08/01/2010 - Batismo do Senhor
Fonte: José Cristo Rey García Paredes


Batismo do Senhor
Abriram-se os céus e fez-se ouvir a voz do Pai:
Eis meu Filho muito amado; escutai-o, todos vós!

10 de janeiro de 2010
Introdução

A liturgia de hoje tem como cenário de fundo o projeto salvador de Deus. No batismo de Jesus nas margens do Jordão, revela-se o Filho amado de Deus, que veio ao mundo enviado pelo Pai, com a missão de salvar e libertar os homens. Cumprindo o projeto do Pai, Jesus fez-se um de nós, partilhou a nossa fragilidade e humanidade, libertou-nos do egoísmo e do pecado, empenhou-se em promover-nos para que pudéssemos chegar à vida plena.

A primeira leitura anuncia um misterioso "Servo", escolhido por Deus e enviado aos homens para instaurar um mundo de justiça e de paz sem fim... Animado pelo Espírito de Deus, ele concretizará essa missão com humildade e simplicidade, sem recorrer ao poder, à imposição, à prepotência, pois esses esquemas não são os de Deus.

A segunda leitura reafirma que Jesus é o Filho amado que o Pai enviou ao mundo para concretizar um projeto de salvação; por isso, ele "passou pelo mundo fazendo o bem" e libertando todos os que eram oprimidos. É este o testemunho que os discípulos devem dar, para que a salvação que Deus oferece chegue a todos os povos da terra.

No Evangelho, aparece-nos a concretização da promessa profética veiculada pela primeira leitura: Jesus é o Filho/"Servo" enviado pelo Pai, sobre quem repousa o Espírito, e cuja missão é realizar a libertação dos homens. Obedecendo ao Pai, ele tornou-se pessoa, identificou-se com as fragilidades dos homens, caminhou ao lado deles, a fim de os promover e de os levar à reconciliação com Deus, à vida em plenitude.

Leituras
Primeira Leitura - Livro de Isaías (Is 42,1-4.6-7)
Assim fala o Senhor: 1“Eis o meu servo - eu o recebo; eis o meu eleito - nele se compraz minh’alma; pus meu espírito sobre ele, ele promoverá o julgamento das nações. 2Ele não clama nem levanta a voz, nem se faz ouvir pelas ruas. 3Não quebra uma cana rachada nem apaga um pavio que ainda fumega; mas promoverá o julgamento para obter a verdade. 4Não esmorecerá nem se deixará abater, enquanto não estabelecer a justiça na terra; os países distantes esperam seus ensinamentos. 6Eu, o Senhor, te chamei para a justiça e te tomei pela mão; eu te formei e te constituí como o centro de aliança do povo, luz das nações, 7para abrires os olhos dos cegos, tirar os cativos da prisão, livrar do cárcere os que vivem nas trevas”.
Palavra do Senhor.
Salmo Responsorial (28)
Que o Senhor abençoe, com a paz, o seu povo!
Filhos de Deus, tributai ao Senhor,
tributai-lhe glória e poder!
Dai-lhe a glória devida ao seu nome;
adorai-o com santo ornamento!

Que o Senhor abençoe, com a paz, o seu povo!


Eis a voz do Senhor sobre as águas,
sua voz sobre as águas imensas!
Eis a voz do Senhor com poder!
Eis a voz do Senhor majestosa!

Que o Senhor abençoe, com a paz, o seu povo!


Sua voz no trovão reboando!
No seu templo os fiéis bradam: “Glória!”
É o Senhor que domina os dilúvios,
o Senhor reinará para sempre!

Que o Senhor abençoe, com a paz, o seu povo!
Segunda Leitura - Leitura dos Atos dos Apóstolos (At 10,34-38)

Naqueles dias, 34Pedro tomou a palavra e disse: “De fato, estou compreendendo que Deus não faz distinção entre as pessoas. 35Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença. 36Deus enviou sua palavra aos israelitas e lhes anunciou a Boa-Nova da paz, por meio de Jesus Cristo, que é o Senhor de todos. 37Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judéia, a começar pela Galiléia, depois do batismo pregado por João: 38como Jesus de Nazaré foi ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder. Ele andou por toda a parte, fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo demônio; porque Deus estava com ele.
Palavra do Senhor.

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo, segundo Lucas (Lc 3,15-16.21-22)

Naquele tempo, 15o povo estava na expectativa e todos se perguntavam no seu íntimo se João não seria o Messias. 16Por isso, João declarou a todos: “Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu. Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias. Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo”. 21Quando todo o povo estava sendo batizado, Jesus também recebeu o batismo. E, enquanto rezava, o céu se abriu 22e o Espírito Santo desceu sobre Jesus em forma visível, como pomba. E do céu veio uma voz: “Tu és o meu Filho amado, em ti ponho o meu bem-querer”.
Palavra da Salvação.

Comentário

Consagrou nossa "condição humana”

Passamos quase de repente da infância de Jesus para a idade adulta. Ontem celebramos a Epifania e um dia depois nos encontramos com a liturgia que nos apresenta o batizado de Jesus no Jordão, quando tinha trinta anos. Algo semelhante nos ocorre no símbolo da fé, o Credo. Apenas confessamos que “por obra do Espírito Santo se encarnou de Maria e se fez homem”, em seguida dizemos: “e por nossa causa foi crucificado no tempo de Pôncio Pilatos, foi sepultado e subiu ao céu”. Da a impressão, tanto em um como no outro, que há pressa, que não desfrutamos a humanidade de Jesus, com os fatos que aconteceram em sua vida.

