte: Fernando Torres, cmf


III Domingo do Tempo Comum
O Senhor enviou-me a anunciar a boa nova
aos pobres, a proclamar aos cativos a redenção.
24 de janeiro de 2010

Introdução


A liturgia do III Domingo da Tempo Comum coloca no centro da nossa reflexão a Palavra de Deus: ela é, verdadeiramente, o centro à volta do qual se constrói a experiência cristã. Essa Palavra não é uma doutrina abstrata, para deleite dos intelectuais; mas é, primordialmente, um anúncio libertador que Deus dirige a todos os homens e que encarna em Jesus e nos cristãos.

Na primeira leitura, exemplifica-se como a Palavra que deve estar no centro da vida comunitária e como ela, uma vez proclamada, é geradora de alegria e de festa.

No Evangelho, apresenta-se Cristo como a Palavra que se faz pessoa no meio dos homens, a fim de levar a libertação e a esperança às vítimas da opressão, do sofrimento e da miséria. Sugere-se, também, que a comunidade de Jesus é a comunidade que anuncia ao mundo essa Palavra libertadora.

A segunda leitura apresenta a comunidade gerada e alimentada pela Palavra libertadora de Deus: é uma família de irmãos, onde os dons de Deus são repartidos e postos ao serviço do bem comum, numa verdadeira comunhão e solidariedade.

Leituras
Primeira Leitura - Livro de Neemias (Ne 8,2-4a.5-6.8-10)
Naqueles dias, 2o sacerdote Esdras apresentou a Lei diante da assembléia de homens, de mulheres e de todos os que eram capazes de compreender. Era o primeiro dia do sétimo mês.

3Assim, na praça que fica defronte da porta das Águas, Esdras fez a leitura do livro, desde o amanhecer até ao meio-dia, na presença dos homens, das mulheres e de todos os que eram capazes de compreender. E todo o povo escutava com atenção a leitura do livro da Lei.

4aEsdras, o escriba, estava de pé sobre um estrado de madeira, erguido para esse fim.
5Estando num lugar mais alto, ele abriu o livro à vista de todo o povo. E, quando o abriu, todo o povo ficou de pé.

6Esdras bendisse o Senhor, o grande Deus, e todo o povo respondeu, levantando as mãos: “Amém! Amém!”

Depois inclinaram-se e prostraram-se diante do Senhor, com o rosto em terra. 8E leram clara e distintamente o livro da Lei de Deus e explicaram seu sentido, de maneira que se pudesse compreender a leitura.

9O governador Neemias e Esdras, sacerdote e escriba, e os levitas, que instruíam o povo, disseram a todos: “Este é um dia consagrado ao Senhor, vosso Deus! Não fiqueis tristes nem choreis”, pois todo o povo chorava ao ouvir as palavras da Lei.

10E Neemias disse-lhes: “Ide para vossas casas e comei carnes gordas, tomai bebidas doces e reparti com aqueles que nada prepararam, pois este dia é santo para o nosso Senhor. Não fiqueis tristes, porque a alegria do Senhor será a vossa força”.
Palavra do Senhor
Salmo Responsorial (18B)
Vossas palavras, Senhor, são espírito e vida!
A lei do Senhor Deus é perfeita,
conforto para a alma!
O testemunho do Senhor é fiel,
sabedoria dos humildes.

Vossas palavras, Senhor, são espírito e vida!


Os preceitos do Senhor são precisos,
alegria ao coração.
O mandamento do Senhor é brilhante,
para os olhos é uma luz.

Vossas palavras, Senhor, são espírito e vida!


É puro o temor do Senhor,
imutável para sempre.
Os julgamentos do Senhor são corretos
e justos igualmente.

Vossas palavras, Senhor, são espírito e vida!


Que vos agrade o cantar dos meus lábios
e a voz da minha alma;
que ela chegue até vós, ó Senhor,
meu Rochedo e Redentor!

Vossas palavras, Senhor, são espírito e vida!
Segunda Leitura - Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios (1Cor 12,12-14.27)

Irmãos: 12Como o corpo é um, embora tenha muitos membros, e como todos os membros do corpo, embora sejam muitos, formam um só corpo, assim também acontece com Cristo.

13De fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito, para formarmos um único corpo, e todos nós bebemos de um único Espírito.

14Com efeito, o corpo não é feito de um membro apenas, mas de muitos membros.

27Vós, todos juntos, sois o corpo de Cristo e, individualmente, sois membros desse corpo.
Palavra do Senhor
.

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo, segundo Lucas (Lc 1,1-4; 4,14-21)

1Muitas pessoas já tentaram escrever a história dos acontecimentos que se realizaram entre nós, 2como nos foram transmitidos por aqueles que, desde o princípio, foram testemunhas oculares e ministros da palavra.

3Assim sendo, após fazer um estudo cuidadoso de tudo o que aconteceu desde o princípio, também eu decidi escrever de modo ordenado para ti, excelentíssimo Teófilo. 4Deste modo, poderás verificar a solidez dos ensinamentos que recebeste.

Naquele tempo, 4,14Jesus voltou para a Galiléia, com a força do Espírito, e sua fama espalhou-se por toda a redondeza.

15Ele ensinava nas suas sinagogas e todos o elogiavam.

16E veio à cidade de Nazaré, onde se tinha criado. Conforme seu costume, entrou na sinagoga, no sábado, e levantou-se para fazer a leitura.

17Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, Jesus achou a passagem em que está escrito: 18“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos 19e para proclamar um ano da graça do Senhor”.

20Depois fechou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele.

21Então começou a dizer-lhes: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”.
Palavra da Salvação.

Comentário

A Nova Lei, Lei de Liberdade

Há leis e leis. Há leis que nos encanta cumprir e há leis que nos encanta que cumpram os outros. Porém todos sabemos ao final que as leis e normas são importantes, que sem elas a sociedade não funciona. Os países mais desenvolvidos e humanamente mais solidários são aqueles onde a lei é para todos e todos acatam e cumprem a lei. E, o mais importante, a lei faz-se com a participação e aprovação de todos. Porém, quando não é assim, faz falta alguém que ponha ordem no caos. Estamos vendo o caos que se gerou no Haiti onde o terremoto tem destruído o pouco que tinha de lei e ordem nesse país.

Na primeira leitura deste domingo, vemos o povo de Israel que se alegra ao escutar a proclamação da lei. Na volta do exílio na Babilônia, o povo sente que precisa de uma verdadeira organização. Há de ser uma sociedade onde as pessoas possam viver em paz, onde estejam fixadas as relações das pessoas com Deus, das pessoas entre si e com a terra na qual vivem. Todas essas funções cumpria aquela lei que Esdras lia ante o povo reunido. A lei unia-lhes e ajudava-lhes a viver em paz, a se proteger de seus vizinhos, a compartilhar os bens. A situação merecia uma boa celebração. Termina o caos e começa a ordem e a paz. Com ela vem a prosperidade e uma vida melhor para todos.

As primeiras palavras de Jesus

Porém,  repito, há leis e leis. No Evangelho, Jesus no começo de sua vida pública, em sua primeira pregação, tal como aparece no Evangelho de Lucas, proclama uma nova lei. É uma lei que traz a liberdade aos oprimidos, que anuncia aos cativos a liberdade e aos cegos a visão. Diz de si mesmo que tem o Espírito do Senhor e que veio para anunciar o ano da graça do Senhor.

Evidentemente, esta é uma lei diferente. Os mais entendidos diriam que com ela não se pode construir uma sociedade, que a pôr em prática leva diretamente ao caos, à desordem, à anarquia. Não se pode dar aos cativos a liberdade porque não estão suficientemente preparados para usá-la corretamente. Não se pode devolver aos cegos a vista porque não saberiam que veriam e não entenderiam. Não se pode dar liberdade aos oprimidos porque o mesmo se sentiriam com o direito de aproveitar de nossa propriedade privada.

A lei de Jesus não é uma lei que funcione para valer. Qualquer jurista diria que Jesus não passou de um sonhador. Bonitas idéias, muita poesia, algo de romantismo, mas nada com base suficiente para construir uma sociedade que realmente funcione. Por tanto, o mais sensato é deixar de lado suas ideias e organizar uma estrutura, regulada pela lei e peos costumes, onde fique claro quem são os que estão acima e os que estão abaixo, os direitos daqueles e os deveres destes. A do Evangelho pode ficar bem para uma meditação em um dia de retiro. Mas não há que pretender ir alem disso. É inútil. É um caminho sem saída. Devemos ser práticos e realistas.

Dar vida o sonho de Jesus

O mau do Evangelho – e de Jesus – é que, uma vez que o conhecemos, não há forma de nos tirar da frente dele. Seu sonho segue aí e algo – talvez seu Espírito – nos diz por dentro que é o único caminho como nós, a humanidade, poderemos encontrar nosso verdadeiro e autêntico espírito. Que na fraternidade, sentimos e saberemos que somos verdadeiros irmãos e irmãs, filhos e filhas do mesmo Pai, é uma realidade mais real que todas nossas ideologias.

Na segunda leitura Paulo não faz mais que dizer o mesmo, porém, com outras palavras. O que é a comunidade cristã senão esse corpo de fraternidade onde todos compartilham a vida se sentem unidos no amor e têm a Cristo como centro e fonte de vida?

Ao terminar de ler a leitura do profeta Isaías, Jesus deixou de um lado o rolo do livro e pronunciou a mais breve homilia da história, e a mais importante: “Hoje se cumpre esta Escritura que acabais de ouvir”. Não há mais que falar. Devemos  sair para a rua e comunicar a todos que Deus nos ama, que nos presenteia a liberdade e que este, aqui e agora, é o ano da graça do Senhor para todos.

(em espanhol)

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