A vida "normal" de Jesus não deveria ficar longe de nossa atenção. O Filho de Deus se fez “um de tantos”. Viveu a infância como um menino do povo de Nazaré. Viveu com toda a probabilidade não a vida familiar de filho único, mais compartilhando sua infância com seus primos e primas (irmãos e irmãs) e tendo com eles laços de familiaridade e amizade.

Aos doze anos entra no mundo dos adultos. O evangelho de Lucas nos narra o que aconteceu, embora utilizando um relato simbólico no qual aparece o símbolo de "os três dias", "o templo" e o "pai". Emerge na história de Jesus uma intenção séria da emancipação de seus pais e de entrega consciente ao magistério dos doutores do templo. Deles recebe ensinamentos importantes para sua vida como varão judeu. Para a reclamação de sua mãe, Jesus responde: Na sabias...? Confronta seus pais com sua ignorância. Não há, por parte dele, o menor pedido de desculpas. Jesus parece muito consciente de sua identidade. Quando Maria lhe disse: “teu pai e eu...”, ele responde: “devia estar nas coisas de meu Pai”.

Este gesto de emancipação e de maior idade não bloqueia a relação de Jesus com Maria e José. Jesus começa a ficar de uma maneira misteriosa "nas coisas do pai”, isto é, de Jose. A partir deste momento aprende um ofício, acompanha seu pai em seu trabalho; José se torna grande iniciador na aventura de ser varão, de ser um trabalhador que ganha seu sustento.

Nossa legítima curiosidade para saber mais sobre a vida de Jesus não fica satisfeita por falta de informação verídica. Não sabemos o que ocorreu com relação ao costume judeu de que os pais escolhiam o conjugue para seu filho. Havia alguma intenção dos pais de Jesus, Maria e José, para casar seu filho? Como ele reagiu? Como reagiram seus pais e familiares ante o estranho celibato de Jesus? É muito provável que nesse tempo morrera José. Foi certamente para Maria e Jesus uma grande perda. Como reagiram? Como assumiu Jesus a atenção de sua mãe viúva?

Sabemos certamente que um dia, quando Jesus tinha uns trinta anos abandonou sua mãe, e com outros lideres religiosos, se foi e busca de algum sinal de Deus para a sua vida.

Não encontrou este sinal no templo de Jerusalém, no sistema religioso de Israel, mais em um movimento contestatório que tinha João Batista com líder e que partia do deserto terrivelmente árido da Judéia.

João Batista exerceu uma atração estranha em Jesus. Jesus foi procurá-lo nas margens do Jordão. Escutou sua mensagem da volta da Aliança com Deus e de mudança de conduta. João foi capaz de discernir o mistério. Resistiu em batizar Jesus, por reconhecer desde o principio sua superioridade. Porém Jesus insistiu que o fizesse.

Enquanto Jesus era batizado, João recebeu um iluminação, “viu” como o Espírito descia sobre Ele  e possava N’Ele e “escutou” como Deus o chamava “o filho de suas indulgências”. João descobriu então que sua missão era “manifestar” quem era Jesus ante Israel. E isso se sucedeu a partir desse momento.

João apresentou Jesus ante seus discípulos como “o cordeiro de Deus que carrega com o pecado do mundo”. Que interessante perspectiva! Ele que batizava “para perdão dos pecados”, reconhece que aquele a quem batizou carregava sobre si  o pecado do mundo. Por isso, devemos dizer que o batismo de Jesus foi o batismo do mundo. O Espírito Santo desceu para purificar o mundo inteiro, a humanidade inteira, do pecado. O Abbá reconheceu em Jesus toda a humanidade como “filho amada”, na qual tem suas indulgências.

A normalidade da vida de Jesus durante seus trinta anos é como uma imersão na “condição humana”, como uma assunção progressiva do pecado do mundo, para oferecê-la a Deus nas águas do Jordão e receber a benção e unção do Espírito Santo.

O batismo de Jesus não foi um fato isolado de sua vida anterior. Foi sua culminação! Foi uma unção que foi consagradando toda a vida laical de Jesus desde esse momento até o momento de seu nascimento... e todo o laical do mundo. Ele carregou com toda a responsabilidade como “cordeiro imolado”.

Quando somos batizados somos integrados no único batismo de Jesus, que foi batizado por todos nos. Nosso batismo não é distinto, não é outro. É o mesmo batismo de Jesus, porém estendido, que chega a todos os seres humanos. Aqueles que compartilham o batismo de Jesus compartilham sua unção pelo Espírito Santo e sua filiação divina. Quando nos unimos a Jesus, nossa condição humana é consagrada,ungida.

Reconheçamos a dignidade de todas as mulheres e varões batizados! Reconheçamos a dignidade de Jesus nela e neles!

Como bem expressou Lutero com palavras semelhantes a estas: “Vejo Jesus carregado com meus pecados; vejo-me a mim mesmo, revestido de sua graça”. Por isso, hoje podemos dizer de cada batizado: “Eis aqui o filho de Deus, que carrega toda a Graça do mundo”. Que troca admirável!

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